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Máigan
JWaríes,
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ARTES SCIENTIA VERITAt
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OS MÚSICOS PORTUGUEZES
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MÚSICOS PORTUGUEZES
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JOAQUIM' DE VASCONCELLOS
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GoSTBX.
VOLUME n
PORTO
DfPBENSA POBTUGÚEZA
1870
Music
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Kol eommencement ii*tet grand ni beaii
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immeiue méríte à commencer?
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Fim, Biografou UnmrHÍllt des ifimcicvM.
Yol. u, p«g. 140. ^
\
os
MÚSICOS PORTUGUEZES
N
N. N. — Com estas iniciaes indica Baibi (a) um compositor
que escreveu a musica para o drama: O Juramento dos Numes,
que foi representado no dia da inauguração do Theatro de S. JoSo
(Opera) do Rio de Janeiro, a 15 de Outubro de 1815. dBoniK>m-
positeur, rempli d^dées originales:» : eis o juizo de Balbi.
(a) Ewai stcUiêL, vol. u, pag. ocrn.
V
NATIVIDADE (Fr. Francisco da) — Escreveu a seguinte obra:
Novena da Senhora Sant'Anna, r^^m o seu officio. Lisboa,
por Manoel José Lopes Teixeira, 1708, in-12.®
Sahiu sem o nome do author*
NATIVIDADE (João da)— Natural de Torres. Monge francis-
cano em 1675 e fallecido em Lisboa em 1709. Deixou em ma-
nuscripto varias composições no estylo religioso, que eram entSo
estimadas, apesar do seu author ser apenas um curioso.
NATIVIDADE (Fr. Miguel da)— Natural de Óbidos; (Estre-
madura) professou a ordem cisterciense em Alcobaça, onde entrou
a 8 de Setembro de 1658.
8 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Foi Mestre de Capella d'este convento durante 6 annos, e
ocoupou o cargo de Cantor-Mór ahi mesmo.
Deixou:
28 PsalmoB das Vésperas cistercienses, compostos em diver-
sos tons 6 em numero ternário muior; eram muito estimados no
mosteiro d'Âlcobaçâ, onde existiam.
WLZARETH (P.* Joio de) — Natural da yilla da Pederneira,
(Alemtejo) e filho de João Fernandes e Cecilia Rodrigues. Favore-
cido pela fortuna e dotado pela natureza com uma bella figura,
entregou-se de alma e corpo, aos prazeres mundanos, escandali-
sando o publico com as suas façanhas. Um sonho bastou para ope-
rar uma mudança completa no espirito do nosso D. Juan en her-
he; tomou repentinamente ordens no convento de Santo Elias de
Lisboa, e teve o mau gosto de fiagellar o corpo, que tantas vezes
tinha flagellado a virtude.
Foi eleito Reitor do convento de Villar e reedificou a soa
egreja. (a) Dirigiu o seu convento durante 14 annos e morreu a
27 de Fevereiro de 1478.
Compôz:
1.) Offieio e Hymnos de S. Gregório nuzgno, S, Jeronymo,
Santo António e S. Clemente, Martyres, 8. Nicolau Bispo e ou-
tros santos.
2.) Offieio de Nossa Senhora, chamado: da Vigilia, que
todos os sabbados se cantava nas casas da CongregaçSo, como diz
o P.* Francisco de Santa-Maria. (b)
(a) Barb. Machado, BíbL Lua., vol. vn, pag. 708, faz entrar o céu na
construcção I
(b) Chraniea dos Cónegos seculares do Evangelista, Livro 3.% Cap. ti,
pag. 6d.
NEGRiO (Henrique da Silva) — Escriptor theorico e Orga*
nista da Basílica de Santa Maria. Viveu na segunda metade do
século xvm e foi contemporâneo de Esteves e Mazza.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 9
Apesar das nossas diligencias, nSo podemos alcançar noti-
cias das obras d'estes três theoricos, que suppomos terem ficado
exa manuscripto, pois ainda as n^ ouvimos citar a ninguém.
Na obra de Solano (a), vem uma apreoiaçSo critica doesta
compositor acerca do mérito da Nova instmcçSo muiieal,
NegrSo abunda em elogios para com o seu autbor, que elle
denomina : o fundador da Eioola portugueza de canto.
%
(a) Nova tnatrucção mueical, Carta sexta; data de 18 de Fevereiro de
1763.
NERI (Felipe) — Pianista de talento, que alguns até antepSem
a Torriani. Compôz umas Fantasias e Themas variados para o
seu instrumento. Cultivava a musica como amador e occupava
em 1821 o posto de capitXo, no exercito de Moçambique. Tinha
nascido em Lisboa,
NOGUEIRA (D. Ticeiite) — Natural de Lisboa^ onde nasceu
em 1586. Foi filho do Dr. Francisco Nogueira, cavalleiro da or-
dem de S. Thiago, desembargador da Casa da SupplicaçSo e con-
selheiro doestado.
As relaçSes poderosas de seu pae, obtiveram-lhe quando con-
tava apenas 12 annos o fôro demoço-fidalgo (moço-servente). De-
pois de completar os estudos pfailosophioos a que se tinha dedi-
cado, foi nomeado senador da Casa da SupplicaçSlo, tomando pos-
se d'este logar a 13 de Março de 1613. Exercitou também o car-
go de Cónego da Catfaedral de Lisboa.
A fortuna que o tinha favorecido na pátria, acompanhou-o
mesmo no estrangeiro.
Felipe IV, nomeou-o senhor de Rios-Frios e conselheiro de
estado; o principe Leopoldo, archiduque d' Áustria, fel-o camaris-
ta da chave dourada, (porteiro-mór) que era uma das distincçSes
mais cubicadas na o$rte austriaca (!)
Esteve também ao serviço do imperador da AU^nanha e do
papa, dos quaes recebeu também varias distincçSes.
10 os MÚSICOS PORTUGUEZBS
Morreu em 1654 em Roma, no palácio do seu amigo, o car-
deal Francesco Barberino, Vice-Chanceller da egreja romana.
Ádmira-nos^como este homem dotado de ama intelligencia
rara, andava á caça de disítincçSes, quasi sempre concedidas pela
idiotice em premio de mna immoralidade!
Nogueira conhecia as línguas latina, grega, caldaica, sy-
riaca, arábiga, franceza e castelhana, e possuia além de grande
instigibçSo na Mathematica e Historia, muitos conhecimentos mu-
sicaes; nSo sabemos se deixou composiçSes, que se alguma vez
existiram, ficaram em manuscripto e estarSo hoje provavelmente
perdidas,
HnNES (. • .) — Bon violoncelle à Lisbonne. (Balbi.)
HUNES (António Joaquim) — Um dos nossos bons composi-
tores de Modinhas; residia no Porto, na primeira metade doeste
século; foi também bom cantor.
Será talvez o mesmo que o antecedente?
Conhecemos doeste author as seguintes composiçSes que pos-
suimos em Ms. O N.^ 2, parece-nos até ser autographo.
1.) Speranza lusinghiera; cavatina dei Sig.' Fucitta, arran-
jada para piano.
2.) Improviso «Temo bem nSo acredites.»
Citamos pela sua ingenuidade o segundo verso :
— Não, d*amar ningaem se exúne
Ama o tronco, a rocha, a flor;
DSo vida a todo o Universo
Os doces mimos d'amor ! etc.
3.) Duas Modinhas.
4.) Hymno Constittuiional. Cantou-se no Porto, no Theatro
de S. Joio, em Julho de 1826. Letra de J. N. Gandra.
os MÚSICOS PORTDGUEZES 11
Fez egaalmenté a musica para uma Canção ou Cantata pa-
triótica que Be ezecatoa nos festejos, que os habitantes da rua-tie
Santo António fizeram na occasiSo em^ue che^u ao Porto a no-
ticia do Juramento da ConstituiçSo, (6 de Julho de 1826).
Ouvimos íallar, e com louvor, em Operetas-Comieas doeste
artista; infelizmente nSo as conhecemos.
o
OLIVEIRA (António) — Monge franciscano. Exerceu a sua
actividade artistica no principio do século xvii, como Mestre do
Coro da egreja de S. Julião, em Lisboa. Visitou Roma em edade
já avançada e ahi morreu, pouco tempo depois da sua chegada.
Tinha nascido em Lisboa.
As suas composiçSes conservavam-se em grande parte na
Bibliotheca musical de £1-Rei ; constavam de Misios, PsaJmoB,
Moteteê e Vilhancicos.
OUVEIRA (Joaquim de) — Notável cantor português que per-
correu a Itália, cantando nos principaes theatros da peninsula
onde foi recebido com applauso.
A sua actividade artistica, resume-se entre 1750 e 1770.
ORiO (. • .) — Sabemos só que foi segundo Mestre de Capella
na Cathedral de Lisboa, e professor de contraponto de Marcos
Portugal ; é este o ^eu principal titulo ao nosso reconhecimoito.
OSÓRIO (Jeronymo) — Bispo de Silves (Algarve.) Nasceu em
em 1506, e morreu em Tavira, a 20 de Agosto de 1580.
12 OS MÚSICOS PORTUaUEZBS
Em tuna das obras doeste prelado intitulada : De SegU {nsti-
tvHanêê, st disciplina, lihr: octo. Cofonia, 1568, in-S.^, encontra-se
no fim do (Quarto fivro, paç. 122-125, um capitulo que trata: D0
Musica liherális disciplina; Musica regihus maxime necessária.
Caniu adflectendnm animam niKil efficacius.
9^
P
PÁDUA (Fr. João de) — Monge no Convento de S. Francisco
de Lisboa, onde foi Vigário do Côro. Viveu na primeira metade
do século xvn (1681) e publicou um:
Manuais Chori, seeundwn usum Fratrum Minorum et mania-
lium S* Ciares, nunc ãenum correctum et in multis auctium,jvata
Missais et Breviarium Romanum Pij V. Pont. Max. et Ciem,
YUI autoritats recognitum. Lisboa, 1626, in-4.^ de zu-50d pag.
PAIVA (...) — Violinista distincto ; &liecea no Porto pelos
annos de 1818. Nada mais sabemos doeste artista, queBalbi qua-
lifica de: excMent.
PAIVA (António de) — Compositor de musica em Lisboa,
onde viveu no século xvi. Nada mais sabemos d'este musico.
Talvez seja o mesmo artista que Raczynski (a) designa com
Q titulo de : peintre de la caur.
É verdade que este, falleceu em 1650, meado do século xvu,
quando a nossa noticia coUoca a actividade d'aqueUe, um ^eeuto
antes ; pôde ser que haja erro na primeira data.
j(a) Diciionnaire kistarieo^artisUfue du Portugal, Paris. 18á7, pag. 217«
os MÚSICOS PORTUGUEZES 18
PAIVA (Joio José de) — Compositor portugaez. Escreveu a
musica para um Baile, que se representou no theatro de S. Joio,
no principio d'este século intitulado : 2>. João de Castro em Dor
bid. O assumpto é tirado do livro de «lacintho Freire de Andra-
de (a) com algumas alteraçSes, que o compositor do Bailado, Pie^
tro Maria Petrelli, julgou conveniente introduzir. Esta Dança
foi executada a 4 de Fevereiro de 1810.
Os artistas que n'ella figuraram eram quasi todos poi^igue-
xes^ excepto Petrelli, primeiro bailarino absoluto e Carlota Li«
sini.
Os Personagens eram desempenhados pelos seguintes ar-
tistas:
D. JoSo de Castro — Francisco António Ferreira.
D. Diogo de Almeida — P. Maria Petrelli.
D. Leonor — Maria Rita de Mesquita.
Cala BatecSo — José Corrêa de Mesquita.
Zelinda— G« C. Lisini.
Zanguebar^
Catul s Nobres indianos.
Badur )
Tálve2 que este compositor seja o mesmo que o violinista
Paiva, visto a coincidência do nome e da data. Esta suppòsiçSo,
nSo é mais que uma hypothese, visto nSo termos dados positivos
ft este respeito.
A acçSo, tal, qual ella apparece desenvolvida no libretto -qUe
examinamos, concedia a composiçSo de uma musica enérgica e
dramática, no estylo descriptivo.
NSo sabemos até que ponto o compositor se utilisou doestes
recursos, porque nada conhecemos da musica do Bailado.
As disposiçSes scenicas do 1.® Acto, indicam uma tempesta-
de que surprehende o navio de D. Diogo de Almeida. Devia ser
um trecho de musica descriptiva.
No 2.^ Acto, ha uma Marcha guerreira indiana, que prece-
de ò CÀsAm^uto de Cala e dè Zelinda. (b)
14 OS MÚSICOS PORTUQUEZES
Os noivos assistem em seguida a um bailado. As outras si*
tsaçSes do Acto, prestam-se a uma musica toda dramática e vehe-
mente, v'
O 3.^ Acto, offerece uma invocação religiosa cantada pela
tripulaçSo dos navios de guerra que D. Joio de Castro conduz á
índia, (c)
A Scena do cárcere (4.^ Acto), nSo cede em vigor dramático
a pakfca á situação do final do 2.^ Acto, talvez pelo contrario lhe
seja superior. Entretanto a acção n^elle, não é muita; no ultimo
(5.®) nota-se o mesmo defeito; termina com um côro geral e uma
dança no fim.
Vida de D. João de Castro.
Coincidência notável com o 4.* Acto da Africana^ de Meyerbeer.
^c) Outra coincidência, Acto 3.*, Choeur dos Matelots : O ffrand Saint
Domtniqat.
PAIVA (D. Heliodoro de) — Homem de talento, dotado de uma
aptidão extraordinária para as Sciencias e para as Artes. Além
de Musico, foi um dos nossos bons pintores (a) e desenhava ex-
cellentemente. (b) Pertenceu á ordem dos Cónegos regrantes de
Santa-Cruz onde tinha estudado, e viveu no xvi século, parte em
Coimbra (1500), parte em Lisboa, que o Bispo-Conde (c) diz ser
a sua pátria. Machado (d) é da mesma opinião.
Foi filho de Bartholomeu de Paiva, guarda-roupa de El-Bei
D. João in e vedor das obras do reino, e de Felippa de Abreu.
Fallava o Grego, Latim, Hebraico, e tocava Órgão, Babeca e
Harpa, cantando egualmente bem, a ponto de selr classificado pe-
los mais celebres professores de musica: o Obfeo d^aquelle século !
Os seus conhecimentos na sciencia musical, eram sólidos e foi
principalmente hábil no contraponto.
Esta apreciação que transcrevemos de Machado, é confirma-
da por D. Nicol. de Santa Maria, (e) cEra cantor e musico mui
destro e contrapontista; tangia órgão e craviorgão com notá-
vel arte e graça; tangia também viola d'arco e tocava harpa.»
os MÚSICOS PORTUGUEZES 15
Pôde ser que haja exagero n^estas apreciaçltes ; em todo o
casoy é inegaTely que Paiva foi mn artista de moitissimo mefilo
e que excedia em amptidSes artisticas a maior parte dos seus
collegas contemporâneos, em cujo nmnero se contavam (limitan-
do-nos a Portugal) muitos compositores e artistas de mérito dis*
tincto.
Egualmente apreciável como artista e como homem, Paiva
unia aos seus vastos conhecimentos litterarios e artistiooi^ uma
modéstia pouco vulgar em homens d'esta qualidade.
Regeitou por differentes vezes os oferecimentos generosos de
D. JoSo in, seu colaço, (f) e que outros com mais ambiçSo; teriam
de certo aceitado com jubilo; um bispado, nSo era cousa que se
desprezasse, sobretudo n^aquclla época tenebrosa, em que um pre-
lado era um pequeno déspota na sua diocese; em logar de cor*>
deiro — umlobo.
Morreu em Coimbra, a 20 de Dezembro de 1552. Resta-nos
rectificar um erro commettido por Manoel do Cenáculo (g); o ver-
dadeiro nome de Paiva, é Heliodoro e nSo Hilário, como o Arce-
bispo de Évora indica em uma das suas obras.
As suas numerosas composiçSes existiam em Ms. no mos-
teiro da sua ordem, em Coimbra e eram :
1.) Varias Missas.
2.) CoUecção de Motetes a varias votes, para varias festi-
vidades; eram: mui suaves, (h)
3.) Varias Magnificais a canto de Orgão^
(a) Comte de BaczTnski : Dictionnairt hittorico-artiêtique du Portu*
gál, pag. 217.
(b) Taborda, Regroê da Arte da Pintura, pag. 155. B. de Castro,
JfajnKi de Portugal, pag. 362.
Bibl. Luêit. Yol. u, pag. 432, 433.
fc) Lista, pag. 37.
d) Bibl. Lutit, Vo
(e) Chr<mica dos Cónegos rearantes, Vol, n, pag. 329.
(f ^ A mae de Paiva, tinha Bido ama doeste personagem.
(g) Mem/orias históricas do ministério do púlpito. Lisboa, 1776, § quar-
to, pag. 134 e 135.
(b) Chronica dos Ccneg. regr: Yol. n, pag. 329.
16 OS MÚSICOS P0RTUGUEZE8
PAEdLO (José Joaquim de Oliveira) — Primeira violetta no
theatro do Funchal, onde residia no principio doeste século; as
suas composiçSetr sacras : Missas^ Matinas e um Requiem, ca-
recem de inspiração (P. de Vaxel); parece que escreveu também
alguns trechos para o seu instrumento. Deve Já ter feillecido ha
bastantes annos.
PALHA (Fr. Affonso de) — Nasceu em Portugal; onde estu-
dou a musica; residiu durante a maior parte da sua vida em
Córdova, onde morreu em 1450 ; as suas composições sacras eram
numerosas e bastante distinctas pela elegância do seu estylo.
PALOMINO (José) — Musico que viveu em Portugal no fim
do século passado. Instrumentista da Camará de S. M. F. a Rai-
nha D. Maria i.
Descobrimos este musico em uma DissertaçSo de Solano, (a)
^ já por vezes mencionada. N^ella encontramos dois Sonetos d'este
artista; um dedicado á Musica, naoccasiSo em que Solano recita-
va o discurso mencionado, outro feito para o mesmo dia, em hon-
ra da Puríssima Conceição de NQssa Senhora.
Julgamos satisfazer a curiosidade do leitor, transcreven-
do-os do impresso do theorico portuguez.
A MUSICA
Tu bella irmã da doce Poezia,
Que as duras magoas em prazer trocando,
Os tristes corações arrebatando,
Suffocas n'alma a muda hvpicoDdria :
Tu, que a sonora magica harmonia
Nas sombrias cavernas espalhando
PlutftOf e as negras Fúrias abrandando
Euridice trouxeste á lu2 do dia :
os MÚSICOS PORTUGUEZES 17
Tu, que a bravos Leões domaste a sanha,
Ouve os louvores de que és so dina,
Jamais te seja a minha Musa cstraiiha :
Raivc-se embora a inveja viperina,
Em quanto os cora^<!les de ^sto banha
O alegre som da Musica Divina.
f
H
II
Á puríssima conceição de nossa senhora
Tu, que por lei dos immortaes destinos
Geraste o grande Deus, que a egrcja adora
Tu, que és das virgens Virginal senhora,
Ouve no Céo cantar teus gratos Hymnos.
Se das altas virtudes pouco dinos
Sao os louvores, que eu decanto agora
Ao som da branda Musica sonora.
Suba teu Nome aos Astros Crystallinos.
Bespeita o Mundo os teus merecimentos ;
Solano, anime o teu louvor, em quanto
A Musica suave enfrca os ventos :
Froteje, quem proteje esta Arte tanto ;
E as doces Vozes, doces Instrumentos
Sirviio só de louvar teu Nome Santo.
(a) Dissertação sobre o Caracter, Quaíidxides e Antiguidades da Mu-
sica, pág. 25 c 26.
PAREDES (Pedro Sanches de) — Beneficiado e Organista da
egrcja de Óbidos. Viveu na primeira metiide do século xvii e
morreu na capital, em 1635. Foi egualmente instruído nas Le-
tras e nas Artes; deixou-nos:
1 .) Lamentações para a Semana Santa, a differentes vozes*
2.) Vilhancitos para a Festa do Natal; estas obras existiam
em manuscripto na egrcja d'Obidos, quando Machado escrevia a
Bibliotheca Lusitana.
18 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
PAULINO (João) — Bom violoncello da Opera (S. Carlos)
pelos annos de 1822; suppomos ter fallecido.
D. PEDRO I — Oitavo rei de Portugal; nasceu em 1320,
começou a reinar em 1357, e morreu em 1367. Ao seu nome
anda ligada a sentidissima tradiçllo dos amores de Ignez de
Castro,'* e algumas outras lendas terriveis, provas da impassibili-
dade ua sua justiça.
A tradição litteraria também o considera como um trovador
da eschola provençal portugueza, no período jogralesco, e até
ha pouco ainda se lhe attribuiam três poesias que andam no
Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. (a)El-ReiD. Pedro
comprehendeu perfeitamente o espirito do poder monarchico^
e foi um dos que mais restringiu a prepotência dos fidalgos e do
alto clero portuguez; o seu instincto de justiçai, tomava-o commu-
nicavel com o povo, e assim talvez sem o conhecer, infundiu-lhe
a consciência da sua força, como mais tarde se mostrou na exis-
tência do Braço popular j na acclamaçSio de D. João l.
Ao contrario de todos os monarchas da Europa, que, leva-
dos pelo cultismo provençal, despresavam a poesiapopular, El-Rei
D. Pedro, tomava parte nas festas publicas, fazia- se acompanhar
dos pobres jograes, e alegrava-se com as suas danças e cantile-
nas. Epor isso, que o povo dizia d'clle: que ou nunca devera ter
nascido, ou nunca devera morrer.
Nâo querendo que o espirito publico se effiminas^e com as
musicas requebradas das cançSes provençaes, prohibiu todos os
instrumentos, que nâo fossem a trompa ou a corneta; seguia a
mesma intençJio das Leia de Partidas, que prohibiam aos caval-
leiros, o darem ouvidos aos cantos que não versassem sobre fei-
tos de armas, (b)
O seu talento artístico reflecte-se em seu filho El-Rei D. João i,
que amava a musica, e que chegou a escrever : Psalmos certos pa-
ra filiados, dos quaes fala o Leal CoTiselheiro. Aqui extractamos
alguns factos que nos 'mostram o sabor artistico dos divertimen-
tos de D. Pedro i.
f
os MÚSICOS PORTUGIIEZES 19
«Outras cousas assinaladamente achamos pela mayor parte,
cm que ElRey D. Pedro de Portugal gastava seu tempo^ v. g.
em fazer justiça, e desembargou do*Reyno. em monte^ e caça, de
que era muy inclinado, e danças, e festas, segundo aquelle tem-
po, em que tomava grande sabor, que a duro he agora para ser
crido. Estas danças erão a som de buas trombetas, que então usa-
va5, naS curando de outro instrumento, posto que ahi «o houves-
se, (c) Sc alguma vez lho queriaS tanger, logo se enfadava delle,
e dizia, que o dessem ao demo, e que lhe chamassem os trombetei-
ros. Ora deixemos os jogos, e festas, que ElRey ordenava por
seu desen£sidamento, nas quaes de dia, e de noite andava dança-
do, por muy grade espaço ; mas vede se era bem saboroso jogo,
vinha ElRey em bateis de Almada para Lisboa, e sahia8-no a
receber os Cidadãos, e todos os Misteres, com danças, e trebe-
Ihos, segundo estonse usavaS, e elle sahia dos bateis, e metia-se
na dança com cUes; e assim hia atè o Paço.
E reparay se foy bom desenfado, e graça: jazia ElRey em
Lisboa huma noite na cama, e porque naõ lhe vinha sono para
dormir, fez levantar os moços, quantos dormia3 no Paço, e man-
dou chamar João Matheus, e Lourenço Paulos, que trouxessem
as trombetas de prata, e fez acender tochas, e meteo-se pela
Villa em dança, com outros; as gentes, que dormiaS sahirao às
j ancilas a ver que festa era aquella, ou porque se fazia; e quan-
do virão daquèlla maneira a ElRey tomarão prazer de o ver as-
sim alegre, e andou ElRey assim graS parte da noite, e tornou-se
ao Paço cm dança, e pedio vinho, e frutas, e lançou-se a dormir.
Na5 curando mais de falar em taes jogos; ordenou ElRey
de fazer Conde, e armar Cavalleyro a João Affonso Tello, irmão
de Martim Affonso Telio, e fez-lhe a mayor honra em sua festa
que até aquelle tempo fora vista, que Rey algum fizesse a seme-
lhante pessoa. Porque ElRey mandou lavrar seiscentas arrobas
de cera, de que fizerao cinco mil círios, e quando o Conde hou-
ve de velar as suas armas no Mosteiro de S. Domingos dessa Ci-
dade, ordenou ElRey que desde aquelle Mosteiro até os seus Pa-
ços, que he assaz grande espaço, estivessem quedos outros tantos
20 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
mil homens, todos, e cada hum com seu cirio na maõ acezo, que
dara^ todos muitos grandes lumes, e ElRey com muitos Fidalgos,
e Cavalleyros andava por entre elles dançando, e tomando sabor;
e assim despendera? graS parte da noite, e ao outro dia, estavaS
grandes tendas armadas no Rocio a cerca daquelle Mosteiro em
que havia grandes montes de paS cozido, e assaz tinas de vinho,
e logo prestes copos porque bebessem, e fora estavaS ao fogo va-
cas inteií^s em espetos a assar, e quantos comer queriaS daquella
vianda, tiqha5-na muito prestes, e a nenhum era vedada; e assim
estiveras sempre, era quanto durou a festa, na qual foraS arma-
dos outros Cavalleyros, cujos nomes na3 curamos dizer.» (d)
Esta citaçRo, dá-nos algumas ideias para a Historia dos cos-
tumes da corte de D. Pedro i e ao mesmo tempo indica-nos a
maneira, como o povo participava das festas da corte, regalan-
do-se em comezainas estupendas, onde matava a fome por alguns
dias.
fa) Cancioneiro geral^ folh. 72, odicçao de 1516.
b) Part n, tit xxi, lei 20 e 21.
[c) Vide a lei que prohibia o uso de todos os instrumentos, que nâo
fossem ou trombettas ou trompas.
(á) Chronica de ElRey D. Pedro J, segundo Fernão Lopes, pelo P.*
J. P. liayam. Lisboa, 1760, pag. 76, 77 e 78.
D.PEDRO IV. (António José d'AIcantara) — Como já por ve-
zes fizemos no decurso doeste livro, deixamos á historia o trabalho
de apreciar os erros e os acertos politicos d'este príncipe, para nos
occuparmos imparcialmente da parte da sua biographia que en-
tra na natureza d'e8ta obra. A historia já o julgou, a Arte nâo.
De novo aqui repetimos, que nao vendamos os olhos á cri-
tica, que nao nos guiamos por um patriotismo mal entendido e
que forceja por nSo vêr os defeitos dos artistas nacionaes, para
pelo outro lado examinar as suas qualidades atravez de um mi-
croscópio; seguimos o caminho que a sa raz^to nos aponta, espi-
nhoso sim, mas o único certo e que conduz á Verdade.
Nasceu em Lisboa em 1798, a 19 de Outubro. A sua educa-
ção foi desprezada, o que devemos agradecer ao snr. D. João vi,
os MÚSICOS POBTUGUEZES 21
e principalmente á snr.* D. Carlota Joaquina, de saudosa me-
morta! Se o príncipe se desenvolveu depois, foi isso devido á sua
excellente organisaçSo e firme vontade. Foi'no Brai^il, para onde
tinha partido em Novembro de 1807 com seus pães, fugindo
covardemente diante das águias gloriosas de Napoleão — que re-
cebeu as primeiras lições de composição de Neukomm (a) e apren-
deu a tocar alguns instrumentos, (Fagotte, flauta, sabeca. . .)
quasi sem auxilio de mestres.
Durante a sua estada em Paris, escreveu uma Opera em
portuguez, cuja Ouverture foi tocada no Théâtre-Italien, em No-
vembro de 1832. Também compoz vários trechos de musica reli-
giosa, uma Symphonia a grande orchestra e o Hymno da Consti-
tuiçSo, gravado em Dresden (Frise) e em Hamburgo (Boohme).
O antigo Conservatório africano (b) do Rio de Janeiro, de-
veu-lbe mui valiosa protecção durante a sua estada no Brazíl.
Morreu a 24 de Septembro de 1834.
(a) 1778-1858. Celebre organista e compositor notável. Foi Mestre da
Capella de D. Pedro iv, no Rio de Janeiro, durante quatro annos, logar que
era generosamente retribuído. Foi discípulo de Michael Haydn e depois
de seu illustre irmSo : Joseph Haydn.
(b) Vide a Biographia de Josó Maurício Nunes Garcia.
PEDRO (João)— Publicou uma:
Arte de viola franceza^ em 1839.
PEDROSO (Manoel de Moraes) — Natural de Miranda e au-
thor de um livro de thcoria musical com o nome de :
Compendio musico ou Arte abbreviada em que se contem as
regras mais necessárias da Cantoria, Acompanhamento e Contra-
ponto, Porto, na OíBcina do capitSo Manoel Pedroso Coimbra —
1751 in-4A ^^ 47 pag.
O livro é offerecido á mais harmoniosa cantora do Ceu:'illA^
ria Santíssima, com o soberano ti tido da: Assumpção.
A parte relativa á Cantoria, conta 12 pag.; a do Acompa-
nJianiento, outras tantas; a do Contraponto segue até 45. índice^
no fim.
22 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Esta ediçlo é preferível á de 1 769, (segunda) pela nitidez da
impfesBão, que ó em caracteres vermelhos e pretos ; pelo menos
assim o vimo'B em um exemplar que está em poder do professor
C. Dubíni no Porfb, que teve a amabilidade de nol-o mostrar.
A impressão de 1769, é feita nSo só em typo preto, mas também
mais imperfeito e em papel mais ordinário. Também nSo encon-
tramos nos exemplares d'c8ta ultima ediçSo a declaraçJIo impres-
sa do Privilegio, que D. José concedeu ao author durante 10
annos, e que vem no fim da ediçílo de 1751.
Temos noticia de uma segunda edição, feita egualmonte no
Porto, na ôfficina de António Alvares Ribeiro Guimarães. Anuo
de 1769; e á sua custa impressa.
PEGADO (Beato ou Bento Nunes) — Viveu no principio do
aeculo XVII, e foi um dos melhores discípulos de António Pinhei-
ro e depolsj seu rival (a). Dirigiu a Capella da Cathedral de
Évora.
A Bibliotheca de Lisboa, possuia as seguintes obras d'eBte
anthor, em manuscripto :
1.) Parce Domine a 7 vozes; motete para a Quaresma.
2.) Heimihi Domine a 6 voze»; responeorios de I^efuntoa.
3.) Hi sunf gui cum imdieribuê non suní coinquinati; mo-
tete dot Santos Innocentee.
il) Ad te ampiramue; motete para a fetía de Noata Se-
fíJtora.
(a) Bibl. iMtit. Vol. I, pag. 507.
PENA (Peixota da) — Natural de Traz-os-Montes e o rnait
famoso e perito instrumentista que se conheceu no seu século.
A responsabilidade d'e8ta asserção, cabe a Macedo (a). Baptista
de Castro (b) reproduziu-a, e é do seu livro que a transcrevemos.
Cedemos a palavra ao nosso collega do século passado; perdoe o
leitor; o estylo de Castro nSo é dos melhores, mas: Variatio ãe-
lectat. Ahi vae pois a historia:
os MÚSICOS POBTUGUEZES 23
«Achando-se em Castella e no Paço do Imperador Carlos v,
se admirou elle (Pena) que os Músicos temperassem os seus ins-
trumentos : elles zombando, Ihs deram uma viola destemperada,
para que tangesse: pegou n'ella Peixoto, c de tal maneira regu-
lou a positura variável dos dedos, que soube produzir consonan-
cias e suspender docemente os ouvintes. »
Por esta narraçEo se conhece a antiguidade dos tours ãe force
entre os nossos artistas. Em todo o caso a difficuldade er^ séria.
Pena devia ter um ouvido perfeito ; além d'isso devemos ter em
conta a doce stispensão dos ouvintes, que também deve valer al-
guma cousa, visto o auditório ter sido composto de artistas que
deviam saber distinguir o bom do mau.
Em uma folha volante, que por um acaso nos veiu á mão
6 que nem mesmo suspeitamos a que livro possa pertencer, en-
contramos uma referencia curiosa á anedocta histórica que acima
transcrevemos.
Eil-a:
cLá rompe um estrepitoso baile ao som das castanhetas fa-
voritas e d'uma viola tocada por um franciscano quasi tilo afama-
do tangedor n'este paiz, como na corte do imperador Carlos V, o
Peixoto da Pena. etc.:^
(a) Macedo. Eva t Ave, pari, i, C. 23, nom. 8.
(b) Mappa de Portugal, vol. ii, pag. 352.
IpENITENCIA (Fr. António da) — Nasceu em Lisboa em 1605
h professou o instituto franciscano no convento de Vianna do
Álemtejo, a 28 de Novembro de 1622.
Foi bom cantor e Vigário do Coro, no mosteiro de Arraiolos,
(Évora) ondp morreu a 14 de Dezembro de 1648.
Deixou :
Variai Obras de Musica; que nSo conhecemos.
PEREIRA (P.* António) — Compositor de musica sacra. Nas-
ceu em 1725 em Lisboa; as suas obras perderam-se com a mi-
na da Bibliotheca de D. João iv.
24 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
I
Eram :
1.) Diversas missas, a4 e8 vozes.
2.) Magnijicat, a 8 vozes, etc.
PEREIRA (Domingos Nunes) — Natural de Lisboa, onde nas-
ceu no meado do século xvn. Foram seus pães, Diogo Ribeiro e
Brígida da Costa. Esteve por muitos annos á testa da Cathedral
de Lisboa, tendo primeiro exercitado o mesmo cargo na Miseri-
córdia d^essa cidade. Poucos annos antes da sua morte, retirou-se
para uma propriedade que possuia no logar de Camarate, perto
de Lisboa e ahi morreu a 29 de Março de 1729. Foi sepultado
na Capella-Mór da Ermida de S. Pedro, á entrada do logar de
Camarate.
Fétís, (a) dá-o como pertencendo á ordem de S. Domingos e
fallecido no convento da sua ordem em Camarate ; não é exacta
esta affirmaçSLo, pois que o mosteiro de Nossa Senhora do Soccor-
ro, que é aquelle, de que o musicographo belga falia, nilo perten-
cia a ordem dominicana, mas sim á dos carmelitas calçados.
Machado (b) chama-o simplesmente : preshytero.
As suas composições eram entre outras :
1 .) Responsorios da Semana Santa, a 8 vozes. *
2.) Idem dos Officios de Defuntos, a 8 vozes.
3.) Lições de Defuntos, a 4 vozes.
4.) Confitebor, a 8 vozes.
5.) Laudate puerí Dominum, a 8 vozes.
6.) Laudate Dominum omnes gentes, a 4 vozes.
7.) Vilhancicos e Motetes, a 4, 6 e 8 vozes.
fa) Biogr. Univ., vol. vi, pag. 482.
^^b) BibL LitsiL, vol. i, pag. 714. .
PEREIRA (Marcos Soares) (a) — IrmSo do celebre João Lou-
renço Rebello. Nasceu do casamento de João Soares Pereira e
D. Domingas Lourenço Rebello, filha de GouçaIo Rebello da Ro-
cha e D. Marianna do Vallc. Presbytero e Mestre da Capella du-
cal de Villa- Viçosa; nasceu em Caminha no fim do século xvi.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 25
D. Jo5o IV chamou-o depois a Lisboa e entregou-Hie a di-
recção da sua capella. Ahi moiTeu a 7 de Janeiro de 1655.
Deixou em manuscripto muitas Missas, Psalmos, Motetes e
Responsoinos, que existiam na Bibliotheca real antes do terre-
moto.
As principaes eram :
1.) Missa a 12 vozes.
2.) Psalmos de Vésperas, a 12 vozes, %
3.) Psalmos de Completai, a 8 vozes.
4.) Psalmo terceiro da Sexta feira, a 8 vozes.
5.) Motetes:
Um a 4 vozes.
Dois a 5 vozes.
Dois a 12 vozes.
6.) Dois Responsorios da Festa da Conceição, a 8 vozes.
7.) Invitatorio de Defuntos, a4 e 8 vozes.
8.) Idem, a 8 e 16 vozes.
9.) ^^ Deum Laudamus, a 12 vozes.
10.) Calenda de S. Clara, a 8 vozes.
11.) Calenda de S. Francisco, a 8 vozes.
12.) Calenda de S. João Baptista, a 8 vozes.
13.) La bellà Madrina: Si a ser Madrina vos Jtiana, ete.
Tono, (b) vem nas Obra^ métricas de D. Francisco de Mello,
Avena de Terpsichore. Tono xxi.'
14.) Haviendo llegado dos Damas a su Porteria para subir a
Palácio, se Judiava dormido el portero a quien llamaron en va-
no;y por celebrar esta accion, seescrvio este Tono. Buelen nucs-
tras sefioras etc. Tono xxii, ibid.
15.) Jacarilha de devacion el lafiesta de S. Francisco : Quien
es aquel de lo pardo etc. Tono xxv, ibid.
O estylo de ]\[arcos Pereira, assemelhava-se muito ao de seu
irmaO; que elle tinha escolhido para modelo.
(a) Fétis. Biogr. Univ.f vol. i, pag. 483, diz Salvador; parecc-mc ser
engano, assim como o facto do seu nascimento em Yilla- Viçosa.
(b^ A respeito doeste género de composição, veja-se a biographia de
Fr. Feupc da Madre de Deus e de D. Francisco Manoel de Mello.
26 OS MÚSICOS PORTUGUEZES ^ *
PEREIRA (Thomaz) — Nasceu em S. Martinho do Valle, con-
celho de Barcellosy em 1645; sendo filho de Domingos da Costa e
Francisca Antónia.
Pertenceu á Companhia de Jesus, cuja roupeta yestiu a 23
de Septcmbro de 1663 e foi missionário na China, para onde tinha
partido da índia, em 1680, segundo uns, e segundo outros, em
1692 (a) com um padre do mesmo nome: Thomaz Pereira, (b) Ca-
ptivoí^ahi a estima do imperador, que soube sempre conservar até
á Sua morte, occorrida em 1692 em Pekin.
Gcrber, diz que alguns escriptores suppoem, ter sido a Mu-
sica e o talento de Pereira n'esta Arte, a causa da grande influen-
cia que este artista exercia sobre o animo do imperador.
Diz ainda o author allemão, que este jesuita fazia um papel
muito importante na corte do celeste império desde 1680 até
1692 . Em uma carta ao imperador, gabou-se Thomaz Pereira de
elle e seus collegas, terem trabalhado já ha 20 annos na con-
fecção de varias obras scientifícas, entre outras em uma sobre a
Musica. Também attribuem a este escriptor a factura do grande
OrgSio que existia então no CoUegio dos Jesuitas em Pekin.
O Christianismo deve a Pereira um serviço importantissimo,
pois foi elle quem negociou o tratado pelo qual se permittiu a ce-
lebração do rito catholico em todo o império chinez.
Escreveu e publicou (c) na lingua Sinica (d) um Methodo de
musica practica e especulativa, dividido em 4 partes, que o impe-
rador mandou traduzir em tártaro; suppomos esta obra perdida,
porque nunca ouvimos fallar d'ella. E a eterna infelicidade da sor-
te, que persegue as nossas cousas artisticas !
A ser verdade o que dizem Forkel e Gerber, parece que dei-
xara composições escriptas em lingua chineza : Ging nach Indien
vo er Vieles in chinesicher Sprache componirt hat.
Não posso sequer imaginar, d'onde Forkel tirou esta notícia;
cita Machado, porém o author portuguez nada diz a este respeito.
Gerber (e) affirma também este facto curioso, dizendo: Ausser
vielen Gesãngen, welche er in chinesischer Spra4ihe in Musik
gesetzt hat, hat er auch in Mst, hinterlassen: Musica etc.
• os MÚSICOS PORTUGUEZES 27
D'esta citaçSO; opnclue-se que as composiçSes eram cân-
ticos ou hymnos sagrados, (Ge^ânge) talvez para uso dos pro-
selytos. Temos os dois escriptores allemães por demasiadamente
conscienciosos e verdadeiros; para suppGr que esta noticia fosse só
uma mera invenção.
(a) Fétis. Biogr. Univ,y vol. vi, ^a^ç. 483 e Gerber, Hist. biogr. Lex.
vol. II, pag. 103, indicam: 1680; a data 1692, qac é menos provaveT-, ba-
Bcia-se Forkel, Allgtm, Literat. 408, e em Machado, BiòL Luait, vol. iii,
pag. 746.
[b) Machado, Bibl, Lusit., vol. iii, pag. 746.
íc) Machado, ibid., dá este tratado como manuscripto.
[d) O Bispo-Conde, Lista, pag. 49, diz que estava escripto em chincã,
(e) N. húft. biogr, Lex. Vol. ui, pag. 674.
PEREZ (David) — Â respeito d'este artista, vide a Nota s.
da biographia de D. José. Como a sua importância está concen-
trada na Historia da Opera italiana, reservamos para então uma
noticia mais extensa.
PIMENTEL (Pedro) — Excellente organista ; morreu em 1599
c deixou uma CoUecção de composições paraorgSlo, intitulada:
Livro de Cifra de varias obras para se tangerem no Órgão.
Machado (a) julga que fora impresso.
(a) Btbl. Lusit.j vol. iii, pag. 610.
PINNA (António de) — Poeta e compositor. Ignoramos as suas
circumstancias pessoaes. Compôz e imprimiu :
Vilhancicos; primeira e segunda parte; in-S,^
Gerber (a) suppSe ter sido, não só o author da musica, mas
também da lettra.
(a) Neues hist, biogr, Lexicon der TonkUnstler, vol. m, pag. 716.
PINNA (Hanoel de) — Artista que pertenceu á Capella Real
de Lisboa; no começo do século xvii. Publicou:
28 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Vilhancicos y Romances a la natividad de Jesu-Christo y
oiros Santos.
PINEDO (Thómaz de) Lusitanas — Author theorico. No seu
Commentario Auctorum, dedicado a Stefano de Urbibus Amstel.
Edit., 1678, foL, eneontram-se excellentes dissertações sobi^e a
Musica Mathematica e a Arithn\fitica Analógica.
PINHEIRO (António) — Foi um dos mais distinctos composi-
tores portuguezes no estylo sacro; Mestre da Capella ducal de Villa-
Víçoáa e depois da Cathedral de Évora.
Nasceu em Montemór-o-Novo (Alemtejo) e foi disciptdo do
celebre Francisco Guerreiro, com quem seg-undo Machado che-
gou a rivalisar.
Formou excellentes artistas (a) e morreu com um nome in-
vejável, a 19 de Julho de 1617. Deixou entre muitas composi-
ções notáveis, a seguinte, que é também a única que vem citada
na Bibliotheca Lusitana. Intitula-se :
Cântico da Magnificai, a differentes vozes, foi. gr. Esta obra,
uma das mais notáveis de Pinheiro, desappareceu com a destrui-
ção da Bibliotheca preciosa de D. João iv.
Tantos annos de trabalho, ammllados em alguns minutos !
(a) Vide as tabeliãs synopticas das diffcrentCB escholas portuguczas.
PINHEIRO (João) — Bom compositor. Nasceu em Thomar,
onde foi religioso professo da Ordem de Christo ; morreu duran-
te a primeira metade do século xvii. Na Bibliotheca Real da
Musica, encontravam-sc algumas composições de Pinheiro; outras,
existiam no mosteiro de Thomar. Citamos as de que podemos ob-
ter noticia exacta :
1.) Ave regina coslorum, a 12 vozes. Estante 36, N.** 815.
2.) Affiictio mea, a 6 vozes. Estante 36, N.** 810.
3.) Domine sinefurare tuo, a 6 vozes. Estante 36, N.** 809^
os MÚSICOS PORTUGUEZES 29
PINHO (António de) — Natural de Abrantes (Extremadura).
Foi admittido primeiramente como Menino do Coro, subindo de-
pois ao gi'au de cantor. Posto que dotado de bastantes talentos
musicaes, as disposiç5es naturaos d*este artista, inclinavam-se
mais para a poesia do qxie para a musica.
PINHO (Hanoel de) — Compositor e musico da CapelIa^Rcal
de Lisboa, sua pátria. Escreveu:
1.)' Vilhancicos y Somances a la Natividade dei Niiio Jesus,
nuestra Senora y vários Santos, 1.* Parte, Lisboa, por Pedro
Craesbeck, 1615, in-8.^
2.) Vilhancicos y Romances etc; 2.* Parte. Ibi, pelo mesmo
impressor, 1618. Dedicados á snr.* D. Antónia Pereira, filha do
dr. Luiz Pereira.
PINTO (...) — Violinista c director da orclicstra do thcatro
da Rua dos Condes, cm 1820.
PINTO (F.) — Nada sabemos das suas circumstancias pes-
soacs.
Conhecemos este artista apenas pela seguinte composição
para piano. Ignoramos, se será por ventura algum dos músicos
seguintes :
1.) Fantasia for two Perfomiers on one Piano-Forte, com-
posed and dedicated to his particular Friend J. P. Menezes
Esq.' London. Printed for tlie Author by L. Lavenu.
PINTO (Francisco António do Nascimento) — Compositor de
musica sacra (Missas) á Casimiro, posto que um pouco superior
a este. Foi organista em Lisboa, e morreu era 1861.
PINTO (Francisco de Paula da Rocha) — Natural do Porto;
nasceu em fins do século xviii, e morreu no meado do nosso sécu-
lo. Foi um dos maiores amadores que a Musica tem encontrado
em Portugal; os seus dois irmãos, que foram cónegos da Sé do
30 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Porto, distinguiram-se também pelo seu gosto artístico. Franscisco
Je Paula, tocava piano por mera curiosidade, mas admirava to-
dos os que o ouviam, pela originalidade de suas composições, que
eram todas improvisadas. A sua celebridade em Portugal, durou
de 1818 a 1823. Foi amigo intimo de João José Fernandes
de Carvalho (a) e era este professor de piano, que escrevia os im-
provisos d'aquelle bello talento. Francisco de Paula era rico, e
talvSs^ a est& circumstancia deveu o não ter dado cultura ao seu
talento musical; esteve em Inglaterra aonde casou antes de 1832,
« lá se fez admirar como um grande improvisador.
Transcrevemos mais alguma cousa a respeito d'este amador-
artista^ que Balbi (a) aíHrma ter sido uni verdadeiro phenomeno
de talento musical, O escriptor italiano diz :
cSans avoir jamais étudié la musique, guidé par son scul
génie et les excellents maítres qu' il a eu occasion d'entendre, il
est parvenu à executer avec autant d^expression que d'exactitude
des morceaux de la plus grande difficulté, composés par d^autres
maítres.
Personne n'a jamais su mieux que lui faire, comme on dit,
chanter le piano: ce qui est três rare même parmi les artistes les
plus distingues. Nous n'avons pas été peu surpris de voir des
morceaux de sa composition imprimes à Londres, que d'autres
musiciens avaient notes, et dans lesquels il a su reunir la plus
brillante imagination et le goôt le plus exquis à Fobservation de
toutes les régies; ses Sonatas entre autres, ont beaucoup de mérite. >
Se Balbi não exagerou o mérito de Rocha Pinto, devemos
confessar, que foi o phenomeno que elle diz; e então, não se-
ria fácil suppOr até aonde este amador teria chegado, se vivesse
n outro meio artistico, se tivesse tido uma boa educação musical,
que desenvolvesse o talento extraordinaífio com que a natureza o
tinha dotado ; que teria sido Pinto, se em logar de nascer n^este
paiz, onde a Arte vive tão tristemente, tivesse apparecido na
França ou na AUemanha, onde a Arte é uma religião santa e
o artista, o seu sacerdote, que vive querido e respeitado pelo rico
e pelo pobre?
os MÚSICOS PORTUGUEZES 31
Se ao menos ainda houvesse noticia de algumas das compo-
sições de que Baibi falia; porque é que o escripto&não as ennu-
merou ?
Que desleixo, que incúria !
Quem sabe, se elle o tivesse feito, até onde se revelaria o
plagiato de muito author estéril e impotente, que hoje está go-
zando de uma reputaçlto íicticia á custa do talento do nosso com-
patriota! 4
Depois de traçarmos estas linhas, facilitou-nos o acaso o
exame de algumas composições d'este bello artista. E verdade,
que são apenas umas pobres migalhas; comtudo, n'ellas se mani-
festa a força de um talento pouco vulgar:
1.) Waha, Ms.
2.) Sonatina, Ms. Doesta composição existem duas copias
separadas do Rondo final.
3.) Waha, Ms. composta para os annos de sua mulher. E in-
teiramente desconhecida, porque Francisco de Paula, nunca deu
copia d'ella a ninguém ; a que actualmente existe, foi escripta de
memoria.
4.) Tkemaj Ms. de Rocha Pinto, variado por JoSo José Fer-
nandes de Carvalho.
5.) Mais três Valsas y em Ms.
Entre estas composições, distinguem-se principalmente as
suíts Valsas; n^ellas se revela um grande sentimento artistico
que varia incessantemente as suas inflecçoes; embalam-se em
uma doce rcverie; as ideias tem originalidade e distincção; a
arte, que nílo falta de modo algum n*estas pequenas, mas formo-
sas produeçoes, está occulta artisticamente debaixo de uma sim-
plicidade elegante.
As suas ideias melódicas, fazem-nos lembrar as inspiraçSes
vaporosas de Weber, no Oberon. ..*... o: Elfenreígen! . ......'
Es schaukeln die Wellen . . •
32 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
(a) Vide a sua biog:raphia.
(b) Essai õtatistique, vol. ii, pag. ocxx e ccxii.
PnrrO (Francisco António Norberto dos Santos) —Nasceu
em Lisboa em 1815 e falleceu cm 1860.
A sua educação esteve entregue a varies mestres ; de canto :
Theotonío José Rodrigues, de rabeca: José Maria Christiano, de
trompa: Faustino José Garcia e em harmonia: Manoel Joaquim
Botelho.
O instrumento da sua predilecção : a Cometa de Chaves,
aprendeu-a a tocar (cousa singular) sem mestre!
Norberto dos Santos Pinto foi Membro do Conservatório real
de Lisboa, Professor da aula d*instrumentos de metal, Musico da
real Camará e 1.** Corneta de chaves na orchestra de S. Carlos.
As suas composições assaz numerosas, sSo infelizmente mui-
to desiguaes; nos seus Bailados e Operetas, revela bastante mé-
rito, nas suas STpnphonias (suppostas; Fantasias orchestradas)
porém, é muito fraco.
As suas composições sacras tem melhor reputação.
Entre as numerosas danças executadas em S. Carlos, ci-
tamos:
1.) A Adoração do SoL
2,) A Corda de Adriano.
3.) Erkojf.
4.) O Lago das Fadas,
5.) O AnneL
6.) Os Ctiscos e os Quitos.
7.) Narciso d fonte,
8.) Telcmaco na Ilha de Calypso.
9.) A Queda de Ipsaia.
10.) As Modistas (cómico,)
11.) Emett.
12.) Pahiyra ou a Nyrnpha do Orbe.
13.) Os Estudantes em Ferias,
14.) Branca-jlôr,
os MÚSICOS PORTUGUEZES ^
15.) O Órfão da AUêa.
16.) Alcindor,
17.) Zaide,
18.) Os dos Oemeos,
19.) Os Cyganos,
20.) Nabuco (1 acto só).
No theatro de D. Maria^ dançaram-se os seguintes bailados
com musica sua:
21.) O Bolero.
22.) Hymeneo de Tkétis e Cloé.
23.) O Alcaide de Faro.
24.) O Templo de Salomão.
25.) O Conde de S. Helena.
26.) O Tributo das 100 donzdlas.
27.) O Estrangeirado.
28 .) O Mineiro de Caseais.
29.) O Propheta.
£m outros Theatros, representaram-se ainda os seguintes:
30.) A Degolação dos Innocentes.
31.) Rainha e Aventureira.
32.) A Familia do Avarento. ,
33.) O Alfageme de Santarém.
34.) O Ultimo dia de um arraial de Saloios.
35.) Baile de Creados.
36.) As três cidras d* amor.
37.) A Fada do Fritz.
38.) Diabo a quatro.
39.) Os Amores de um fidalgo.
40.) As Raridades.
41.) il Odaliska.
42.) O que convém para a fortuna das mulheres, Burletta.
43.) A Casa mj/steriosa. Opera cómica.
44.) O Theatro e os seus mistérios, Burletta.
45.) O Dr. Sovina, idem.
3
32 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
(a) Vide a sua biographia.
(b) Essai atcUistique, vol. ii, pag. ccxi e ccxii.
PINTO (Francisco António Norberto dos Santos) —-Nasceu
em Lisboa em 1815 e falleceu em 1860.
A sua educação esteve entregue a varies mestres ; de canto :
Theotonio José Rodrigues, de rabeca: José Maria Christiano, de
trompa: Faustino José Garcia e em harmonia: Manoel Joaquim
Botelho.
O instrumento da sua predilecção: a Corneta de Chaves,
ftprendeu-a a tocar (cousa singular) sem mestre!
Norberto dos Santos Pinto foi Membro do Conservatório real
de Lisboa, Professor da aula d'instrumentos de metal, Musico da
real Camará e 1.° Cometa de chaves na orchestra de S. Carlos.
As suas composições assaz numerosas, sRo infelizmente mui-
to desiguaes; nos seus Bailados e Operetas, revela bastante mé-
rito, nas suas Syn^phonias (suppostas; Fantasias orchestradas)
porém, é muito fraco.
As suas composições sacras tem melhor reputação.
Entre as numerosas danças executadas em S. Carlos, ci-
tamos:
1.) ^ Adoração do Sol.
2.) A Coroa de Adriano.
3.) Erkoff.
4.) O Lago das Fadas.
5.) O Annel.
6.) Os Cuscos e os Quitos.
7.) Narciso á fonte.
8.) Telcmaco na Ilha de Calypso.
9.) A Queda de Ipsaia.
10.) As Modistas (cómico.)
11.) Emett.
12.) Palmyra ou a Nympha do Orle.
13.) Os Estudantes em Ferias.
14.) Branca-fiôr.
os MÚSICOS POETUGUEZES 83
15.) O Órfão da Aldêa.
16.) Alcindor.
17.) Zaide.
18.) Os dos Gémeos,
19.) Os Cyganos.
20.) Nalmco (1 acto só).
No theatro de D. Maria^ dançaram-se os seguintes bailados
com musica sua:
21.) O Bolero.
22.) Hymeneo de Tkétis e Cloé.
23.) O Alcaide de Faro.
24.) O Templo de Salomão.
25.) O Conde de S. Helena.
26.) O Tributo das 100 donzellas.
27.) O Estrangeirado.
28 .) O Mineiro de Cascai.
29.) O Propheta.
Em outros Theatros, representaram-se ainda os seguintes;
30.) A Degolação dos Innocentes.
31.) Rainha e Aventureira.
32.) A Família do Avarento. ,
33.) O Alfageme de Santarém.
34.) O Ultimo dia de um arraial de Saloios.
35.) Baile de Creados.
36.) As três cidras d'amor.
37.) A Fada do Fritz.
38.) Diabo a quatro.
39.) Os Amores de um fidalgo.
40.) As Raridades.
41.) A Odaliska.
42.) O que convém para a fortuna das mulheres^ Burletta.
43.) A Casa mysteriosa, Opera cómica.
44.) O Theatro e os seus mysterios, Burletta.
45.) O Dr. Sovina, idem.
3
32 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
(a) Vide a sua biographia.
(b) Esaai statistiqye, vol. ii, pag. ccxi e ccxn.
PINTO (Francisco António Norberto dos Santos) — Nasceu
em Lisboa em 1815 e falleceu cm 1860.
A sua educação esteve entregue a vários mestres ; de canto :
Theotonio José Rodrigues, de rabeca: José Maria Christiano, de
trompa: Faustino José Garcia e em harmonia: Manoel Joaquim
Botelho.
O instrumento da sua predilecção: a Cometa de Chaves,
aprendeu-a a tocar (cousa singular) sem mestre!
Norberto dos Santos Pinto foi Membro do Conservatório real
de Lisboa, Professor da aulad'instrumentos de metal, Musico da
real Camará e 1.** Corneta de chaves na orchestra de S. Carlos.
Âs suas composições assaz numerosas, são infelizmente mui-
to desiguaes ; nos seus Bailados e Operetas, revela bastante mé-
rito, nas suas Symphonias (suppostas; Fantasias orchestradas)
porém, é muito fraco.
As suas composições sacras tem melhor reputação.
Entre as numerosas danças executadas em S. Carlos, ci-
tamos:
1.) ^ Adoração do Sol,
2.) A Coroa de Adriano.
3.) ErJcoff.
4.) O Lago das Fadas,
5.) O AnneL
6.) Os Cuscos e os Quitos,
7.) Narciso á fonte,
8.) Telcmaco na Ilha de Calypso,
9.) A Queda de Ipsaia,
10.) As Modistas (cómico.)
11.) Emett.
12.) Palmyra ou a Nyrnpha do Orle,
13.) Os Estudantes em Ferias.
14.) Branca-Jlôr,
os MÚSICOS PORTUGUEZES ^
15.) O Órfão da Âldèa.
16.) AUindor.
17.) Zaide.
18.) Os dos Oemeos.
19.) Os Cyganos.
20.) Naimco (1 acto só).
No theatro de D. Maria^ dançaram-se os seguintes bailados
com musica sua:
21.) O Bolero.
22.) Hymeneo de Tkétis e Cloé.
23.) O Alcaide de Faro.
24.) O Templo de Salomão.
25.) O Conde de S. Helena.
26.) O Tributo das 100 donzellas.
27.) O Estrangeirado.
28 .) O Mineiro de Cascaes.
29.) O Propheta.
Em outros TheatroS; representaram-se ainda os seguintes:
30.) A Degolação dos Innocentes.
31.) Rainha e Aventureira.
32.) A Familia do Avarento.
33.) O Alfageme de Santarém.
34.) O Ultimo dia de um arraial de Saloios.
35.) Baile de Creados.
36.) As três cidras d' amor.
37.) A Fada do Fritz.
38.) Diabo a quatro.
39.) Os Amores de um fidalgo.
40.) As Raridades.
41.) il Odaliska.
42.) O que convém para a fortuna das mulheres, Burletta.
43.) A Casa mysteriosa. Opera cómica.
44.) O Theatro e os seus mysterios, Burletta.
45.) O Dr, Sovina, idem.
3
32 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
(a) Vide a sua biographia.
(b) Easai statistique, vol. ii, pag. ocxi e cx;xii.
PINTO (Francisco António Norberto dos Santos) — Nasceu
em Lisboa cm 1815 e falleceu cm 1860.
A sua educação esteve entregue a varies mestres ; de canto :
Theotonio José Rodrigues, de rabeca: José Maria Cbristiano, de
trompa: Faustino José Garcia e em harmonia: Manoel Joaquim
Botelho.
O instrumento da sua predilecçSto : a Cometa de Chaves,
aprendeu-a a tocar (cousa singular) sem mestre!
Norberto dos Santos Pinto foi Membro do Conservatório real
de Lisboa, Professor da aulad'instrumentos de metal, Musico da
real Gamara e 1.® Corneta de chaves na orchestra de S. Carlos.
Âs suas composições assaz numerosas, são infelizmente mui-
to desiguaes; nos seus Bailados e Operetas, revela bastante mé-
rito, nas suas Sipnphonias (suppostas; Fantasias orchestradas)
porém, é muito fraco.
As suas composições sacras tem melhor reputação.
Entre as numerosas danças executadas em S. Carlos, ci-
tamos:
1.) ^ Adoração do Sol,
2.) A Coroa de Adriano.
3.) Erkoff.
4.) O Lago das Fadas,
5.) O Annel,
6.) Os Cttscos e os Quitos,
7.) Narciso á fonte,
8.) Telcmaco na Ilha de Calypso,
9.) A Queda de Ipsaia,
10.) As Modistas (cómico,)
11.) Emett.
12.) Pálmyra ou a Nyinpha do Orhe,
13.) Os Estudantes em Ferias,
14.) Branca-jlôr,
os MÚSICOS PORTUGUEZES 83
15.) O Órfão da Ama.
16.) Alcindor.
17.) Zaide.
18.) Os dos Gémeos.
19.) Os Cyganos,
20.) NaJbuco (1 acto só).
No theatro de D. Maria^ dançaram-se os seguintes bailados
com musica sua:
21.) O Bolero.
22.) Hymeneo de Thêtis e Cloé.
23.) O Alcaide de Faro.
24.) O Templo de Salomão.
25.) O Conde de S. Helena.
26.) O Tributo das 100 donzdlas.
27.) O Estrangeirado.
28.) O Mineiro de Cascais.
29.) O Propheta.
Em outros Theatros, representaram-se ainda os seguintes;
30.) A Degolação dos Innocentes.
31.) Rainha e Aventureira.
32.) A Familia do Avarento. ,
33.) O Alfageme de Santarém.
34.) O Ultimo dia de um arraial de Saloios.
35.) Baile de Creados.
86.) As três cidras d* amor.
37.) A Fada do Fritz.
38.) Diabo a quatro,
39.) Os Amores de um fidalgo.
40.) As Raridades.
41.) il Odaliska.
42.) O que convém para a fortuna das mulheres, Burletta.
43.) A Casa mysteriosa. Opera cómica.
44.) O Theatro e os seus mistérios, Burletta.
45.) O Dr. Sovina, idem.
32 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
(a) Vide a sua biographia.
(b) Essai atatiatique, yol. ii, pag. ccxx e ccxii.
PINTO (Francisco António Norberto dos Santos) — Nasceu
em Lisboa em 1815 e falleceu cm 1860.
A sua cducaçSlo esteve entregue a varies mestres ; de canto :
Theotonio José Rodrigues, de rabeca: José Maria Christiano, de
trompa: Faustino José Garcia e em harmonia: Manoel Joaquim
Botelho.
O instrumento da sua predilecção : a Cometa de Chaves,
aprendeu-a a tocar (cousa singular) sem mestre!
Norberto dos Santos Pinto foi Membro do Conservatório real
de Lisboa, Professor da aulad^instrumentos de metal, Musico da
real Camará e 1.** Conieta de chaves na orchestra de S. Carlos,
Ás suas composições assaz numerosas, são infelizmente mui-
to desiguaes ; nos seus Bailados e Operetas, revela bastante mé-
rito, nas suas Symphonias (suppostas; Fantasias orchestradas)
porém, é muito fraco.
As suas composições sacras tem melhor reputação.
Entre as numerosas danças executadas em S. Carlos, ci-
tamos:
1.) A Adoração do Sol.
2.) A Coroa de Adriano.
3.) Erkoff.
4.) O Lago das Fadas,
5.) O Annel.
6.) Os Cuscos e os Quitos,
7.) Narciso á fonte.
8.) Telcmaco na Rha de Calypso.
9.) il Queda de Ipsaia.
10.) As Modistas (cómico.)
11.) Emett.
12.) Palmyra ou a Nywpha do Orle.
13.) Os Estvdantes em Feriai.
14.) Branca-fiôr.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 83
15.) O Órfão da Âldèa.
16.) ÂUindor.
17.) Zaidô.
18.) Os dos Gémeos.
19.) Os Cyganos.
20.) NaJbuco (1 acto só).
No theatro de D. Maria^ dançaram-se os seguintes bailados
com musica sua:
21.) O Bolero.
22.) Hymeneo de Tkétis e Cloé.
23.) O Alcaide de Faro.
24.) O Templo de Salomão.
25.) O Conde de S. Helena.
26.) O Tributo das 100 donzdlas.
27.) O Estrangeirado.
28.) O Mineiro de Cascares.
29.) O Propheta.
Em outros Theatros, representaram-se ainda os seguintes;
30.) A Degolação dos Innocentes.
31.) Rainha e Aventureira.
32.) A Familia do Avarento. ,
33.) O Alfageme de Santarém.
34.) O Ultimo dia de um arraial de Saloios.
35.) Baile de Creados.
86.) As três cidras d'amor.
37.) A Fada do Fritz.
38.) Diaho a quatro.
39.) Os Amores de um fidalgo.
40.) As Raridades.
41.) A Odaliska.
42.) O que convém para a fortuna das mulheres, Bui*letta.
43.) A Casa mysteriosa, Opera cómica.
44.) O Theatro e os seus mysterios, Burletta.
45.) O Dr, Sovina, idem.
3
32 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
(a) Vide a sua biographia.
(b) Essai atatistique, vol. ii, pag. ccxi e ccxn.
PINTO (Francisco António Norberto dos Santos) —Nasceu
em Lisboa em 1815 e falleceu em 1860.
A sua educação esteve entregue a vários mestres ; de canto :
Theotonio José Rodrigues, de rabeca: José Maria Christiano, de
trompa: Faustino José Garcia e em harmonia: Manoel Joaquim
Botelho.
O instrumento da sua predilecção : a CovTieta de Chaves,
aprendeu-a a tocar (cousa singular) sem mestre!
Norberto dos Santos Pinto foi Membro do Conservatório real
de Lisboa, Professor da aula d'instrumentos de metal, Musico da
real Camará e 1.** Corneta de chaves na orchestra de S. Carlos.
As suas composições assaz numerosas, s^ infelizmente mui-
to clesiguaes ; nos seus Bailados e Operetas, revela bastaiite mé-
rito, nas suas Symphonias (suppostas; Fantasias orchestradas)
porém, é muito fraco.
As suas composições sacras tem melhor reputação.
Entre as numerosas danças executadas em S. Carlos, ci-
tamos:
1.) ^ Adoração do Sol.
2.) A Coroa de Adriano.
3.) Ericoff.
4.) O Lago das Fadas.
5.) O Annel.
6.) Os Cuscos e os Quitos.
7.) Narciso á fonte.
8.) Telemaco na Uha de Calypso.
Q.) A Queda de Ipsaia.
10.) As Modistas (cómico.)
11.) Emctt.
12.) Palmyra ou a Nywpha do Orle.
13.) Os Estudantes em Ferias.
14.) Branca-Jlôr,
os MÚSICOS POBTUGUEZES 23
15.) O Órfão da Aldeã.
16.) Alcindor.
17.) Zaide.
18.) Os dos Oemeos.
19.) Os Cyganos,
20.) Naòuco (1 acto só).
No theatro de D. Maria, dançaram-se os seguintes bailados
com musica sua:
21.) O Bolero.
22.) Hymsneo de Thêtis e Cloé.
23.) O Alcaide de Faro.
24.) O Templo de Salomão.
25.) O Conde de S. Helena.
26.) O Tributo das 100 domdlas.
27.) O Estrangeirado.
28 .) O Mineiro de Cascaes.
29.) O Propheta.
Em outros Theatros, representaram-se ainda os seguintes:
30.) A Degolação dos Innocentes»
31.) Rainha e Aventureira.
32.) A Familia do Avarento. ,
33.) O Alfageme de Santarém.
34.) O Ultimo dia de um arraial de Saloios.
35.) Baile de Creados.
86.) As três cidras d' amor.
37.) A Fada do Fritz.
38.) Diabo a quatro.
39.) Os Amores de um fidalgo.
40.) As Raridades.
41.) ^ Odaliska.
42.) O que convém para a fortuna das mulheres, Burletta.
43.) A Casa mysteríosa, Opera cómica.
44.) O Theatro e os seus mysterios, Burletta.
45.) O Dr. Sovina, idem.
3
34 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
MUSICA SACRA
46.) Quatro Missas, a 4 vozes.
47.) Quatro Missas, a 3 vozes.
48.) Três Collecçoes de Officiospara a Semana Santa.
49.) Diversas Matinas, Misereres, Novenas, Te-Deums, etc.
MUSICA POPULAR
50.) Estreias poetico-musicaes, para o anno de Liii, por An-
tónio Feliciano de Castilho e F. Â. N. dos Santos Pinto. Lisboa^
1853, de xxxi-67 pag. de texto e de 53 pag. de Musica.
As differentes peças que compõe a parte artistica doeste li-
vro, sSo de todo insignificantes; nem sequer uma ideia original,
distincta; é tudo de uma vulgaridade chata, exceptuando talvez
o Hymno dos Lavradores que tem ainda algum movimento.
O resto: Hymno da Caridade, Invocação a Deus, (digna pro-
ducçSo de um Commendador), Graças ao levantar da eschola, em
que a phrase do Curo: <i:Ilaiou luz na escuridão», é roubada es-
candalosamente a nSo sei que Opera italiana, Hymno á distri-
buição dos Prémios, ideia roubada a outra Opera italiana.
Ainda nos falta o Hymno do trahalJio, musica de Moraes Pe-
reira. Diz António Feliciano de Castilho: <£ incrível a rapidez
com que este hymno se propagou na ilha de S. Miguel, até ao fun-
do da classe menos litteraria e menos cantante. Em poucas sema-
nas, depois que se estreou na primeira exposiçUo industrial da
Sociedade dos Amigos das Lettras e Artes, cantavam-n'o os ope-
rários nas officinas, os rústicos na lavoira, os descalços pelas
ruas, as senhoras nas suas casas de lavor e nas suas salas; can-
taVam-n'o os barqueiros e pescadores; cantavam-n'o os soldados;
cantavam-n'o os prezos, todos o cantavam. A belleza da musica,
era a única explicação doeste phenomeno, tinha dado fortuna á
poesia. >
Até que emfím acabou a citação; cremos piamente que o
ieX Hymno do Trabalho, produzisse esse enthusiasmo inaudito;
os MÚSICOS PORTUGUEZES 35
o que devemos lastimar, é que o gosto universal estivesse desvia-
do por tEo mau caminho ; o tal Hymno é ridículo na ideia, na
forma e na expressão, e de uma trivialidade só comparável ás
contradanças e polkas que se ouvem por ahi gaitadas no realejo
ambulante.
Castilho, recommenda o Hymno como afugentador de somno-
lencias; é falta de escrúpulo receitar assim, sem mais nem menos
mn narcótico tSo forte !
O resto da musica é ridicula, para níto dizer outra cousa.
Castilho intitula então F. N. dos Santos Pinto um génio tão
fecundo, como brilhantefíff
Casimiro, compositor imminente??
Oh! critica, que apello perigoso fazem á tua generosidade!
Este livro foi uma tentativa para a introducção da musica
no ensino das escholas primarias ; ideia generosa, bella, profunda
e que havia, sendo bem executada, produzir fecundíssimos resul-
tados.
Pela iniciativa que n^ella tomaram, sSlo António Feliciano
de Castilho e F. N. dos Santos Pinto, dignos de todo o elogio.
A maneira porém, como o segundo se conduziu na sua par-
te, que é a única que aqui temos de apreciar, foi desanimadora
e provou de sobejo a sua incapacidade para semelhante aposto-
lado.
Era bella a missão, de introduzir um certo gosto artístico
no povo portuguez ; fazel-o participar d'esse gozo superior quasi
unicamente reservado para as classes abastadas e levantar-lhe a
alma abatida; mas atarefa era superior ás forças dos iniciado-
res; por isso emmudeccram os apóstolos e perdeu-se a sua dou-
trina, e ainda hoje passamos pela vergonha, de não termos sequer
uma ideia de ensino musical nas nossas escholas primarias.
Norberto dos Santos Pinto, deixou ainda 18 Symphonias,
(Fantasias para orchestra) grande numero de Solos para diffe-
rentes instrumentos, varias Marchas para banda marcial e mui-
tas outras peças de menor importância.
Como acima dissemos, o mérito doestas composições c mui
86 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
diverso; as suas SympJioniaa por exemplo, bSo de uma pobreza
extrema, salvo uma ou outra excepçiio.
No archivo do Theatro Académico em Coimbra, existe um
grande numero d^ellas, intituladas: Oratidão, Reconhecimento,
etc., etc., dedicadas a pequenos e grandes.
A insignificância de taes producçSes, revela-se ainda mais
pela maneira como são intrepretadas e reduzidas á ultima ex-
pressão musical, por uma orchestra, que outr'ora rasoavei e mes-
mo bôa, é hoje apenas a vergonha da Academia.
As composições de N. dos Santos Finto, ressentem-se em
geral, da falta de originalidade nas ideias e de vigor de concepçZo.
Casimiro, o inaugurador da musica verdiana, applicada impia-
mente ao estylo sacro, teve infelizmente bastante influencia sobre
este artista, que, seguindo então o impulso da moda, perdeu gran-
de parte da sua individualidade.
Um outro compositor teve também parte nas suas producçSes ;
foi Verdi.
Não houve influencia musical que mais tyrannicamente di-
rigisse o gosto do publico em Portugal, como aquella que exerce-
ram as operas de Verdi desde o apparecimento do Trovador. Sem
querermos analysar aqui, se foi nociva ou não, tal influencia,
limitar-nos-hemos a dizer, que o nosso compatriota soffreu com
ella. Se teve algum dia poesia na alma, substituiu-a com La
donna é mobile
PINTO (Jorge Frederico) — Este artista e o que segue, fi-
guram n'este livro, como filhos de familia portugueza, comquanto
nascessem ambos em Inglaterra.
Esta ultima circumstancia, que foi meramente filha do acaso,
não tem para nós o valor da primeira, que se refere aos laços do
sangue; por isso não hesitamos agora, nem temos hesitado até
aqui, em proceder d'esta maneira; demais, sempre será bom re-
cordar estes nomes sympathicos, votados sem razão a um silen-
cio ingrato.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 37
Jorge Frederico Pinto^ nasceu em Lambeth a 25 de Septem-
hro de 1S05.
A sua avóy a celebre Miss Brent (a) deveu a sua educação,
que bem dirigida por esta senhora de talento, produziu mais
tarde os melhores frutos.
As tendências musicaes que a creança manifestou, foram
desde logo aproveitadas.
Os seus progressos na rabeca foram tão rápidos, que, ainda
mui novo, já tocava em publico Concertos no seu instrumento.
Apenas chegado aos 8 annos, foi necessário despedir o primeiro
Mestre de rabeca, porque o discipulo já o excedia, e assim foi con-
fiada a direcção do joven artista a Salomon, (b) Director da Opera
de Londres, que vendo as bellas disposiçSes do joven, se prestou
generosamente a ensinal-o, sem retribuição alguma.
As liçSes e os conselhos d'este artista consciencioso, foram
de grande utilidade para J. Pinto que, salvo algumas pequenas
indisposiçSes, filhas do seu génio juvenil, conservou sempre uma
lembrança saudosa e um profundo respeito pelo seu benemérito
professor.
Jorge Pinto, depois de vencer as grandes dificuldades da
rabeca, dedicou-se também ao piano, para ter recursos mais segu-
ros, poder dar mais liçSes e exercitar-se melhor na composição.
A rabeca ficou desthronada por este ultimo instrumento, que ficou
sendo o seu favorito. Em pouco tempo aperfeiçoou-se de tal ma-
neira, que, apenas com 12 annos, foi contratado para tocar Con-
certos de Piano no Theatro de Covent-Garden, e os applausos que
ahi obteve, espalharam pela ínglaterra a fama do seu nome.
Egual enthusiasmo o acompanhou sempre nos Bath-Concerts
e nas reunires musicaes de Oxford^ Cambridge e Winchester.
Em 1820 partiu para Edimburgo como seu professor, e per-
correu em seguida as principaes cidades da Escossia, deixando
em toda a parte muitas saudades do seu talento e das suas bellas
qualidades.
Em seguida a esta excursão artística, passou a França, on-
de foi acolhido com toda a distincção; voltou ainda no anno se-
38 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
guinte (1821) a Paris, recebendo os mesmos calorosos applausos,
e regressou a Inglaterra, acompanhado pela fama e pela fortuna.
Aos 16 annos apresentou a sua primeira composição em que
tinha introduzido a melodia venetianna: Mamma mia (c) e uma
ária franceza, tirada da Opera : Itichard Cceur de Lion.
Este primeiro ensaio teve a felicidade de attrahir a attençSo
de Johann Cramer, (d) que teve sempre uma opinião mui distincta
dos seus talentos artisticos.
Âs outras composições seguiram-se com pequenos interval-
los, sustentando-se o seu author sempre n'uma altura respeitável.
Em 1825, encontramol-o em Birmingham para onde tinha
sahido a fim de dar um concerto. Uma constipação que ahi apa-
nhoU| complicada com uma tosse forte, por ter dormido n^uma ca-
ma húmida, foi o principio da doença que lhe destruiu a saúde.
O pouco cuidado com que tratou este incommodo, produziu
uma expulsão de sangue, todavia atalhada a tempo pela habili-
dade de um medico eminente.
Porém o génio pouco cauteloso de Pinto, não evitou os in-
commodos futuros, até que uma segunda constipação provocou
uma hemorrhagia, e postoque fosse curada a tempo, não deixou
todavia de produzir mais tarde effeitos funestos.
Tendo sido convidado em Novembro de 1825, para dirigir
e tomar parte nos 7 concertos annuaes de Oxford, não pôde as-
sistir senão a um e aindaque muito doente, não desceu da sua
reputação.
Foi esta a ultima audição artistica que deu ; sahiu de Oxford,
e retirou-se para New Road, onde esperava, longe da sociedade
e do bulicio, recobrar a saúde e terminar algumas composiçSes
importantes.
As melhoras eram poucas ao principio, mas tendo-se mani-
festado depois symptomas favoráveis, mudou de ares, por conse-
lho dos médicos e acceitou o convite de um amigo que residia
em Mitcham, condado de SmTcy. Os cuidados que ahi lhe dis-
pensaram e que previam tudo o que podia contribuir para o seu
restabelecimento, produziram uma convalescença; porém os seus
os MÚSICOS PORTUaUEZES 89
amigos nSo o poderam fixar por mais tempo e assim tiveram de
ceder ao seu desejo de voltar para New Road.
Sua maO; inquietada com estas alternativas de saúde e de
doença, aconselhou-lhe o celebre Dr. Pitcaim; entretanto toda a
sollicitude e toda a sciencia do grande medico de nada valeram,
aonde a medicina já nSlo podia prestar auxilio algum.
Jorge Pinto voltou pois n'um estado de grande fraqueza
para Little Chelsea, a fim de experimentar uma nova mudança
de ai*es; estas peregrinaçSes já eram inúteis, pois no dia 23 de
Março de 1806, expirou, depois de ter abraçado ainda uma ulti-
ma vez, carinhosamente a sua mSe.
Tinha apenas 20 annos e seis mezes ! !
O seu corpo foi sepultado em St. Margaret's Westminster,
ao lado de sua avó, Mrs. Pinto, antes Miss Brent.
Este artista teve uma educação distincta, muita leitura e uma
excellente comprehensão, qualidades que revelava ainda em dis-
cussões alheias á sua Arte.
Das suas qualidades moraes, não temos provas menos bellas.
Generoso para com os desvalidos, humano para com a mi-
séria, visitando já aos 18 annos as pridSes e distribuindo pelos
seus desgraçados inquilinos o contheudo da sua pequena bolsa ;
affeiçoado aos seus amigos, que não raras vezes auxiliou com soc-
corros superiores ás suas forças : eis o quadro sympathico, que
nos pinta o homem moral.
As suas composiçSes são numerosas, apesar do pouco tempo
que viveu :
1.) Fantasia on a Venetian melody «Mamma mia» and a
french airfrom the Opera of Eichard, Coeur de Lion, para Piano.
2.) First set oflessons, dedicated to Miss Griffiths.
Doestas composiçSes diz um biographo : (e) cwhich, for in-
vention and science, few have equalled at his age.»
3.) Sonata, dedicated to his friend, Mr. John Field. (f)
4.) First set of canzonets, dedicated to Lady Aylesford.
cThese truly elegant compositions, fiill of pathos and beautiful
melody, greatly enhancedhis reputation.» (g)
i«
40t OS MÚSICOS PORTUGUEZÈS
5.) Second sei of canzonets,
6.) Concerto, for Violin.
7.) Dueisfor the same instrumenta
8.) A CoUection of Sonatas for tke Piano^Forte, toith a
Violin accompaniment, dedicated to Miss. F. Gordon.
9.) Rondo for the Piano-Forte.
10.) Minuet in et bmol,
A este MinaettOy accrescentou o author mais tarde, um Trio
para o poder repetir.
Além doestas composiçães, publicou muitas outras que nSo
chegaram ao nosso conhecimento, assim como uma grande Collec-
çSo de canzonets, impressas em separado; mencionamos como
as mais celebres, as seguintes:
Dear is my litle native vede.
Tke Tear.
The WUh.
Lamour timide.
Sappho to Phaon.
Uive alonefor love.
No longer now Iseek delight.
In vain to forget the dear maid.
Todas ellas tiveram uma rápida extracçSo. O author tencio-
nava publicar ainda muitas outras, o que uma morte prematura
impediu.
A respeito do seu talento, como pianista, diz o biographo já
citado, que poucos artistas o excederam em gosto, execução e
brio. O seu talento era egualmente grande na rabeca, instrumen-
to em que traduzia os seus mais intimes sentimentos.
cln the pathetic, none could touch the soul more powerfully ;
none could more effectually enliven the mind bj a gaj move-
ment. • •
Mr. Salomon, a keen and accurate observer, said of him, that
had he lived and been able te resist the allurement of societj,
England would have had the honour of producing a second Mo-
zart. (! !)
os MÚSICOS PORTUGtJEZES 41
(è) Cantora notável no meado e fim do secalo xvnu A soa creaç2o
principal, foi o papel que desempenhava no Artaxerxes do Dr. Arney e que
o anthor tinha escrípto expressamente para ella.
(b) Notável chefe d^orchestra e Mestre de Concertos em Londres.
Tomou-se conhecido pelos afamados Salomons- Concerte qne o eelebre
Haydn dirigiu durante dois annos e cm que tocaram os maiores artistas do
mundo ; entre outros figuraram lá : Yiottí, e a celebre Mara, (depois rival
da nossa Todi).
(c) Ária, (me o immortal Paeanini aproveitou mais tarde para as suas
celebres varíaçoeâ intituladas : Carnaval de Veneza,
(d) Celebre pianista clássico, e compositor de grande talento ; res-
tam-nos d*elle os celebres Etudes para Piano.
Nasceu em Mannheim em 1771 e morreu em 1858Í, em Kensington.
Íe) The Harmonicon, London, 1828, pag. 216.
S doeste jornal de musica, que extrahimos os principaes elementos pa-
ra esta biographia.
(f) Celebre pianista e compositor notável ; conhecido principalmente
pelos seus bellos Noctumes, género de musica auc elle creou.
Nasceu em Dublin em 1782 e morreu em Moscovia, a 11 de Janeiro de
1837.
(g) Harmonicon. pag. 216.
PINTO (Thomax) — Filho de Guilherme Pinto que foi o che-
fe doesta familia, alliada em Portugal e Itália com a melhor no-
breza, (a)
Seu pae^ emigrado da Itália por causa de um escripto des-
favorável ao governo, refugiou-se em Inglaterra, perdendo assim
o cafgo importante que occupava em Nápoles.
Lá se sustentou algum tempo, servindo-se para isso dos seus
variados conhecimentos; depois, casou com uma senhora protes-
tante; porém a differença de religião trouxe uma separaçSo com-
sigo, em virtude da qual a mSe ficou encarregada da educação
dos filhos.
Guilherme Pinto, apesar da decisão do tribunal, tomou a
educação do filho mais velho sobre si; o pae tinha descoberto
n^elle grandes dotes artísticos e não queria que a vocação preco-
ce da creança se perdesse.
Chamava-se ella: Thomaz Pinto.
Mui cedo entregue a mestres hábeis, vemol-o já na eda-
de de 9 annos apenas (!), dirigindo uma orchestra em St'Cecilia'0
Hall, em Edimburgo, e tocando Solos de Corelli.
42 OS MÚSICOS PORTUaUEZES
A fama doeste prodígio foi augmentando, mas as homena-
gens que lhe prestavam, tomaram-n'o perguiçoso.
Chegando porém o celebre Glardini em 1750 a Londres, e
ouvindo-o Pinto, não pôde resistir ao enthusiasmo que este artista
causou, e de novo pegou na rabeca, convencendo-se que ainda
não tinlia chegado á perfeição desejada.
O estudo assiduo a que então se dedicou, fez, com que elle
d'alli em diante estivesse habilitado a tocar qualquer musica, em-
bora difficultosa, á primeira vista.
Depois da sabida de Giardini da Opera, tomou Thomaz
Pinto a direcção d ella, occupando em seguida o logar de 1.* ra-
beca no theatro de Drury Lane.
Casou duas vezes ; a primeira, com uma cantora allemã: Sj-
billa Gronamen, e depois com a celebre Miss Brent.
Do primeiro matrimonio teve muitos filhos, dos quaes so-
breviveram apenas dois; um varão, que entrou na marinha ingle-
za e que morreu em Madras, e uma filha, que foi a mãe do celebre
Jorge Frederico Pinto, objecto da noticia antecedente.
As circumstancias financeiras da familia, aggravadas ainda
por uma especulação infeliz do seu chefe, obrigaram-n'a a reti-
rar-se para Edimburgo (b), onde o nosso artista falleceu em 1763.
O seu retrato foi gravado em 1777, em folio grande.
(a) Um dos antepassados de Guilhermo Pinto, foi Gran-Mestrc de
Malta.
?) £ nao para Dublin, como Gerber dis, 17. HisU Biog, Lex, YoL nx,
19.
PIRES (Alexandre José) (a) — Natural do Porto, e composi-
tor distincto em todos os géneros de musica (Balbi). Deve ter fal-
lecido ha bastantes annos. As suas Modinhas eram muito apre-
ciadas em Portugal.
Salvámos por mn acaso feliz as composiçSes que menciona-
mos, uma das quaes (N.*' 6) tem toda a apparencia de auto-
grapho.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 43
1.) Cavatina de Crescentini: cLanguir d^amore
crudel mi vedi!» arranjada para Piano.
3.) Tempestade. Trecho descriptivo para piano e
canto.
3.) Modinha: c Tem amor e tem juizo.» )> Mb.
4.) ModinJia: tSe me virem ser ingrato.»
5.) Modinha: «Finalmente as leis do Fado!!»
6.) Leis Sonatas para duas Guitan*as.
7.) Dois Tercetos:
Escata bella deidade,
AlUgro : Ouve Boziíida, ouve Bozinda, o meu clamor.
C Vou Amada, ao som da lyra, contar-te meu padecer.
{Allegro: Deiza-me amada, ser yenturoso.
No fim d'este manuscripto, encontramos ainda três pequenas
composiçSes com o nome de Modas; citamos uma estrophe só, de
cada uma^ para que o leitor possa admirar o sentimento ingénuo e
a frescura doestes versoS; provavelmente populares:
1.* Moda 2.» Moda
Nas faces divinas, Em a linda boca.
Em um fogo leve De rubins formada
Se via arder Se viam aljofres
A mais pura neve. De cor engraçada.
3.* Moda
Um disputa ao outro
A taboa partida ;
E qual mais ligeiro
Vae perdendo a vida !
8.) Valsa para Piano.
(a) Balbi. Essai statistique, vol. ccxxni cita Pires, simplesmente. '
Julgamos ser este o nome verdadeiro e completo.
44 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
POLICARPO (...) — Bom violoncello da Opera do Rio de
Janeiro (theatro de S. JoSo) em 1822.
PORTO (...) — Baixo, natural da cidade do Porto. Acom-
panhoa D. JoSo vi aoBrazil e ahi ficou; pertenceu á Oapella real,
ou á Opera do Rio de Janeiro.
PORTO (Pedro do) — Natural da cidade de qne tomou o
appellido. Vivia no reinado de D. JoSo Iii e foi Mestre da Ca-
thedral de Sevilha e da Capella dos reis de Hespanha; as suas
composiçSes eram muito estimadas e particularmente notável um
Motete: Clamabat autem Jesus, que Barros (a) intitula : o PâlNClPE
DOS MOTETES ! Porto, esteve também algum tempo em Lisboa e foi
muito estimado por D. JoSo in.
(a) Antíguidades de Entre Douro e Minho cap. 7.*
PORTUGAL (Marcos António da Fonseca) — Chegamos a um
dos pontos capitães doeste livro; é-nos impossível começar a
biographia doeste celebre compositor, sem desabafarmos a in-
dignação que nos transborda da alma, quando vemos um ho-
mem superior, que tem jus á nossa gratidão, que ainda hoje
honra a Arte, e o seu paiz, esquecido, quasi ignorado de seus
compatriotas. E necessário que um litterato iminente, que um
compositor belga (Fétis) nos venha dizer: Olhae, para alli, olhae
—foi um grande artista.
O povo responde, e pergunta, Artista? Arte?. . • Arte é oíB-
cio, oíRcio é Arte!
É triste; esta confusão nSo é só da grammatica, nSo é só
das ideias, esta confusão indica uma affecçSo grave, uma doença
na alma do povo que confunde o Artista com o artífice, e cujo sen-
timento esthetico adormeceu, morreu talvez, cedendo aos impulsos
grosseiros e vis, que se desenvolvem á proporção que os mais no-
bres enfraquecem. A causa doeste facto dará talvez que pensar
aos psycologistas, para nós está o problema de ha muito re*
os MÚSICOS PORTUaUEZaES tó
solvido; nSo accusamos o povo do triste estado a que chegou;
accosamos o governo, sim, o governo de ha 40 annos, que destroe
as artes, que paralisa as sciencias, que nos di a liberdade ma-
terial, mas que nos rouba a intellectual, agrilhoando-nos á igno>
rancia e consentindo para isso a propaganda de uma classe cle-
rical, suja, immoral e fanática, que se tem coberto de crimes e de
vergonha.
Assim andarSo as cousas até que alguns homens sinceros
venham abrir os olhos ao povo, e lhe mostrem o cancro que roe
a sua existência.
NSo sabemos que haja de Marcos Portugal, um único monu-
mento, por mais humilde que seja, levantado á sua memoria. Se
ainda ha pouco se lembraram de CamSes, fallecido em 1580.
£ verdade, que Portugal foi uma naçSo, e é hoje um nome
apenas, nome vilipendiado pelos francezes e especialmente pelos
inglezes, pelos nossos desinteressados amigos, pelos nossos In-
times, que ainda ha pouco nos deram provas de amisado /rança
e... . . O nosso artista também se chamava infelizmente. . . . Por-
tugal!
A memoria d'este homem celebre, ha tanto tempo olvidada
pelos seus compatriotas, tem sido ultimamente avivada pela intel-
ligente investigação de alguns litteratos e amadores distinctos,
que, movidos por um interesse sincero pela Arte e pela pátria,
tentaram reanimar a indifferença insólita dos philisteus d'este
paiz.
Já Gerber (a) nos falia honrosamente de Marcos Portugal,
como adiante veremos ; Choron e Fayolle (b) fazem no seu Z>íc-
cionario a simples menção : eompositeur portugais, enviando o
leitor para o Supplément. Infelizmente no supplemento nada ap-
parece, desculpando-se os authores, dizendo: que as matérias
augmentaram de tal maneira, que foi necessário deixar tudo para
um terceiro volume (que nSLo appareceu) ou refundir as noticias
n'uma segunda edição da obra.
Esta fonte ficou pois estéril.
Forkel (c) nada diz de Marcos Portugal.
46 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Estavam assim as cousas, quando Fétis publicou o seu bello
livro: Biographie universelle des Mimcienê. Áhi encontramos
uma noticia, que comquanto nSo fosse perfeita e completa, toda-
via, pela maneira como estava redigida, e assignada por nome
tão authorisado, serviu muito o credito do nosso celebre artista
e augmentou a gloria do seu nome.
Os outros escriptores nacionaes e estrangeiros, utilisaram-se
principalmente d'esta ultima fonte, repetindo pouco mais ou me-
nos o que o celebre biographo belga havia escripto; e assim vi-
mos as noticias de Fétis, reproduzidas na NouveUe biographie gé-
nérale de Firmin Didot (vol. XL, 1862, col. 867), na Chronica
doa Tkeatros (N.® 9, de 7 de Junho de 1865, pag. 4) nos artigos
de Fonseca Benevides (d) e nos folhetins de Platão de Vaxel. (e)
Estas tentativas, mais ou menos fructiferas de escriptores
nacionaes e estrangeiros, animaram um escriptor benemérito por-
tuguez, em indagações que vieram trazer muita luz para a bio-
graphia do nosso grande artista, e não pouca honra para o seu
author.
Foi Innocencio da Silva o primeiro, que apresentou umabio-
graphia bem encadeada e baseada em factos mais certos, e por
isso não é pequena a divida de nós todos, a pagar ao fecundo tra-
balhador, divida, já muito augmentada pelos mais valiosos servi-
ços, feitos anteriormente & nossa litteratura.
Sentimos porém, que o nosso compatriota attacasse na sua
biographia tão injustamente e até com falta de respeito, nm ho-
mem de valia mui superior; um homem, a quem a Arte deve ser-
viços tão imminentes, que não ha remuneração possivel para os
pagar, •
Este homem, credor da estima, da gratidão e do respeito de
todos os artistas e de todos os paizes cm que a Arte é cultivada,
também nos prestou mui grandes serviços e não era decerto com
accusaçoes, a maior parte infundadas e injustas, que elles se de-
viam retribuir.
Adiante veremos a prova do que fica dito.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 47
t
E singular^ ou antes feia, a ingratidão com que se tem pa-
gado a nobre generosidade de alguns estrangeiros, que trabalha-
ram com o maior desinteresse para nos engrandecer, e para dissi-
par com os seus escriptos os erros e as tolices que se dizem lá
fora sobre a nossa pátria.
Balbi, Raczynskí e Fétis, eis os nomes de três homens que
foram e ainda são apreciados mui injustamente pelos nossos com-
patriotas ; e entretanto Baibi, deu-nos o seu Essai statistíque que
no seu tempo era, e ainda hoje é, um bello trabalho para a Esta-
tistica, para a Geographia e para a Historia litteraria e arlis-
tica do nosso paiz.
Balbi é por exemplo, a única fonte para a Biographia dos
nossos músicos no principio doeste século.
Raczynski, levantou o primeiro monumento para a Historia
das Artes em Portugal, monumento que não existia antes, e o
único que temos até hoje.
Fétis, fez para a Musica, o que o litterato prussiano fez para
a Pintura, Architectura e Esculjptura.
E verdade, que antes d'elle havia as noticias de Barbosa
Machado na Bibliotheca Lusitana, e as de Gerber (f) e For-
kel; (g) todavia, a raridade de qualquer d'estas obras é grande
hoje, circumstancia esta, que toma o seu exame e o conhecimento
das noticias artisticas que lá vem, impossivel para o maior nu-
mero.
Gerber e Forkel, resuscitaram os nossos artistas, cuja me-
moria estava enteiTada na Bibliotheca Lusitana; e Fétis, tirou
dos livros dos dois eruditos allemães, o que ellcs tinham colhido
da obra de Barbosa Machado.
Esta nova ressurreição, dcvemol-a ao celebre critico, que
archivou n^uma obra, os nomes de que já ninguém se lembrava
apreciando, criticando e recommendando com a sua authorisada
voz, as obras dos nossos artistas, lembrando«-as assim ao exame
dos homens competentes.
Como se vê, o serviço não foi pequeno e por isso tanto
maior será a nossa ingratidão, se não o reconhecermos.
48 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Desculpem-nos esta digresaSo, porém julgavamola necessá-
ria, para desviar os nossos litteratos de um procedimento descor-
tez e injusto, impróprio para nos affeiçoar a estima e a conside-
ração dos homens justos e verdadeiros.
Deixamos atraz o fio da nossa biographia, na apreciaçSo do
trabalho de Innocencio da Silva a respeito de Marcos Portuga,
e depois de termos avaliado as suas qualidades e os seus de-
feitos, devemos ainda mencionar o ultimo e mais importante
estudo sobre o nosso artista, publicado no Jornal do Com-
mercio de Lisboa, N.~ de 10, 11, 12, 17 e 22 de Fevereiro de
1870.
Esta exccllente biographia deve-se á cooperaçSo de dois ca-
valheiros distínctoB, que s£o:
Joaquim José Marques, já por vezes mencionado n'esta obra,
e o Dr. Guimar?les.
Trabalho de investigação, amor da Arte, apreciações em
geral certas e uma gratidão honrosa para aquelles que escre-
veram anteriormente sobre o mesmo a^jsumpto e que, embora não
acertassem em tudo com a verdade, prestaram serviços que não
60 podem desconhecer.
Nós, a quem coube a sorte de sermos os últimos a trabalhar,
aproveitaremos aa fontes que até aqui indicamos, extrahindo de
cada uma d'ellas o que nos parecer mais exacto e mais proveito-
so, e augmentaremos os factos já conhecidos, com algumas noti-
cias que coUigimos de livros estrangeiros, principalmente alle-
mães.
Marcos Portugal nasceu em Lisboa a 24 de Março de 1762. (f)
A incerteza e a confusão que envolve a vida doeste homem
notável, começa pelo nome, que ora é Marcos António Portugal,
{Jornal do Commercio, I. da Silva e Balbi (g), ora Marcos An-
tónio Simão (Fétis) (h), ora Marco Portogallo (Gerber), oraPorto-
gallo simplesmente (Choron et Fayolle), ora Marcos António, (i)
ora emfim: Marcos António da Fonseca (ou d'Affonseca) Portu-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 49
galy nome que se encontra em uma partitura: (j) Licença pasto-
ril, representada a 26 de Julho de 1787, no theatro do Salitre.
Adoptamos este nome por nos parecer o mais exacto, visto
ser o primeiro que existo impresso, 2.^, por se encontrar em uma
das primeiras composiç3es mais importantes do author, e 3.^ por
estar repetido em uma outra composição, uma Cantata, (k) re-
presentada a 8 de Dezembro de 1788.
Mais tarde, é provável que o nosso artista cortasse o nome
Fonseca, para maior brevidade e que na Itália ainda o dimi-
nuissem mais, reduzindo-o a: Marco Portogallo, como sempre foi
uso n'aquelle paiz. (1)
A sua filiaçSlo é ignorada, e hoje difficil será averigual-a no
meio da indifferença geral pelas Artes e pelos Artistas. Da sua
família, conhece-se apenas um irmão, SimSo Portugal, egualmen-
te compositor e que adiante mencionamos, e uma irmã casada com
António Leal Moreira, compositor distincto, de que fizemos já
menção honrosa no 1.^ volume.
Sobre a sua educação musical, ha apenas noticias mui va-
gas; supp5e-se ter entrado em 1770, com 8 annos de edade, no Se-
minário patriarchal, aonde aprendeu os primeiros elementos theo-
ricos da Arte, completando a sua educação artistica debaixo da
direcção immediata do então celebre João de Sousa Carvalho,
Director do Seminário.
Parece que fi'equentira também o Seminário de Santa-
rém, (m) aonde recebeu llçSes do Cónego Gallão, depois Mestre de
Capella na Patriarchal. Este nome parece explicar o outro me-
nos verosímil de : Orão, que Fétis indica como mestre de Marcos
no contraponto, e que classifica como segundo Mestre de Capella
na Cathedral. (n)
Segundo este, teve ainda liçSes de canto de Borselli, cantor
da Capella real e dos Thcatros reaes, (o) trabalho que rematou
a sua educação artistica; doesta sorte, era natural que as suas pri-
meiras composições fossem, como Fétis diz: ensaios de canzonetas
ou árias italianas para orchestra, producçSes que eram o fructo
dos seus últimos estudos.
i
50 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Innocencio da Silva contradiz esta affirmaçZo, fimdando-se
em que o Catalogo autographo (p) das composiçSes de Marcos
Portugal; nada menciona d^essas árias itaJianas, mas sim varias
composições sacras, isto é, primeiro um Miserere a 4 vozes, cm
1776, d^ois uma Ladainha a 4 vozes, em 1779, com acompanha-
mento dè cravo, para o Seminário, e outras obras.
Estjp facto tem relação com a noticia de Innocencio da
Sily)4|i^zendo que recebera o complemento da sua educação ar-
tística no Seminário; se isto é verdade, é de suppor que lhe en-
sinariam antes a factura de algum trecho religioso, de um Te Deum
ou de uma Ladainha, do que^a composição de árias ou canzonetas
italianas,
Comtudo, não podemos crer que Fétis inventasse esses fac-
tos que Silva contesta, poisque o biographo belga attribue á
influencia de Borselli a viagem que Marcos Portugal fez a Ma-
drid e que decidiu a sua sorte !
O mesmo Borselli, sempre interessado pelo seu protegido,
alcançou-lhe com a sua influencia o logar de ax^ompanhador de
Cravo no theatro de Madrid. Quem sabe, se foi até o cantor ita-
liano que o introduziu em casa do Embaixador de Portugal, que
suspeitando no joven artista uma futura gloria para a sua pátria,
lhe forneceu generosamente os meios, para passar á Itália?
Estes factos encadeiam-se tão naturalmente uns nos outros,
que é impossível serem inventados; Fétis, houve -os certamente
de alguma fonte que nos é desconhecida e por isso não devemos
negar aquillo que não sabemos.
Esta explicação refere-se ás li^Zes de canto de Borselli ; o
facto de não se encontrarem as árias italianas, mencionadas
no catalogo de Marcos Portugal, assun como outros, que Fétis
cita com toda a segurança, indica simplesmente que o cata-
logo era fnui defficiente; n'esta opinião somos acompanhados
pelo biographo do Jornal do Commercio.
Ora, esta defficiencia leva-nos mais longe, a ponto de pormos
em duvida a authenticidade do referido catalogo de Marcos Por-
tugal, pois até hoje ninguém a evidenciou com os documentos ne-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 51
cessarios. Â affirmaçSo simples e isolada de Araújo Portalegre (q)
nSo basta; Silva e o biographo do Jornal do Commercio, repeti-
ram o que o escriptor brazileiro disse, sem terem documentos
comprovativos i vista.
Mais adiante veremos como o catalogo ainda está em con-
tradicçSo com algumas noticias verídicas de Gerber (vide, mais
abaixo); que as escreveu muito antes de Fétis fazer ásúa bio-
graphia, com outras de Platllo de Vaxel, do Jornal do CMbmer-
cio, e de outros authores. Tudo se conspira contra o tal catalbgò!
Ainda haveria talvez uma hypothese para explicar a falta
de menção das taes aria^ italianas; podia ser, que Marcos as
considerasse pouco dignas de figurarem n^elle.
Reatemos o fio partido; vemos Marcos Portugal, partir para
Madrid com o seu Mestre Borselli, que lá lhe alcança o logar de
acompanhador, no Cravo da Opera italiana, quando contava ape-
nas 20 annos de edade. Uma circumstancia imprevista veiu fa-
vorecer as pretençSes do joven compositor; foi a protecção do Em-
baixador portuguez em Madrid, que advinhára n'elle o artista
que a Europa admirou mais tarde. O embaixador ouviu, talvez
mesmo a convite de Borselli, o nosso artista, e eis que o diplo-
mata, enthusiasmado com os seus talentos, o manda á Itália para
se animar com o ar perfumado da peninsula, e com as melodias
sentidas e inspiradas dos seus celebres filhos.
Em 1787, vemol-o pisar o solo d'esse admirável paiz, que
mais tarde havia de ser o primeiro e o mais enthusiastico admira-
dor das suas producçSes. No anno seguinte, escreve a sua pri-
meira opera : VEroe cinese, para o Theatro de Turim ; o pouco
êxito doesta primeira tentativa, nSLo desanimou o artista, e foi
compensado mezes depois, com o successo extraordinário da se-
gunda opera-bufia : La Bachetta portentosa, que excitou a admi-
ração dos Genovezes pela quantidade de phrases e de ideias no-
vas que caracterisavam a maior parte dos trechos, (r)
Depois d'este successo, não podia o compositor estacionar;
assim o entendeu Portugal, e nos dois annos succe^sivos^ vemo9
♦
52 OS MÚSICOS PORTUaUEZES
duas novas operas em scena, e acolhidas com o mesmo enthusias-
mo que a segimda. SSo :
UÂBtutto, que nSo obteve menos applausos na primavera de
1789 em Florença, e II Molinaro em Veneza, no carnaval de
1790, que poz o remate á sua reputação, (s)
Doestas 4 Operas não ha sequer vestígios no catalogo e en-
tretanto, não só Fétis as attribue a Marcos Portugal com toda a
segurança e boa fé, mas também encontramos a terceira, na No-
ta 12 do Jornal do Commercio de 22 de Fevereiro de 1870,
como executada em S. Petersburgo, em lingtta ruBêa, pelos annos
de 1795 a 1797.
F. Olément e Larousse (t) também indicam uma representa-
ção em 1789 em Florença. A ultima: II Molinaro, vem men-
cionada por Gerber (u) como cantada em IBreslau (Silesia,
Prússia) em 1792, dois annos depois de ter apparecido na Itália.
O catalogo também nada diz de outra Opera : L' Isola pior
cévole, (v) cantada a 26 de Janeiro de 1801 !
Que coincidências são estas, que vem contradizer o catalogo
n^umas poucas de partes e pôr em duvida a sua authenticidade?
Gerber não podia copiar Fétis, porque escreveu o comple-
mento do seu Diccíonario cm 1813; e Fétis não fez o mesmo,
vice-versa, porque não menciona a representação da Opera cita-
da, na Állemanha. A citação que se refere á Rússia, foi fornecida
por P. de Vaxel; e a da Opera: L^Iaola piacêvole, é referida por
T. Oom, eseriptor consciencioso.
Esta primeira viagem á Itália, é posta ainda em duvida pela
existência de varias Burlettas e Dramas aUegoricos, representa-
dos no Theatro do Salitre, desde 1787 a 1790. (w)
Em um dos bilhetes de uma lurletta representada em 1788,
vem qualificado (segundo I. da Silva) de : Mestre da Musica do
dito Theatro e Compositor-Organista da Egreja Patríarchiil.
Diz mais Innocencio da Silva, quo durante o mesmo inter-
vallo (1787 a 1790) compoz varias Missas, Psalmos, etc., para a
Patriarchal e para a Capella real de Queluz.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 58
A contradícçiío apparente em que estSo aqui, a8 noticias de
Gerber e de Fétis e as de I. da Silva e do Jornal do Commercio,
talvez se explique da seguinte maneira: se suppozermos essas
BurleitaSj escriptas para o theatro do Salitre e as composiçSes sar
eras para a capella de Queluz, como feitas antes da viagem á Itá-
lia, (1787) ; é natural, que depois da fama de Marcos Portugal co-
meçar a penetrar na península, os seus possuidores se lembras-
sem d^ellas e as executassem na ausência do artista.
Continuemos.
Sobre as outras viagens de Marcos Portugal, reina a mesma
discordância entre os biographos. Fétis pretende que voltara a
Portugal em 1790, depois da representação de II Molinaro, eíòn
apresentado ao rei (D. Pedro iii) que o nomeou Mestre da sua Ca-
pella; este facto, copiado pelo biograplio da Chronica dos Thea-
tros, é evidentemente inexacto, visto o rei ter fallecido em 178G.
Devia ter aproveitado bem o tempo da sua estada (1790) em
Lisboa, pois no anuo seguinte, em 1791, volta de novo á Itália e
dá em Parma : La Donna di génio volubih ; em Roma : La Vedova
raggiratrice; eem Veneza: II Príncipe di Spazzaeamino, cdont
Téclatant succès excita Tintérêt dans toute Tltalie.» (x)
I. da Silva e o J. do Commercio, determinam esta viagem de
uma maneira mui diversa.
O primeiro, quer que Marcos Portugal permanecesse na
Itália desde 1792 até 1799 (fixando assim a 1.* viagem, sem di-
zer nada da 2/) o que é um erro, aliás nSlo se explica a existen^
cia de duas Farças, feitas em Lisboa em 1794, e de duas compori-
(Sfei sacras, feitas para a Capella real de Queluz em 1793 e
1795.
Mais próximo da verdade, andou o J. do (DommerciO; que
BuppSe as duas viagens no intervallo de 1792 a 1799 : a primeira,
sahindo da Itália no segundo semestre de 1794 e voltando no
primeiro de 1785, e a segunda entre 1795 e 1799.
Já se vê, que os dois biographos não concordam com as oa«
trás viagens que Fétis menciona, dizendo:
54 OS MÚSICOS PORTDGUEZES
cSes fonctions de maítre de chapelh du roi de Portugal,
oblígeaient Portogallo à retourner à lisbonne de temps ea temps,
et à 7 faire d'assez long séjours; mais eon penchant le ramenait
toujours en Italie, ou ses travaux étaient accueillis par cPunani-
meê applatidissements.
cSon demier voyage eu lieu en 1815; il donnapendant le
carnaval L' Adriano in Syría, à Milan.»
Em contrario i affirmaçSo de Fétis; determinam os nossos
dois biographos a volta definitiva de Marcos Portugal em 1799,
argumentando para isso com a representação de três operas que
n^esse anno foram á scena em S. Carlos, e que eram as primeiras
que o nosso publico appreciava.
Foram :
La Donna di génio voluòile, a 23 de Janeiro de 1799.
Rtnaldo d*Asti, a 25 de Abril.
11 Barone (ou Príncipe) di Spazzacamino, a 27 de Maio.
Segundo o que entendemos, a representação doestas operas
aó, não prova a presença de Marcos Portugal em Lisboa. Agora
a objecção que fazem ao facto referido em 1815, tem mais algum
pezo; todavia não nos convence.
Concordamos que Luiz dos Santos Marrocos, occupando-se
nas suas cartas, (que adiante mencionamos) tanto de Marcos Por-
tugal, mencionaria n^ellas a viagem de 1815, se o compositor a
tivesse emprehendido ; entretanto, como as cartas mencionadas
são só dos annos 1811 (uma), 1812 (três), 1813 (uma), e 1817
(uma), não admira que ellas não fallem da tiagem feita em 1815;
demais, o silencio de Marrocos a respeito de Marcos Portugal,
desde 1813 a 1817, é significativo; então, se o maestro estava na
verdade no Bio de Janeiro, como é que o sobredito Marrocos,
fatiando até 1813 tão amiudadamente do nosso artista, se callou
de repente durante 4 annos, sem dar uma única noticia?
Derivo estas e outras consideraçSes já feitas, ao exame dos
dois principaes biographos do nosso maestro; nós, da nossa parte,
faremos o possível para esclarecer a verdade.
Diz ainda o Jornal do Commercio :
os MÚSICOS PORTUGUEZES 56
cAIém de que em 181 1, teve elle o primeiro insulto paraly-
ticoy ficando leso de tmi braço: e já contava 53 annos, e estava
muito costumado aos confortos da corte, para emprehender tSo
longa viagem. 1
O accidente paralytico não podia impedir o artista de fazer
a viagem, uma vez que ficasse curado ; a edade, na verdade avan-
çada, e o conforto da corte, deviam valer algema cousa, se a
vontade de rematar com gloria, uma carreira bem principiada e
brilhantemente sustentada, nSo fosse maior.
SSo estas as supposiçSes que recommendamos aos que sus-
tentam o contrario; o testemunho de Fétis, é em demasia pre-
cioso, para ser desattendido por meras hypotheses.
Innocencio da Silva, accusa Fonseca Benevides, de ter escri-
pto no Archivo Píttoresco: cVindo frequentes vezes a Portugal
o illustre compositor portuguez, logo que podia, voltava á Itália,
que foi sempre a terra da sua paixSto.i
A accusaçSo é de todo infundada, e a supposiçSo de Bene-
vides muito verdadeira ; pois é natural, que o nosso compositor
preferisse para a audiçSo e execução das suas operas, a sua pátria
artística & legitima, pois era a Itália que tinha fundado a sua
reputação e espalhado a fama do seu nome, muito antes de Portu-
gal se lembi^ar d'elle ; já em 1788 a primeira applaudia com enthu-
siasmo a Bachetta portentosa, e foi só 11 anno8(! !) depois, em
1799, que se ouviu a primeira opera (La Donna di génio volu*
bile) de Marcos Portugal em S. Carlos. . .
Raras vezes, e sempre com pezar, se despedia Marcos Por-
tugal da Itália; luna amisade, ainda mais, uma sympathia pro-
funda pela sua pátria artística, fiiziam com que elle considerasse
o seu cargo em Lisboa, mais como um incommodo, do que como
mna honra. E realmente, entre o Portugal decahido nas Artes,
nas Sciencias e nas Lettras, devoto até ao excesso, pela bigoterie
de uma rainha demente — e a Itália, hospedeira, generosa, grata,
intelligente e artística, não havia escolha possível. De um lado a
estatua — do outro, a mascara.
56 OS MÚSICOS PORTUQXJEZES
Os dieatros de D. José, ha muito que haviam sido destruidos,
e 08 ortístas admiráveis que n'elles tinham brilhado^ estavam unt
mortos, outros dispersos pelas scenas da Europa.
Dissemos que Marcos Portugal considerava o sen cargo de
Mestre de Capella, maia como um encargo pezado, do que como
luia honra; e realmente que attractivo podia exercer aquelle le-
gar, collocado debaixo de uma influencia artistica, que só
admittia o culto dos Psalmos e das Ladainhasf
Como nSLo havia de sentir o nosso artista o peão acabrunha^
dor e mephytico doeste meio intellectual e artístico, quando vinha
de respirar na Itália o ar impregnado da vitalidade inspiradora
de Mozart, de Gluck, de Piccini, de Jomelli, de Sacchini ; quan-
do ás nossas portas estava o immortal Boccherini, lançando pela
Europa as suas composições admiráveis !
NXo queiramos pois attribuir a Marcos Portugal um patrio-
tismo que nilo podia ter, pelas circumstancias que acabamos de
mencionar.
Julgamos ter exposto na devida luz todas as difierentes opi«-
niSes, que vogam acerca das viagens do nosso celebre compa-
triota; resta-nos avaliar a sua actividade durante este longo in-
tervallo de 1787 a 1815.
Deixamos Marcos Portugal em 1791, na Itália, no meio do
enthusiasmo universal que o PriTècipe di Spaxzacamino (1793) ti*
nha provocado. O nosso artista nSo descançava, apesar dos seus
triumphos. As operas: Demofoonte em MilKo, 1794; / dué Oóbbi
em Veneza, em 1793 e 1795; ZvleToa^ Selimo, 1796; Vliigano
poço dura, 1796; H Ritomo di Serse, em Bolonha; II Diavolo a
juatiro, ossia le Donne cambiate, 1797; e outras mais, foram a
continuação dos seus triumphos e a consagração do seu génio mu-
sical, que chegou a um dos pontos culminantes da sua carreira,
com a opera séria: Femaindo in Messico, talvez a sua obra prima,
representada em Roma em 1797, e escripta para a celebre Bil-
lington. Desde então foi considerado no numero dos melhores
compositores d^aquella época, (j)
os MÚSICOS PORTUGUEZES 57
A sua fecundidade continuou nas operas: Nan irritar lê
Donne, em Placencia, 1799 ; Idonte, na Scala em MilSo, em 1799
e 1800; e Marte de Senuramide em Lisboa^ 1801, para a Catalã-
ni; foi n'esta opera que esta celebi^e cantora introduziu a famosa
ária: Son regina, e in mezzo alVarmi, tirada primitivamente da
Sofoniêba e que a cantora italiana fez ouvir em quasi todos os
concertos que deu pela Europa.
A Semiramide, marca talvez o segundo ponto culminante da
caixeira de Marcos Portugal, que é seguido em breve pelo ter^
oeiro, depois das operas: Argenide, cantada em Lisboa a 13 de
Maio de 1804, depois em 1806 em Londres, pela Billington e
Brahame II Cia bottino, rematando no Adriano em Syria, em
MilSo, 1815.
Até aqui Fétis.
Innocencio da Silva e o Jornal do Commercío nSo concor-
dam, como vimos, com as viagens que Fétis menciona e nSo con-
cordando com ellas, já se vê que fica a ordem, pela qual elle enu-
merou as operas de Marcos Portugal na sua biographia, abalada.
Todavia os authores portuguezes, occupados que estavam, em
destruir aquillo que Fétis escrevera, decerto com boas razSes,
n2o se lembraram de reedificar o que haviam lançado por terra,
e assim os vemos, utilisando-se das próprias noticias do critico
belga, principalmente no que diz respeito ás operas representa-
das na Itália; uma ou outra excepçSo que haja, vêr-se-ha fácil*
mente na Tabeliã aynoptiea e chronologica que serve de esclare-
cimento a esta biographia.
Os nossos dais compatriotas, passando rapidamente pela his-
toria da actividade de Marcos Portugal na Itália, fixam o seu re«
gi*esso em 1799. Achegada do nosso artista coincidiu felizmente
com uma época de florescência do nosso theatro de S. Carlos. Bri-
lhava entSo em Lisboa o celebre Crescentini, cantor e empresário
de S. Carlos ; em redor do famoso sopraniêta, agrupavam-se a Ca-
talani, a Gafforini, Domenico Mombelli, António Naldi e outros.
Marcos Portugal aproveitou a protecçSo e a boa vontade
com que o emprezarío italiano animava os artistas nacionaes
58 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
e estrangeiros, retribuindo vantajosaniente os seos trabalhos.
Recebeu logo uma collocaçSo no elenco da companhia, a par de
Fioravanti, com o ordenado de 677^000 réis; este rendimento
augmentava com os ordenados de Mettre da Capella real, Mettre
do Seal Seminário de Musica e Compositor e Organista da Ca-
peUa da Patriarchal, além dos productos das suas numerosas
liçiles particulares.
Pouco depois da sua chegada, já em S. Carlos se represen-
tavam as segaintes operas: La Donna di génio volubile, a 23 de
Janeiro de 1796; Rinaido d'AstÍ, a 25 de Abril de 1799, no
anniversarío da rainha; Jt Barone (on: II Príncipe) ãi Spatta-
camino, cantado a 27 de Maio de 1799. Os annos seguintes não
foram menos fecundos, pois em 1800 temos o Adrasto ; em 1811,
IJJsola piacivole e La Morte ãi Semiramide.
Foi esta a primeira opera de Marcos Portugal em que a Ca-
talani cantou em Lisboa (z) em companhia de Crescentini, Prann,
Domenico Ncrj, etc., e desde então andaram o nome do nosso
compositor e o da celebre artista, sempre juntos. N'eata opera in-
troduziu a cantora italiana pela primeira vez, a depois tSo celebre
sria: SoH Regina, de que atraz falíamos.
Marcos continuava compondo activamente; no curto inter-
Tallo de 1801 a 1806, desde a Sofonisba até ao ^rtogerse, encon-
tramos nada menos de 12 Operas. Ka ultima, estreiou-se a pri-
ma donna Eufemia Eckart que vinha substituir a celebre Cata-
lani, contractoda pelos emprezarios dos theatros de Londres e de
Paris.
Aproveitamos esta occasiSo para lembrarmos um facto igno-
rado pelos bíographos da celebre artista italiana, e vem a ser: as
suas reUçSes de omisade com o nosso compositor, que ella tinha
conhecido durante a sua estada na Itália.
Marcos Portugal habitava perto do theatro e fazía-lhe frequen-
es visitas, ensaiando em sua casa os papeis qne ella devia can-
ar em S. Carlos; e é de auppor, que nos 5 annos que esteve em
Liisboa, desde 1801 a 1806, aproveitasse muito com as liçSes
lo maestro, que segundo o cardeal Saraiva (Lista, pag. 48), era
os MÚSICOS PORTUGUEZES 59
coptimo Mestre de Canto e cantava com excellente estylo em voz
de Tenor.» Ainda hoje vive em Lisboa um discípulo de Marcos^
chamado Silva, actualmente empregado no Thesouro, que, por
ordem de seu mestre, acompanhou muitas vezes a celebre artista
nos seus estudos, ao piano. O nosso maestro ligava grande inte-
resse ao aperfeiçoamento das qualidades artísticas da sua disci*
pula, não só para maior gloria do seu nome, mas também porque
a estimava como se fôra sua filha. Fioravanti, que entSo se
achava em Lisboa, nunca teve paciência para a acompanhar,
em quanto Marcos Portugal o fazia sempre de bom grado, e
quando nSto podia ir pessoalmente, mandava algum dos seus
melhores discipulos e principalmente o tal Silva (que hoje tem
perto de 90 annos).
Cremos que estas noticias nSo serSo destituídas de interesse,
porque sSo completamente ignoradas e para nós tem o valor de
augmentarem a gloria do nosso celebre compatriota, ligando o seu
nome a outro também illustre.
Consta-nos que na tjpographia do Jornal do Commercio
existem uns trabalhos, feitos acerca da mesma Catalani, que vem
lançar uma nova luz sobre a vida doesta cantora, apresentando
factos até hoje desconhecidos dos seus biographos.
Estimaremos que elles appareçam, em honra do jornal que
tanto se interessa pela Arte, assim ficarão, corrigidos os erros
publicados no estrangeiro sobre a cantora italiana, como mostra-
mos na nota Z.; e lá fora ficarSo sabendo que, apesar de estar
entre nós quasi amortecido o fogo sagrado, sempre ha um ou
outro que o cultiva e o alimenta em segredo.
Voltemos á nossa biographia; ficamos na data 1806. Foi
n'este intej^vallo (1807) que teve logar a invasão franceza com-
mandada por Junot. A familia real fugiu, tomada de um pânico
espantoso, apressadamente para o Brazil, deixando a pátria e os
seus súbditos, perplexos, no meio do terror de uma conquista á
mSo armada.
Marcos Portugal, nSo menos snrprehendido da fuga precipi-
tada dos seus protectores, não tomou ao que parece, logo a reso-
60 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
luçSo de 08 acompanhar. Fétis, quer que partisse com elles e does-
ta mesma opinião é Baibi ; (aa) todavia, o Jornal do Commercio e
Innocencio da Silva pretendem que fieira e que dirigira a rer
presentação do Demofoonte, dada a 15 de Agosto de 1808 par»
festejar o anniversario de Napoleão i.
O libretto da opera que examinamos, traz é verdade, %
nota: per festeggiare il Giamo natalizio di su mfiestá, Ulmpt*
ratore de, Francesi, Ré df Itália e Prottettore delia Canfederc^
zione dei Rheno; e na segunda pagina: La Musica i tutta ntu>va
dei celebre Sr. Maestro Marco Portugal; todavia não diz que a
opera fosse dirigida por elle, como se costumava fazer nos anti-
gos librettos.
Uma circumstancia, vem porém resolver todas as duvidas;
é a nota manuscripta, encontrada na partitura autographa do
Demofoonte, que nos deixou o antigo copista do Theatro de
S. Cai'los: Joaquim Casimiro da Silva, pae do fallecido compo-
sitor do mesmo nome c do actual copista do mesmo theatro.
Diz a nota: cEsta opera foi encommendada a Marcos por
um general francez, que morava na rua Formoza (de cujo nome
não me lembro) e por ella recebeu (diziam) bom numero de
moedas. A copia para o theatro, a copia de vozes e de instrumen*
tos, foi-me paga pela ompreza.» etc.
A partitura autographa que pertenceu ao Archivo Musi-
cal do fallecido Conde do Farrobo, a quem o copista Casimiro a
tinha offertado, e de que somos actualmente os possuidores,
traz também a rubrica: originais nell anno 1808.
As tristes circumstancias em que estava o paiz, obrigaram
o emprezario de S. Carlos a fechar o theatro em 1809. Conta-se,
que por este tempo Marcos Portugal recebera propostas* vantajosas
de algumas cortes da Europa, que o desejavam para o seu ser-
viço ; é para sentir que o compositor não aproveitasse uma tão
bella occasião para sahir doeste meio artístico, e ir estabelecer a
sua residência em alguma grande capital, onde os seus trabalhos
lhe haviam de dar mais gloria e mais proveito do que noBrazil.
£ porém de presumir, que a situação revolucionaria e indecisa da
os MÚSICOS PORTUGUEZES 61
Europa, o determinaseem a rejeitar uma coUocaçSo que elle n3o
julgava duradoura.
Sahiu pois entre 1810 e 1811 para o Rio de Janeiro, levan-
do em sua companhia vários cantores e instrumentistas, £ados na
boa estrella que os conduzia. Ld chegaram os navegantes e fe-
lizmente não soffireram decepção, porque o regente (mais tarde
D. JoSo vi) que gostava da musica, (dizem que o seu forte era :
Cantochão) (bb) se lembrou das bellas festas que o talento do
nosso artista lhe tinha muitas vezes proporcionado.
Já dêmos no primeiro volume d'esta obra (cc) uma ideia do
estado de desenvolvimento artistico da capital do Brazil, quando
o regente lá chegou. O Conservatório dos Negros estava em
plena actividade, debaixo da direcção dos jesuitas, senhores
absolutos d'aquellas terras.
D. João VI, para apresentar uma ideia nova, da sua, já então
celebre cabeça, lembrou-se do reformar o Conservatório afri-
cano, e estabeleceu no seu palácio (maison de plaisance) (dd) uma
eschola de composição musical, de canto, e do vários instrumen-
tos, sobretrahindo assim o antigo estabelecimento á tutela dos je-
suitas, o que deu bons resultados, como adiante veremos.
Tratou depois, da organisação da Capella real, chamando
para o serviço do coro e da prchestra, os melhores cantores e in-
strumentistas que havia n^aquella cidade. Por decreto de 25 de
Junho de 1808, transformou a Cathedral em Capella real, e por
uma outra ordem, passada a 4 de Novembro do mesmo anno, en-
carregou, José Mauricio Nunes Garcia, da regência e inspecção
da mesma.
Todos estes decretos deram nenhum resultado, ou antes le-
varam as cousas a maior decadência, apesar do talento e da acti-
vidade de Nunes Garcia, que, Organista da Sé, havia 10 annos,
e homem de grande mérito, não pôde melhorar o estado da ca-
pella, porque não havia instrumentistas bons e mesmo os que
pertenciam a ella, estavam longe de ser perfeitos. Felizmente,
a chegadq, de Marcos Portugal e o acolhimento favorável de
D. João VI, que o nomeou logo Mestre da Capella real e da real
62 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
camará, collocaram-n'o nas circumstancias de poder dar nova di-
recção ao movimento artistico. Os instrumentistas e cantores que
o celebre maestro trouxera de Lisboa, foram coUocados na orches-
tra da capella e assim melhorou tudo satisfactoriamente.
O nosso maestro entrou de novo nos seus trabalhos, compon-
do para a Capella real logo em 1811, uma Missa e Matinas so-
lemnes, a grande orchestra. Á sua actividade augmentou ainda,
quando a 12 de Outubro de 1813 se inaugurou o Theatro de
S. João, construido a expensas de uma sociedade composta dos
principaes negociantes d'aquella praça e com o producto de 7
loterias, que se fizeram del811al813; (ee) Marcos foi encarre-
gado da direcção do theatro e ahi se representaram varias das
suas antigas Operas, e outras que escreveu expressamente para
elle.
D. Jo3o VI, que, diga-se a verdade, sympathisava com o
maestro, nEo deixava escapar uma occasião em que o podesse
favorecer e assim o vemos successivamente nomeado. Director do
Conservatório de Santa-Cruz (cm dos Negros) (ff) conjuncta-
mcnte com seu irmão ; Mestre da familia real e Director geral
de todas as FuncçSes publicas.
Uma carta de um contemporâneo, Luiz Joaquim dos Santos
Marrocos, oí&cial de Secretaria no Rio de Janeiro, diz a 29 de
Outubro de 1811, fallando doesta ultima nomeação:
«Marcos António Portugal aqui teve uma espécie de estupor,
(ataque paralytico) de cujo ataque ficou leso de um braço: elle
tinha obtido de S. A. R. uma sege effectiva, ração de guarda-
roupa, 600|000 réis de ordenado, e do real bolsinho aquillo que
S. A. R. julgasse lhe era próprio e conveniente; além d^isto, ser
Director geral de todas as funcçoes publicas, assim de egreja
como de theatro, e em qualquer sentido; e para o parto espera
também uma commenda, » etc.
As finezas que, o príncipe regente dispensava ao maestro,
eram imitadas da mesma maneira pelas pessoas da corte, como
vemos de outra carta do mesmo Marrocos, escripta a 7 de Outu-
bro de 1812.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 63
cMarcos António Portugal está feito um lord com fumos mui
subidos. Por certa ária que elle eompoz, para cantarem três fi-
dalgas em dia dos annos de outra^ fez-lhe o Conselheiro Joaquim
José de Azevedo um magnifico presente^ que consistia em 12 dú-
zias de garrafas de vinho de Champagne (cada garrafa no valor
de 2|800 réis) e 12 dúzias de vinho do Porto. EUe já quer ser
Commendador, e argumenta com Franzini e José Monteiro da
Rocha.»
Esta ultima distincçSo, a Commenda de Christo, que n^aquel-
le tempo ainda era mui pouco vulgar, não tardou muito, cum-
prindo-se assim a prophecia do invejoso Marrocos.
Estas distincçSes successivas, e outras que mais tarde obte-
ve, não eram próprias para o tomar querido dos invejosos e mi-
seráveis que existem sempre em grande numero n*uma corte, e
é obedecendo ainda a este sentimento repugnante, que Marrocos
escreve a 28 de Septembro de 1813:
cSimSo Portugal é Organista da Capella real com os seus
300$000 réis e appendices, ignoro, se com ração ; porém o irmão
tem-n'o introduzido com os seus conhecimentos, de sorte, que
tem grangeado muitos discípulos e discipulas, que mandam suas
seges a casa buscal-o ; eu o tenho visto mil vezes nas ditas seges,
e entre ellas a da Duqueza de Cadaval: por isso não tem rasSo de
lamentar- se, porque é mui natural lhe provenham grandes inte-
resses de seu exercicio.
«O irmão Marcos, ou o Barão d'Alamiré, tem ganhado a aver-
são de todos pela sua fanfarronice, ainda maior que a do pão de
16: é tão grande a sua impostura e soberba por estar acolhido á
graça de S. A. R,, que se tem levantado contra si a maior parte
dos mesmos que o obsequiavam: é notável a sua circumspecção,
olhos carregados, cortejos de superioridade, emfim apparencias
ridículas e de charlatão : já tem desmerecido nas suas composi-
ções ; e um grande musico e compositor, vindo de Pernambuco,
e que aqui vive, e um seu antagonista, mostra a todos os que
quizerem ver, os legares, que Marcos furta de outros auctores,
publicando-os como originaes. Como está constituído Director
64 OS MÚSICOS PORTUOUEZES
do theatro e funcçSes quanto a musica, tem formado enormes in-
trigas entre músicos e actores, de que se tem originado grandes
desordens. Do novo theatro, que vae abrir-se para o dia de 12
de Outubro, e que tem sido feito á imitação e grandeza de
S. Carlos, a ti*oco de despezas incríveis, queria Marcos ser des-
pótico director com 2:000|000 reis, alem de beneficies e o me-
lhor camarote da bocca; como encontrasse duvidas no seu em-
presário, tem-se empenhado em desviar os actores, e para isso
obrigando-os a exigir grandes mesadas.
cE riso vel-o á janella, e em publico, todo empoado e em-
proado, como quem está governando o mundo; mas emfim, tem
um grande padrinho, e por este o ser, é affagado por outros. Bem
dizia o desembargador Domingos Monteiro de Albuquerque e
Amaral, chamando-lhe: o rapsodista Marcos!
cO Plácido, irxsAo do Melitão, morreu ha dias de suas gran-
des moléstias e com elle vagaram três officios : o maior que é de
Inqtteridor das justificaçties do reino, no conselho da fazenda, e
que rende de 4 para 5:000 cruzados, foi logo requerido por 36
pessoas entre ellas alguns guarda-roupas ; porém a todos elles foi
preferido o snr. Marcos António Portugal, a quem S. A. K. con-
feriu a propriedade do dito officio, com uma pensão de 400|000
réis annuaes para a irmã do dito Plácido, ora aqui recolhida no
convento da Ajuda.» etc.
Esta carta merece alguns commentarios ; n'eUa se manifesta
bem todo o caracter invejoso de seu author, que não podia ver
com bons olhos as distincçSes subidas que todos davam ao nosso
maestro, e que elle, mau grado seu, teve a ingenuidade de men-
cionar na carta.
^larrocoB falia em um grande musico e compositor, vindo de
Pernambuco, antagonista de Marcos Portugal e que mostra a
todos 08 que quizerem ver, os logares que o maestro furta
de outros compositores, publicando-os como originaes; todavia
j^larrocos, occulta cuidadosamente o nome do tal grande musico
e compositor, que parece ter vergonha de apparecer á luz do dia.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 65
NSo podemos conjecturar quem fosse; as probabilidades se-
riam a favor do seu collega José Mauricio Nunes Garcia; entre-
tanto^ este era nascido no Rio de Janeiro e nSo em Pernambuco,
e nunca retribuiu, as rivalidades e a inimisade de Marcos Portu-
gal, (se algum dia ella existiu) com intrigas occultas, porque
estava pela nobreza do seu caracter, acima de taes misérias.
£m quanto ás exigências do maestro, relativamente aos seus
ordenados, ninguém tem o direito de o criminar por isso, poisque
cada um pôde pedir o preço que julgue á altura do seu talento ;
ninguém, anSo ser o artista, deve ser juiz nesta matéria ; os em-
prezarios tinham a faculdade de rejeitar as propostas de Marcos
Portugal, uma vez que as achavam exageradas, porém nem elles,
nem o snr. Marrocos se deviam arvorar em avaliadores de um
talento que elles nSo podiam comprehender.
O desembargador Domingos Monteiro de Albuquerque e
Amaral, chamou-lhe rapsodista pobre desembargador. . •
Para pintar melhorem relevo o caracter de Marrocos, publi-
camos ainda a seguinte carta, que nos dá a chave do enigma e
que nos explica toda essa inveja mesquinha e a razSo das suas
epistolas viperinas. £ dirigida como as antecedentes e subse-
quentes, a seu pae: Francisco José dos Santos Marrocos, que era
Bibliothecario da Bibliotheca real do Paço da Ajuda.
c3 de Julho de 1812.»
c Também me lembra dizer a V. M.^ para guardar no seu
canhenho, que o rapsodista Marcos António Portugal, celebre
candidato na fidalguia pela escala de dó, ré, mi, indo vêr os ma-
nuscriptos, por faculdade de S. A. R., teve a insolentíssima ousa-
dia de me dizer que iodos elles juntos nada valiam, e que 8. A.R.
não fez bem em os mandar vir, antes deviam ser recolhidos na
Torre do Tombo! Logo me lembrou o dito de Horácio: risum te-
neatis amici; porém mettendo a coisa a dis&rce, olhando para
08 ares, lhe respondi que o tempo estava mudado e promettiá
chuva. Foi tSo besta, que nSo entendeu; antes dando quatro
fungadellas, voltou costas, e poz-so a lêr 09 ver909 de Tbomius
Pinto BrandSo. Que lastima !t
66 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Estas expressSes baixas e sujas, tiradas do rocabcdarío da
praça do peixe, indicam até que ponto o seu author fôra ferido
com a observação do maestro, observação aliás justíssima, porque
melhor se teria feito em deixar os manuscriptos na Torre do
Tombo, que não os perderia Portugal em grande parte.
Eis, como dissemos, a chave do enigma ; e tanto é isto ver-
dade, que as cartas subsequentes estão todas cheias de diatribes
furiosas, tendo Marrocos pelo contrario elogiado o nosso maes-
tro antes da questão dos manuscriptos da Torre do Tombo, como
se vê pela seguinte carta:
«26 de Junho de 1812.»
cHontem se cantaram umas magnificas Matinas novas,
compostas por Marcos, e hoje a Missa de Officio : tudo por alma
do defunto snr. Infante D. Pedro Carlos, na Capella Real, a que
assistiu S. Â. B., completando-se n'este dia um mez do &lleci-
mento do snr. Infiaiite.»
Agora fica o leitor percebendo a razão, porque o magnifico
author das Matinas de Junho de 1812, se transformou no rapso-
dista ^plagiário de 1813.
Dois annos depois, recebia Marcos Portugal a 30 de Dezem-
bro de 1815 um officio do Secretario do Instituto nacional de
França, em que este lhe noticiava a sua eleição de Sócio corre-
spondente, nos termos mais lisongeiros, dizendo que os composi-
tores francezes (isto é Monsigny, Méhul, Lesueur, etc.) o conside-
ravam como um dos homens que melhores serviços havia prestado
ás Artes.
Marcos Portugal, apesar de todas estas intrigas desprezíveis,
ia vivendo na corte, honrado por todos, disfructando uma bella
posição que o collocava em completa independência; a saúde po-
rém vacillava, e em 1817 repetiu-se o insulto paralytico, de que
se restabeleceu, segundo diz Marrocos, a 2 de Fevereiro de 1817...
cpois que as circumstancias das paralysias n'esta terra são de es-
perar: e agora o Marcos já está em convalescença de segunda.»
É de suppõr que estes achaques repetidos lhe atacassem a
saúde, todavia o maestro continuava occupando activamente to-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 67
do8t>8 seus cargos. Em 181 7^ compoz e dirigia a execução dos
Officios e Missa de exéquias de D. Pedro I; em 1819, escreveu as
Matinas, Officio e Missa por alma do Infante D. Pedro Carlos,
quando se collocaram os restos mortaes d'este principe no tumulo
que D. João vi tinha mandado fabricar em Portugal. Ainda n^es-
te anno, compoz um Te Deum para a Capella real, dirigiu no thea-
tro de S. JoSo a sua opera L'Oro non compra amore, compoz o
drama: (e parece que também a lettra) Augúrio di felicita para
o mesmo theatro, pela chegada do conde d'Eltz, embaixador da
Áustria, que vinha ultimar o casamento do principe D. Pedro de
Alcântara com a princeza D. Leopoldina, e escreveu mais uma
Missa para celebrar a chegada da princeza.
Em 1820 encontramol-o ainda, regendo uma Missa solem-
ne, composta para celebrar o anniversario da acdamação de
El-Rei D. JoSo vi.
Aqui param as noticias até hoje recolhidas. No anno seguin-
te regi'e880u a corte para Lisboa e o nosso compositor lá ficou,
talvez por não a poder acompanhar, em vista da doença que
cada dia augmentava mais.
Devemos crer que D. Pedro, amador distincto e protector
zeloso dos artistas, o tratasse com as attençSes devidas a um gran-
de artista que alem de tudo, tinha sido seu mestre; ainda assim,
a ausência de uma corte brilhante, a saudade seguindo esses na-
vios que levavam todas as suas esperanças, a velhice que lhe ver-
gava os hombros, a doença que o avisava, prognosticando um
fim próximo, emfim até a diminuição dos seus ordenados por cau-
sa das difficuldades do thesouro imperial, tudo isto o deixava
triste e desanimado.
Felizmente, nos últimos annos da vida, encontrou em uma
casa distincta, uma hospitalidade generosa; talvez que sem este
refugio o compositor viesse a sofirer ainda privaçSes e nós tivés-
semos mais uma mácula na nossa Historia artistica. A Marqueza
de Aguiar devemos agradecer este bello e nobre serviço ; foi em
sua casa que falleceu a 7 de Fevereiro de 1830, com 68 annos in-
completos, succumbindo a um ultimo ataque paralytico. Sobre*
68 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
viveu-lhe sua viuva, porém ignorase se deixoa filhos. Foi sepul-
tado na capella de Sant'Anna do claustro do convento de Santo
António dos franciscanos, no Rio de Janeiro.
O esquecimento cobriu o tumulo do grande artista, até que
um compatriota benemérito, M. de Araújo Porto-Alegre o desço*
briu casualmente, quando procurava os restos do poeta e orador
brazileiro António Pereira de Sousa Caldas. Mandou-os encerrar
em uma uma de madeira e lá estSo no convento, preservados do
contacto sacrílego dos philistous, graças á piedade de um homem
que nos deu a todos um nobre e bello exemplo.
Acerca do caracter de Marcos Portugal, escreveu-se muita
cousa desfavorável; já o leitor recebeu no que deixamos escripto,
algumas noçSes a este respeito. Accusam-n'o os contemporâneos
de vaidoso; podéra: n^ o podia ser um homem, recebido e victo-
riado em toda a Itália; nos primeiros Theatros de Turin, Vero-
na, Florença, MilSo, Nápoles, Bolonha, Ferrara, Veneza, Pla-
cencia; cuja fama tinha penetrado na França, na AUemanha, na
Inglaterra, até na Rússia, na America, no velho e no novo mundo?
Não podia ser vaidoso, um artista, nomeado Sócio do Insti-
tuto de França, nomeação cubicada por todo o homem de mérito,
e que n'este caso particular t^iha uma importância especial, pe-
las palavras honrosissimas que a acompanhavam?
N3o podia ser vaidoso, um homem, coberto pelo seu sobera-
no e pela melhor sociedade de Portugal, com as distincçSes mais
apreciadas que se podiam então. conceder a um grande artista?
Decerto que todas estas honras haviam de convencer a final o ar-
tista do seu mérito, e então negavam-lhe a convicção do seu justo
valor?
Dizem que quando estava no Coro occupando o seu logar, se
tomava reparado pelos seus ademanes excessivos, impróprios do
logar e do acto religioso ; os invejosos vão até mais longe, dizen-
do, que era tíío pretencioso, que regia a orchestra do Theatro de
S. João de um camarote I! Concebe-se semelhante absurdo? S<S
quem não tiver uma ideia das attribuiçSes de um chefe de or-
chestra^ é que poderá ligar ainda alguma importância a seme-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 69
Ihante fabula. Como é que um regente, pôde, longe da orcliestray
dirigil-a convenientemente, apontar a cada um as suas entradas,
marcar a expressão por meio da accentaação imperceptível da
batata, enthusiasmar os artistas com o fogo do seu olhar e com o
enthusiasmo do seu gesto ; como pôde o regente fazer tudo isto e
mais ainda, de nm camarote? Só a inveja com a estupidez que lhe
é própria, podia inventar uma historia tão pueril !
E ainda o J. do Commercio faz supposiçSes sobre o caso.
Os adversários de Marcos Portugal attribuem-lhe além does-
te, um outro sentimento mais feio, e vem a ser a inveja e o ciúme
que teve de José Maurício Nunes Garcia, seu coUega na Capella
real. Innocencio da Silva, (ff) diz que o maestro lhe fizera sof-
frer desgostos e humilhações, que Garcia supportava com resi-
gnação e generosidade; não sabemos se isto é verdade, o que é
certo e terem morrido como amigos, estimando-se mutuamente,
como dois grandes artistas que eram. Estas apreciações desfavo-
ráveis do seu caracter, ficam refutadas com a affirmaçSo do J. do
Commercio: cTodavia a algumas pessoas que ainda conservam
reminiscências de Marcos Portugal, temos ouvido dizer que era
homem muito amável e de trato lhano, t
Eis a biographia; aproveitamos principalmente os trabalhos
do Jornal do Commercio, de Fétis e de Innocencio da Silva; a
primeira biographia, apesar de ser a mais completa, ainda tinha
muito facto por aproveitar, muita indução importante para se co-
lher e que os authores tinham deixado passar em claro. O traba-
lho- de Fétis, foi tomado na devida consideração e onde foi neces^
sario, citamos o nome do illustre critico, apoiando com elle toda a
afirmação importante: Emfim a biographia de Lmocencio da
Silva também teve a sua utilidade, apesar de a encontrarmos
quasi toda refundida e melhorada no Jornal do Commercio.
Não demos como se vê, exclusivamente a preferencia a nin-
guém; apesar de nos inclinarmos mais para os trabalhos do Jor-
nal do Commercio, não desprezamos as noticias de Fétis como
I. da Silva fez, a quem só um excessivo amor próprio podia fazer
dizer: (gg) que continham apenas txêserçSeSj todcu convencidas de
70 OS MÚSICOS PORTUQUEZES
inexactidão fiagrante, factos propostos ou antepostos, datcu etn-
dentemente erradas, circumstancias inconciliáveis, etc. etc.; re-
matando com estas palavras pretenciosas : cEis o que no artigo
se nos ofFerece do principio aofim^ (! !)
c A biographia de Marcos ficou por escrever» ; isto equivale
a dizer: fui eu que a escrevi^ o que nSo prova grande modéstia.
Eis a verdade; o seu a seu dono, que é dictado portuguez,
de lei.
Apresentamos em seguida a lista das suas Operas e outras
composiçdes profanas e sagradas. As primeiras n2o vSo, como
devia ser, pela ordem chronologica, que é a mais natural, porque
as apresentamos para maior clareza no fim, n'um Quadro especicd
synoptico e chronologico ; adiante damos a classificação, nSo menos
interessante, feita pelos differentes paizes onde as operas de Mar-
cos Portugal foram representadas. Como se vê, affitstamo-nos do
systema seguido até aqui por todos os biograplios do maestro por*
tuguez ; esperamos que esta innovaçSo, nSo imaginada pelos bio-
graphos antecedentes, aproveitará ao leitor, que ha-de encontrar no
Quadro synoptico, explicada com toda a clareza a popularidade
de cada uma das suas operas, determinada pelo numero de repre-
sentais; enA primeira classificação que adiante fazemos: a pre-
ferencia que se dava a certas e determinadas operas do nosso
compositor, nos differentes paizes da Europa, e o grau da sua po-
pularidade, em cada um d^elles. Damos n'esta segunda ennume-
raçâo o primeiro logar á Itália, porque foi este o paiz que fon-
dou, propagou e confirmou a gloria de Marcos Portugal.
Operas representadas na :
ITÁLIA
Turim 1.) L'Eroe einese, opera buffa, representada em
1788; é citada apenas por Fétis e ignorada
pelos outros biographos. Advertimos que ha
9 operas com este mesmo titulo; distinguem-se
os MÚSICOS PORTUaUEZES 71
as de Gluck, Sacchini e David Perei (Lis-
boa, 1753.)
Genon 2.) La Baeketta portentosa, opera boffa, cantada
em 1788, mezes depois da antecedente.
norwiça 3.) L*A$iutio, opera buffa, cantada na primavera
de 1790. Foi cantada também em ruêso pelos
annos de 1795 a 1797, no theatro de S. Pe-
tersburgo.
4.) Jl Cina, opera séria, representada no theatro
alia Pérgola em 1793.
5.) / due Oobbi, 089ia le eonfuzione nate delia
Bomiglianza, opera buffs, cantada em 1793.
6.) Za Vedova raggirairice, opera buffa, cantada
em Florença em 1794.
7.) L^Áventurieri, opera buffii, cantada em 1795
n'nm theatro particular.
8.) n Bitomo di Sene, opera séria, cantada em
1795, e repetida em 1797 no theatro aUa
Palla-corda.
9.) Zulema e Selimo, opera séria; em 1796, no
theatro alia Palla-corda. Note-se, que ha uma
opera de F. Orlandi, representada em 1813
em Veneza, com o titulo=Zulemo e Zelima=.
Yeaeia 10.) II Molinaro, opera buffa, representada no car-
naval de 1790.
11.) Btnaldo d'Âst%, opera buffii, cantada em 1793.
12.) U Príncipe di Spazzaeamino, opera buffit,
cantada em 1793.
— .) 2 due OiMi, ouia le eonfuêione nate delia 8o-
miglianza, opera buffii, cantada em 1795.
13.) La Donna di génio volvbile, opera buffii, can-
tada em 1796.
14.) II Diavolo a quattro, ossia le Donne eambiate,
opera buffit, cantada em 1797.
li
Venosa
FannA
Milfio
OS MÚSICOS POfiTUGUEZBS
15.) La Maschera forivoMÂa, opera buffay em 1 actO|
cantada no theatro S. Mosé, em 1797.
16.) U Filoêofo 9edice«U, opera buib, cantada em
1798.
17.) Fernando in Mes^ieo; esta opera é conside-
rada no estrangeiro como a sua obra-prima;
foi cantada em 1798, porém com mosica diffe-
rente d'aquella com que f5ra executada no
anno antecedente em Roma^ pela Billington,
18.) Alceate, opera séria, cantada em 1799 no
theatro delia Felice.
19.) Le Nozzt di Figaro, <^era buffii, cantada no
theatro S. Benedetto em 1799.
20.) La Mifdre virtuosa, opera séria, cantada em
1798. £ a mesma opera que=s3emiramidey =3
Morte di Semirade|=Madre virtuosa, =sMa-
dre amorosa==:.
— .) La Donna di génio voluAile, opera buffa, can-
tada em 1791.
21.) Demofoonte; é uma das suas bellas operas no
estylo sério. Foi cantada em 1794 na Seala;
Fétis nilo indica o theatro, porém L. Romani
(hh), traz: Seala, exactamente com a mesma
data, no Carnaval.
— .) / due Chbbi, ossia le eonftusione nate deUa ao-
miglianza, opera buffii, representada na Qua-
resma de 1796.
22.) Idonte, ossia i saerifizi díEcate, opera séria
cantada em 1799, na Seaia.
'^.) La Donna di génio voluhUe, opera buffik; foi
cantada na Primavera de 1799, na Seala.
— .) Idonte, opera séria, cantada no Carnaval de
1800, na Seala.
23.) Le Donne eambiaU, ossia il Cia boitino, opera
08 UUSIOOS P(»lTUGUi:ZES
78
■ilio buffii| cantada na Primavera de 1801^ na
Scala.
Ha uma outra opera de Fioravanti^ cantada
em 1813^ no theatro nuovo di Napoli com o
titulo: 3=11 Cia bottino=5:.
> 24.) Oro non comptxt amare, opera buffit, cantada
no Outono de 1808, na Scala,
» — •) L* Adriano in 8yria, opera séria, cantada em
1815, provavelmente na Scala.
Coubemos 27 operas com este titulo ; entre
as differentes partituras, distinguem-se as de :
Fergolese, Hasse, Scarlatti, Christian Bach e
Cherubini* Em lisboa, cantx>u-se em 1752 uma
opwa com egoal nome, de David Pei*ez.
» 2C.) La Morte di Mithridate, opera séria, cantada
em 1815, na Scala.
Boloika — .) Jl Ritomo di Seree, opera séria, cantada em
1759, porém com musica diversa das repre-
sentaçSes de Florença n'este mesmo anno.
Hapolis 27.) L'Ingaíno poço dura, opera buffa, cantada em
Nápoles, no theatro dei Fioientini em 1796.
— .) Fernando in Meseico, opera séria, cantada
em 1797 pela BiUington, para quem fôra es-
cripta.
28.) UEcquivoco in eejuivoco, opera buffii, canta*
da no Theatro grande, em 1798.
PlaoiíiGia — .) Non irritar le Donne, opera buffii, cantada
em 1799; &i á scena em outras cidades da
Itália, com o titulo, =sll filosofo 8edicente.=
29.) Orazii Curiazi, of&ra séria; foi cantada em
1799, na abertura do novo theatro doesta ci-
dade.
RflOMi
Teroaa
Ferrara
Kttmaro das operas rsprssentadaa na Italia«=29.
74 OB MUSIOOS FORTUGUEZES
PORTUGAL
Usbot — ^) La Donna di génio vohMle, opera buffii, can-
tada a 23 de Janeiro de 1799 em S. Carlos,
por Cresoentini, Caporalini, Schiray Praun, etc.
» —1.) Rinaldo d^Aãti, opera boffii, cantada a 25 de
Abril de 1799 em S. Carlos^ pelo anniversario
da princeza do Brasil, D. Carlotta Joaquina.
O poema foi arranjado novamente pelo poeta
Carayita, e augmentado com mais i Acto,
alem d'aqiielle qne fòra cantado em Veneza, em
1798. Esta opera foi ouvida em S. Carlos
por Caporalini, Zamperini, Praun, Tavani etc*
A 25 de Fevereiro de 1783, subia á scena em
Paris, uma opera de Sacchíni com titulo egual.
I — .) H Barone di Spatxaeamino, opera buffii, can-
tada em S. Carlos a 27 de líaio de 1799, em
beneficio de Tavani, por Schira, Caporalini,
Rostrelli etc. É a mesma opera que foi á sce-
na em Veneza, em 1793, com o titulo :»= II
Principe di Spazzacamino= .
» 30.) Adroito, opera séria, cantada em S. Carlos em
1800 ; vem citada no Catalogo do próprio Mar-
cos Portugal.
9 31.) L'I$ola piacévoU, opera séria, cantada em
S. Carlos, a 26 de Janeiro de 1801; refepda
pela primeira vez nas Efhemerideè immeae$
(Revista dos Espectáculos) de T. Oom.
9 — .) Xa Morte di Semiramide, opera séria, can-
tada no Inverno de 1801 e desempenhada pela
Catalani, por Crescentihi, Praun, Domenico
Neiy etc. Fétis indica a representaçilo dada
em S. Carlos, em 1802. Esta opera, é a mesma
que fei cantada em 1748, em Veneza, oom o
titulosLa Madre virtuosa, =5 e que vem men-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 75
Lisboa cionada no Catalogo de Marcos Portugal com
o nome:=La Madre amoro8a=.
O enredo dramático d'esta opera, tem sido
o assumpto favorito de muito compositor ce-
lebre, pois oontam-se nada menos de 36 operas
com este titolo; tratadas por differentes com-
positores; entre elles vem: Qluck, Salieri,
Cimarosa, Sarti, Paêsiello, Sacchini, JomeUi,
D. PereZ) Hasse, Qraun e ultimamente Mejtf-
beer e Rossini. Entre estas representaçSes,
mencionamos as que se referem a Portugal.
Em 8. Carlos foram representadas, além da
do nosso maestro, as dos seguintes authores :
a de Borghiem 1798, e ade Rossini em 1826,
que cffiíscou as «itecedentes. No theatro de
Salvaterra a de Jomelli, a 25 de Janeiro de
1771.
Marcos Portugal, quando fez representar a
opera em S. Carlos, mudou-lhe o titulo para
o que acima referimos; no libretto declara-se :
jtié a muêica é ioda nova. Esta referencia tem
dois sentidos; ou significa: que a musica era
nova para os lisbonenses, ou que fôra feita de
novo sobre o antigo libretto. O J. do Com-
mercio, conjectura, e talvez com razSo, que
a musica cantada em Lisboa, foi a mesma
que se ouviu em Veneza, e apenas o author
lhe introduziu uma cavatina, ou alguma ária
no papel de Semiramis, feitas de propósito para
pôr em relevo as qualidades artísticas da sua
cantora predilecta. Foi n^esta opera que a Ca-
talani se estrelou em Londres, e n'ella intro-
duziu a famosa ária: Son regina e in mézto
aUfarmi, de que ji atraz fiillamos e que perten«
76 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Uflboa titara autographa d'esta opera^ está actual-
mente na Bibliotheca nacional de Lisboa, que a
comprou ao copista de S. Carlos, Q. CasimirO|
pela bagatella de 9f 000 reis !
» 32.) SofcmMÒa, opera séria, cantada em S. Carlos,
no Carnaval de 1803, em beneficio da Catala-
ni ; na execuçBo foi coadjuvada por Crescentini,
Praun, Boscoli etc. O poema foi arranjado pelo
Abbate dei Maré Compagno, segundo a trage-
dia de Mestatasio. Pelas declarações do libret-
to original, parece concluir-se que esta opera
foi escripta expressamente para a Catalani.
» 33.) U Triomfo di Clelia, opera séria, cantada em
S. Carlos em 1803 pela Catalani, por Crescen-
tini, Angelleli Panisza; o poema foi arranjado
por Caravita, segando o original de Sograsi.
f 34.) Zaira, opera séria, palavras arranjadas por
Caravita; a opera foi executada em S. Carlos,
no estio de 1804 pela Catalani, por Mombelli,
Praun, Gaetano Nery etc. Apesar de subir
á scena em 1804, parece que estava já con-
cluída em 1801 ; tinha grandes bailados, com-
postos por Domenico Rossi.
» 3S.) Merope, opera séria, cantada em S. Carlos a
13 de Maio de 1819, anniversario de El-Rei
D. JoSo ví . A execuçSo foi confiada ás damas :
Luigia Franconi, Theresa Appiani, Francesca
Barlesina e L. Mari. Parece certo, que esta ^
opera foi cantada muito antes, em 1804 ou em
1805, em benefício da Catalani. A partitura
autografha, está em poder do actual copista do
theatro de S. Carlos, Gabriel Casimiro.
» — .) Argenide, opera séria, cantada a 13 de Maio de
1804, no anniversario do príncipe regente. Fo-
ram executantes: a Catalani, MombeUi, Ma-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 77
Lisboa tiiociy e Olivierí. (Vide o Quadro chronologico
das operas; por elle se vê, que foi uma das
composições mais applaudidas e mais repetidas
no estrangeiro.)
» — .) Oro non compra amare; talvez a sua melhor
opqra buffa, cantada no inverno de 1804 ; poesia
de Caravita. Foi em beneficio da Gafforini,
primeira dama buffa; executada por Praun,
Francesco Gafforini, Oiuseppe Naldi, etc.
A partitura autographa doesta opera, que
pertenceu ao archivo musical do fallecido Con-
de do Farrobo, está cm nosso poder.
» — ,) Le Donne cambiate, opera buffa, poema de
Guiseppe Fota. Foi cantada na primavera de
1804, em beneficio de António Palmini, sendo
executantes: a QaíForini, António Naldi, Pe-
drozzi, e Palmini. Esta opera foi também
cantada em Veneza, em 1797, com o titulo R
Diavolo a quattro, ossia le Donne camliate;
cm diffcrontes tbeatros da AUemanha com o ti-
tulo: Der Thufel ist los; e na Scala, com ou-
tro titulo ainda, e vem a ser: Le Donne cam-
biate, ossia il cia bottino*
» 36.) Oinevra di Scozzia, opera séria, poema de
Caravita. Cantou-se em S. Carlos no inverno
de 1805, cm beneficio da Catalani, acompanha-
da pelos artistas: Matucci, Mombelli, Olivieri,
e Xery. A opera foi posta em scena com gran-
de explendor, sendo o scenario composto pelo
celebre Mazzpneechi.
» 37,} II Duca di Foix, opera séria; poema de Cara-
vita, extrahido da tragedia de Voltaire. Can-
tou-se em S. Carlos em 1805, em beneficio da
Catalani ; foi auxiliada por Matucci, Mombelli,
Olivierí, etc. Esta .opera nSo foi com menos
78 OS MÚSICOS PORTUODEZES
apparato do que a antecedente; na acena 6.*
do Acto n, havia a vista de um acampamento
milhar.
— .) Fernando in Measico, opera séria; cantada em
1805 pela Catalani, Matucci, Mombelli, OH-
vieri, etc. (Vide as representações de Veneza,
1798 e Roma, 1797, Quadro synoptico.)
3t.) Arta$er$e, opera séria; poema arranjado por
Caravita sobre o original de Metastasio; re-
presentou-se em S« Carlos, no outono de 1806,
em beneficio da prima dona Eufemia Eckart,
ajudada pela MariannaSessi, Mombelli, Gian-
fardini e Filippo Senesi. A Catalani tinha sa-
bido n^este anno para Londres e Paris pela
Hespanha.
39.) Morte di Mithridate, opera trágica, com pala-
vras de Caravita. Cantou-se no Carnaval de
1806, em beneficio do primeiro tenor Mombel-
li; os outros artistas eram: a Catalani, Matuc-
ci, Olivieri e Bonini.
— •) Demofoonie, opera séria, cantada em S. Carlos
a 15 de Agosto de 1808, na recita extraordiná-
ria mandada dar pelo general Jimot, para fes-
tejar o anniversario natalicio de Napoleão i.
Cantaram n'ella a Eckart, Nery, Calderini,
Bianchi, etc. Um libretto de 1819, indica que
Voltou á scena a 25 de Abril d'e88e anno, para
festejar o anniversario da rainha D. Carlota
Joaquina. Foi cantadan'esta segunda vez, pelas
damas: Carolina Massei, Thereza Zapucci,
Thereza Appiani, Justina Piacentini, Luigi
Mari, etc. Esta opera foi cantada anteriormen-
te em 1794, na Scala em MilSo. Este assumpto
tem sido também um dos favoritos, pois conhe-
oem-se nada menos de 33 JD&nofoonte$; entre
estas partituras, distinguem-se as de Gluck
os MÚSICOS PORTUGUEZES 79
Lisboa Paesiello, Hasse, Jornelli, (Ajuda, 1775} David
Perez (Lisboa, 1752) e Graun.
A partitura autographa, que pertenceu ao
archivo musical do fallecido Conde do Farro-
bo, está em nosso poder.
» 40.) iZ IHamfo di OusmanOj opera séria, cantou-se
em S. Carlos a 10 de Janeiro de 1810, e repe*
tiu-se a 10 de Junho de 1816, segundo outro li-
bretto ; foi em beneficio da prima donna Felice
Vergé, ajudada pelos artistas: Carolina Neiy-
Passerini, Cario Barlazina, L. Mari. O Jornal
do Commercio suppSe que fòra escrípta no Rio
de Janeiro*
Numero das operas representadas em Portugal s»20.
brázil
Rio de Jan.*^ — ) Denwfoonte, opera séria, cantada no theatro
régio, a 17 de Dezembro de 1811, anniversa-
rio da rainha D. Maria i. Entre os cantores,
encontra-se apenas uma italiana: a prima
dtmna ScarameUi, que tinha estado em 1806,
em S. Carlos. A outra dama, que se chamava
Maria Cândida, era portugueza, assim como
todos os outros cantores.
» — .) VOro n(m compra amore, opera buffa, cantada
a 22 de Agosto de 1817, no theatro de S. JoSo«
» — .) iíerope^ opera séria, cantada a 8 de Novembro
de 1817 no mesmo theatro.
Numero das operas representadas no Brasil =3.
80
OS MÚSICOS PORTUGUEZES
ALLEMANHA
Drssdeii
Breslau — .) H ifolinaro, opera buffii^ cantada em 1792 no
theatro da Opera.
Dresden — ,) La Somiglianxa, oê$ia I Oobbi, opera buffil,
cantada no Theatro da Opera em 1793.
— ,) Lo 8pazza comino, opera bafEn, cantada em
1794; no mesmo theatro.
— .) La Vedava raggiratriee, opera boffa, cantada
em 1795, ibid.
— .) La Donna di génio voltJnle, opera bnflEa, can-
tada em 1798, ibid.
— .) Ze Donne eanAiaée, intermejBZO buAb^ cantado
em 1799; também se cantou ein allemão com
o titulo : ==I>er Teufel ist los=(o Diabo á sol-
ta) ; o compositor Gestewitz (hh) escreveu um
Jiiial para esta traduçSo.
— ,) Le Confuzione ddla Somiglianza, opera buffa,
cantada em 1794, no Theatro da Opera. Foi
também cantada em diflferentes outros theatros
da Allemanha, em alleimão, com o titulo==yer-
wirrung durch Âehnlichkeit, oder die Beiden
Bucklichten.
Vienna
Numero das operas representadas na Allemanhaag?.
FRANÇA
Paris —
.) Non irritar Le Donne, overo il êedicenie Filo-
sofo, opera bufia, cantada em 1801, quando
n'este annu se reabriu o theatro italiano por or-
dem de NapoleSo i.
os MÚSICOS PORTUGUEZES
81
IKGLATERBA
LondPM — .) Argenide, opera séria, cantada em 1806 no
King's theatre pelos eelebres artistas^ Billington
e Braham.
BUSSIA
S.Petersb.**
.) H Príncipe di Spazzacamino, opera buffa, can-
tada pelos annos de 1793 a 1796; em itisêo»
.) Argenide, opera séria, cantada entre 1794 e
1795, egualmente em russo.
.) Art(í8er$e, opera séria, cantada em russo , de
1794-1795.
Total das operas representadas em Portugal
e no estrangeiro a= 40.
OnaUS TBADUZIDAS DO rTALIANO, DRAMAS COM MUSICA, ETC,
CANTADOS EM DIFFEBENTES THEATBOS DE
3/ ORDEM, EM LISBOA
1.) Pequeno drama, feito para celebrar o anniversario da
rainha D» Maria i, e representado no Theatro do Salitre a 17 de
Dezembro de 1787. A poesia, era de José Caetano de Figueiredo ;
íbi cantado pelos actores José Félix da Costa, António Manoel
Cardoso Nobre, Nicolau Ambrozini, Victorino José Leite e José
dos Santos.
2.) Idyllio, cantado a 25 de Abril de 1788, no Theatro do
Salitre, pêlo anniversario da Infanta D. Carlota Joaquina. A
poesia era de José Frocopio Monteiro, actor do mesmo theatro;
82 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
foi cantado por António Manoel Cardoso^ Custodio José da Gra-
ça e Victorino José Leite, com coros.
3.) Licença pastoril, que se representou no Theatro do Sali-
tre, a 25 de Julho de 1787, para festejar o anniversario daprin-
ceza D. Maria Benedicta.
4.) La puríssima Concezione di Maria Santíssima, Madre
di Dio; cantata scenica da representarsi neW Oratório de S, Si-
gnoria il sig.* em 8 de Dezembro de 1788.
5.) Gratidão, drama com musica, para ser representado no
mesmo theatro e na mesma festividade, a 25 de Abril de 1789.
Poesia de António Neves Estrella. Cantado por José Procopio,
António Manoel Cardoso, Victor Procopio de Borja e Victorino
José Leite; estes dois últimos faziam as partes de damas, (ii)
6.) ^ Inveja abatida, pequeno drama, com musica, repre-
sentado a 13 de Maio de 1789, pelo anniversario do príncipe do
Brazil, D. João. A poesia era de José Procopio Monteiro, e foi
cantado pelos actores José Porphyrio, Victorino José Leite, An-
tónio Manoel Cardoso, Victor Porphyrio, etc.
7.) ^ Noiva fingida, burletta em verso, representada no Sa-
litre, em 1790. Era uma traducção de uma opera buffa italiana:
=Le Trame diluse.= Foi cantada pelos actores Diogo da Silva,
António Manoel Cardoso, José Arsénio, António José da Serra,
Victor Porphyrio e Victorino José Leite; estes três últimos faziam
as partes de damas.
8.) Os Viajantes ditosos, burletta em verso, traduzida do
italiano =1 Viaggiatore felice=. Foi cantada no Salitre, em
1790, pelos actores Victorino, Silva, Cardoso, Victor Arsénio e
Madeira.
9.) O Mundo da lua, burletta, traduzida do italiano, com os
recitativos em prosa. Representou-se no Salitre, porém ignora-se
a data.
10.) A Casa de campo, traduzida do italiano =La Villa.^
Cantou-se no Theatro da Rua dos Condes, cm 1802, mas ignora-se,
se se imprimiu, assim como as seguintes:
os MÚSICOS PORTUGUEZES 88
11.) Quem husca lã fica tosquiado, biirletta, traduzida do ita-
liano =L'£cqaiyoco=; foi á scenano Theatro da Kua dos Con-
desy em 1802.
12.) O Sapateiro ; representou-se no mesmo theatro e no mes-
mo anno.
13.) A Mascara; idem.
BURLETTAS E PEÇAS SECUNDARIAS, CANTADAS NO RIO DE JANEIRO
14.) A Saloia namorada, burletta; cantou-se em 1812, na
Quinta daBoa-Vista, pelos escravos do regente (D. JoSo vx).
15.) O Juramento dos Numes, drama allegorico, cantado na
abertura do Theatro de S. Pedro d' Alcântara, (jj) a 12 de Outubro
de 1813. A poesia era de D. Gastão Fausto da Camará Coutinho.
Nas Memorias históricas do Rio de Janeiro, por Monsenhor
Azevedo Pizzaro, diz este escriptor, que fôra Bernardo José de
Souza Queiroz o author do = Juramento dos Numes ==; parece ser
erro, porque o Jornal do Commercio declara positivamente, que
viu o folheto em que se diz, que fji Marcos Portugal o author
da musica. Entretanto, Balbi, (kk) fallando d*esta composição,
cita umas iniciaes: N. N. (vide ai/ pagina doeste volume), dei-
xando o nome em anonjmo; ora, se a composição foi escripta por
Marcos Portugal, tel-a-ia coUocado debaixo do seu nome, por
que menciona o nosso maestro honrosamente em outro logar ;
pôde também ser, que houvesse dois dramas, um com musica de
Queiroz e outro com musica de Marcos Portugal.
16.) Augúrio di felicita, ossia il triomfo dei amare» Serenata
em 2 parted, cantada no Paço do Rio de Janeiro, em 1807, para
festejar o casamento do príncipe real D. Pedro, com a archidu-
queza D. Maria Leopoldina. Foi executada pelos cantores da real
camera ; a poesia era do próprio Marcos Portugal, que aprovei-
tou quanto foi possivel, uns versos de Metastasio, como o librettô
impresso, dedará.
*
H OS MUSIOOS PORTUGUEZES
Além das composiçSes que ficam mencionadas, eserevea
moitas outras de ordem inferior: Cantatas, Sonatas para Piano,
Entremezes, Farças, etc. ; doestas ultimas mencionamos;
O Afnor artífice*
A Castanheira*
A Casa de cafi.
0$ bons amigoe.
Devemos ainda fitzer notar, que Marcos Portugal, introdu-
ziu em mais de 20 operas de Cimarosa, de Gluck, de Paesiello, de
Zingarelli, de Fioravanti, etc, representadas em S. Carlos, de
1800 a 1806, debaixo da sua direcção: muitos trechos originaes,
taes como e<^8, árias, duettos e até scenas inteiras.
PABITTURÂS AUTOGRâPHAS DE OPEBAS
1»
MARCOS PORTUGAL
1.) Za Morte ii Semiramide, na Bibliotheca nacional de
Lisboa*
La Morte di Semiramide.
Zatra*
La Morte di Mithridate*
Merope. I NaBiblio*
Oinevra di Scozia* > theca real da
tkmofoonte. \ Ajuda.
Fernando in Meeêico.
Licença poêtoril. 25 de Janeiro de 1787.
Pequeno drama. 17 de Dezembro de 1787.,
Entre estas partituras, apenas algumas sSo authographas ;
aoppomos serem as que t8o marcadas com algarismos, por se
conhecerem já os authògraphos das outras.
2.
3.
4.
6.
7.
os IfUSIOOS POBTUGUEZES 8»
8«) Mirope, em poder do copista de S. Carlos, Qabriel Ca-
Bimiro*
9.) DemofoonU, partitura outr'ora pertencente ao Oeoend
Jtmot, Duque d'Afarante8 ; depois do antigo copista de S. Carlos,
Joaquim Casimiro da Silva; em seguida, dada ao Conde do Far-
robô e hoje em nosso poder.
10.} Oro non ccmpraamore; partitura outr'ora do Conde do
Farrobo; agora também em nosso poder.
Possuimos ainda os seguintes trechos isolados (em copias)
de operas do nosso celebre maestro :
Oro non compra amare.
1.^ Symphonia, em reducçSo de Piano.
2.® Duetto e Becitat.=sSignoEa mi perdonimxem part.
Argenide.
1.^ Recitat. e Duetto :ss=Si fido a me tu seisesem pari.
2.^ Recitatiro e Duetto:»: Tu Tami, e in cor per luin»
em partitura.
Morte di MUhridate.
\J* Cavatinas^Partite deli' miocoreasem partitura.
2«° Becitat. e Aria=s9=Per queste amare lagrimes»em part.
Semiramide,
1.^ Aria=Qual palor! qual tema Ia» em quartetto de
instrumentos de cordas.
2.^ Duetto 3=e Non tremar io t'offiro il petto«K=«m partitura.
Adra^to.
Symphonia para Piano.
n Duca di Foix.
Cavatina :»>La pena che sento^^em partitura.
Ritomo di Serse.
1.® Sjnmphonia para Piano.
2.^ Cavatina com coros, =«Qual rea TUtade i qu0sta=s
em partitura?
Artaeerse,
1.® Sfmphonia em partitura; ameima para duas flautas;
reducçlo de Casimiro.
86 OS MÚSICOS PORTUGTOEZES
2.® Aria=Non ti son paclre=para Piano e Canto.
3.^ Recit. e Rondo =So8pirando afflitta e 8ola=em part.
Zaira,
Scena e Ária s= Oppresao, agitato, tradoto in amore=
em partitura.
Triomfo di Clelia.
Duetto=Al campo andiamo fra Tarmi triomfar=em
partitura.
Orazi i Curiazi,
Duetto=Syename ormai crudel=em partitura.
Gfinevra di Scozia.
1.® Acto completo, em partitura.
Em um Catalogo da antiga casa Launer de Paris, hoje
E. Oirod, encontramos com grande surpresa nossa, umas compo-
siçSes de Marcos Portugal, que em seguida mencionamos. Em
França lembraram-se do nosso artista já ha 10 annos, (pois o ca-
talogo é de 1860) quando ainda hoje muito portuguez se espanta
de ouvir o nome de Marcos Portugal, como de um artista e com-
po9Ítor; parece que acordam de um sonho ; acceitemos esta liçSo
que nos Tem de fora, oxalá que ella nos aproveite. Eis os tre-
chos publicados:
La Donna di génio voluhile»
N.* 2. Cavatina S.=Per amor abbiamo.
Nota. ffCette cavatine est de Marcello di Capua.»
N.* 2. Terzetto. S. T. B.=Deh! vieni amato.
N.** 3. Duetto. S. B.=Amor vi chiedo.
Nota. cCe duo est de Farinelli.»
N.^ 4. Scena ed ária. S.=I1 tenero mio core.
Nota. ffCet air est de Fioravanti.»
N.* 5. Terzetto. T. B. B.=Dille, che i doni suoi.
Segundo as declarações das notas do catalogo, se vê, que só
08 números 2 e 5, são de Marcos Portugal.
Oro non compra amore.
N.^ 1. Duetto S. B.ssLe agnelette il caro ovile.
N.^ 2. Ária. B.=Alle vesti ed air aspetto.
os MÚSICOS PORTUGDEZES 87
NSo deve estranhar esta circumstancia, porque este uso, dos
compositores introduzirem árias e duettos de outros authores nas
suas obras, estava generalisado, como se vê nas paginas 21, 22,
23, 24 etc. do mesmo catalogo francez.
Na opera de Sarti : Le Nozze di Dorina, lê-se debaixo do
N.® 2: cCe trio est de Motart; no N.^ 4: tCe duo est de Moaea*
Na opera: /• Nemici generosi de Cimarosa, N.^ 3: cCe duo
est de Pavesi; N.® 4 : cCet air est de Andreozzi; N.^ 8 : cCe duo
est de Paveèi.
Na opera: Modista raggiratrice dePaêsiello, N. 1 : fCe duo
est de Moêca dans H Filosofo.
No Matrimonio secreto de Cimarosa, N.® 20 : <Ce duo est de
Farinelli.
Já se vê que estes plagiatos amigáveis, eram recíprocos,
porque, se Marcos Portugal se utilisou das ideias de Marcello di
Capua, de Farinelli e de Fioravanti, também na opera La Moli-
nara de Paesiello, encontramos oN.^ 2, com a nota: cCet air est
de Portogallo.^ Na opera Gli Orazzi ed I Curiazi, de Cimarosa
lê-se no N.^ 16: fCette eavatine a été faite pour M.* Catalani
par Portogallo,
E provavelmente a estes plagiatos que se referia o tal gran-
de compositor, que Marrocos cita na sua carta de 28 de Septem-
bro de 1813.
Apresentamos em seguida uma lista clironologica dos factos
mais notáveis da vida do nosso celebre compositor, synthetisando
em algumas paginas, o que dissemos n'esta longa biograpfaia; es-
colhemos para isso as datas que nos pareceram mais certas, entre
as dos seus três biographos, sem distincção especial por um ou
por outro.
Adoptamos alguns factos mencionados por Fétis, nSo obs-'
taate as razSes do Jornal do Commercio e de Innocencio da
Silva, porque não as julgamos sufficientemente fortes, para des-
truir muitas vezes, apenas por meras hjpotheses, a affirmaçSo de
um facto pelo primeiro musicographo que existe.
Nós nSo poderemos avaliar a veracidade dos factos meneio-
88 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
BAdoB por Fétis, entqnanto nlo BoubermôB se eram dignas de fé,
as fontes d'onde tirou aqnilio que em Portugal ignoramosi
Até Hf podemo-nos conservar apenas em espeétativá pru-
dente; proceder d'outra maneira, seria faltar á lógica.
£ verdade, que oMo em contradicçSo com o Catalo^ aufo-
grapho de Marcos Portugal; todavia n2k> é só Fétis, que lhe écon^
trario, mas também Gerber, T. Oom, PlatXo de Vaxel, V. Mor-
koff (II) e o próprio Jornal do Coramercio ; a quesiSo da authentici-
dade do catalogo, é muito melindrosa, e para nós nSo está, nSô só
resolvida, mas até posta em duvida; admittindo mesmo, contra
todas as apparencias, a authenticidade, é incontestável que o
catalogo está muito incompleto, como já o provamos n^esta bio-
graphia.
£in outros casos porém, nSo tivemos a menor duvida em
emendar os erros de Fétis, desde o momento em que as opiniões
oppostas do Jornal do Commercio, e de Innocencio da Silva, es-
tavam suflicientemente authenticadas.
Julgamos ter procedido imparcialmente, e poder agora apre-
sentar aqui a sjmthese dos factos, cuja origem e authenticidade,
discutimos e analysamos com a maior boa fé e com toda a justi^.
ÈACTOS DA VIDA DE MARCOS POffrUaAL
1762 Y 24 de Março. Nasce em Lisboa.
Innocfflicio da Silva (^rcAtvo Pittorêsco, vol. vii,.pag.
290. Fétis, (Biogr, Univ. àeê Mueiciens, rol. Vii,
pag. 105) indica a data 1763.
1770 Entra no Seminário Patriarchal ; aprende ahi os rudimen-
tos da Arte e completa os seus estudos debaixo da di-
recção de JoSo de Sousa Carvalho, Director do Semi-
nário. Jornal do Commercio.
177? Frequenta o Seminário de Santarém e recebe liçSes do
Cónego Gal]2o* Facto duvidoso.
os MÚSICOS PORTUGUKZilâ S»
1 77 T LlçSes de câ&to de Bonielli . Primeiras compMiçSes : Aríaê
e Caútoneiaa italiana$, oom acompAnhattento de or-
chestra. Fétis. Facto contestado por Ilmooeiício da Silva.
1776 Primeira composição Ukcr$í: Miserêt^ a 4 voMê*
I. da Silva.
1779 Secada composiçSo sacra: Ladainha a 4 vouê, eseiiptn
para o Seminário. Idem.
1782 Parte para Madrid com Borselli ; é nomeado por inflnte-t
cia d'este: AcompanJundor dê Cravo, na Opera^
Apresentação ao Embaixador de Portngal; este fidalgo
fomece-lhe os meios para ir estudar na Itália*
17S7 Cliega á Itália.
Facto contestado pelo Jornal do Commercio e por I. da
Silva, assim como todos os outros, até ádata 1797, in-
elnsive. O primeiro author, oolloca ai.* viagem no ê%*
gundo semestre de ITOé, e a volta no primeiro de 1785 ;
a 2/ entre 1795 è 1799. I. da Silva, indica a 1.* via-
gem em 1792, que elle prolonga até 1799, sem fallar
da 2.* Estas supposiçoeS tem poucas probabilidades de
certeza, em vista dos factos mais positivos de Fétii*
ii%% Primeira opera : VEroe cinese, em Turim ; pouco e^ite ;
mezes depois, segunda tentativa com a SacTuita pOT'*
tentoêa, em Génova; grande èntkusiasno. Fétiâ.
1790 n Moliiiaro, consolida a sua reputaçSo» Volta a Portugal
e é nomeado Mestre da CapeUa reáh Fétis.
1791 Segunda viagem á Itália» Fétis^
1783 Sucesso extraordinário do Príncipe di Spa^ãocamino»
Fétis.
1794 II Demcfoonte, na Scala, em MilXo» Fétis.
1797 Fernando in Menico, em Roma, cantado pelaBillingtooi;
é considerada no estrangeiro como a sua obra prima.
Fétis.
1789 Chegada a Lisboa, depois da 2.* viagem. J. do Com-
mercio.
1799 , 23 de Janeiro. La Donnadt <|reniot7oZtiii76; primeira ope-
ra, cantada em S. Carlos. Idem.
90 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
1801 , 1 de Mak>. Abertura do Theatro italiano de Paris/ por
ordem do primeiro Cônsul NapoleSo Bonaparte, com:
Non irritar le Donne ; grande successo.
Moniteur universel e Gerber. {N. hisL biogr. Lex. der
TonkiinstL, vol. iii, pag. 754.)
1801 '\ Relações de Marcos Portugal com a celebre Catalani; in-
a > fluência do maestro portuguez sobre o talento doesta
1806y grande cantora.'
1807 InvasSo dos francezes; commandada por Junot; fiiga da
£eunilia real para o Brazil; Marcos Portugal fica.
J. do Commercio.
1808 , 15 de Agosto; anniversarío de NapoleSo i. Marcos Portu-
gal dirige o Demofoonte pessoalmente, em S. Carlos.
Idem.
1809 Fechasse o theatro de S. Carlos, pelas circumstancias,
precárias da empreza e pelo estado politico do paiz.
Marcos Portugal resolve sahir do Reino. Propostas van-
tajosas de varias cortes da Europa, feitas ao nosso ar-
tista. A sua recusa. Idem.
1810
ou
1811
1811 Chega ao Rio de Janeiro; reassume as funcçSes de Mes-
tre da CapeUa real e da real eamera.
Missoê e Matinas solemnes do Natal, a grande órchestra
para a Capella real. Idem.
1811 Soffire o primeiro ataque paralytico. Marrocos, 1.* Carta.
1811 É nomeado Director geral de todas asfuncçdes piMiccLS,
assim deegreja, como de theatro. Marrocos, 1.* Carta.
1813 E nomeado Inqueridor das justificações do reino, com o
rendimento de 4 a 5:000 cruzados; Director do Con-
servatório de Santa-Cruz {dos Negros) conjunctamente
com seu irmão, SiroSo Portugal, e Mestre da familia
real. Marrocos, 5.* Carta.
Parte para o Brazil, acompanhado por alguns artistas.
Idem.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 91
1813 , 12 de Outubro. Abertura da Opera (S. JoSio) do Bio de Ja-
neiro ; é nomeado Director e compõe varias operas no-
vas para este theatro. J. do Commercio.
1813 T Recebe a Commenda da Ordem de Christo. Idem.
1815 , 30 de Dezembro. Nomeação de Sócio correãpondenfe do
Instituto nacional de França; officio honrosissimo do
Secretario. Idem.
1815 Ultima viagem á Itália ; despedida com : La Morte di Mi
thridate. Fétis. Facto contestado pelo J. do Commer-
cio e por I. da Silva.
1817 Sofire segundo ataque de paraljsia. Marrocos, 6.* Carta.
1817 Officios de Defuntos e Missa de Exéquias, a grande or-
ehestra, por alma do Infante D. Pedro Carlos. Dirige
no Theatro de S. João a sua Opera: Oro non compra
amore. J. do Commercio.
1820 Missa solemne, para celebrar o anniversario da acclama-
çSo de D. João VI. J. do Commercio.
1821 A c6rte volta para Lisboa. Marcos Portugal fica no Rio
de Janeiro. Hospitalidade generosa da Marqueza viuva
de Aguiar. Cessam todas as noticias até 1830.
J. do Commercio.
1830 , 7 de Fevereiro. Expira em casa da sua protectora, sue-
cumbindo a um terceiro ataque paraljrtico. É sepul-
tado no dia 8, na capella de Sant'Anna do claustro do
convento de Santo António dos Franciscanos. J. do
Commercio.
T M. de Araújo Porto- Alegre encontra as cinzas do grande
artista no convento mencionado, e manda-as collocar
no mesmo logar, encerradas em uma uma de madeira.
I. da Silva.
9S OS MÚSICOS PORTUaUEZES
MUSICA SAQU
a.) parutuhás psktekcektes ▲ cápblljl ksal dá bempostá,
QUE TÁB&kUàM PABA ÀB KBCBSSIDADES, B EStZo HOJB Xá BI-
BUOTHBCA BEAL DA AJCDA.
1.) Miserere a Canto de Órgão para 4 voee»^ escrípto em 1
1776) com 14 amios.
i*) Ladainha a 4 í>ox€$, eom aecmpanhamênio de Cravo,
para o Seminário, em 1779.
3.) Piolmot a 5 vazê$, para a Patríarchal. \ ^
4.) Vartat Antiphonoê* jS
50 Rétponiorioê. f A
€.) Mitererè a 5 votea. í t^
7.) Ihiãê MisêOi, a grande orckutra, e outras para) q>
a capella real de Qaeluz* /
8.) DvMê MisêOêde Canto de Órgão, para a Patriarchal ; de
1783 a 1784.
9.) 3 Misêos de eapella, a 4 vou9 e Órgão»
10.) Uma Miêoa grande*
11.) Matinoê da Conceição.
12.) Peahnoe a grande arche&tra*
Laudaie pueri Dominum*
Dixit Dominuê*
Cof^fitebor.
Miserere.
Lauda Hieruãolem.
Lmtatuê eum. ,
Niêi Dominuê.
13.) Credo a 4 vozes e orcheetra, 1810.
os MÚSICOS POBTUGUEZES 98
h.) PARTITURAS AUTOGSAPHAS QUJB VIERAM DO RIO DE JAITSIROy
E QUE EXISTElf KA BIBUOTUECA DA AJUDA
14.) Matincu do Natal, eompostas em 1811 par» a oapell»
Feal do Rio de Janeiro, por ordem do regente.
15.) Miê9a a grande orcheHra, para a mesma festividade»
em 1811.
16.) JSejuentia de Pentecostes: ss^Veni Saneie Spiritus, em
1818.
17.) Aíatinas completas :^=ln Epiphania Domini«=K, com
acompanhamento de OrgSo e instrumentos de Vento. Eriecu-
tou-se nacapella real do Rio de Janeiro, por ordem do regente»
em 1812. Sao 3 volumes.
18.) Matinas da Qutnta-Feira Santa para voses e grande or^
chettra; cantaram-se na mesma capella, em 1813; 8 volumes.
19.) Mtserere a gramle orchestra; devia-se executar em Quin-
ta-Feira Santa, na Capella real do Rio de Janeiro, 1813.
20.) Grande Te Deum para vozes e grande orchestra; feito
por ordem do regente para se executar tm 1813, na capella real
do Rio de Janeiro.
21.) Seqaentia a grande orchestra, para se cantar na real Ca-
pella do Rio de Janeiro, no Domingo de Pàschoa da Resurreiçio»
em 1813.
22.) McUinas novas, cantadas a 26 de Julho de 1812, par»
commemorar o fallecimento do Infante P. Pedro Carlos.
23.) Versos tirados dos Psalmos, 2 e 6; a votes^ grande
orchestra e Órgão obrigado, para se cantarem na real capella do
Rio de Janeiro, a 24 de Junho de 1813, em obsequio do nome
do screnissimo príncipe R. N. S.
24.) Matinas de 8. Sebastião, para se cantarem Ra real ca-
pella do Rio de Janeiro, em 1814.
25.) Miesa a grande orchestra, feita em 1814, por ordem de
S. A. R. o principe regente, para se cantar na capella real.
260 Qrande Missa; executada em 1817, pela chegada da
princeM real.
94 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
27.) Crtdo, para vozes e orchestra; em 1817.
28.) Officio e Missa de exéquias, a D. Maria i ; foram exe-
cutadas debaixo da direcção do próprio Marcos Portugal.
29.) Sequentia a 6 órgãos, para a real Basílica de Mafra. O
maestro Miguel Ângelo, disse-nos que encontrara n'esta mesma
Bibliotheca (Ajuda) uma Sequentia admirável de Marcos Portu-
gal; pôde mu^to bem ser que seja esta. Infelizmente não a pode-
mos examinar, porque com as Bibliothecas d^ Portugal, suocede o
contrario das do estrangeiro : estão quasi sempre fechadas, para as
raposas lá avidarem ás uvas.
30.) Officio e Missa de eocejuias, por alma do Infante D. Pe*
dro Carlos, em 1819.
31.) Te Deum, para a capella real; executou-se em 1819.
32.) Missa solemne, executada em 1820, para celebrar o an-
niversario da acclamaçSo de D. JoSo vi.
Resta-nos agora dizer alguma cousa a respeito das qualida-
des de Marcos Portugal como compositor, nos differentes géne-
ros que tratou: Opera buffa, Opera séria, Musica sacra; exami-
nar os defeitos e as bellezas das suas variadas composiçSes,
emfim, por meio da determinação do seu estylo, dar-lhe a devida
coUocaçSo no Panthéon artistico da sua pátria, e depois no ou-
tro mais vasto que pertence á Arte de todos os paizes.
A rasão, porque ninguém ou quasi ninguém, se tem lembra-
do do nosso celebre maestro, é obvia; n^este paiz desventurado,
cada um cuida apenas das suas couves e das suas batatas, e julga
ter feito o seu dever. É triste.
Era porém para admirar que lá fora tivesse succedido o
mesmo, quando em toda a parte ha um ou outro litterato, critico,
cantor instrumentista, ou compositor, que se esforça muitas vezes
por trazer á luz do dia uma pérola perdida ; era para admirar, a
ignorância ou antes o pouco conhecimento das obras do nosso ar-
tista, se nSo houvesse uma rasSo que a explicasse. É a raridade
os MÚSICOS PORTUGUEZES 95
das suas obras, porque só ha pouco é que se publicaram em
Paris, alguns trechos das suas operas. (Vide pag. 86.) Apenas
alguns theatros da Itália possuirão uma ou outra partitura auto-
grapha ou copiada, pois aqui em Portugal, onde mais se de*
morou, conhecem-se apenas 10, uma na Bibliotheca nacional,
outra em poder de O. Casimiro, duas em nossas mSos e as res*
tantes na Ajuda.
As colleoçSes particulares sSo ainda mais pobres, pois além
da nossa, enriquecida ultimamente, pela generosidade de Joa*
quim José Marques, nSLo conhecemos outra; este ultimo cavalhei-
ro, possuia alguns trechos isolados da Semiramíde, Oro non com-
pra amorej Argenide, etc. com que teve a amabilidade de nos
presentear. Em mãos de particulares, conhecemos apenas a par-
titura autographa da já fallada Merope, que pertence ao copista
de S. Carlos, Gabriel Casimiro.
São estas as informações que temos; não as julgamos infal-
liveis e até folgariamos, se apparecesse entretanto alguma mina
desconhecida, que viesse desmentir o que deixamos escripto.
Não obstante este esquecimento manifesto, ainda uma ou
outra vez, surge d'improviso uma noticia inesperada que vem des-
mentir por alguns momentos um silencio tão injusto. Infelizmen-
te estas lembranças são quasi todas de estrangeiros, (como adiante
veremos) o que prova bem a nossa incúria e ignorância.
Feitas estas observações, entremos na apreciação d'aquillo
que conhecemos do nosso maestro.
Principiemos com a Argenide, Recitativo tChe dubbioso
sentier!» e no Tercetto:
cSi fido a me tu sei>, do l.^Ácto, Scena xii.
Depois de alguns accordes surdos pela orchestra, ouve-se um
solo de oboé; a ideia, uma melodia suave e triste, predispõe com
o som melancholico do instrumento, o ouvinte para a situação que
se vae desenrolar diante de seus olhos ; depois de um pequeno inci-
dente pelas rabecas, exclama Argenide: cche dubbioso sentier!»
e o oboé em resposta, recomeça o seu canto plangente ; mas a
phrase é cortada por ulna nova. interjeição : cChe oscure vie ! > . . •
99 03 MÚSICOS PORTUGUEZES
o oboé responde, continuando a ideia interrompida; cehe tetro
speeo. • • » Vemos a pobre Argenide em logar mysterioso, n'um
subterrâneo escuro, á esperado amante; a anciedade da entrevis-
ta, o medo que lhe inspira o logar, a bora da noite, refleotem-sa
Bo recitativo e no acompanhamento da orchestra ; a infoUs cha^
ma pelo amante; Sebaste appareee e com elle novamonte o me*
tivo do oboé.
Argtnide convida-o a fugir; elle hesita, porque teme a có-
lera do pae a quem vae roubar a amante :
cÁl caro padre, oh Dio I
Come rapir po8s'io
La sua felicita.»
Argenide insiste, exclamando a bella phrase :
cSi fido ame tu sei,
Deh siegui i passi miei,
Amor ei assisterà!»
Antes dos dois poderem tomar uma resoluçSo, slo sur-
prehendidos por Xerxes, que alli fôra condusido por Bars^ie, ri-
val d'Argenide.
Allegro molto vivaee; a orchestra traduz a agitaçSo que a
entrada inesperada vem lançar no animo dos dois amantes:
cPerfidè : alfin palese
E 'il vostro indegno ardore.»
Debalde imploram a piedade de Xerxes; uma escala da or-
chestra em f^rte, termina, quando o rei rompe com a phrase
enérgica, accentuada intencionalmente pelas rabecas:
cNel cárcere piit orrendo
Si tragga il figUo indegno ;
os MUSIOOS PORTUGDEZES 97
Vittima dei mio sdegno
Sagli occhi tuoi morra.»
O Andante a ^j^, que segue esta scena agitada, começa pelas
!•** e 2.*^ rabecaS; que indicam a ideia em 4 compassos.
cÂh! chi mai in tal momento
Ha pietà dei nostro amor?»
exclamam os dois amantes ; a ideia em ambas as vozes é quasi a
mesma, seguindo Sebaste a toz de Argenide em terceiras ; a me-
lodia, de uma expressío suave e tema, é acompanhada em frag-
mentos pelas 1.** e 2.^ rabecas, oboés e fagottes; Xerzea nSo
se enternece, e exclama:
cVa crescendo ii mio tormento
P]& mi awampo di furor.»
Temos ainda um AUegro final. Âs rabecas começam oom
uma ptirase que encontramos mais tarde na ideia do tnãenMe que
termina o tercetto.
 situa^ dos personagens explica-se com estas palavras:
«Qual tumuho sento ali' alma.
Qual contrasto ai cor mi sento.»
Tudo se agita, a orchestra (rabecas e violetas) em tremolo,
as Ires vozes que se juntam na mesma phrase, destacando-se a
de Argenide:
cDel mio dnol, dei mio lamento
Abbia il Cielo alfin pietà.»
 agitaçSo augmenta; dtebalde os dois imploram cpietà»;
a voos terrível dé Xerxes, ultrajado no seu amor e na sua Ambi-
SB OS MÚSICOS PORTIJGUEZES
ç&o, responde : cNon v'è pietà» . De novo apparece a voz de Ârge-
mide: «Del mio duol» ; tudo é em vSo; a sitoaçSo caminha para
o seu desenlace: Piu mosso, que abre com o coro:
cOh che giomo di vendetta
Di rigore e di spavento !»
Toda a orchestra entra em jogo com as vozes e com o coro,
desenvolvendo-se a phrase das rabecas no principio do AUegro:
cQoal tumulto sento ali' alma!»
Este final devia produzir um bello effeito, porque tem brilho
e energia ; sobre o ensemble do cGro e das vozes, levanta-se a phra-
se de Ârgenide, correspondida pelo tremolo das 1.*^ rabecas, em
quanto as 2.*', violetas e o resto da orchestra, acompanham as
duas vozes masculinas e o coro.
Este Tercetto está muito bem composto na forma e na ideia,
e podia, convenientemente interpretado, ainda hoje ser ouvido;
as phrases de Ârgenide, de Sebasto, são como dissemos, quasi as
mesmas e se aqui não vemos a paixão inspirada de Gluck, ou de
Piccini, ha ainda a expressão tema e a suavidade feminil de
Fioravanti e de Zingarelli.
A ultima phrase de Xerxes, (Tenor Mombelli) cujas pala-
vras acima referimos, é difficultosa, e devia produzir um bello
eíFeito, cantada por um bom artista.
O Piu Mosêo final, é egualmente difficil para as três vozes
e dava a cada cantor occasião para manifestar a fiicilidade e a
bravura no mechanismo da sua voz.
A orchestra não tem pretençSes a savantisme, nem a novi-
dade de efieitos; é simplesmente a orchestra do tempo de Marcos
Portugal, modesta e expressiva, aproveitando muito bem os tim-
bres e os recursos mysteriosos dos differentes instrumentos de que
se compSe, emfim preenchendo o seu fim.
Vejamos o Duetto da mesma opera: (Aòto n, Sceoa iv)
os MÚSICOS PORTUGUEZES 99
cTu Tami? e ancor per lui
Nutri xm segreto ardore?»
Xerxes perdoou ao filho e á amante, somente para ter a cer-
teza do crime, cujos indicios descobrira na Scena do Subterrâ-
neo; manda chamar Árgenide para lhe noticiar que Sebaste, re-
conhecida a sua innocencia, fora posto em liberdade e que lhe
dava licença para voltar ao seu reino. (Árgenide era princeza dos
Partbos.) Esta porém, não quer partir, para não deixar o amante :
Árgenide: «Senti. . . oh Signor. . •
Serse: cTi spièga.
Árgenide diz-lhe entSo, em um recitativo apaixonado, que
visto elle (Serse) nSo pertender a sua mao, lhe dê a do filho que
ella ama, e por quem é correspondida.
Xerxes, ferido profundamente no seu orgulho e no seu
amor, exclama com dôr:
«TuTami?» e interroga de novo : «TuTami?» «Eincorper
lui nutri segreto ardore?» A dôr é tSo pungente, a surpreza foi
tSo girande, que o rei, incrédulo, duvida ainda: ctu Tami?»
O silencio de Árgenide é eloquente. Xerxes dá entSo expan-
sSo á sua cólera ; Árgenide, arrepende-se debalde da sua declara-
ção; o mal é irremediável. Até aqui o duetto é vigoroso, tem mo-
vimento e energia; a paixão e o ciúme, traduzem-se em bellas
notas. O Piu Mossa:
Argekide: ff Numi che atroce sorte!
Che disperato amor»
Serse: aOrmai Testrema sorte
Si appresti ai traditor !»
nSo enfraquece e conduz a um bello e magnifico Adagio :
100 os MÚSICOS PORTUGUEZES
c si crudeli palpiti
Piíi non resisti ralmá
In van la dolce calma
Cerca Faffiltto cor. »
que sobresahe ainda mais, com um simples, mas poético acompa-
nhamento das rabecas, violetas e clarins. Um AUegro curto, ter-
mina no Primo tempo. Adagio ■:
cDi tanti mali miei
U fin qual mai sara?»
KSo conhecemos a celebre ária de Hasse: «Se tatti i mali
miei», immortalisadano Demofoonte pelaMingotti, (mm) todavia
podemos affirmar sem estabelecer comparaçSes, qne a ária de
Marcos Portugal, é bella pela sua expressão concentrada, pela pai-
xSo que exprime, e que se traduz desde o primeiro até ao ultimo
compasso.
Os recursos da orchestra foram convenientemente aprovei-
tados ; ha variedade nas phrases dos differentes instrumentos, que,
coUocados cada um no seu logar, apparecem na occasiSo própria,
ajudando a traduzir a situaçfto. por meio do colorido especial de
cada um.
Da Morte di Mithridate, devemos mencionar o recitativo :
«M'ascolta. Serba alia gloria», e a ária: cPer queste amare la-
grime.»
O recitativo em que Vonima implora o perdSo do filho, to-
mando sobre si toda a culpa, tem uma accentuaçSo dolorosa que
nos commove e que interpreta bem a intenção da mulher que se
vem offerecer em holocausto.
Na Ária apparece em toda a força a paixSo da amante que
vem salvar o homem que adora :
«Per queste amare lagrime.
Per questo mio martiro,
V
QS MÚSICOS PORTUGUEZES 101
Ah salva in lai, che adoro
Uaoima dei mio sen.»
A orchestra acompanha apenas com as rabecas e violetas, ex^
cepto nas clausulas finaes de cada phrase^ em que entram todos
os instrumentos. Um solo de óboi serpenteia, através de toda a
ária, como o ecco dos suspiros e das supplicas de Vonima.
Temos em seguida, um Allegro vivace que começa com a 3/
estrophe do 2.^ verso :
cDa fier tormento orribile
Sento squarciarsi il core.»
Ignoramos a rasSo, porque o movimento muda aqui repen*
tinamente para AlUgro mvace, tendo ficado o%,^ verso incompIe<-
to, e sendo o sentido o mesmo. Pôde ser erro da nossa copia, to-
davia a mesma historia repete-se adiante. Antes do começo e de-
pois da 8.* estrophe, ha um incidente pela orchestra, que termina
com a entrada da 4.^ estrophe.
Com as palavras: cMa Ia mia colpa è amore», entra um
Lento e logo em seguida de novo : AlUgro vivais.
Aqui todavia, nSo corresponde a ideia melodiea ao senti-
mento que as palavras exprimem, porque o motivo, parece que
foi feito apenas para recommendar a agilidade da voz que o can-
tava; e tanto assim, que a orchestra fica reduzida ás 1.** e 2.**
rabecas que ii^mpanham com toda a simplicidade em 6.*".
Marcos Portugal faltou aqui á verda^^ dramática, porque a
ideia é apenas um conjuncto àefiorihtri, àegruppettie áepointê
d'orgue, que tinham a sua rasSo de ser n'uma ária de bravura,
mas nio n^este logar, e aecomodados além d'isso ás palavras que
transcrevemos.
Este abuso de falsear o sentimento para dar logar a um ef-
feito ^ramen^é voced, ainda se repete em outros trechos do nosso
maestro; é verdade, que muitos dos seus collegas contemporâ-
neos cahiram no mesmo erro, cousa que se explica ás vezes pela
102 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
falta de inspiraçSo, ou pelo enfraquecimento d^ella, durante a
ideia^ ou ainda pelas exigências de árias de hravuraè e outros
caprichos pueris, que as cantoras e cantores da moda impunham
aos compositores; esteS; dependentes d^elles, nSo tinham outro re-
médio senXo ceder, o que dava ás vezes um triste resultado, como
se vê n'este caso, em que Vonima se entretém em gorgeios suc-
cessivos, sobrepostos ás palavras:
«Che palpito, che sento,
Che spasimo crudele
Se momento pià fiinestoi etc. (I ! !)
A continuação segue bem, até: tchiedo pietà di te»; porém
narepetiçSo: «che palpito, che sento» recomeçam os gorgeios,
tal qual como da primeira vez e seguem até ao fim.
Marcos Portugal fez este sacrificio certamente á sua amada
Catalani (entrou n'esta opera em 1806), e estamos persuadidos
que estes gorgeioê, foram uma emenda posterior, porque no li-
bretto original de 1806 que examinamos, encontram-se os ver-
sos differentes e exactamente sem aquella parte sobre que Voni-
ma faz as evoluçSes da sua voz.
A orchestra enfraquece sensivelmente desde que começam
Bsjiorituri, e nSo se levanta até ao fim.
Da Semiramide conhecemos uma ária: «Qual palor! qual
temal»
Parece-nos ser a celebre ária : «Son regina,» que a Catalani
transportou da Sofonisba para aqui.
As palavras diflferem um pouco :
«Qual pallori qual tema! Ardire!
Serbo ancora im' alma altera
Son Regina, son guerriera
Ne mi vince un vil terror.»
todavia a ária parece a mesma pela sua contextura musical*
os MÚSICOS PORTUGUEZES 103
O recitatíro: cSconBÍgliata che fo!» enei^ico e bem accen-
toado, em que a rainha se levanta do terror em que a lançou a
appariçXo da sombra de Nino, precede a magnifica ária: cQoal
paUor! Qual tema!»
Nlo é só a grande dificuldade de execuçSo que se admira
n'e8te trecho, circumstancia que illudirá certamente um ou outro ;
mas patenteia-se n'ella também uma grande energia e magestade,
nas phrases: cSon regina, ne mi vince un vil terror» ; n^uma das
passagens em queapparece esta palavra, ha um difficilimo j>oin^
dforgtie (cadenza) que se prolonga durante 5 compassos.
A segunda parte da ária Non tanto AUegroj ma Andante:
cCiel pietoso fausto arridi
Alia speme dei mio cor.»
tem uma expressSo mais moderada e mais religiosa; o coro en-
tra também, alternando com o canto de Semiramide, até se unirem
todos nas palavras :
cUombre, i Numi, il Cielo, il fato...»
Semiramide termina a scena com a phrase :
cChi potra comprender mai
Tanta mia felicita.»
repetindo a phrase de bravura do principio, que na palavra /eZt«
cita, offerece occasiSo para um novo point d*orgue, que Vonima
sustenta durante 9 compassos, movimento quaternário!, descan-
sando em um ré bmol durante 3 tempos, e seguindo até ao fim
com as escalas e os saltos mais arriscados.
NSo podemos apreciar a orchestraçSo doeste celebre trecho,
porque a copia pela qual fsiasemos esta pequena apreciação, está
em Qmrtetto de instrumentoa de corda; todavia pelo papel que
estes fSeizem, se pôde calcular a importância dos instrumentos de
104 OS MÚSICOS PORTUOUEZES
Tento, (metal e pau) qae decerto daviani ter um papei mais im-
portante,
A insistência nas cordas medias das rabecas e violetas, &b
com as notas elevadas do soprano mn bello contraste.
Concebemos perfeitamente o enthusiasmo que esta ária,
(Fétis intitula-a: UfamMX cSon regina») excitou em toda a Eu«
ropa na bôoca da Catalani, cujo talento de execuçlo se apro*
priava todas as difficuldades. Era com este trecho que deixava o
auditório perplexo, com as variaçSes de Rode e com outras árias
de bravura, na expressio de Fétis : des eoneertoê de voix.
Temos ainda a analisar mais um trecho da Semiramtde, o
bello Duetto: cNon tremar: io t'offi*o il petto.»
Semiramide convida Arsape a seguil-aao templo para se uni-
rem, mas este, instruido antes de chegar a rainha, da sua ver-
dadeira origem, recusa; esta, quer indagar a causa; Arsace he-
sita em dar-lhe a conhecer a verdade, mas cedendo emfim aos
seus desejos, mostra-Ihe o rôlo que lhe entregou o Qrlo-£bcer«>
dote Oroe. Semiramide, conhecendo a sua terrível sitcaflo, pede
heroicamente a morte :
cNon tremar : io t'offiro il petto,
Non pensar chi a te dib víta:
La natura inorridita
Parli invano a mio &v<»r.>
A ideia que está subordinada a estes quatro versos, tem toda a
vehemencia e energia das palavras que o poeta ooUocou na bdoca
da inCriiz rainha. Toda a esperança se perdeu ; Semiramide effs-
rece-se á vingança de Arsace.
O filho, apesar do crime da rainha, n2o ousa toear4he com
respeito pela mãe.
cNol spevar, dolente affstto
Solo ascolto in tal momento:
Sol mi parla il doloe aocento
Di pietade e deli' amor.»
os MÚSICOS PORTUQUEZES li»
A phrase de Arsfteey cjue Gomoça como a antecedente de Semi-
ramide, mas que differe depois, tem uma certa suavidade, mais
característica na passagem: tSol mi parla il dolce accento:»; toda-
via^ é sem duvida muito inferior i primeira. Depois de umas
phrases desencontradas, entram as vozes juntas nas palavras :
c Ah doT'è una maao oh Dio !
Che versando il sangue mio,
até: Non mi lasci in tal terror.»
O acompanhamento é feito unicamente pelas 1.*', 2.*' ra-
becas 6 violetas, de uma maneira muito simples.
Depois da palavra cterror», dividem-se as vozes novamente
e a attençSo fixa-se em um solo do 1.^ oboé, a que se reúne de*
pois o segundo.
As vozes juntam-se, passando por um Largo curto, ^j^ para
o AUegro cómodo, movimento quaternário, com as palavras:
cPartir, restar, vorrei», que terminam com aestrophe cMi si di-
vide il oor», acoentuada por uns acoordee completos de toda a
orcbestra.
Seguem umas phrases soltas, de Semiramide e Arsace, bem
acompanhadas pela orchestra, rabecas, violetas e trompas : As
exdamaçSes :
Ab8. Ti lascio
Sem. Ascolta. • •
Ab8. io parto
Sbk. Grudei I
transpiram a dâr que agita a mZe e o filho, debaixo da im-
presslo de sentimentos differentes. A phrase : cPartir, restar vor*
rei», uma espécie de eabaletta, (nn) reapparece para dar depois
togar, nas palavras: cHi si divide il cori», a uma serie de fioritwri
que nSo podiam vir em peor occasiSo e que fasem um effeito pés-
simo^ susfeentando^ae sobre as palavraa sentidas e tristes de Ar-
sace:
106 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
cDa qual tormento ranima
A lacerarmi ío sentoi
Che orríbile momento
D'afiano e di terror !
É mna contradicçSo flagrante e absurda entre as palavras e
as notas^ que parecem gorgeadas sobre um sentido completamen-
te indifferente !
Mais adiante invertem-se os papeis. Na repetiçSo da estro-
phe: tDa qual tormento» , commette Arsace a mesma impiedade
contra a expressSo e a verdade do sentimento. Semiramide repe-
te em opposiçSo a mesma pbrase antecedente de Arsace.
O Duetto^ concluo com um pequeno final ainda sobre o
verso:
cPartir, restar vorrei,
Mi si divide il cor.»
acompanhado por toda a orcbestra.
Entre as Ouvertureê de Marcos Portugal, mencionamos pri-
meiro a de Z' Oro non compra amare.
Oro non compra amore, titulo que resuscita e que resusci-
tará ainda por longo tempo as recordaçSes agradáveis e as sau-
dades d^aquelles felizes que poderam ouvir esta bella opera.
A Ouverture ou Symphonia, abre por um Andante ^j^y com
uma ideia distincta, executada pelas rabecas e violetas, êotto vo-
cê; a nota uníssona das trompas, cobre o eífeito musical com
um certo mysterio, que rompe no nono compasso com um cheio
de toda a orcbestra; um descanço, quando recomeça ai.*
pbrase do Andante, seguido do outro forte, conduz ao AUegro
molto vivace, attacado pelas rabecas que o levam em graciosas
ventas até que pouco a pouco se misturam os outros instrumentos,
oboés, flautas, trompas, fagotes, etc., dialogando e introduzindo
cada um as suas phrases, apresentadas e desenvolvidas elegante-
mente até ao fim, terminando esta ouverture, que para nós é,
nSo obstante a sua simplicidade, umas das melhores de Marcos
os MÚSICOS PORTUGUEZES 107
Portagaly pela elegância e distincçXo da forma, e mesmo pelo
effeito obtido em vista dos poucos recursos que o maestro tinha
á sua disposição.
As outras Ouvertures: Adrasto, e Ritomo di Ser$e, tem
as qualidades e os defeitos das Ouvertures ou Symphonias
d'aquelle tempo:
Comp6e-se de um Largo ou Andante, e de um AUegro,
geralmente a parte característica de toda a symphonia; um Fi-
nal brilhante, completa o quadro aos Andante$ falhos de expres-
sSo profunda e sentimento dramático ; em compensaçSO; os Alie-
gro8 tem a jovialidade e a graça distinctiva da sociedade frívola
e elegante do século xvni.
Infelizmente nSo podemos dar esta apreciaçSo das obras de
Marcos Portugal; tSo completa como desejávamos, porque a nossa
coUecçSo é limitada, e mesmo porque a maior parte dos trechos
chegaram tarde de mais ás nossas mSos, para poderem ser sub-
mettidos a um exame consciencioso, o que, se o fizéssemos agora,
atrasaria muitissimo o nosso trabalho; como porém esperamos
voltar mais tarde sobre este assumpto favorito, teremos decerto
oocasiSo para poder completar de uma maneira mais perfeita,
com exemplos á vista, (o que aqui nSo se pôde fazer) este ensaio
crítico sobre o nosso prímeiro artista.
Podiamos fazer promessas e expôr planos que temos na men-
te; com isão talvez alegrássemos algum artista ou amador apai-
xonado; sentimos deveras que estes fiquem desconsolados, toda-
via em questSo de promessas, seguimos ainda aqui e sempre o
faremos, o sjstema estabelecido no Prologo.
Resumimos em alguns traços geraes, o que dissemos na
critica das diffsrentes peças.
O estylo de Marcos Portugal, tem uma afinidade intima
com o dos compositores italianos do fim do século passado. Nem
podia deixar de ser assim ; o maestro recebeu o complemento da
sua educaçSo artística na Itália e lá esteve debaixo da influencia
de Zingarelli, de Hasse^ de Fioravanti e outros.
108 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Ensaiou-se em um género que se tinha tomado o favorito da
toda a Itália, graças ao talento dos compositores precedentes e de
muitos mais; quando sahiu da peninsula, depois do seu génio ar*
tistico ter desabrochado, veia para Portugal e em seguida partiu
para o Brazil; não visitou a Áliemanha, (e foi isso uma infelicida-
de) nem a França, que podiam ter dado uma direcçSo diversa ao
seu talento, — ficou pois todo italiano; as diversas influencias da
musica allemS contemporânea e da franceza, nSo provocaram,
nem alimentaram uma lucta artística e sentimental, d'onde a in<
dividualidade de Marcos Portugal podia ter sahido incólume,
nova e forte, fructificada ainda pelos elementos que teria apro«
veitado da eschola allemã e franceza.
Foi o encontro doestas diversas influencias, hoje ainda mais
accentnadas, que salvou duas grandes individualidades artísticas
do nosso século: Meyerbeer e Rossini, e produziu duas obras
grandiosas: Le$ Huguenots e Ouilhaumê TeU.
Marcos Portugal, sahiu da Itália, obedecendo a um pammê^
mo imitador; chegou a esta terra e como aqui as suas tendências
artísticas não encontrassem elementos sérios de resistência, ficou,
ainda longe da sua pátria, fiel partidário das tradiçSes italia-
nas, obedecendo sempre a uma influencia que lhe lembrava a to*
do o momento a sua filiação artística.
A sua individualidade, perdeu-se no meio doestas circum-
stancias e aqui temos também uma das rasSes, porque a musica
de Marcos Portugal, parece-nos estar muito longe da esphera
actual de desenvolvimento artistíco.
Só as grandes individualidades subsistem e sobrevivem aos
séculos, £ uma verdade da historia. William Shakaspeare, Goe-
the e Schiller, Dante, Luiz de Cam3es, Cervantes e Moliòre, na
litteratura; Rafaele di Urbino, Rubens e Rembraudt na pintura;
Miguel Angelo, Canova e Thorvaldsen na esculptura e architec*
tura; e na Musica Bach, (oo) Gluck, (pp) Hsndel, (qq) Mo-
aart, (rr) Weber, (ss) Beethoven (tt) e Berlioz. (uu)
Eis os semi-deuses daintelligcneia; os outros, seus imitado-
res, sSo apenas satellites que giram á volta doestes grandes pia-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 109
netas^ ora mais perto, ora mais longe, attrahidos por força occulta
e brilhando só da luz que lhes empresta o foco commum.
Marcos Portugal pertence a estes últimos.
O compositor portuguez, limitando as suas viagens á Itália,
não pôde conhecer o primeiro génio da Arte: o immortal Mozart,
que só entrou na península graças ao trabalho de outro génio,
que recebeu por muito tempo o seu influxo, graças a Rossini, (vr)
Entre os annos de 1756 a 1791, tinha-se levantado um sol
esplendoroso, que, descrevendo em limitado tempo uma carreira
gloriosa^ havia espalhado os seus raios esplendidos por todo o do-
mínio da Arte, fazendo desabrochar um mundo de ideias novas.
Infelizmente a brevidade da sua existência, deixou muito
gérmen occulto que não veiu á luz ; muitos que o sentiram, cerra-
ram 08 olhos, cegados por tanto esplendor, e poucos foram os fe-
lizes que sentiram o fogo de seus raios. Marcos Portugal nfto o
viu através dos satellites que lhe pretendiam empanar o brilho.
Este facto toma-se evidente para quem examinar as pro-
ducç3es do nosso compatriota.
Voltamos is nossas primeiras ideias, depois doesta breve
excursSo, porém necessária para fixar o caracter artístico do
compositor portuguez.
A sua importância parece estar toda concentrada na Opera-
buffa, cuja forma característica elle ajudou a fixar conjuncta-
mente com Guglielmi, Cimarosa, Paêsiello, Fioravanti e Zin-
garelli.
E verdade que o numero das suas operas sérias (22) é maior
do que as do género buffo; (18) todavia nas primeiras nSo encon-
tramos as qualidades necessárias que as podiam fazer reviver
hoje.
Não procuremos n^elle a inspiraç2Lo sublime, o sentimento
profundo, a virilidade augusta, a expressão dramática, toda essa
variedade de sentimentos que lançam o homem sobre as ondas
incandescentes das paixSes. A outros artistas coube a missão de
fixarem e de darem forma immortal a esta feição verdadeira-
mente grande e humana do tempo em que viveram.
110 os MÚSICOS PORTUGUEZES
A outros mais illastres coube essa coroa gloriosa que vemos
brilhar*na fronte de Gluck, de Jomelli, de Ficcini.
E verdade que nSo examinamos talvez a melhor producçSo
de Marcos Portugal no género sério: Fernando in Musico.
Á. Burgh, no seu livro (Anecdotes on Mune, Londres, 1814) qua-
lifica a musica doesta opera: de admirável; nSo sabemos se esta
apreciaçSo é verdadeira, porque nada d'ella conhecemos e mes-
mo porque apesar dos nossos esforços, nSo podemos obter, nem
de Paris, nem de Londres, o livro do escriptor inglez para exa-
minar a forma que elle dá i sua critica e depois julgal-a. Fétis,
faltando d'esta opera, também a classifica: pevt-itre 9on chef-
d'ceuvre.
Todavia pelo que conhecemos de outras operas sérias : Demo-
foonU, Zaira, Semiramide, Morte di Mithridate, Argenide, des-
cobrimos que lhe faltam em geral as qualidades d'aquelles gran-
des compositores.
NSo queremos dizer com isto, que as operas sérias de Mar-
cos Portugal nlo tenham ideias aonde transparece um sentimento
elevado e pathetico e uma expressão dramática que traduz fiel-
mente as situaçSes; para nos desmentir bastaria examinar a Ca-
vatina : €La Pena che sento» do Duca di Foix, em c^a» ptnrsses
dos instrumentos de corda, que acMn^Mmham um recitativo, forte
e dramático, temuaaesracter todo romântico e expressivo.
"EãÈm casos estSo porém isolados, e nZo se determinam em
qualidades distinctivas.
Já uma outra ordem de expressão se descobre na Cavatina
de Vonima: cPartite dei mio core» {Morte di Mithridate;) este
trecho faz lembrar as suaves melodias de Rossini e é sem duvida
uma das melhores inspirações de Marcos Portugal.
A apreciaçSo que fazemos do talento do nosso maestro, nos
dois géneros sério e bu£fo, está aliás confirmada na reputação
mais universal das suas operas bufias. As representações dadas
n'este género, no estrangeiro, tiveram um êxito esplendido ; é o
que nos dizem os factos.
os MÚSICOS PORTUaUEZES 111
O Moniteuruniver$el, de Maio de 1801/fallando da reaber-
tura do theatro italiano por ordem do 1.^ Constd NapoleSo Bo-
naparte, diz:
c segunda opera intittda-se:
• €Non irritar le Dorme; o assumpto é quasi o mesmo do
AristcteUê amoroso; mas que importa o assumpto, quando se
trata de Marcos Porto-Gallo (sic) compositor d'esta opera, uma
das mais agradáveis que possa ouvir-se? Canto puro e melodioso,
introducçSes engenhosas, acompanhamentos delicados, expressSo
mimosa e intençSes cómicas, desenho melodioso bem delineado,
estylo brilhante e sustentado no papel da primordonna, (Strina-
sachi) taes sSo os predicados que todos acharam n'esta encanta-
dora composiçSo.»
A outra opera de que se falia aqui, era de MaiceUo di Car
pua. (ww) O desempenho de JVbn irritar le Donne^ foi eimfiado i
Strinasachi, ao celebre tenor Lazzariní e ao nSo menos celebre
buffo: Raffanelli.
Também Gkrber, (xx) fallando d'esta opera, noticia o seu
sucesso em Paris.
Se Marcos Portugal na opera séria nSo revela as qualidades
carateristicas doeste género, já nSo succede o mesmo no género
opposto.
Os seus Allegroê e Rondas, tem um caracter todo gracioso,
um espirito fino, elegância e naturalidade; emfim, reflectem fiel-
mente o sentimento da sociedade aristocrática e frívola do sé-
culo xvni.
A orchestra de Marcos Portugal, comp9é-se em geral de
flAecas, violetas, violoncellos, contrabaixos, flautas, oboés, cla-
ríús, trompas, trombones e fe^ttes.
A instrumentação é mui simples e natural ; nSo tem, nem
podia ter pretençSes a savantisme; o maestro aprendeu o que no
seu tempo se sabia dos recursos da orchestra; seguiu os exemplos
que tinha diante dos olhos nas obras dos compositores italianos,
seus antecessores e contemporâneos; acompanhou a corrente artis-
tica da época, nSo tentou innovaçSes, ou porque nSo se sentisse
112 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
com forças para isso, ou (e estahypotliese é maÍB naJnrtl) porque
temia ir de encontro á tradiçSo, e ter a sorte de Paêsiello, que,
quando voltava da Rússia tentou inaugurar nas suas operas
Barbiere di Seviglia, Filosofi imaginari e II Mundo deUa Luna,
um systema novo, trabalhando e aperfeiçoando maia as suas
operas pela introducçSo de combinaçl^es desusadas nos trechos
isolados e nas peças de ensemble.
Marcos Portugal continuou no caminho que via aberto; to*
davia, apesar do dominio limitado da sua orchestra, soube n'ella
produzir efieitos graciosos, combinações novas e surprehendentes
pelo efieito agradável que produzem o que tem o seu segredo no
conhecimento intimo da natureza e qualidades dos differentes in-»
strumentos; a vantagem de explorar bem todos os seustimbres,
vantagem n^aquelle tempo elevada á altura de uma sciencia,
foi aproveitada com a maior intelligencia por Marcos Portu-
gal. Este recurso a um tempo simples e milagroso pelos seus re-
sultados, foi depois esquecido e só resuscitou pelo génio de
Beethoven nas suas Symphonias (Vide a 6.*, em/á, Symphonie
paêtorale) (jj) e ultimamente ainda por Berlioz, na Symphonie
fantastique e na de Romeo et Juliette. O papel principal na or-
chestra do nosso maestro cabe sempre aos instrumentos de cordas,
que servem para acompanhar as vozes com os obocs e as flautas;
este systema, que hoje parecerá pobre a um ou outro partidário
ignorante da novidade, era certamente preferível ao barulho e i
algazarra insupportavel que a maior parte das vezes, graças á
grosse^aièse, pratos e tam-tam, (zz) atormentam os ouvidos nas
operas de Guiseppe Verdi, favorito doesta terra.
Os metaes apenas são empregados com a massa total da or«
chestra, nos accordes fortes e sobretudo nas scenas finaes. Os só^
los bUjo frequentes no oboé, na flauta, rabeca e violoncello.
Este papel menos importante que os maestros do meado e
fim do século xvin concediam ásorchestras, justificava-se pela im-
portância principal que davam ás vozes; todos os olhares se fixa-
vam na estatua, o pedestal nSo lhe emprestava belleza alguma.
O flto principal do artista era encontrar melodias mais ou me«
os MÚSICOS PORTUGUEZES 113
nos notáveis pela inspiração, pelo sentimento ou pela graça e dei-
xar depois aos cantores admiráveis d^aquelle tempo, o trabalho
de as apresentar dignamente ao publico. Quatro ou cinco árias
mais ou menos bellas e bem cantadas, faziam muitas vezes a for-
tuna de uma opera. A melodia absorvia toda a attençao, conce-
dendo-se á harmonia apenas o papel secundário de acompa-
nfaadora.
Esta importância excessiva que se dava ás vozes, conduziu
muitas vezes a desvios deploráveis.
Como o cantor tinha em muitos casos a fortuna de uma opera
na sua voz, influia grandemente sobre o compositor, e abusava da
sua posiçSo, exigindo d'elle sacrifícios que comprommettiam para
o futuro a sua reputaçSo.
E esta talvez a origem das fiorituri, dos grupetti, dos tri-
nados encadeadoB, e de todo esse sjstema de ornamentação, que
produziu um estylo rococó applicado á musica, falsifícando e
adulterando a expressão e a verdade dramática nas situaçSes
mais sérias e mais solemnes.
Ji acima apontamos os tristes resultados doesta tendência
artistica e os desvios a que ella arrastou o nosso maestro.
Se os compositores secundários fossem os únicos culpados,
ainda bem, mas que havemos de dizer ao encontrarmos no immor-
tal D. Juan, no AUegro da Ária de soprano (N.® 22) do 2.^ Acto,
um doestes casos, sobre as palavras cForse un giomo il cielo ancor
sentirá, a-a-a;» sobre esta letra estende-se uma passagem do peor
gosto e cuja existência na partitura, magoou de tal maneira Ber-
lioz (aaa) (de quem extrahimos este caso) que lhe fez dizer: €je
donneraiB unepartiedemon sangpour effacer çette hanteuse page
et qudques aiUres, dont on est force de reconnattre Veocistence dane
ses ceuvres,3 (bbb)
Como se explica a existência d'este grande defeito na obra
prima do immortal allemão, senão talvez pela demasiada conde-
scendência que o compositor teve para com alguma cantora favo*
rita, fraqueza que provocou a critica amarga, mas verdadeira de
Hector Berlioz.
t
114 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Mencionamos este facto, para que nSo attribuam só ao nos-
so compositor^ um abuso que elle compartilha com a maior parte
dos seus collegas contemporâneos ; sirva-Ihe isto de attenuante.
NSo obstante estes defeitos, e outros menos notáveis, hoje
mais sensiveis depois da appariçSo de Rossini, Mejerbeer, Ber-
lioz, Gounod e de tantos outros, ainda hoje sSo as suas composi-
çSes procuradas; nao ha muito tempo que se venderam algumas
para Inglaterra por bom dinheiro.
Pouco temos que dizer das suas composições sacras; a diffi-
culdade de as conhecer e apreciar, ainda é maior do que a de exa-
minar as suas composições profanas; estas ao menos, achavam-se
nos archivos dos theatros, onde um ou outro curioso podia ir ti-
rar uma copia; as primeiras porém, enterradas como tem estado
e ainda estSo em Bibliothecas reaes, onde não entra viva alma,
para não perturbar o estudo e a applicaçao das Magestades e Al-
tezas, que nunca lá pSem o pé — estão sempre invisíveis aos olhos
do trabalhador e do critico.
A noticia que damos, da existência das partituras de Operas,
e de musica sacra, na Bibliotheca real da Ajuda, tiramol-a do
Jornal do Commercio; não affirmamos positivamente que láexis-
tam ainda, porque nos consta que o archivo se tem ido despo-
voando mansamente, para completar a coUecção da infanta D. Isa-
bel Maria; já vê o leitor que a parábola da raposa e das uva^,
tinha a sua rasão de ker.
As operas de Marcos Portugal, que existiam no archivo de
S. Carlos, foram roubadas por um ladrão (ccc) chamado Fiel ( ! ! )
para as vender; oxalá que na Ajuda não esteja explorando também
algumFiel...
Como dissemos, os manuscriptos estão fora do alcance do
trabalhador, que, se quizer conhecer alguma composição sacra do
nosso maestro, tem de ir ouvil-a a alguma egreja de Lisboa, aon-
de uma execução selvagem, brutal e indecente, lhe provará o res-
peito e a gratidão dos nossos patriotas pelo maior vulto da nossa
historia artística.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 115
Um escriptor estrangeiro, critico distincto e sábio musico- •
grapho diz, fallando das composições sacras do nosso maestro :
f Nous me connaissons qu'un três pelit nombre de composi-
tions de Portogallo, maítre de chapelle du roi de Portugal. EUes
ont de la grâce et un rhytme agréable : mais rien no les recom-
mande au point de vue de la musique sacrée.»
Esta apreciaç^ talvez seja um pouco severa. O nosso ami-
go e compositor Miguel Angelo Pereira, nos disse (como atk'az
referimos) que encontrara bellas composições sacras na Biblio-
theca da Ajuda; entre outras, a fallada Sequentia; este juizo tem
para nós também algum valor, por ser de um artista sério, que
não dispensa elogios a quem nsLo os merece.
Em Lisboa temos ouvido fallar muito bem do seu Te Deum
(que lá intitulam grande) a pessoas de boa educação artistica e
de gosto distincto.
As outras composições secundarias, não exigem menção es-
pecial; as suas Sonatas são mui fracas; das Cantatas, nada co-
nhecemos ; examinamos o Hynmo de 1808, feito a D. João vi, que
começa: «Eis Príncipe excelso» ; é digno da pessoa a quem foi
offerecido. E notável a abundância de Ilymnos, que ha em Por-
tugal e que formam um ramo especial da industria artistica ; es-
peramos ennumeral-os um dia. O que é notável, é a malicia re-
finada com que os nossos compositores ridicularisaram as altezas
e magestades, em musica Ai*tÍ3tas impertinentes, não é ver-
dade?
O outro Hymno do nosso compositor, intitulado da Pátria
ou patriótico, tem um toque mais vigoroso e mais originali-
dade. Possuimol-o em tercetto, para Flauta, Rabeca e Violon-
cello.
Acabamos a analyse do estylo do nosso artista; sirva este
trabalho apenas de ensaio e como percursor de outro mais sério.
Fechamos emfim, e despedimo-nos com saudade da bio-
graphia d'este grande homem, porque grande se tomou elle nas
suas luctas artisticas ; não era fácil a victoria em um paiz, aonde
116 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
ao lado d^elle tinha rivaes^ coino Cimarosa^ Faesiello, Generali,
Ficcini, Ânfossi.
Em Paris, luctou ainda a sua opera Non irritar le Donne,
gloriosamente contra a impressão produzida pelo McUrimonio se-
greto de Cimarosa, pela Molinara de Paêsiello, e até pelo D. Juan
de Mozart!
Na Állemanha tinha também adversários respeitáveis em
Reichhardt, (ddd) Winter, (eee) Hiller, (ffi) Weigl ; (ggg) e nío
obstante as suas operas (sobretudo as buffas) foram applaudidas
em Vieuna, em Dresden, em Breslau e em mais cidades da Álle-
manha.
A sua fama transpôz o canal da Mancha, e lá se escutaram as
suas inspiraçSes pelas vozes de dois grandes artistas : a Billing-
ton e Braham.
Até na Rússia se ouviu o seu nome, quando ainda nos thea-
tros de S. Petersburgo resoavam os applausos prodigalisados á
Serva Padrona, aos Filo6ofi imaginari, i Finta amante, etc.
Applaudido no velho e no novo mimdo, está hoje esquecido
ingratamente n'um e nWtro.
No theatro de S. Carlos, ainda não se lembraram de esco-
lher uma das boas operas de Marcos Portugal, para darem uma
récita histórica, e pagar um tributo de homenagem e de veneração
ao primeiro compositor portuguez, satisfazendo assim uma sau-
dade, que decerto compartilhamos com todos os artistas e ama-
dores portuguezes.
A pátria indigna, não se lembra de quem a illustrou com
um nome respeitado; a pátria indigna, levanta estatuas a bonecos
coroados e não se lembra do dito profundo de Carlos v : c A los
VOBLES LOS HAGO TO, PÊRO A LOS ARTISTAS SOLO DiOS.»
A ingratidão, sempre a feia e vil ingratidão !
Ainda não ha muito que um jornal de Milão (hhh) fallava hon-
rosamente de Marcos Portugal, coUocando-o a par dos primeiros
compositores italianos do século xviii e dando-lhe um logar hon-
roso na Historia da Arte. Que vergonha para nós e que lição I
Hoje fidla a posteridade, e essa faz sempre justiça cedo ou
tarde ; essa^ dá-Ihe um logar distincto no grande Paothéon da
os MÚSICOS PORTUGUEZES 117
Arte. Lá o vemos na illastre assembléa, no meio de CimaroBa, de
Paesiello; Hasse (iii) Reichhardt e Zingarelli, na plêiada amável
doB compositores elegantes, graciosos, cheios de franca jovialida-
de e de espirito, que viveram no século sans souci.
A illustre conferencia discute a vinda do sen Messias, e é
certo que nSo se enganaram^ porque em 1792 nascia elle em Pe-
saro e ehamava-se — Rossna.
BELAÇXO DAS QBANDES CANTOBAS B CANTORES QUE BRILHARAM
NAS OPERAS DE MAECOS PORTUGAL
Conduimosestabiographia, apresentando uma lista dos can-
tores eminentes e das cantoras admiráveis, que alcançaram
grandes tríumphos nas operas do nosso maestro. SSo outros tan-
tos testemunhos da sua gloria.
Estes artistas pertencem quasi todos ao maravilhoso sécu-
lo xvni.
a) CANTORAS
BILLIN6T0N (Weichsell) Elisabeth — Nasceu em Londres
em 1765, defamilia allemS, e morreu perto de Veneza em 1818.
A sua voz tinha uma grande extensSo c era de uma pureza admi-
rável. Durante a sua ultima visita a Londres, mediu-se brilhan-
temente com a celebre Bandi, na Merope de Nazzolini.
Pouco depois teve logar uin outro duello nSo menos terrivel
com a famosa Mara, rival da nossa Todi ; já anteriormente se ti-
nham medido estas duas grandes artistas em 1785| na mesma ci-
dade.
A Billington cantou em 1797, no Fernando in Messieo de
Marcos Portugal, opera que segundo Fétis, fi5ra escripta para
ella. Parece que a repetiu depois em Londres. (Vide Burgh.
Aneedotes on Music) Cantou ainda com Braham na Argenide, re-
presentada em Londres em 1806| no Kinj/^a tíieatre.
118 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
BARILI (Bondini) — Maria Anna — Grande artista do mesmo
século! Nasceu em Dresden em 1780, de pães italianos e falle-
ceu em 1813.
. Esta eminente artista, cantou em Paris, na Donna ãi ge-
mo voluhilej no Theatro Louveis; foi depois da terceira repre-
sentação doesta opera, que a insigne cantora morreu no vigor do
seu talento, com 33 annos de idade ! Paris inteiro acompanhou-a
ao cemitério.
As qualidades da Barili eram : pureza admirável, intonaçao
irreprehensivel e vocalisaçSo perfeita nas maiores difficuldades.
N. B, Esquecemos de mencionar as representaçíles doesta
opera, no Quadro st/noptico e chronologico.
6RASSINI — Josephina — Insigne artista. Nasceu em Va-
rese (Lombardia) em 1773, e falleceu em MilSo em 1850.
Um dos seus maiores triumphos, obteve-o no Demofoonte de
Marcos Portugal, que cantou na Scala em 1794, com Marchesi e
Lazzarini.
Estreiou-se n'esta opera e no xh^taserse de Zingarelli. Scu-
do, (jjj) fallando da representação do Demofoonte, diz :
cLe succès de M.® Grassini fut éclatant dans ces deux ou-
vrages, et son nom se rcpandit aussitôt dans toute Tltalie.» Fé-
tis (kkk) diz quasi o mesmo:
aM.* Grassini parut pour la première fois sur le théatre de
la Scala à Milan, au Carnaval de 1794. EUe y chanta avec Mar-
chesi et le tenor Lazzarini, dans VArtaserse de Zingarelli et dans
le Demofoonte de Portogallo. Ses succès furent éclatants dans
ces deux ouvragcs; dès ce moment elle se posa comme une des
cantatrices les plus remarquables de Tépoque, et bientôt après
comme la première.»
A sua voz era um contralto puro, forte e de bello timbre ; a
sua declamação era perfeita e tinha um caracter de grandeza e
de elevação que impunha e que subjugava pela sua expressão.
CATALANI — Angélica — Celebre cantora; nasceu em 1779
em Sinigaglia (Estados romanos) e morreu em 1849 em Paris»
os MÚSICOS PORTUGDEZES 119
Cantou em Portugal durante 5 annos, desde o inverno de
1801, até ao carnaval de 1806; os seus triumphos foram nas ope-
ras: Morte di Semiramide, Sofonisba, U Trionfo di Clelia,
Argenide, Zaira, Merope, Fernando in Messico, Ginevra di
Scozia, U Duca di Foix e Morte di Mitridate,
Marcos Portugal teve como vimos, relações com esta celebre
artista e que só se interromperam, quando ella partiu em 1806
para Paris.
O seu talento como cantora, manifestava-se n'uma grande
agilidade da voz, que lhe permittia zombar de quasi todas as
difficuldades, sobretudo d^aquellas para que tinha uma facilidade
natural; a sua intonaçSo era pura e brilhava ainda mais n'uma
voz de uma grande extensão; todavia, faltava-lhe a coraa ex-
pressiva, assim como era também muito deficiente na declama-
ção, orafiria, ora exagerada. Entretanto, como os defeitos da sua
arte de cantar, não estavam patentes senão aos ollios da menor
parte do publico, a maior cedia os seus applausos, vencida pelos
tours de force da cantora italiana. Foi a Catalani que tomou a
tão fidlada ária: 8on regina, celebre na Europa, e espalhou por
toda a parte o nome de Marcos Portugal.
Na companhia de Crescentini tinha o bello ordenado de
6:400$000 réis.
Emfim, considerada isoladamente, é inegável que foi uma
cantora de grande talento ; todavia, as suas qualidades artisticas
estavam mui inferiores ás da Billington, Barili, Grassini, Bordoni,
Bandi, Mingotti etc.
6AFF0RINI — Isabella — Insigne artista. Cantou nas seguin-
tes operas do nosso maestro : Le Donne cambiate, na primavera de
1804; Oro non compra amore, no inverno do mesmo anno. Como
se vê, brilhou sobretudo no género buffo, que parece ter sido o seu
favorito, pois no elenco da companhia, escripturada em 1801 por
Crescentini para o theatro de S. Carlos, vem classificada : prima-
donna huffa, com 3:520|000 réis de ordenado.
120 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
STRQIA8ACCHI — Tereia — Artista distincta; cantou em
1801 na opera Nan irritar le Donne, quando se reabriu o Thêa-
ire italien; coadjuvaram-na Raffieuielli e Lazzarini. Esta can-
tora brilhou principalmente na Itália e em Paris, onde creou a sua
reputaçSo no Matrimonio segreto de Cimarosa, em que cantava
admiravebnente. Parece que yivia ainda em 1828 em Londres,
porém na maior miséria! Tereza Strinasacchi tinha nascido em
Roma, em 1768; uma sua irmS: Anna Strinasacchi, cantou em
1787 em Mantua, como prima-donna, porém morreu nova.
SE8SI — Marianna — Nasceu em Roma em 1776 e morreu
em 1847, em Vienna d'AuBtria; esta notável cantora, brilhou no
Artaserse e em outras operas, sendo muito applaudida.
YERGÉ — Felice — Prima-donna, que levou a 10 de Junho de
1816, o Trionfo di Cldia em seu beneficio. Fétis nXo a men-
ciona.
ECKART — Eufemia — Prinwdanna que cantou com a Sessi
na mesma opera Arta$erc6 em seu beneficio ; Fétis, nlo dá noti-
cia d'esta artista na sua Biographie universelh deê Muêieiens.
Além doestas 7 cantoras de primeira ordem, mencionamos
ainda outras de menos talento, como: Daroihea Buaani, (com-
panhia de Crescentini, i.* dama huffa com 2:400|000,) Ca-
rolina Griffoni, (companhia de Crescentini, 2,^ dama buffa com
1:200|000,) Luiza Franeoni, Tereza Áppiani; as duas ultimas,
cantaram na Merope; e as seguintes de mento secundário : Ca-
rolina MoBsei, e Teresa Zapucci, Quiseppa Pelliccioni, Orsola
Palmini, Ouiêeppa Gianfardini^ J. Piaeentini, Nery Passeri-
ni, France9ca Barlesina.
h) C1NT0BE8
CRESCENTINI — Girolamo — Celebre sopranista ; nasceu em
1766 em Urbani (Estados romanos) e morreu em Nápoles. Gan-
os MÚSICOS PORTUaUEZES 121
toa nas operas: La Danna di génio volubile, La Morte di Semi-
ramide, Sofonisba e I\*ionfo di Clelia.
Foi elle qae escripturou a Catalani e a Gafforini, como em-
presarioy em 1801.
Este cantor, n'uma récita de Romeo e Gitãietta de Zingarelli,
dada no palácio das Toilherias em 1808, produziu sobre o auditó-
rio uma tal impressSo com a celebre ária : cOmbra adorata, aspet-
ta», que as lagrimas saltaram dos olhos de NapoleSo e de toda a
corte que estava presente; o imperador, nZo sabendo como retri-
buir semelhante talento maravilhoso, enviou-lhe o grau de Ca-
valleiro da Coroa de ferro.
SCHIRA — , . . — Artista que cantou em S. Carlos na Downe
di génio volubiU, com Crescentini, Caporalini, etc.
Fétis (d) indica um nome: Francesco Vincenzio JSchira* Nas-
ceu emMilSo em 1812, em cujo Conservatório estudou com Fe-
derici e Basili.
Em 1833 debutou na Scala com a primeira opera: Elena et
Malvina. No anno seguinte, dirigiu o theatro Carcano, e em 1835
foi chamado a Lisboa para Chefe da orchestra do theatro de
S. Carlos, (Santo Carlos, eic, Fétis) onde fez representar em
1836 uma opera buffa: U Trionfo deUa Musica, Escreveu a mu-
sica de uma grande quantidade de bailados que tiveram brilhan-
te successo, alguns dos quaes foram também á scena nos theatros
de MilKo e de Vienna. Em 1837, deu em S. Carlos: / CavcUieri
di Valenza, opera séria, que lhe mereceu da parte d'El-Rei o
habito de Christo, (rAbito dei Christo, sic, Fétis,) em testemu-
nho de satisfação pelo seu trabalho.
Sahindo em 1840 de Lisboa, partiu para Londres; esteve
dois annos á testa do Princess's Theatre e succedeu a Benedict
em 1844, no theatro de Drury-Lane.
Em 1848 estava ainda em Londres, mas depois perdem-se
os traços da sua' existência; suppiSe-se que voltara a Lisboa,
onde fallecêra do cholera.
122 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Extrahimos esta noticia de Fétis, por nos parecer curiosa
apesar de nSLo ter relação com o primeiro artista, como se vê pela
differença das datas; além d^isso, nunca ouvimos fallar n^este com-
positor, apesar de ter aqui vivido durante 5 annos !
HOHBELLI — Domenico — Tenor celebre, e compositor no
género sacro; brilhou em S. Carlos nas operas: Argenide, maio
de 1804; Zaira, estio do mesmo anno; Fernando in Messico em
1805; Ginevra di Scozia, inverno de 1805 ; no mesmo anno:' U
Duca dl Foix; no carnaval de 1806, Morte di Mitridate, e no
outono, Artaserse. Fétis nSo menciona a sua estada em Lisboa,
mas sim a do um seu íilho : Alessandro Mombelliy que não co-
nhecemos.
Este artista nasceu em 1751 em Villanova, perto de Ver-
celli e morreu em Bolonha, em 1835.
Na companhiade Crescentini, tinha um ordenado de 3:200|.
HATTUCI — Pietro — Sopranista notável; distinguiu-se na
Argenide, (Sebaste) com o antecedente (Serse) ; nas operas : Fer-
nando in Messico, Ginevra di Scozia, II Duca di Foix e Morte
de Mitridate.
A sua estada parece ter sido de Maio de 1804, até ao carna-
val de 1806 ; Fétis, nada traz a este respeito, apesar de faUar
n^uma viagem que fez a Hespanha.
Nasceu em 1768 e foi discípulo do Conservatório delia Pietà,
dirigido por Sala; as noticias da sua vida param em 1811.
Tinha em S. Carlos o ordenado avultado, de 3:800^000 e
vem classificado como 1.® soprano.
NALDI — Giuseppe — Excellente buffo italiano. Cantou no
Oro non compra amore, no inverno de 1804. Nasceu em 1765 e
brilhou em Londres, França e Itália; morreu em Paris, em 1820.
Entre os artistas da companhia de Crescentini, vem um: António
Naldi, 1.^ ^^ffo; não sabemos, se tem algum parentesco com o
antecedente ; cantou &6:Le Donne cambiate, primavera de 1804;
tinha um ordenado de 3:200|000, egual ao de Mombelli.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 123
KARCHESI — Lnigi — Insigne sopranista; brilhoa em toda a
Europa, onde era considerado como o primeiro cantor, no meado
e fim do sectdo xviir.
Cantou o Demofoonte na Scala, carnaval de 1794, com
a celebre Grassini e o tenor Lazarini. Marchesi nasceu em Milão
em 1755 e falleceu ahi mesmo em 1829. Em 1785, encontrou-se
em S. Petersburgo com a nossa celebre Todi.
LAZZARINI — Gustavo — Excellente tenor. Cantou com o
antecedente e a Grassini, o Demofoonte na Scala, em 1794, e
com a Strinasachi e Ra£Eeinelli, Non irritar le Donne, no theatro
italiano em Paris.
Foi egualmente applaudido na Itália e em França.
BRAHAH — John — Celebre cantor; nasceu em Londres de
fatnilia israelita. Foi enthusiasticamente applaudido na Inglater-
ra, França, Allemanha e Itália; tomou- se particularmente notá-
vel na execução da musica de Hsendel, a ponto de arrancar as
lagrimas dos auditórios com a celebre ária: cDeeper, anddeeper
Btill.»
Este grande artista figurou com a Billington na Argenide,
em 1806. •
RAFFANELLI — Luigi — Excellente buffo; nasceu em 1752
n'uma villa da província de Lecce, reino de Nápoles. Este artista
foi muito applaudido na Itália, Allemanha, Inglaterra e França ;
n'este ultimo paiz, cantou no Théatre italien, reorganisado pelo
1.® Cônsul Napoleão Bonaparte, a opera: Non irritar le Donne,
tendo por auxiliares a celebre Strinasacchi e Lazzarini. RaíFa-
nelli alcançou a sua reputação, menos pela belleza da sua voz ou
pela arte do seu canto, do que pelas suas excellentes qualidades
como actor.
OLlYl£RI — Ludovico — Primeiro baixo da companhia de
Crescentini, com o ordenado de 1:040|000 rs. Fétis não menciona
124 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
este artista, mas sim um A. Ollvieri, vloUnista distincto, discí-
pulo de Pugnani. Este artista, cuja vida foi muito aventurosa,
esteve em Lisboa muito tempo, até 1814. N8o sabemos, se tem
alguma relação com o primeiro ; as datas parecem concordar,
porque o baisco Olivieri, cantou desde Maio de 1804 até ao outono
de 1806, nas operas: Argenide, Zaira, Fernando in Mesdco,
Oinevra di Scozia, U Duca di Foix, Morte di Mitridate e Ar-
taserte. Talvez que depois, cantasse em operas de outros autho-
res e se demorasse em Portugal até 1814, anno que Fétis marca
para a sua sabida.
PANIZZA — Pompolio — Tenor distincto; cantou no Triomfo
' di Clelia, (Tarquinio) ; brilbou na Itália e deixou um filho que foi
compositor e bom professor de canto, em MilSo.
ANGELLEU — Pietro — Cantor buffo ; distinguiu-se no TWon-
fo di Clelia (Porsenna). Era 2.^ buffo na companhia de Crés-
centini, com 960|000 réis.
Mencioniamos aqui um nome idêntico de um outro artista,
que teve aqui grande fama, porém anterior ao primeiro. É Gio-
vanni Angeli, denominado Lesbina.
Nasceu em Sienna, em 1713. Esteve desde a sua juventude
ao serviço do Rei de Portugal, e foi aqui muito estimado. Depois
de algumas aventures perilletues, (Fétis) retirou-se para a Itália
e tomou ordens menores.
A sua voz era pura, de timbre distincto e forte, e muito ex-
tensa; a expressão era a sua qualidade característica. Morreu a
10 de Fevereiro de 1778.
O artista: Pietro Angeli, que vem no elenco de Crescentini
com a classificação de 2.^ buffo, e com 960|000 réis de ordenado,
parece ser o mesmo que o primeiro.
Temos mencionado os cantores mais notáveis que se distin-
guiram nas operas do nosso compositor; accrescentamos ainda os
seguintes, de que Fétis não faz menção :
os MÚSICOS PORTUGUEZES 125
Castrati: Caporalini e Zamperini ; (nSo confundir com a
cantora do mesmo nome) Praun, que fez os papeis de Scipionena
Sofoniêbaeàe Nerestano na Zaira; Rostrelli, Boscoli, Pedrozzi,
Tavaniy Domenico Nery e Gaetano Nery; (este ultimo tinha no
elenco de Crescentini; o titulo de 1.^ huffo, com 1:020|000 réis)
o segundo, figurou na Oinevra di Scozia (Ré) e Zaira (Lusigna-
no). Terminamos com outros de ordem inferior : Francesco Gafib-
rini, (Crescentini; 2.^ tenor, 480|000 réis). F. Senesi, Bonini,
Cario Barlasina, etc.
Ok^S Neueâ hist. hiogr, Lexicon de Tankêtl. Vol m, pag. 754.
(b) Dictiannaire hiêtoriqut des Aftwtcten#. Paris, 1810 e 1811. Vol. u,
pag. 173.
(c) AUgem, LU. der Mtutk.
(d) A Musica, Arcbivo Pittoresco, vol ix, 1866 pag. 77, 87, 95, 102, 127.
(e) Gazeta da Madeira de 1866 N."* 4, 6, 7, 8, 9, 10, 17, 18, 19 e 20:
A Mueica em Portugal,
(fl) Op. ctV.
[^ ^- ^-
Biograpkia de Marcos Portugal por Innocencio da ^Iva, Ar-
ehivd PtttorescOj pag. 290.
Esta data foi enviada do Bio do Janeiro a Innocencio da Silva.
Todas as diligencias que Joaquim José Marques fez a seu pedido, nos
cartórios das differentes parochias de Lisboa, nSo deram até boje resulta-
do alg^m. Resta pois saber a fonte d'onde I. da Silva houve esta informa-
ção, para se poder apreciar o seu valor. Fétis indica o nascimento de Por-
tugal um anno mais tarde, em 1763.
(jg 2) Essai statistique^ vol. ii, pag. ocvn, e Archivo PUtoresco, loc. cU,
CÍ) Biogr. Univ,, vol. vii, pag. 105.
m Jornal de Modinhcu, de 1793, publicado por P. A. Marcbal Milcent
(j) O original autograpbo, está na Bibliotbeca real da ^uda.
(k) La puríssima Concezzioni di Maria Saiúissima^ Madre de Dio,
cantata scenica da representarsi neW Oratório di S, Stgnoria il sig, . .
a 8 de Dezembro de 1788. (Vide o Quadro synoptieo dias Operas.)
(1) Este uso antiquíssimo, ainda boje se encontra na Itália ; os artis-
tas, e sobretudo os músicos, suo lá conhecidos pelo nome e pelo appellido
simplesmente ; por exemplo : Leonardo Leo, Cláudio Monteverde, Giovanni
Luui, Gaetano JDonizctti, Giuseppe Haydn, Gioacimo Rossini etc.
(m) Noticia communicada ao J. do Commercio, pelo professor de Mu-
sica, José Theodoro Hjgino da Silva que a houve de seu mestre, Fr. José
Marques da Silva.
fn^ Biogr. Univ. vol vii, pag. 105.
(oj Borselli nSo podia pertencer & Opera italiana^ como Fétis quer,
(loc ctt.) visto ter-se fechado o Theatro da Rua dos Condes, depois da
expulsSo da celebre Zamperini ; entretanto, é provável que pertencesse i
Capella da Patriarchal, ou mesmo a alguns dos theatros do Paço em que se
representava a opera iti^ana. O que parece fora de duvida, é que recebera
lições de canto de Borselli, porque o Catdeal Saraiva, dis na Lista de
126 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
alguns artUías portugtiezes, pag. 4S, que era: «óptimo Mestre de Canto e
cantava com cxccllentc estylo em voz de Tenor.» Esquecemo-nos de men-
cionar até aqui, este facto ignorado por todos os seus biographos, por isso
adiante o repetimos.
(p) Este celebre Catalogo, foi publicado pela primeira vez por M. de
Araújo Porto -Alegre, na JRevista do Instituto histórico do Braxil, vol. xxix,
pajç. 290 a 292, anno de 18G6. Este escriptor pretende dal-o como auto-
grapho e assim parecem acceital-o, o Jornal do Commcrcio c I. da Silva,
sem exigirem, como era licito em assumpto tdo importante, uma prova
mais forte do que a simples affirmaçâo de um escriptor, embora respeitá-
vel. Demais, a authentícidade, fica, pelo que adiante deixamos dito, posta em
duvida e por isso mesmo, bem necessário se toma úma prova mais evidente
e mais acceitavel. Ficamos pois na cspectativa.
(q) Op. dt.
[r) TraduçSo das palavras de Fétis, loc, cit,
si Fétis. kid.
[t) Dictionnaire lyriqut et Histoire dts Operas^ etc Paris 1869,
pag. 62.
TuJ N. Jiist. biogr. Ltx. vol. iii, pag. 754.
(v) T. Oom, Epkemcrides musicaes, na Revista dos Especta/svlos, vol. u,
pag. 156.
(w) Vide o Qitadro synopOco e chronologico das Operas de Marcos Por-
tugcu, no fim doesta biograpliia.
(x) Fétis, op. cit,, pag. 106.
(y) Ibid. Eram Piccini, Zingarclli, Fioravanti, Grétry, Monsigny
Reichnardt, PaCsicllo, Cima rosa.
(z) Temos de rectificar aqui um erro commettido por Fétis. Diz este
escriptor, que Scliilling (Encyclapedie der gesammlen musikalischen Wis-
sensàiaften, Stuttgart 1835-1840, 7 Volumes gr. in-8.») confundiu, no artigo
que traz sobre a Catalani, todas as datas; um dos suppostos erros de
Schilling : a chegada da Catalani a Lisboa, em 1801, emenda Fétis com a
data íêbé: esta accusaç&o é infundada, poraue o escriptor aliem âo, escre-
veu bem ; a prova temol-a no libretto da Morte di Semiramidej de Mar-
cos Portugal, cantada no inverno de 1801 o em que ella fez o papel prin-
cipal.
Os librettos da Sofonisha^ carnaval de 1803 ; Trton/o di Clelia, 1803;
Argenide, 13 de Maio de 1804; ^atra, estio do mesmo anno — refutam cla-
ramente a asserção de Fétis, que pretende fixar a sua cbogada a Lisboa,
no fim de Í804, Basêa o celebro critico a refutação que faz da data de Schil-
ling (1801) na representação da Clitemnestre de Zingarclli e das Baccanali
di Itoma, de Nicolini, na Scala em que figurou a Catalani. Não contestamos
a veracidade d 'essas noticias, nem ellas estão em contradicção com as que re-
ferimos porque como a Catalani, cantou a Morte de Semiramide s6 no in-
verno de 1801, (como diz o folheto, que temos á vista) podia muito bem ter
cantado as duas operas que Fétis menciona, no estio ou no outono doeste mes-
mo anno.
Parece-nos esta supposição verdr deira. Entretanto os 4 librettos de
que acima falíamos, e que temos presentes, provam evidentemente que a
Catalani estava em Lisboa, no inverno de 1801 e ahi ficou até ao carnaval
de 1806, como provamos com o libretto da Morte di Mitridate, em que a
celebre cantora fez o papel de Vonima; Mombelli (Mitridate) Matucci (Zi-
fare) Olivieri (Famace).
os MÚSICOS PORTUGUEZES 127
Schilling, apesar de ter fixado bem a primeira data, errou depois,
dizendo que a Oatalani partira em seguida para Londres onde ficara até
1806, anuo em que a dá em Paris.
Pelas informações fidedignas do Jornal do Commercio, sabia a Cata-
lani de Portugal, so no outono de 1806.
Pelo que deixamos dito, se vô, que os escriptorcs estrangeiros foram mal
informados da sua estada aqui ; por isso esperamos com interesse pela no-
ticia sobre a Catalani que sabirá brevemente á luz, no Jornal do Com-
mercio de Lisboa, e que vem esclarecer muita cousa obscura a respeito da
celebre cantora e dar bastantes novidades curiosas. Falíamos mais adiante ,
doeste trabalho.
íaa) Esêai etatiat, Vol ii, pag. ccvii.
(bb) Prova : o seguinte pasquim :
Que fazes João?
l*aço o que me dizem,
Como o que me dao,
P2 vou para Mafra
Cantar cantocbão.
(cc) Vide a Biograpbia de José Maurício Nunes Garcia, vol i, pag. 114,
116, e 116.
(dá) Balbi, Essai statiêt, vol ii, pag. ccxiv.
(ee) Este facto vem confirmado n^uma carta de Luiz Marrocos, de 29
de Outubro do 1811 :
aConcedeu S. A. li. 7 loterias para ajuda das obras do magnifico
tbcatro de S. João, que está a cdificar-se, e que pretende abrir-se píira os
annos de S. A. R.» ctc.
Estas loterías fizeram-se a requerimento do Intendente geral da poli-
cia; a 1.*, a 9 de Março de 1811 ; ainda u'este anno, mais duas; em 1812,
duas e em 1813, ainda três ultimas.
O theatro de 8. João, tinha sido feito pelo risco de S. Carlos, se-
gundo os desenhos do marechal de campo: João Manoel da Silva. Levan-
tava-se no campo, outr*ora chamado dos Ciganos, Pelas noticias que res-
tam d^elle, devia ser um grande e bello theatro, porque segundo testemu-
nho fidedigno (Monsenhor Azevedo Pizarro, Memorias hiaioricas do Bio de
Janeiro) podia receber commodamente, na plateia 1:020 pessoas c contava
112 camarotes, distribuídos por 4 ordens.
A ornamentação era grandiosa; o scenarío pomposo-, e a tríbnna real
sumptuosa. O theatro foi inaugurado com o drama alle^orico : O Juramento
doê Numeêy e uma peça apparatosa : o Combate do Vimieiro^ (campanha da
peninsula; acção perdida pelos francezcs contra o exercito anglo-íuzo).
Este magnifico theatro foi preza das chammas, na noite de 24 para 25
de Março de 1823, depois da representação dada para solemnisar o jura-
mento de D. Pedro á nova constituiçílo ; ficou completamento destruído.
(ff 1) Da maneira como o Jornal do Commercio falia, a propósito
doesta nomeaç&o, parece que fora D. João vi, que tinha destinado o antigo
Conservatório dos Jesuítas apara a educação musical dos seus escravos.» £
falso, pois D. João vi nao deu nenhum destino novo ao antigo estabele-
cimento de Santa-Cruz, que estava florescente muito antes da chegada
do regente ;^ pelo contrarío, foi D. João vi e as suas innovaçôes fantásticas,
que neutralisaram o effcito benéfico do Conservatorío dos Negros e condu-
128 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
âa este estabelecimento á saa nltima phase e á sua ruina. Para prova do
aae deixamos dito, lembramos o que atraz escrevemos, assim como o que
oissemos na biographia do José Miauricio Nunes Garcia, sobre o Conêérva-
tario africano.
(ff 2) Archivo Pittoreêco, vol. xi, pag. 351.
(gff 1] Ibid,, pag. 241.
(nh) Friedrich Chrístoph Gestewitz, compositor allem2o. Foi Director
do theatro de Dresden, em 1790. Estudou com Hiller e compoz algumas
operas buffas; entre outras: VOrfanéUa americana^ representada em
Dresden em 1790.
Nasceu em Prieschka a 8 de Novembro de 1753, e morreu em Dres-
den em 1805.
(ii) Um decreto estúpido e que já fazia prever a demência da mulher,
que para vergonha nossa, governava o paiz — prohibia ás mulheres a en-
trada no palco, dando o golpe mortal na Opera italiana e no Thtairo na-
cional. Os jesuítas, authores do decreto, nSo queriam as mulheres no palco,
queriam-n*as para si.
Oh ! hjrpocrisia, como és vil e baixa I Oh reis bárbaros e rainhas inep-
tas, que SOIS os últimos entre os homens livres, reflecti ! ou no presente, ou
no futuro, a verdade vos stigmatisará com o sello do crime e da deshonra,
assim como o fazieis ao réprobos e innocentes que mandáveis agrilhoar ás
paredes das vossas masmorras e lançar nas vossas fogueiras.
(jj) O Jornal do Commercio, lalla (N.« 4887 de 11 de Fevereiro de
1870) de um theatro da Opera: iS. João, inaugurado no Bio de Janeiro a
12 de Outubro de 1813; porém no N.« de 22 de Fevereiro, menciona um
outro theatro : S. Pedro d Alcântara, inaugurado no mesmo anno e no mes-
mo dia e com a mesma peça : O Juramento dos Numes !
Parece haver erro ou troca n'estes dois factos.
(kk) Eeêai stat., vol. zi, pag. ocviii.
(11) Afuiaeê da opera russa desde a sua origem em 1165 até ÍS62.
S. Petersburgo. 1862.
(mm) Celebre cantora do século xviii, 1728-1807. Esta ária que re-
ferimos, foi composta por Hasse, que temendo encontrar na Mingotti uma
rival de sua mulher, quiz armar-lhe um rede, crivando-lhe a melodia de
dificuldades ; mas a artista percebendo a intenção do maestro, estudou-a
e alcançou em toda a parte com a ária um tríumpho completo, arrastando
os auditórios com o seu canto expressivo e sublime.
(nn) N'aauelles bellos tempos ainda nao se conhecia o que era tal cou-
sa ; os compositores italianos tinham mais misericórdia com os ouvidos dos
amadores. Contentavam-se com um Bondo despretencioso e agradável
que deleitava o auditório ; hoje foi substituído pela Cabaleíia insupporta*
vel, banal e enjoativa a ponto de causar dores de estômago. Eis o qne Li-
chtenthal (Dizzionario e Biblioffraphia delia Musica, Milano, 1826, vol. i,
pag. 107^ nos diz doeste artificio musical:
«Neír antico Bondo il poeta (e massime Metastasio) dando ai person-
nagio ad esprimere a parte un sentimento di tenerezza, ái dolore o cu gioia,
apprestava naturale occasione ai compositore di musica per Finvenzione di
símile cantilene.
<Ma ora, essendo la musica tutta rivolta alia sensualità e ai diletto,
non solo nelle Arie modeme, ma anche ne' Duetti e Terzetti ancora, e per-
sino n'e Finali occupano simili cantilene, in ogni genere di situazione e
d^affetti, il posto primário, di modo che, dopo un picciolo Andante od An-
os MÚSICOS PORTUQUEZES 129
dantíno la Regina CaòaUtta apre la ridente bocca, e canticchiando una
specie di WaUcr con un ritmo e prosódia stravolta, modula co^ graziosi ê
languenti êi Qno nella favorita Terza c Se^ta minore, e vola suUe ali d*un
dolce Eco tiitta giubilante e gorghe<i^çiante a tuono. II Coro cd i subalter-
ni applaudono tosto, ed Blia, tatta complaeenza, torna súbito a ribeare co-
desti Buoi fidi subditi, ripetendo coir uniforme pizzico degli strumenti la ce-
leste melodia ; e questi accompagnano non di rado con galante mormorio
le ultime cadcnze, con cni termina immediatamente il pezzo sublime, affin-
cbè non perdasi la dclicatissima e dolcissima illusione dcl non plu3 ultra
deir odierna cspressione musicale.»
Um dos compositores da eschola moderna, que tem levado a cabaletta
até ás ultimas consequências para a paciência dos ouvintes e para a musica
senmalista, é G. Verdi, a quem compete por isso uma boa parte do espi-
rituoso e irónico commentapo que transcrevemos do livro de Lichtenthal.
(oo) A vida, a actividade, o génio, as obras admiráveis d'e8te artista
gigantesco nSo existem para Portugal. Nem as suas composições para Ór-
gão, nem as de piano, nem os seus admiráveis Chorâle, nem as suas es-
plendidas Missas, emfím nada, nada, nada, aqui se conhece.
Miséria, Miséria!, omnia Miséria !
(pi>) Com Gluck succede o mesmo. Apenas em S. Carlos se cantou ha
69 annos, uma opera d*cste génio immortal ; todas as inspirações sublimes
e todas as bcllozns immorredouras que enchem a admirável partitura de
Orfée et Euridice, desde o Coro do !.• Acto, até á admirável, sublime e
inezcedivel phrase: «J'ai perdu mon Eurydice», tudo foi insuflicicnte para
fazer reviver a partitura.
Miséria, Miserice, omnia Miséria ! !
«Der «ncrreichste allcr Meister» — Bcethoven.
(qq) Homem desconhecido em Portugal.
óperas. —
Oratórios, —
Cantatas. —
Musica de órgão. —
Miséria, Miserice, omnia Miséria ! ! !
(rr) Mozart ; doeste compositor cantaram-sc cm S. Carlos apenas as
operas :
Clemenza di Tito — 1806.
D. JtMin — 1838.
Ultimamente tem-sc repetido com estropiaçues successivas, até se che-
gar ao diseãeratum, alcançado ha dois annos ou três, com uma execução
que fez fugir os ouvintes, cobertos de pnjo c de vergonha, perante uma exe-
cução selvagem.
Miséria, Miséria:, omnia Miséria ! 1 1 1
(ss) Weber ; homem desconhecido em Portugal. Ainda cm S. Carlos
nâc^ soou até hoje uma só nota do FrcichUtz, de Oberon, da Euryanthe, da
Preciosa. Ouvimos dizer que o tenor Mongini iizcra os maiores esforços
para se levar a primeira opera á scena para brilhar n^ella, porém tudo foi
cm vao.
Miséria, Miserice, omnia Miséria!!!/ f
(tt) Bcethoven, homem desconhecido em Portugal.
Nunca aqui se executou unia única Symphonia do grande génio al-
Icmão.
Miséria, Miserice, omnia Miséria ! ! ! ! ! !
9
130 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
No Concerto dado ultimamente pela Associação musica, a 8 de Junho
de 1870, deTÍa-se executar o celebre Andante da Symphonia em. Lá; maa
um atrazo na copia das partes da orchestra, adiou indefinidamente a exe-
cução do primeiro trecho de Beethoven, que se tocava em Portugal. A fa-
talidade em tudo nos persegue! Ficaremos mais um anno em completa
ignorância, até que a Associação mttsica se lembre novamente da sua
ideia.
^u) Homem desconhecido em Portugal.
Momeo et Juliette, Symphonie dramatique. —
Harold en Italie, symphonie. —
Symphonie fantastiçue» —
Messes des Morts, —
IJEnfance du Christ,
MiseriOf Miseriae, ommia Miséria ! ! ! ! ! 1 !
(yv) As composições de Mozart só começaram a ser apreciadas na
Itália depois da apresentação que Rossini fez d^ellas aos italianos, nas
obras do segundo período da sua carreira, sobretudo no Barbiere di Sevi-
gliay que em certas cousas, é o ecco de Figaro^s Hochzeit, modificado, bem
entendido, pelas qualidades particulares do compositor de Pesaro.
(ww) O nome verdadeiro d*cste compositor é Marcdlo Bernardim; o
appellido cde Capua>, provém da cidade aonde nasceu. As suas operas fo-
ram applaudidas, sobretudo as do género Iwffo,
Em S. Carlos, cantou-se d*este author : II ConUe di BelVumore, —
1791.
(xx) N, hisL bio gr. Lexicon. vol iii ; pag. 754.
lyy) £xamine-sc o Allegro, ma no?h troppo = Sensations donces à la
campagne = phrase das i.** rabecas^ imitada pelas 2."*, repetida depois
pelo oboés, renovada pelos clarinetes e fagotes, e attacada no 27.* com-
passo por toda a orchestra ; veja-se ainda na mesma Symphonia = Scène
prés du ruisseau = phrase das i," rabecas, imitada pelo oooés c fagotes ;
no mesmo trecho, 14.» compasso: /.• solo dos clarinetes e fagotes, depois
flautais, clarinetes, fagotes, i." rabecas e violonceUos; tremolo no resto da
orchestra; recommendamos emfim a analyse da = Reunion joyeuse des
villageois = phrase das i." e 2." rabecas e violetas, e = Chant des ber-
gers = . Os exemplos não tem conta.
Quando é que a orchestra de S. Carlos se lembrará de abrir os olhos
á cegueira universal, facultando-lhes os thcsouros inexgotaveis, innumeros,
e inexcedivcis das Symphonias do génio allcmao ?
Poderão objectiir que não é musica para a nossa gente ; isso, é uma
objecção absurda a que só um idiota poderá prestar ouvidos ; seremos nós
então o único povo da Europa incapaz de apreciar o que ha de maia bello
no género instrumental ? Não nos queiramos « passar tão triste e miserável
attestado, que nos reduz á ultima classificação, como povo incapaz de
sentimento artistico.
Haja vontade e coragem na orchestra do nosso theatro lyrico que em
querendo, sabe muito bem cumprir o seu dever ; não reservem só para um
concerto extraordinário, aquillo que se devera ouvir, sentir e comprehender
todos os dias para retemperar a alma gasta do ouvinte, que vem procurar
no theatro uma distracção e um allivio aos pezados encargos do dia.
Dêcm-lhc a ouvir a musica que retempera, que fortalece, que encanta
que educa, que enthusiasma a alma bem formada ; que seja S. Carlos um
templo, um refugio contra o mau gosto que nos attaca por todos os lados \
os MÚSICOS PORTUOUEZES 131
que nao haja um culto exclusivo n^cssa casa ; que seja um templo pan-
tneista aonde se admirem todas as mauifcstaçucs do bcUo na Arte, sem se
olhar,nem a nomes, nem a títulos.
E uma vergonha, que no primeiro thoatro lyrico de Portugal, nSo se
tenba ouvido até hoje uma opera de Weber, uma opera de Mozart, (como
deve ser) ou uma Symphonia de Beethoven !
Becommendamos estas linhas aos artistas da orchcstra de S. Carlos ;
da sua boa vontade depende a rcalisaçao d aquíllo que pedimos em nome
de todos os verdadeiros amadores portuguezcs ; esperamos da illustração e
do sentimento artístico de tanto professor distiucto, um sincero auxilio para
transformar os desejos de nós todos, n*uma realidade palpável.
(zz) Assistimos n*esta ultima estação musical de S. Carlos, á represen-
tação do Ernant, (por signal, que foi detestável, pelos cantores) e tivemos
a paciência de seguir a partitura desde o primeiro compasso, até ao ultimo ;
pois podemos declarar, sem faltar á verdade, que em cada ires compassos,
havia pelo menos um, em que figuravam os pratos ; era um barulho impos-
sível, e tanto mais insupportavel, que estivamos próximos da orchcstra.
£m todas as 10 Symphonías de Beethoven, nâo se encontra um único
compasso de grosst caísse, tam-tam ou pratos, e notc-sc que sâo estas as
composições orchcstraes que produzem o effeito mais surprehendentc.
A orchcstra de Beethoven, compoc-se além do quartetto, apenas de
floMÍas, oboés, clarinetes, trompas, fagotes e contra-baixos.
Que simplicidade de meios, e que resultados extraordinários !
(aaa) Memoiresde Hector Berlioz. Paris, 1870, pag. G4.
(bbb) Ibid. Em Nota ;
« Je trouve même Têpithète honteuse, insuffisante pour flétrir cc passage.
Mozart a commis la centre la passion, contre le sentimcnt, contrc Ic bon
gout et le bon sens, un des crimes les plus odieux et les plus insensés que
í'on puisse cíter dans rhistoire de Tart. *
Berlioz no fogo da sua indignação nâo se lembrou, de que o seu ídolo
Gluck, que elle eleva ás alturas mais ignotas (Vide Soirées de VOrchestre.
Paris, lèõ3, e  trauers chanfs, ibid.) também commetteu um crime idênti-
co na partitura do seu aliás admirável Orphée et Euridice, introduzindo no
papel que Segros desempenhou, uma série de vocalises de muito mau gosto.
(ccc) Jornal do Commercio, de 22 de Fevereiro de 1870.
(ddd) Distincto compositor allemâo do século xviii. Nasceu em Koenigs-
berg em 1752, e morreu em Halleem 1814. Deixou um grande numero de
operas sérias e buffas, entre as quaes se distinguem, Brenno, Jiosmonde,
Bradamante ; no segundo género é notável a opera Die Geisterinsel, Rei-
chhardt foi também um escriptor thcorico c critico distincto ; os seus es-
, criptos politicos, dSLo-n'o a conhecer como um dos poucos homens que na
Allemanha comprehenderam logo a Revolução franceza c âzeram justiça
aos sens heróicos feitos.
(eee) Compositor de mérito. Nasceu em Mannheim em 1754, e morreu
em Munich em 1825.
Entre as suas operas distingucm-sc Doã Labyrinih, Maria von Mon-
txdban e Da^ unferbrochene Op/erfest, a sua obra prima e que ainda hoje
é representada com grande applauso nos theatros da Allemanha. A sua re-
putação está to<lavia quasi circumscripta a este paiz.
(fff) O seu verdadeiro nome v : Johann Adam líUller ; nasceu em
Wcndischossig (Silesia) em 1728, c fallcceu em Lcipsig cm 1804. Foi no-
tável como fundador c director do hoje celebre Conservatório de Lcipsig.
132 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Sen filho, Fríedrich Adam Hiller (1768-1812) dcúcou algumas operaê
comicoê, composições distinctas, ainda hoje applaudidas na AUcmanha ; en-
tre outras : Das Nixtnreich, Das Donauwetbchen, e Das Schmuckkãestchou
{%K^) Compositor distincto ; nasceu em Eisenstat (Hungria) e morreu
em Vienna d'Austria a 3 de Fevereiro de 1846.
Entre as suas composições, distingue-se sobretudo a sua opera : DU
Sehtoeizerfamilie, ainda hoje celebre na AUemanha ; esta reputação é me-
recida, pois a opQra que ouvimos na sua pátria, tem bellas inspirações, so-
bretudo pelo lado melódico. Em S. Carlos se representou cm 1820: II Ri-
vaU di st stessoy doeste author opera escripta originariamente para a Scala,
(hhh) Nào reproduzimos a nota do jornal italiano, porque o tínhamos
em uma tolha volante, que perdemos ; todavia lembramos o numero do Jor-
neU do Commercio em que a citaç^ se encontra; é de 22 de Dezembro de
1869, N.» 4:847.
(iii) Celebre compositor do século xvtii ; nasceu em Bergedorf, perto
de Hamburgo em 1669 e falleceu em 1783, em Veneza. Este author teve
uma reputação universal no fim do século xvki g foi considerado no seu
tempo como o primeiro compositor dramatíco, até que o apparecimento de
Mozart e de Haydn o fizeram esquecer. Entre as suas operas distinguiam-se ;
Artaserse, Alessandra nelV Indie, Arminio, etc.
Estas composições tinham muito mérito para aquelle tempo ; os seus
cantos eram de juma grande suavidade, bem construídos, e uniam -se fiel-
mente <4 expressão das palavras ; a execução que os cantores admiráveis
d'aquellc tempo davam ás suas árias, augmentava também o seu prestigio
c a sua fama ; todavia a falta de expressão enererica e de verdade dramáti-
ca nas suas ideias, a pouca variedade das suas rormas musicaes e a pobre-
za da sua harmonia, lançou-lhe as obras no esquecimento, desde que
Haydn e Mozart revelaram pelas eminentes qualidades das suas composi-
ções, todos os defeitos de Hasse, contrabalançando ainda as vantagens does-
te ultimo, com talentos superiores.
Foi este compositor, que ouvindo em Milão o Milhridate de Mozart,
composto aos 13 annos e representado em 1770, em concnrreneia com o seu
RuggUro — soltou aqucllas prophetícas palavras: ksta criança fazbr-kos-
HA ESQcnscEu A TODOS ! oraculo profundo que o tempo não ousou desmentir.
(iij ) La Musique ancienne et modeme. Paris, 1854, pag. 2.
(kkk) Biogr, Univ.y vol. iv, pag. 87.
(111) Ibid.y vol. víi, pag. 465.
PORTUGAL (Simão) — IrmSo do antecedente. Postoque mui-
to inferior em talento, foi entretanto um compositor babil e agra-
dável, que mesmo nas operas cm que coUaborava com seu irmSlO;
se soube fazer applau{lir.
A sua actividade artistica exerceu-se principalmente no Eio
de Janeiro, aonde trabalhou para o Conservatório africano e para
a Capella Real. Era Lisboa pouco escreveu, se exceptuarmos algu-
mas composições feitas para a Capella de D. João vi e algumas
4
\
i
Quadi^RCOS PORTUGAL,
aligeiro.
Fundamentos e Observações
MeaerJ^^^f * (BiograpL Univers. des Musioiens, vol. vii, p. 105.)
1815
1815
1816
1817
1817
1819
1819
-étis, Larousse. (Dictionuaire lyrique des Opera», p. 8.)
10 dáf>"**^ ^^ Commercio.
22 de
8 de
25 d<
13 dl
1
8 Operas com datas duvidosas
1787
1788
1789
1789
1790
1790
1802
1802
1802
1802
1812
1813
1817
480?
180?
180?
17 de Ifonial do Commercio.
25 dT
25 d4
13
12 de
7 deU
féÚB
: trad. do itaL : =Le trame diluse. =
> » =1 viaggiatore felice.
9
»
»
»
=La Yilla.=s
=L'ecquivoco.=
; pelos esoravos do Conservatório.
; parece ser a rae«nr*i qnc = LcDonne cambiate.
os MÚSICOS PORTUGUÈZES 133
aticis e duettoB isolados, que ainda hojo se encontram. O seu in-
atrumenlo favorito era o piano, que tocava muito superiormente
a seu irmão. Viveu quasi sempre no Rio de Janeiro.
POUSÃO (Fr. Manoel) — Monge natural do Alandroal (Alem-
tejo) e filho de Lourenço Rodrigues e Brites Fernandes. Profes-
sou o instituto augustiniano no convento de Nossa Senhora da Gra-
ça em Lisboa, a 16 de Maio de 1617. Foi discipulo de António
Pinheiro e muito estimado por D. João iv, que o elevou ao cargo
de Mestre de Capella no convento de Lisboa; foi também pelas
suas virtudes ecclesiasticas, Aomeado Visitador da provincia e
Mestre dos Noviços.
Morreu em Lisboa, a 16 de Junho de 1683 com quasi 90 an-
nos. Publicou:
1.) Liber passionum et corum, qiuB a Dominica Palmarum
U9que ad Sahbatum Sanctum cantari soUnt. Lugduni (Lyon)
apud Petrum Quilliminis, 1576, in-fol.
2.) Missa Defunctorum, a 8 vozes.
3.) Vilhancicos e Motetes. Existiam na Bibliotheca da Mu-
sica, em Lisboa.
PURIFICAÇÃO (João da) — Natural de Lisboa, aonde morreu
a 19 de Janeiro de 1651. Pertenceu á Congregação do Evange-
lista, que professou no convento de S. Eloy, em Lisboa. Foi dis-
cipulo de Duarte Lobo, e defxou:
Varias obrcu mtisicaes. Ms. Qrande parte se conservava na
Bibliotheca real de D. João iv e em diversos conventos da sua
congregação.
Q
QUEIROZ (Bernardo Joaé de Sousa) — Author supposto do
drama o Juramento dos Numes, que segundo indicações jnais
134 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
exactas, parece ter sido composto por Marcos Portugal, (a) Quei-
roz era mestre e compositor do theatro de S. JoSLo (opera) do
Rio de Janeiro^
(a) Vide a lista das : Bnrlettas e peças sectindaiHcUf cantadas no Bio
dt Janeiro, pag. 83 d*cste volume.
R
REBELLO (João Lourenço ou João Soares) — Foi Caminha o
berço d'este musico celebre; (a) ali nasceu em 1609, filho de
João Soares Pereira e D. Domingas Lourenço Rebello. Apren-
deu a musica provavelmente na Capella ducal de Villa Viçosa,
pois em 1624; encontramol-o ji ao serviço da casa de Bragança.
Foi um dos nossos primeiros compositores, se dermos credko a
Machado : muitissimo distincto nas suas producçSes, que brilha-
vam pela originalidade das ideias e pela inspiração elevada, que
as animava. A maior parte das suas composições, que eram sa-
cras, foram executadas na Cathedral de Lisboa, cuja direcção
estava encarregada a seu irmão, Marcos Soares Pereira. Teve a
honra de ser Mestre de D. JoSo iv, emquanto Duque de Bra-
gança; dizemos uma honra, por tef sido este um grande artista.
O principe remunerou>o largamente com a doação de varias com-
mendas, fôro de fidalgo, etc.
Já dissemos, que D. João iv era artista, e como tal respei-
tava e venerava aquelle que í55ra seu Mestre e que era então um
dos mais illustrcs artistas de Portugal. A sua estima, chegou a
ponto de lhe dedicar uma das suas obras, a Defensa de la Mu-
sica moderna; D. João iv fez o seu dever. Depois de Deos, vem
o artista, seu verdadeiro representante na terra.
Rebello morreu a 16 de Novembro, de 1661, na sua Quinta
de S. Amaro, perto de Lisboa, e jazia sepultado na pai*ochial
egreja da Encarnação, no logar da Appellação, perto de Lisboa.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 135
Um livro de Pscdmoa e Misereres, publicado em Roma, pa-
rece indicar ter feito alguma viagem á Itália. Com]poz ;
1.) Psalmi tum Vesperarum^ tum Completorii. ItemMàgni"
ficai, Lamentationes, et Miserere. Romse, Typis Mauritii et
Amadffii Belmontiarum, 1657, in-4.**, 17 vol. foi. gr. S2Lo: Psal-
mos. Magnificas, Lamentaçdes e Misereres, a 16 vozes, com baixo
obrigado,
2.) Victimce Paschoalis, a 8 vozes: duas a 1 de Compassi-
nho, e a 2 de prolação maior.
3.) Missas a 4,5 e6 vozes, de Estante,
4.) Psalmos de Vésperas, a 4 vozes, idem.
5.) Hymnos das Vésperas, a 4 vozes, idem,
6.) Missa a 39 vozes, offerecida a D. João iv, quando fazia
este numero de annos.
7.) Missa de coros, a 8 e a 10 vozes.
8.) Missa a 17 vozes.
9.) Te Deum Lavdamus, a 9 vozes,
10.) Regina cceli lastare, a 8 vozes.
11.) Invitatorio de Defuntos, a3 ea 8 vozes,
12.) Parce mihi, a 12 vozes, para as exéquias do príncipe
D. Theodosio, pae de D. JoSo rv.
13.) Spiritíis meus attenuabitur, a 8 vozes, para as exequiaa
de Luiz XIII, celebradas na egreja de S. Luiz em Lisboa.
14.) Missa de Defuntos com a Sequencia e Besponsorios, a
12 vozes.
15.) Credidi propter quod locutus sum, a 12 vozes.
16.) Joseph, Filii David nocte timere, motete a 3 vozes,
17.) Vilhancicos da Conceição, Natal e Reis, a 4,6,8 e 12
vozes.
18.) Diversos tonos, a 4 vozes,
A maior parte doestas composições, estavam archivadas na
Bibliotheca musical de Lisboa, aonde também se encontrava o re-
trato de Rebello, mandado ali coUocar pelo seu protector e amigo.
(a) Fétis, Biogr, Univ.y vol. vu, pag. 194, di2 exceUent compoaiteur
portugais.
136 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
REBELLO (Manoel) — Mestre de Capella em Évora. Viveu
na primeira metade do século xvil (1625) e era natural de Avia
(Alemtejo).
As suas composições estavam na Bibliotheca de Lisboa e
eram:
1.) Parce mihi, a 6 vozes.
2.) Laudate Dominum, a 3 vozes. \
3.) 4 Misereres do quarto tom, a 3 coros* I Est. 33,
4.) Quommodo sedet sola civitas, a 3 eaõ vozes^ í N.® 776.
5.) Domine quando veneris, a 4 vozes. \
6.) Omnes gentes plaudite manihus, motete a 8 vozes. Estan-
te 35, N.« 801.
7.) Ave Virgo graciosa, a 4 vozes. Estante 33, N.*770.
8.) Ave regina codorum, a 4 vozes. Estante 33, N.** 771.
a.) Missa a 12 vozes do primeiro tom. Estante 36, N.® 808.
Y Rebello que pudo desde el monte
Pindo baxar ai Acherontc, etc. (a)
(a) Manoel de Faria, Fonte de Áganipe, part 2. Põem. 10, noia. 72
c 73.
REGO (António José do) — Compositor dramático e pianista.
Ignoramos as circumstancias pessoaes doeste artista.
Forneceu algumas Operas ao theatro deS. Carlos. Eram:
1.) 2Z Conte di Saldagna, em 1807; em collaboraçSo com
outros.
2.) Triunfo d'Emilia, no mesmo anno.
3.) L' ingano felice, em 1817.
4.) Elisahetha, em 1826.
Para piano, escreveu:
A Batalha do Bussaco. Peça militar e histórica para Forte-
Piano, 1812.
Também foi director e editor de um Jornal de Modinhas,
que se publicava no mesmo anno.
os jroSICOS PORTUGUEZES 137
REGO (Pedro Vaz) — Nasceu em Campo-Maior; (a) a 8 de
Março de 1670; foi filho de Manoel Vaz Rego e Brites Lopes. Es-
tudou a musica no Seminário d'£vojra, sendo ahi discipulo de Mel-
. gaço. Foi primeiramente Mestre de Capella na cathedral de Ei-
vaa e depois (em 1797) director da Capella da Claustra d^Evora
em cuja cathedral foi bacharel. Ahi morreu exercendo as funcçSes
de reitor do Seminário^ a 8 de Abril de 1736. Jaz no convento da
Caiiinxa^ fora d'essa cidade.
Deixou-nos as seguintes composiçSes que ficaram manu-
scriptas :
TUEORU
1.) Tratado de Musica; ficou incompleto.
8.) Defensa sobre a entrada da novena da Missa «Scala Are-
tina>> composta pelo P.* Francisco Yalls, Mestre da Cathedral de
Baroelona. (b)
Fétis (c) traz o titulo um pouco alterado^ sic. :
— Defensa sobre a entrada da novena da missa sobre la scala
Areiina, composta pelo Mestre Francisco Yalls, Mestre da Ca-
thedral de Barcelona.
PRATICA
3.) Missa, a 4 coros.
4.) Missa, a 2 coros,
50 Duas missas de Estante, com os titules :
Al.* Taiitum ergo Sacramentum, com um raríssimo enigma no
Agnuê Dei, (d)
A %.* Ad omnem Tonum; Machado di3 que esta obra nflo tinha
egual(!)
6.) Psalmos, a 4 coros.
7.) Hynmos, Motete» e Ghxtdttaes, a diversas vozes.
8.) Lamentações da Semana Santa, a 3 coros.
9.) Textos da paixão, a 4 vozes.
10.) Vilhancicos do Natal e Conceição, Epiphania, e de imx-
rios Santos; a musica e as palavras eram egualmente do author.
i
138 OS MÚSICOS PORTUGUEZES ^
Escreveu mais:
11.) En alabanza de la Salve Regina que campuzo en musica,
9U alteza real la serinissima princeza de las Astúrias; romance
heróico, foi., sem logar de impressão. Consta de 20 coplas.
A maior parte das obras que acabamos de mencionar exis-
tiam ainda no tempo do cardeal Saraiva (e) no cartório de musi-
ca da cathedral de Évora.
(a) Nâo em Évora como diz Fétís, Biogr. Univ,, vol. vn, pag. 201.
(b) Forkel, ÂUgem, Litterat. derMusik, pag. 499, dá estas obras como
existentes na cathedral de Évora.
fc) Ibtd. loc. cit.
\á) Provavebnei
^e; Li9ta, pag. 49.
d^ Provavebnente algum cânon enigmático.
i) -•
REIS (Gaspar dos) — Distincto professor de musica, e dis-
cípulo do celebre Duarte Lobo. Foi Mestre da egreja parochial de
S. Julião (1630) e assummiu depois a direcção daCapella da Ca-
thedral de Braga, aonde morreu.
Compoz:
Missas, Psalmos, Motetes e Vilhancicos, a differentes vozes.
Os authographoB doestas composições existiam na preciosa
bibliotheca de Francisco de Yalhadolid. (a)
(a) Vide a soa biograpbia, lettra Y.
REIS (João dos) — Musico da Capella Real do Rio de Ja-
neiro, em 1822 e um dos discipulos do celebre Conservatório
africano, fundado pelos jcsuitas. Este mulato era considerado
como o primeiro baixo do Brazil; Balbi, diz-nos que. D. JoSo VI
o comparava com Mombelli pela semelhança da sua voz com a do
celebre artista italiano. Espanta-nos esta asserção do celebre geo-
grapho, porém nSLo comprehendemos que relação se podia encon-
trar entre a voz de tenor, de Mombelli (a) e a de baixo profundo,
de Reis, para estabelecer entre elles uma comparação. Ou Balbi
se enganou, ou esta opinião é de D. João Vi, e então opinião de
rei
os MÚSICOS PORTUGUEZES 139
(a) Este Mombelli podia ser ou Alessandro Mombelli, ane cantou
em Lisboa com pouco êxito, ou Dominico Mombelli — o celeoro tenor,
doeste nome.
R£I8 (José da Silva) — Sábio contrapontista do fim de seca-
lo XVin e um dos nossos mais distinetos violoncellistas.
Conhecemos este artista por mn documento que se encontra
no principio da Nova Instrucção musical, e que este artista assi-
gnou. É uma carta dirigida aSolano^ em que elle, depois de uma
analyse sussincta das theorias seguidas no livro, que elle nSo se
cança de elogiar, o convida a publical-o para honra da naçSo
portugueza e utilidade dos professores e curiosos. A carta vem
datada de 15 de Março de 1763.
RESENDE (André de) — O antiquário mais illustre de Por-
tugal, segundo a authorisada opini&o de Ferdinand Dénis ; nas-
ceu em Évora em 1506, como se prova pelo seu testamento, es-
cripto no 1.^ de Dezembro de 1573, no qual declara que ao tem-
po em que o fazia, (9 dias antes da sua morte) contava sessenta
e sete annos de edade. (a) Foram seus pães, Pedro Vaz de Re-
sende e Ângela Vaz de Góes, de illustres familias do reino. Er-
radamente se tem escripto que André de Resende era irmão do
não menos celebre Garcia de Resende, (b)
O caracter artístico do primeiro author, revelado nos seus
trabalhos de archeologia e historia, fez com que o Conde de Rac-
zjnski o inscrevesse no Dicctonnaire histortco-artistique; (c)
aqui apresentamos também o seu nome, por isso que se distin-
guiu no século xvi pelos seus escriptos musicaes. Barbosa cita
uma Carta do nosso antiquário a Bartholomeu Quebedo, em que
lhe dá noticia das suas composiçSes. (d) A Carta, versa princi-
palmente sobre averiguaçSes históricas e ethnographicas, e ape-
nas duas paginas se referem á musica; mas essas são interessan-
tissimas não só para a vida do artista, como também para a his-
toria da musica em Portugal, no século xvi. André de Resende
recebera uma Carta de Bartholomeu Quebedo, sacerdote da Egre-
140 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
ja de Toledo, a 13 de Janeiro de 1567, a qual (ora escripta em
Junho do anno anterior; receiando que o seu amigo extranhasse
a demora da resposta, desculpa-se, compensando-o com uma lon-
ga carta, datada de Évora de 11 de Maio de 1567. Pela respos-
ta de André de Resende, se vê que Bartholomeu Qtiebedo o tinha
censurado por causa da musica de um Officio de Som Gronçalo;
Resende desculpa-se, attribuindo parte dos erros ao typographo
inexperiente, d^onde podemos seguramente inferir, que antes do
anno de 1566, já existia em Portugal uma tjpographia de musi-
ca. Eis as próprias palavras de Rezende:
i Admiravelmente exaltas o OJício de Sam Gonçalo^ Cor\fei-
s<yi', por mim composto. Na verdade folgo, e como te seja muito
affeiçoado, nao só folgo, mas exulto. Comtudo, em demasia cen-
suras a modulaçSo do canto. Que haverá ahi que nSo censures?
quando tão estropiadamente foi ella impressa, que eu próprio
que a compuz, nem a conheço, nem julgo poder cantal-a de
maneira alguma. Porém, espero, que, lançando tu ao typogra-
pho a mesma culpa attribuida por mim, em rasfto da tua equi-
dade, nSo poderei ser apreciado. Oh varSo doutissimo, tendo
apresentado o autographo da minha mão nas sessSes feitas pelos
padres Pregadores do instituto de Santarém, approvada a escrip*
ta, foi o exame do canto confiado a Frei Isidoro, teu patrício, e
muito perito em composiçc^es musicaes, e a mais outros quatro,
para que nos seus mosteiros o ensaiassem no curo. Os quaes ten-
do-o cantado uma e outra vez sem offender os ouvidos, vieram
dizer aos padres, que nSo só approvavam a modulação, mas que
também tinham ficado encantados com ella. E como de commum
accordo dissessem que merecia ser acceito, fui chamado á sessSo,
aonde publicamente me elogiaram, desejando-me todas as felici-
dades. Accrescento mais. Todos aquelles que depois disto voltar
ram para Lisboa, vieram gabar-se-me, de que, juntamente com o
padre Provincial, (Fr. Francisco Foreiro) cantando este Officio no
barco, com a alegre suavidade do canto se haviam distrahido do
aborrecimento da viagem. Foi dado, depois disto, para se impri-
mira um monge, varão em verdade douto e probo, mas inexpe-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 141
riente na arte tjpographica, e nSo sei se tSo perito em cantar*
Parece-me para mim impossivel que possa ser cantado, a nSo ser
qne afinal se restitua a moduIaçSo á verdade do próprio autogra*
pho, depois dos desconcertos do typograplio ignorante. NSo digo
isto como se pretendesse isemptar-me de toda a culpa, e a quizesse
lançar á custa do tjpographo. Nem tu, de outra sorte, me absol-
vas da culpa, se, desbastados os erros, a composição parecer mal-
soante. Se algum defeito existe por causa da pouca arte, confesso
que isso me cabe. Com quanto nao seja completamente alheio a
esta arte, trabalhei n'ella tanto, quanto competia a um homem
destinado para o coro e para o altar. Â gloria de Musico distincto
nunca ambicionei. Tão somente, como alguns Officios da nossa
egreja Eborense sahissem da minha lavra, da mesma ajuntei a
dois o canto, a um, o da Rainha Santa Isabel, ao outro, este de
Sam Gonçalo, bastante desgostado com o canto composto por ou-
tros para a letra de alguns meus Officios, seguindo systemas
desvairados, com um modo ora levantado ora abatido e sem
nenhuma rasSo com o arseon kai theseon. Porém eu trabalhava,
como julguei, para que a melopoia conviesse com o sentido e
com a letra. E se me impSes a norma do canto gregoriano, na
verdade este canto dos exodlos e antiphonas, que todas as egre-
jas adoptam, é gregoriano, e posso provar, que eu nada fiz sem
exemplo. Evitei comtudo a perplexidade dos sons mais agudos,
e a demora sobre as breves syllabas de muitas notas destituidas
de accento.v (e)
Como sacerdote da Egreja de Toledo, aonde o Cardeal Xi-
menez restabelecera o culto moaarabe, Bartholomeu Qucbedo, na
Carta que em 1566 escrevera a Ândró de Resende, perguntava-
lhe, se antes do seu Officio composto para a festa da Rainha Santa,
existia algum outro. Resende, tendo n'esta carta respondido, que
se entregara á composição musical por causa do mau systema
que se seguia no canto, e na má interpretação que os músicos da-
vam á letra dos seus Officios, diz :
«Cantava-se então aquellc Officio que tanto me indispoz,
como testifiquei no prefacio. E esta foi a causa que me levou a eu
mesmo compor um novo.» (f)
142 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
A occasiSo qne levaria André de Resende a escrever a sna
composição ou Oficio de Santa Isabel, seria pela festividade da
confirmação de Paulo rV; permittindo o culto da mulher de
D. Diniz,
For estes extractos de tSo preciosa Carta se podem tirar as
seguintes inducçSes: que a musica religiosa era no século xvi
muito cultivada nos conventos portugueses^ nos quaes se forma-
vam sessSes para examinarem e approvarem as musicas que me-
reciam ser admittidas na liturgia. Que, depois de approvada a
composição, era ensaiada no coro dos mosteiros como prova final,
voltando depois d'este exame á acceitação definitiva. Vê-se tam-
bém que em 1567 existia em Portugal um eximio compositor
hespanhol, Frei Isidoro, natural de Toledo, que deu o seu pare-
cer sobre a musica de André de Resende ; que em muitas egre-
jas de Portugal ainda reinava o velho canto gregoriano, e que o
seu exclusivismo absoluto também levou Resende a dedicar-se á
composição, fazendo por esse motivo o Officio de Santa Isabel
para o substituir pelo officio gregoriano, usado pelas freiras de
Santa Clara de Coimbra.
Que o Officio de Sam Gonçalo, de Resende, era de uma
melodia suave e alegre, (talvez Vilhancico f) e não soturno como
o canto-chão, se v6 pela anedocta dos dominicanos que vieram
de Santarém para Lisboa, cantando-o no barco para se distra-
hirem do aborrecimento da viagem.
Outro facto interessantíssimo se descobre n'esta Carta a
Quebedo com relação á Musica; é que em 1566 já existia em
Portugal uma imprensa de mitsica, e que os mosteiros manda-
vam imprimir os seus Officios do coro. Sabemos que o typogra-
pho que imprimiu o Officio de Sam Gonçalo era um monge, ho-
mem intelligente, mas muito pouco perito ainda na arte typogra-
phica, d'onde resultou encher a composição de tantos erros, que
só podia ser cantada seguindo-se unicamente o autographo. Por
esta mesma Carta se vê, que André de Resende não queria dar-se
por compositor, todavia, apesar de todos os seus trabalhos ar-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 143
cheologicos a que se dedicou com mais predilecção, ia escreven-
do a letra dos Officios^ que elle punha depois em musica. Para
remate da biographia d'este homem illustre^ lembramos, que elle
foi um dos poucos que reconheceu o talento de Gil Vicente, e
nXo receiou de o confessar mesmo antes da morte do grande
poeta dramático, (g)
Tendo André de Resende nascido em 1506, e sido mestre
dos príncipes, filhos de D. João iii, (h) é muito natural que tivesse
relaçSes directas com Gil Vicente, e que assistisse na corte ás re-
presentações cómicas doeste bello génio. Foi amigo do celebre
Erasmo, com quem tomou relaçSes durante as suas viagens, e
trouxe a Portugal o erudito Nicolau Clenardo. Segundo a nossa
opinião, consideramos Resende e Damião de Góes, como os dois
primeiros vultos da Renascença, em Portugal.
Escreveu :
1.) Officium et Missa Sanctae EUsahetháe, Regina Porta-
galiae, Ulyssipone, 1551, in-8.**
2.) Officium et Missa Sancti Gundissalvi a Amarantho.
* (a) José Carlos Pinto de Sousa, na Bibliotheca Hiêtorica, pag. 10,
§ 8, diz qne André de Resende nascera em 1498. Facto que deve ser rejei-
tEido em vista da presente restítuição.
(h) Vide a biographia de Garcia de JRetende.
(c) Op. cit. pag. 242.
(d) Foi impressa em Lisboa em um folheto de 54 foi., em 1 567, por Fran-
cisco Garção, contendo : foi. 2, Carta ou dedicatória a D. Sebastião ; foi. 3
a 8, uma Epistola em verso latino a D. Sebastião ; foi. 9 a 38, Carta a
Bartholomeo Quebedo, da egreja de Toledo, que estivera no tempo de D.
João III em Portugal ; foi. 39 a 54, Varias poesias latinas. Este opúsculo é
de uma extrema raridade. Dom Nicolau António elogia esta carta com o
titulo de doutíssima, BibL Htsp, 1. 1, p, 66, col. 2.
(e) Eis o texto que vertemos : f Beati confessoris Gundisalvi Officium
a me compositum mire extollis. Gaudeo sane, et ita vere adfectum esse te,
non solum gaudeo, sed exulto. Modula tionem tamen cantus valde Ímprobas.
Qnid ni improbes ? auum tam depravate typis excusa sit, ut ego eam nec
adgnoscam, nec saltem cantare me posse ullo modo sperem, qui eam
composueram. Spero tamen te, ipsam typographi culpam a me praestan-
dam, pro tua sequitatc, non existimaturum. Ego, vir doctissime, auto-
eraphum meae manus in comitiis sacerdotum rraedicatorii instituti Scal-
labi habitis, quum obtulissem, scríptura comprobata, cantus examcn com-
missum est fratri Isidoro, homini vestrati, musicse compositíonis bene pe-
rito, et quatuor aliis, qui choragium in suis agerent cenobiis. Qui quum semel
atque iteram inoffense cantassent, retulcrumt patríbus, non modo se modu-
Ii4 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
latíoaon prob&re, sed ília cti&m mirifícc foisse delectatos. Qanmqué uno
consensu dietum csset, placcre recipi, in coraitíum vocato, publice act»
gratúe, et ab omnibus orania mihi fclicia exoptata. Addo amplius. Quotquot
inde Olissiçonem rcdierunt, una cum provinciali praefecto, in navi Officium
ipsum caiitillando, navigationis ts&dium jucunda cantus Voluptate sese pro*
pulissc, gloríati apud me sunt Data post id imprímendi província mona-
cho viro, Hercle docto et probo, sed impressoriae artis inexperto, ncqne ecio
qaam oaucndi perito. Qui cuni typographo insignitcr cjus rei ignaro,
adhunc modum rem gessit, ut nisi denuo ad autographi ipsius fídem modu<>
la tio recudatur, poeee cantari mihi sane videatur imposaibile. Neque hoc
dico, quasi culpam universam a me ablegam, et in tvpographum rejectem
velim. Neque tn, si alioqui, prseter depravationem, absona compositio est,
cnlpam a me transferas. 8iquid peccatum est, et minime ex arte factum,
id ad me pertincre peccatum profíteor. Nam tametsi non omnino rudis ejus
artis fuenm, eatenus tamcn in ca laboraverám, quatenos opus erat hominí
choro et altari destinato. Cacterum litterarum studiis amplias dclectatos,
scriptoris non indiligentis nomen aliquod, et scrmonis nitorcm, quoquoniodo
potui, conscctatus sum. Quam feliciter vidcrint lectorcs. Musici cxquisitio-
ris decus non ambivi. Tantum, qnum officia nonnuUa hujus nostne £bo-
renais ccclcsiaB à mca oíEcina prodierint, cx eadem, cantunr adjcci duobus,
alteri ReginsB sanctas £lisabct, altcri hnic Dlvi Gundisalvi, nimirum offen-
8US cantu ab aliis in aliquot mea alia officia compósito, per diversa syste-
mata cvagante, nullaque araton kai thtaton ratione modo fastigato, modo
depresso. Atqui ègo dederam, nt putavi, operam, ne mtlopoia sensui ac li-
tersB non conveniret. Et si ad gregorianas compositionis me normam àdi-
gis, 8Í quidem hic cxodiorum et antiphonarnm cantus, quem omnes ecclesi»
seqnuntnr, Gregorii est, possam ostendere me nihil sme exemplo fecisse.
Yitavi tamen longiorum pneumatum perplexitatem, et super brevis sorlla-
bas «dcentu destitutas morosam multanmi notaram inculcationem.» Ad
BariholomotfWi Kthtdium Epiètola, foi. 9 a 10.
(f ) «Quod intciTogas de sanctse Regin» Elisabct oíncio, an ante menm
hoe aliud extaret Canebaturque, tunc officium illnd quod me
ofiensum in nne^atione sum testatus. Eaqne fuit causa, ut no\nim ipse h,-
cerem. > Id, ib. fui. 1 1 . Por esta Carta se vé, que o Provincial a quem se re-
fere Resende era o celebre Padre Francisco Foreiro.
(g) Celebra-o em uns versos da descripçao dos festejos que o Embai-
xador I). Pedro de Mascarenhas fixera cm Bruxellas por occasiao do nas-
cimento do príncipe D. Manoel. Estes versos foram pela primeira vez
apreciados nas prosas que antecedem o grande Diccionario da Academia,
p. XIX, 1793 c mais tarde, copiados na edição de Hamburgo cm 1834.
Acham-se a foi. 19, não numerada do: L. And. Rcsendii, Genethliacon
Principia lAmíani, ut in Gallia Bélgica celebratum est, a viro clarins.
D. Petro Mascare gna, régio legato, Menee Decembri, M, D, XXXII, Bo-
xiouia^, 1533.
(li) Foi mestre do Infante Dom Duarte, cuja Vida^ escreveu; e talvez
eob a sua direcção artística, é que o Infante se tornou tao distincto na mu-
sica. Eis o que Resende diz no capitulo vi do seu escripto : «E tratando
nas cousas da edade já mais esforçada e crecida, foi o Infante, que haja
gloría, dado á musica, e tao dextro em ella, que sem prever cantava qual-
quer peça que lhe api-escutafisem e com gentil ar e melodia.» Apud Histo-
ria da LitiercUura porivgueza, por Theophilo Braga, p. 303.
os MÚSICOS PORTUGUEZBS 145
RESENDE (Garcia de) — Uma das organisaçSes artísticas,
mais completas que se tem revelado em Portugal ; pertence ao
cyclo dos grandes homens que fazem a transição do século xv
pai*a o século xvi. EUe próprio confessa que nào frequentará as
escholas; n'estes versos da sua Miscellanea:
Sem letras c sem sabor
Mc fuy u^aquisto meter
Por fazer a quem mais sabe
Que ho que minguar acabe
Pois eu mais ii2o aej fazer.
Apesar doesta confissão ingénua, Garcia de Resende foi um
grande architecto, (a) um hábil desenhador, (b) um chronista
pittoresco, um poeta jocoso, e um excellente musico. Filho do
século XV, tinha a intelligencia cncyclopedica dos Leonardo de
Vinci e Miguel Ângelo, mas faltava-lhe a liberdade, que o não
deixou attingir o seu natural desenvolvimento.
Filho de Francisco de Resende, fidalgo da corte de Âffbn-
so V, c de Brites Boto, Garcia de Resende, como se infere de vá-
rios legares das suas obras, parece ter nascido em 1470.
Erradamente se tem espalhado, que era irmão de André de
de Resende, que nasceu em 1506, e cujos pães tem nomes muito
diversos, (c)
Garcia de Resende entrou muito novo para o serviço
d'El-Rei D. João ii, como seu moço da camará; tendo em 1490
passado para o serviço do Príncipe D. Affonso, é de crer que teria
pelo menos 20 annos ; por isso que, entrando para o serviço do
monareha com 15 annos, e somados estes com a data de 1470 vem
a dar 1485, tempo em que D. João ii reinava havia já um anno.
Com o seu talento poético, Garcia de Resende contribuiu muito
para o esplendor dos afamados serões da corte de D. João II, e foi
elle que salvou os versos de 286 fidalgos portuguezes, no Can-
cioneiro geral. Como desenhador e architecto seria também elle
o inventor das apparatosas festas que se fizeram pelo casamento
10
146 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
do Príncipe D. Áffonso^ e dos momos que se representayam no
paçOy e em que D. JoSo n tomava parte. Quando El-Rei, de-
pois da tristeza em que cahiu, pela morte do Duque de Bra-
gança e de Vizeu, e depois da catastrophe de seu filho e único
herdeiro, tinha horas de uma intensa agonia, era Garcia de Re-
sende que o consolava, tocando maravilhosamente guitarra, com
que distrahia o monarcha, á imitação de David com o rei Saul.
Os poetas do Cancioneiro geral chasqueam-no por causa do se?
gosto pela musica, e Gil Vicente na Tragicomedia das Cortes de
Júpiter, representada em 1521, diz dos que hSode ir acompa-
nhando a Infanta D. Beatriz para Saboja:
£ Gards de Resende
Feito peixe tamboril ;
E inda que tudo entende
Irá dizendo por ende :
Quem me dera mn arrábil. (d)
Garcia de Resende dar-se-hia talvez ao ridículo com a sua
guitarra, como se dava com a sua rotunda gordura? Gil Vicente
e os seus contemporâneos nSo o pouparam. Garcia de Resende,
fala também dos músicos do seu tempo, na MisceUanea; e seguin-
do na narraçSo dos factos a ordem chronologica, cita o nome dos
músicos mais celebres antes das representaçSes que vira depois
de 1502, do que naturalmente se infere que Sarzedas, Fontes,
Francisquinho, Arriaga, o Cego, Vaena e Badajoz eram músicos
portuguezes do século xv ou do principio do século xvi. Eis a
strophe intercssantissima da Miscellanea, em que se ennumeram
as maiores celebridades musicaes do reinado de D. JoSo ix e
principio do de D. Manoel:
Musica Timos chegar
A mais alta perfeição,
Sarzedas, Fontes cantar,
Francisquinho assim juntar,
Tanger, cantar sem ração !
Arriaga, que tanger !
os MÚSICOS PORTUGUEZES 147
O Cego, que grSo saber
No Orgam ! e o Vaena !
Badajoz ! e outros que a peuna
Deixa agora de escrever.
Por estes versos vemos dois afamados cantores : Sarzedas c
Fontes ; um cantor e executor chamado Francisqainho ; um in-
strumentista Arriaga, o Cego de um grande saber no Órgão ; o
Vaena e o Badajoz. Estaria Qarcia de Resende para com estes
músicos, como D. Francisco Manoel de Mello para com a brilhan-
te plêiada dos compositores do tempo de D. João iv?
Esteve em Roma em 1506, e acompanhou em 1514 a em-
baixada de Tristão da Cunha mandada por El-rei D. Manoel ao
Papa Leão x; (e) viu a Itália, o grande centro das artes e obser-
vou de perto a admiração que se consagrava a Raphael, a Mi-
guel Angelo e a Albrecht Durer. EUe o diz na Miscellanea:
Vimos o gram Michacl
£ Alberto e Baphael, etc.
Em 1520, Garcia de Resende mandou edificar uma ermida
na cerca do Convento de Nossa Senhora do Espinheiro dos Reli-
giosos Jeronymos, sobre a porta da qual abriu as suas armas, que
constam de duas cabras em palia, com outra por timbre. No pa-
vimento doesta ermida jaz sepultado Garcia de Resende em uma
campa de dez palmos de comprido e cinco de largura com este
simples epitaphio:
Sepultura de Gar^
cia de Resende. %
(a) Sacarjnsskí, Dtction, histor.-artistique du Portugal, pag. 243.
(h) Chronicajle D. João II, cap. 200, pag. 107.
Erro de Barbosa Macbado, no vol. i, pag. 327 da Bibliotheca LU'
silana, emendado depois no vol. iv, pag. 149.
(d) Gil Vicente, Obras, t. ii, pag. 406. £d. de 1834.
148 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
(e) Damião de Góes, Ckroniea de D. João 11, P. m, cap. 55. O P.e
Bartholomea Guerreiro diz : «No anno de 1506, mandou el-rei D. Manoel
por Embaixador a Roma ao Papa Júlio u, a Duarte GalvSo .... Foram as-
sessores da embaixada os Doutores Diogo Pacheco e JoSo de Faria ; Se-
cretario Garcia de Resende.» Gloriosa Corôa^ Part i, cap. 7, pag. 41. No
Catalogo dos Âuthores do Dicc. da Academia, considera-se o facto attri-
buido ao anno de 1514 a inadvertência de Barbosa.
RESURREIÇÃO (Fr. António da) — Nasceu em Lisboa a 11
de Fevereiro de 1621, morrendo em Santarém a 17 de Janeiro de
1686. Professou a habito franciscano a 10 de Abril de 1638; foi
Vigário do convento da sua ordem em Lisboa, e mais tarde eleito
Definidor provincial.
Fétis também lhe di o titulo de Sub-Chantre, (?) cargo que
exercera em um convento da villa de Vianna do Álemtejo. Ma-
chado nada diz a este respeito.
Além de bom contrapontista, foi cantor hábil.
Deixou em manuscripto diversas Matinas, Missas e outras
composições sacras.
RIBEIRO (Kanoel da Paixão) — Professor de grammatica la-
tina e primeiras lettras em Coimbra. Foi discípulo de José Mau-
rício. Escreveu :
(a) Nova Arte de Viola, que ensina a tocalla conifundameni-
to sem mestre, dividida em duas partes, huma especulativa e our
ira practica; com Estampas das posturas, ou pontos naturaes e
accidentaes, etc. e com alguns Minuetes e Modinhas por Musica e
por Cifra, etc. Coimbra, na lleal Officina da Universidade, 1789,
in-4.^ de u (não numeradas) v-51 pag. e 8 estampas.
£m um catalogo fràncez, (b) que já por vezes mencionamos,
encontra-se um exemplar com um titulo um pouco differcnte, sic:
Nova arte de viola que ensina a tocalla com fundamento sem
mestre, dividida em duas partes, com estampas das posturas ou
pontos naturaes, e com alguns minuettes e modinhas, por musica
e por cifra. Coimbra, etc.
O redactor do catalogo mencionado, para justificar o preço
absurdo de 30 ir., accrescenta depois do titulo: Traitcimportant
os MÚSICOS PORTUGUEZES 149
etfort rare. O methodo é^ como já dissemos, simplesmente me-
diocre, feito por mn curioso que poucas noçSes tinha da sciencia
musical; provavelmente nunca o leu.
No prologo da obra declara o author as razSes que o mo-
veram a publicar este escripto, nSo sendo professor d'esta Arte,
mas simples curioso. Ás ideias geraes foram tiradas da Eneyclo-
pedia methodica, do Diccianario de muêica de Rousseau e dos
Elementos de mueica de Rameau; e os principies elementares,
como a designaçSo dos termos technicos etc., do Methodo de Ahir
sica de José Maurício.
A doutrina do acompanhamento nSo é exclusivamente do
author, como parece entender-se da citaçSo de I. da Silva, (c)
porque elle mesmo confessa que recebeu para ella os subsidies e
os conselhos de vários amigos.
Temos ainda uma outra Arte de tocar Viola, cujo author
nSo conhecemos, e que se publicou em 1803, com o titulo:
Arte de tocar Viola e outros instrumentos.
Será alguma ediçSo posterior do livro de PaixSo Ribeiro?
(a) O titulo que em seguida apresentamos é copiado de um exemplar
que está em nosso poder.
I. da Silva, diz qae este livro, a Arte de guitarra, de António da Silva
Leite, e a Arte de Órgão, de José Varella, sSo as obras doesta espécie que
tiveram maior acceitaçio entre nós ; entretanto pelo que sabemos nenhuma
d'ellas teve mais do que uma ediçflo.
Que dirá L da Silva do Theatro ecclesiastico de Fr. Domingos do Boea-
rio que teve 8 edições! do livro de Lusitano ílntroduUíone faeiliêsima e
noviB9Íma di canto fermo) que teve 4 edições, ao Directoria fúnebre de Fr.
Veiissimo dos Mar^^res com 6 edições, e de mais algumas que tiveram a
mesma felicidade?
íb^ Catalogue d^une beUe colUction de musique, etc. Paris, 1869, in-8.*
(c) Dicc. Bibl., vol. VI, pag. 76.
ROBOREDO (Vicente José Maria de) — Mestre de Capella na
Cathedral de Braga; este musico distincto, muito instruido, mes-
mo fora da sua especialidade, possuia uma das coUecçSes numis-
máticas mais ricas que havia em Portugal; contava ella nada me-
nos de 2.000 números.
150 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
ROCHA (Fr. Francisco da) — Monge trinitario e imitador do
estylo de Lourenço Rebello; que seguia nas soas obras. A nature-
za dotou-o com disposições tão brilhantes^ que com 11 annos já
tinha composto uma Missa a 7 vozes, sobre a escala descendente
la^ sol, fá, miy ré ut. Parece que não correspondeu depois ás es-
peranças que o seu talento precoce tinha feito crear.
Escreveu muito e mesmo bem, porém não sabemos que fizes-
se nada de extraordinário. Falleceu no convento pátrio a 12 de
Janeirode 1720 com 80 annos de edade. Os autographos de qoasi
todas as suas obras existiam na Bibliotheca preciosa do composi-
tor João da Silva Moraes. Citamos as mais notáveis :
1.) Missa a 4 votes das quatro Domingas da Quaresma.
2.) Tracto da Qu>arta'Feira de Cima, a 4 vozes.
3.) Motete para o m^esmo dia, a 4 vozes.
4.) Tracto e Motete da primeira Quinta-Feira, a 4 vozes.
5.) Tracto e Motete da primeira Dominga, a 4 vozes.
6.) Idem para a Dominga de Ramos, a 4 vozes.
7.) Idem da primeira Terça-Feira da Semana Santa, a 4
vozes.
8.) Idem, da primeira Quarta-Feira de Trevas, a 4 vozes.
9.) Idem da primeira Sexta-Feira Maior, a 4 vozes.
10.) Motete para a Adoração da Cruz, a 6 vozes.
Todas estas composições foram escriptas em 1690 e estavam
autographas em um livro que existia na bibliotheca musical de
Moraes. Ahi mesmo ainda se encontrava um outro volume auto-
grapho, com as seguintes obras de Rocha; eram principalmente
Psalmos de Estante, a 4 vozes.
1.) Diocit Dominus.
2.) Confitehor Tihi.
3.) Beatus Vir.
4.) Laudate Pueri. v ^ i >
c N T j ^ T^ - yPsalmos a 4 vozes*
D.) Laudate Dominum.
6.) In Exitu Israel de Aegypto.
7.) Credide propter quod locutus sum.
8.) Beati omnes.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 151
9.) JUagnificat.
10.) Te Luci8 ante terminum.
Temos ainda:
11.) Missa, a 8 vozes do sexto tom,
12.) Missa, a 8 vozes do sexto tom,
13.) Idem, a 8 vozes do septimo tem,
14.) Idem, a 7 vozes do oitavo tom,
15.) Dixit Dominus, a 8 vozes do quinto tom,
16.) OtUro, a 8 vozes do primeiro tom.
17.) Idem, a 8 vozes do quarto tom,
18.) Idem, a 8 vozes do septimo tom,
19.) Laudate Dominum, a 8 vozes do septimo tom,
20.) Idem, a 8 vozes do sexto tom,
21.) Idem, a 8 vozes do septimo tom,
22.) Laudate pueri Dominum, a 4 vozes do quinto tom baixo.
23.) Outro, a 8 vozes do quinto tom,
24.) ConjUehor, a 8 vozes do septimo tom,
ih.y Outro, a 8 vozes do oitavo tom,
26.) Outro, a 8 vozes do quinto tom,
27.) LcBtatus sum, a 8 vozes do oitavo tom,
28.) Outro, a 8 vozes do oitavo tom,
29.) Beatus vir, a 8 vozes do oitavo tom,
30.) Outro, a 8 vozes do septimo tom,
31.) Lauda HierusaUm, a 8 vozes do oitavo tom,
32.) Nisi Dominus, a 8 vozes do quarto tom,
33.) Magnificat, a 8 vozes do septimo tom,
34.) Outra, a 8 vozes do sexto tom,
35.) Te-Deum laudamus, a 8 vozes,
36.) Tantum ergo Sacrarhentum, a 4 vozes,
37.) Outro, a 4 vozes,
38.) O' salutaris hóstia, a 4 vozes do sexto tom,
39.) Lacrimosa dies illa, a 4 vozes; motete dos defuntos,
40.) Textos das Paixdes da Dominga de Ramos, Thrça, Quar-
ta e Sexta-Feira da Semana Santa, a 4 vozes,
41.) Diversos Vilhancicos, a4,6 e 8 vozes.
152 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
42.) Uma grande quantidade de Tonos, a 4 vozes, que Mor
chado BibL Lusit., vol. ii, pag. 279, chama ccastelhanos».
ROCHA (Joaquim Leonardo da) — Natural de Lisboa onde
nasceu em 1576 ; filho de Joaquim Manoel da Rocha, pintor e
imitador de Vieira Lusitano. Dedicou-se também á pintura e á
gravura em offua forte. Foi além d'isso um dos bons toca-
dores de cravo do seu tempo, e muito protegido pelo Marquez
d'Aloma pelos seus apreciáveis dotes artisticos. Acompanhou em
1780 o Bispo de Pekin D. Fr. Alexandre de Gt)uvêa á China.
Depois do seu regresso a Portugal, casou e obteve uma pensSo
do seu protector a titulo de pintor. Em 1808 dirigiu-se á Madei-
ra, onde esteve á testa de luna aula de desenho para a qual es-
creveu em 1810, um Methodo de pintura e desenho.
Ignoramos a data do seu fallecimento.
RODRICrUES (António Fernandes) — Natural da cidade de
Marianna (Brazil), e filho de um portuguez e de uma creoula,
mistura de raças mui frequente entSo; fez os seus estudos clássi-
cos no Brazil, dedicando-se especialmente ásBellas-Artes; entre
estas nSo se esqueceu da musica, que aprendeu com António do
Carmo. Visitou Lisboa em 1758 e partiu no anno seguinte para
Roma, onde estudou Desenho e Gravura com os melhores mes-
tres. Ahi ficou até 3 de Julho de 1760, anno em que abandonou
a cidade eterna, seguido dos seus compatriotas: Joaquim Car-
neiro da Silva e FeUx José da Rocha o primeiro gravador, e
o segundo pintor de miniaturas; esta sahida foi motivada por
uma ordem regia, (a) transmittida ao Embaixador de Portugal em
Roma. Os três artistas dirigiram-se a Florença e ahi se dedi-
caram novamente aos seus estudos favoritos.
Rodrigues voltou a Lisboa em 1762 depois de dois annos de
ausência na cidade do Amo e dedicou-se ahi á gravura e archi-
tectura. Quando o intendente da policia, Diogo de Pina Manique
abriu uma aula de desenho na Casa Fia do Castello, foi entre-
gue a sua direcção ao nosso artista com um ordenado de 300|000
réis.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 153
Esta aula aberta a 23 de Abril de 1781; acabou com a
invasão franceza em 1809. Rodrigues morreu a 17 de Maio de
1804 quasi octogenário.
(a) Ignoramos o motivo doesta ordem de D. José.
RODRIGUES (Fr. João)— Natural de MarvSo (Portalegre)..
Viveu no fim do século xvi (1560) e é principalmente co-
nhecido como author de um Tratado de CAiTTOcnlo-fol. em
que affim^ava ter trabalhado 40 annos !
Machado (a) diz que este tratado fôra approvado em Roma
por António Boccapadula, Mestre da Capella pontifical e Se-
cretario do papa Gregório xiii e pelo illustre P.® João Luiz
Penestrina, oráculo da faculdade musical, (b) Forkel (c) confirma
esta asserção, dizendo que esta obra fôra muito apreciada por
estes dous compositores notáveis. Infelizmente parece que não se
chegou a imprimir; malfadada sina que persegue as nossas obras
artísticas I Barbosa Machado diz-nos que o manuêcripto doeste pre-
cioso tratado existia na Bibliotheca de Francisco de Valhadolid e
parece que o viu, pois diz-nos que no Capitulo XIV, tratando Ro-
drigues do género enharmonico, declara que fôra achado por
elle, sic. : «Aora nuevamente aliado por Fr. Juan Rodrigues en
la villa de Marvan, bispado de Portalegre!»
Que descobertas importantes não encerraria esta obra ! Que
será feito doeste precioso tratado?
(a) Bibl, Luê.y yoI. n, paç. 737.
(b) Ou Giovanni Pierluigi Palestrína; esta mndança do nome do com-
positor italiano, é frequente em Machado.
A inscripção do seu tumulo na basílica do Vaticano, indica o nome de
Jóannes, Petrus, Aloysius, PrcBnestinus. Musicas princepa.
(c) Âllgem. Literat. der Mueik, pag. 499. «Das Werk soll von gros-
sem Werth sein und der Verfasser soll 40 Jahre daran gearbeitet haben.
Es wurde von dem pftbstl. Capellmeister António Bocapadula und von
G. P. Luig. Penestrina sehr geschátct
154 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
RODRIGUES (?.<" Manoel)— Vide Manoel Rodrigues Coellio.
ROSÁRIO (Fr. António do) — Monge da ordem de S. Jerony-
mo que professou no Convento de Belém, a 17 de janeiro de 1702.
Foi natural de Lisboa e filho de Domingos Nunes de Azevedo e
de Catharina Maria da Conceição ; nasceu a 20 de julho de 1682
e ainda vivia em 1747. Foi compositor hábil e deixou as obras
que abaixo indicamos, cujos autographos estavam em seu poder.
Eram:
1.) Magnificas sobre o Cantochão dos oito tons.
2.) Lamentações e Motetes da Quaresma e da Semana Santa
a4j 6 e 8 vozes.
3.) Responsorios das Matinas da Conceição da. Virgem a
4 vozes.
4.) Idem de S. Jeronymo a 8 vozes.
5.) Vilhancicos a4 e8 vozes.
6.) Oração nova de S. José posta em Cantochão.
ROSÁRIO (Fr. Domingos do) — Vigário do Coro do conven-
to de Mafra, Notário apostólico e Penitenciário geral da ordem
seráfica (S. Francisco). Professou a 15 de Abril de 1722. I. da
Silva nSo enumera estes cargos e diz simplesmente, que fôra Can-
tor-mór do convento da sua ordem, em Mafra, e que vivia ainda
em 1759.
E author da seguinte obra que obteve desde 1743 até 1786,
nada menos de oito ediçõesj caso talvez único, na historia da
nossa litteratura musical.
Theatro EccUsiastico, em qus se acham muitos argumentos do
Cantochão, para qualquer pessoa dedicada ao Culto Divino nos
Officios do Caro e Altar; offerecido á Virgem SS. Senhora Nos-
sa com o soberano titulo da immacvlada Conceição venerada em
huma das Capellas do Régio Templo de Mafra. Esta obra foi dada
ao prelo pelo P.^ Dr. José Corrêa Froes. Lisboa, 1743, in-4.^
os MÚSICOS PORTUGUEZES 155
ROSÁRIO (Fr. Vicente Maior do)— Author de uma ArU ãe
Cantochão. Possuimos uma copia em Ms. doesta obra, que pelo
titulo parece que foi publicada: Arte de Cantochão Ordenada e
dada á luz Pelo P.^ Vicente Maior do Rosário Para instrucção
de seus Discipulos. Tomo 1,® in-8.® de n — 33 pag. Nada sabe-
mos das circumstancias pessoaes do author.
s
SÁ (Hieronymo de) — Vide: Francisco Sá de Miranda.
SALDANHA (Gonçalo Mendes) — Discípulo de Duarte Lobo
e um dos bons compositores portuguezes. Nasceu no fim do sé-
culo XVI em Lisboa, onde vivia em 1625 ; Foi irmão do Padre
António Mendes, author de uma tradução latina, inédita, dosZu-
siadas. Na bibliotheca real de musica encontravam-se as seguin-
tes obras d'este compositor.
1.) Lauda HierusàUm Dominus a 6 vozes,
2.) Beatus Vir, Motetedoterceirotom a8vozes.'EAiBãi\tòZ4ty
N.*> 788.
3.) Idem do quarto tom a 8 vozes. Est. 34, N.® 793.
4.) Quomodo sedet sola civitas a 8 vozes,
5.) Outro Motete a 6 vozes. Est. 33, N.*» 176.
6.) Cogitavit Dominus a 8 vozes, ibid,
7.) Parce mihi a 6 vozes e outro a 8 vozes. Est. 33, N.® 771.
8.) Hei mihi Domine, Motete a 7 vozes. Est. 86, N.® 810.
9.) Miserere a variais vozes,
10.) Vilfíancicos diversos ao Sacramento e Natal, e Responr
sorios a muitos Santos,
11.) Tonos a 4 vozes, foL in-4.^; encontravam-se no tempo
158 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
de Barbosa Machado, na Bibliotheca do Duque de Lafoens, que
tinha pertencido anteriormente ao cardeal de Sousa.
SANCHO (Ignacio) — Este musico negro é citado por Oer-
ber, (a) sem indicaçSo de nacionalidade. Porém o nome do author
parece ser portuguez, ou hespanhol, pois nSo sabemos que esteja
adoptado em qualquer outra lingua. Por esta razSo o incluimos
n^este livro.
Do principio da sua vida, sabe-se apenas que fôra transpor-
tado a Londres por um capitão de navio, na qualidade de escra-
vo. Ahi obteve, graças á protecção de alguma alma compadeci-
da ou de algum senhor rico, uma tal ou qual educaçSo artistica
e scientifica. O resultado não foi desfavorável. A intelligencia de
Sancho foi-se fiructificando com os conhecimentos que adquiriu,
a ponto de cultivar depois com felicidade a poesia e a musica.
Escreveu um TrcUado theorico sobre esta ultima Arte, que
dedicou a uma princeza estrangeira, cujo nome se ignora, e á
qual entregou o seu manuscripto.
Parece que depois da sua morte se publicou uma collec^
de cartas d'este escriptor.
Falleceu em 1780. Gterber cita no fim da biographiade San-
cho, o Jornal encyclopédigue, Mai — 1784, que talvez possa dar
noticias mais minuciosas a respeito doeste author; infelizmen-
te nSo podemos verificar a verdade doesta nossa supposiçSo, por-
que não nos foi possivel obter o jornal citado.
(a) Neuea kiet., hiogr, Lexiean der TohksU, vol. iv, pag. 15.
SANTIACrO (Fr. Frandsco de) — Carmelita descalço ; vestiu
este habito em Hespanha ; nasceu em Lisboa e foi um musico
erudito, muito estimado por D. Jo8o rv que o tratava familiar-
mente quando residia em Villa- Viçosa, e que em signal de con-
sideração, mandou collocar o seu retrato (privilegio concedido a
poucos) na sua bella Bibliotheca, onde já existiam as suas com-
posiçSes. Foi Mestre das Cathedraes hespanholas de Plasencia
os MÚSICOS PORTUGUEZES 157
(Estremadura) e Sevilha^ (Andalasia) onde morreu a 19.*de No-
vembro de 1646.
As suas composições estavam nas Estantes 34, N.^ 787 e 35;
N.« 797 e 804. Eram:
1.) Dixit Dominas a 8 vozes,
2.) Beatus Vir a 8 vozes.
3.) Laudate Pueri a 4 vozes,
4.) Nisi Dominus a 6 vozes,
5.) Lauda anima mea Dominum a 12 vozes,
6.) Ecoe nunc benedicte Dominus a solo ea4 vozes,
7.) Cum invocarem a 12 vozes.
8.) Beatus Vir a 10 vozes do oitavo tom.
9.) Quom4>do sedet sola civitas a 8 vozes,
10.) Manum suam misit hostis foi., com diversos instrur
mentos.
11.) Ego vir videns paupertatem meamj a 12 vozes com vá-
rios instrumentos,
12.) Responsorios da QuintOrFeira maior e Sexta-Feira a
8 vozes.
13.) JSalve regina a 16 vozes,
14.) Ave regina ccdorum a 4 vozes,
15.) Regina coeli Icetare a 8 vozes,
16.) Dies irce, dies illa a 4 vozes,
17.) VictinuB Paschoalis a 8 vozes,
18.) Si queris miracula a 8 vozes,
19.) Diversos Motetes e VilJiancicos do Natal, Sacramento,
Nossa Senhora e outros Santos,
SANTOS (Duarte Joacpiim dos) — Pianista de mérito, discipu-
lo do celebre Hummel, (a) em Londres. Foi mestre de D. Maria II
durante a sua ausência em Londres, c publicou n'essa capital um
grande numero de composiçSes para o seu instrumento. Parece
que se tinha dedicado ali ao ensino. Ultimamente residia na Ma-
deira e trabalhava especialmente na composição de musica sa-
158 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
era. N'e8te género distingue-se a sua Novena de Santa Cecilia.
Santos morreu em 1855.
(a) Celebre compositor e pianista, e um dos chefes da eschola allemi
de piano (1778-1837); foi discipulo do inunortal Mozart
SANTOS (José Joaquim dos) — Natural de Óbidos, discipulo
de David Perez e contrapontista distincto no tempo de D, José.
Em 1787, foi mestre do Seminário da egrejapatriarchale compo-
sitor da mesma egreja.
As suas composiçSes sacras sSo numerosas e cantam-se fire-
quentemente em Portugal.
1.) Missa emréy a 4 vozes e órgão»
2.) Missa em dó, a 3 votes e órgão.
3.) Novena da Conceição.
4.) Te Deum em sol, a 5 vozes e pequena orchestra.
5.) Ladainhas em{&ya4 vozes e pequena orchestra.
6.) Matinas de Santo António (para capella).
7.) Matinas de Santo Agostinho, a 4 vozes e órgão.
8.) 2 Jogos de Septanarios; um é propriedade da fregue-
zia de Santa Ingracia e o outro da ermida da Boa-Nova.
9.) Staòat Mater em sol menor, a 4 vozes com acompanha-
mento de violetas e baixos.
10.) Ovíro em dó menor, a 4 vozes e orchestra,
11.) Um Officio de lavapés, a 4 vozes, 2 jogos de Officios da
Semana Santa (um dos quaes é conhecido pela denominaçSo de
pequenos).
12.) Miserere em ré menor, a 4 vozes. Paixões em fá, e uma
Adoração da Cruz. Na Bibliotheca da Ajuda ainda se encontram
as seguintes obras doeste artista:
13.) Missa a 4 vozes, um Te Deum com orchestra^ 4 Psal-
mos, Vésperas a 4 vozes para Capella, e um Credo.
Todas estas composições estão em manuscripto.
14.) &abat-Mater a 3 vozes com orchestra.
As suas producçSes são apreciadas em Lisboa, todavia Pia*
tSo de Vaxel diz d'ellas : emas quanto ás obras d'este au-
os MÚSICOS PORTUGXJEZES 159
thor que onvimos; sSo de estylo diffuBo e quasi despidas de ins-
piraçlo.»
SANTOS (Luciano Xavier dos) — Compositor dramático; vi-
veu e escreveu no meado e fim do século passado ; as suas ope-
ras e oratórios foram quasi todos ouvidos nos theatros reaes de
Queluz e Ajuda. SSo:
1.) Le Orazie vendicate, em 1762.
2.) Gli Orti Esperide em Queluz^ 1764.
3.) La Danzaj em 1766.
4.) E Palladio conservato, cantada em Queluz em 1771 e
na Ajuda em 1783.
5.) Alcide AJòinio, em Queluz, 1778.
6.) AU e Sangaríde, serenata, cantada em Queluz em 1779
por Ripa, Reyna, Orti, Torriani e Gelati.
7,) La Oalatea.
8.) Palmira di Tebe, serenata em Queluz, em 1781 por
Orti, Reyna, Torriani, Ripa e Toti.
9.) Esione, cantada na Ajuda em 1784 por Reyna, Ripa,
Torriani, Marini, e Ferracuti.
10.) Ercole sul Tago, cantada em Queluz, em 1785 pelos
mesmos.
Alem d'estas operas e serenatas, temos ainda a mencionar 3
Oratórios :
1.) lacMceo, figura dei Redentora, cantado em 1763.
2.) La Passioni di Oem Christo, cantado na real Camará
em 1783.
3.) E Ré pastore, cantado em 1793 no mesmo logar.
Este author escreveu uma carta a Solano, (a 9.*) com data de
5 de Setembro de 1763, elogiando muito a Nova instrução musi-
cal e que vem na obra citada. No principio traz o nome de San-
tos os seguintes titulos: Compositor e Organista do Infante
D. Pedro na sua real capella dos paços da Bemposta. Santos foi
oondiscipulo de Solano. Devemos accrescentar a estes titulos o
160 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
de Mestre de Capclla da mesma, e em 1764; mestre Je musica
d'El-rei.
SANTOS (Fr. Manoel dos) — Natural de Lisboa, filho de An-
tónio Ferreira e Maria da Silva. Professou o Instituto de S. Pau-
lo a 27 de Janeiro de 1686, e foi discipulo deLesbio, nome que
honrou com a sua instrucçlLo e saber. As suas composições foram
muito apreciadas n^este reino e tocadas principalmente na capella
i^eal de D. Pedro ii,para á qual compunha, recebendo um ordenado
de 60$000 réis, (a) retribuiçSk) elevadissima para aquelle tempo.
Era egualmente bom organista; morreu no convento pátrio a 19
de Novembro de 1737 com o titulo de Mestre de Capella da Cor-
te, Organista e compositor da capella real. Eis as suas princi-
pacs obras:
1.) Texto das Paixões do Domingo de Ramos, Terça, Quar-
ta e Quinta-Feira da Semana Santa, a 4 vozes.
2.) Liçdes de S. Agostinho e S. Patdo, das matinas de Quin-
ta-Feira, Sexta e Sabbado da Semana Santa, a 8 vozes,
3.) Responsorios das Matinas da Quinta, Sexta e Sahhodo
da Semana Santa, a 8 vozes.
4.) Miserere mei Deus a 3 coros.
5.) Te Deum lavdamus a 3 coros; foi composto e cantado
em 1708 na capella real, quando n^ella foi recebida a rainha
D. Marianna d' Áustria, esposa de D. JoSlo v.
6.) /n cxitu Israel de Aegypto a 4 vozes de Estante.
7.) Beatvjs vir a 8 vozes de prolação maior.
8.) Vilhancicos da Conceição, Natal e Reis a 8 vozes para
se cantarem na capella real nas matinas d'aquellas festividades.
(a) Gerber Ktvts hiêt. hiogr, Ltxicouy Vol. iv, pag. 18, transforma es-
tes 60S000 réis cm 60:000 rcales ou2:790$000 réis; o cradito masicographo
allemâo julgou provavelmente que a nossa moeda rei«, correspondia á espa-
nhola rtalea.
SARMENTO (António Florencio) — As composições que co-
nhecemos doeste author são insignificantes e revelam nenhum me-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 161
rito. Redusem^se a marchaa, hymnos etc. Um muflico doesta or-
dem era incapaz de sustentar vigorosamente a existência da aula
de musica, que José Maurício tinha deixado ji decadente, e as-
sim foi ella descendo successivamcnte até chegar ao estado mise-
rável em que se acha hoje. Chamamos a attenção do governo, e
pedimos, e clamamos em nome de todos os portuguezes para que
em hJonra da naçSo, mande organisar novamente essa aula e a le-
vante do estado vebgokhoso (a) em que se acha, coUocando á
testa d'ella um homem activo, sério e intelligente, emfim um
homem digno dos nomes Telles, Conceição, Thalesio, António de
Jesus e outros que o precederam n'aquelie cargo,
Sarmento deixou*nos o livro que se segue e que em seguida
fintamos. E um resmno mesquinho do Methodo de Musica de
José Mauricio e que nao vale os 400 réis do seu custo ; nao obs-
tante tudo isto, o author era Cavalleiro da Ordem de Christo, Len-
te da cadeira de musica da Universidade de Coimbra, Sócio
do Conservatório real de Lisboa, membro do Instituto da acade-
mia dramática, emfim, uma nullidade official.
. O livro de que falíamos intitula-se :
Principias elementares de Musica destinados para as licçdes
da aula da cadeira de musica da Universidade de Coimbra^ por
A. F. S.,, Coimbra — Imprensa da Universidade, 1849 in-8.*
O author fecha a introducç2o com as seguintes palavras: cCon*
cluirei com dizer, que o meu fim na publicação dos presentes ele-
mentos, foi o aproveitamento (da minha bolsa) dos meus discí-
pulos, e o seu adiantamento no mais curto espaço do tempo pos-
sivel.» £ o tal systema dos individues que querem tomar a scien-
cia de surpreza e com nenhum trabalho ! O publico não carecia
dos Elementos de Sarmento ; tinha o livro de José Mauricio, que
longe de ser bom, era melhor. Mas em Coimbra, usam os Len-
tes escrever compêndios com ideias furtadas aqui e acolá, desfi-
gurados com emplastos originaes de um ridiculo supremo ; é uma
verdadeira sciencia de retalhos, mas o negocio rende, porque
os senhores de capello impSem estes plagiatos ao pobr^ estu-
dante que, com o preço do livro podia comprar o compendio e o
162 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
sea author e ainda assim ficava a compra um pouco cara. Flo-
rêncio Sarmento especulou também com os seus Eleníenios.
(a) Aos incrédulos aconselhamos que so convençam da verdade das
nossas afirmações, vendo com os propnos olhos.
SARMENTO (Francisco de Jesus Maria)— Natural da villa
do Seixo (Beira) e ahi nascido a 12 de Setembro de 1713. Cur-
sou a Universidade de Goim\>ra, formou-se em direito e professou
o Instituto franciscano a 17 de junho de 1732. Exerceu os cargos
de Consultor da bulia da cruzada, Examinador das três ordens
militares de Aviz, S. Thiago e Christo e em 1777 era ministro
provincial da sua Ordem. Falleceu no convento de Lisboa, a 3
de junho de 1790. Escreveu entre outras cousas dous livros rela-
tivos á musica ; sSo :
1.) Directório sacro das ecclesiasticasceremonÍ€ís da benção
e procissão das candêas, da solemne imposição das cinzas; da
benção e procissão dos ramos; e de todos os Officios da Semana
Santa até Terça Feira de Paschoa inclusive. Lisboa, na Regia
OfBcina Typ. 1772 in-i.*» de vi, 350 pag. Segunda edição. Ibid.,
1794 in-4.®; é provável que haja mais alguma.
Esta ultima obra é uma ediçSo mais correcta e augmentada
do Director fúnebre de Fr. Veríssimo dos Martyres.
2.) Directório fúnebre reformado, para as ceremonias e
cantochão do officio de Defunctos, enterro e procissão deu almas;
modo para se oficiar e administrar com perfeição o Sacrosanto
viattco aos enfermos. .Obra utilissima para os parochos, regen-
tes do Cdro e mais Ecclesiasticos etc. — Lisboa na Regia Offi-
cina Typ. 1773in-4.^de iv-337 pag.; as ultimas 49 contém os
exemplos necessários em cantochão.
Este livro teve ediçSes successivas até á 6.* : — Lisboa. Na
Officina Patriarchal de JoSo Procopio Corrêa da Silva. Anno
1794.
O exemplar que possuímos d'csta obra, pertence a esta edi-
ç£o; não sabemos, se houve mais alguma posterior, porém é pro-
vável que fosse ainda reimpressa, pois como a obra tratava de as-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 163
8iimpto8 de disciplina ecdesiastica, era natural que tivesse bom
numero de compradores, entre os padres e frades, que era então
a gente de que no nosso Portugal havia mais fartura!
3.) Horas Mariannoê Portuguezas com o officio menor da
SS. Virgem Nossa Senhora, em Portuguez. Lisboa, 1799, com
jnivilegio real. Teve 20 ediçSes successivamente augmcntadas!
4.) Horas da Quaresma, com a tradução e explicação das
Missas, Mysterios e Festcu principaes desde o Domingo da Sep-
tuagessima até o quinto da Quaresma. Teve duas ediçOes, sahin- .
do a 2/ mais accrescentada.
Este autfaor publicou ainda um grande numero de obras
mysticas e de disciplina religiosa, algumas das quaes tiveram nu-
merosas ediçSes, como as Horas da Semana Santa, 11 ediçSes
até 1799; Manoel ecelesiastico Litúrgico, 3 ediç. O christão en-
fermo, 3 ediç. etc,
SEUAS (José António Carlos de) — E talvez o maior orga-
nista que Portugal produziu, todavia a pátria, sempre agradeci-
da, conservou o seu nome tSo esquecido como o de quasi todos os
nossos artistas.
Nasceu em Coimbra a 11 de Junho de 1704 e foi filho de
Francisco Vaz e Marcellina Nunes. Morreu à 25 de Agosto de
1742, isto é, apenas com 38 annos, com as dignidades de Cavai-
leiro professo da Ordem de Christo e de Contador do Mestrado
da Ordem militar de S. Thiago. Parece que occupira também o
posto de capitSo, no exercito. Partindo para Lisboa com a inten-
ção de tomar ordens, espalhou-se de tal maneira a reputação do
seu talento no órgão, que apesar de contar apenas 16 annos,
foi escolhido para organista da Basilica patriarchal. A sua fama
devia ser brilhantissima pelas noticias que nos dá Barbosa Ma-
chado.
Jaz sepultado no carneiro da irmandade do SS. Sacramen-
to. Pouco tempo depois da sua morte, a communidade dos Ere-
mitas d^ S. Agostinho dedicou-lhe solemnes exéquias no conven-
164 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
to de Nossa Senhora, ás qnaes assistia a maior parte da nobreza
em testemmiho de saudade e admiraçSo.
Deixou em manuseripto composiçSes notaveis; das quaes in*
dicamos as seguintes.
1.) 10 Mistas a4e8 vozes com orchestra*
2.) Te Deum laudamus a 4 coros, que se costumava cantar
no ultimo dia do anno, na casa professa de S. Roque.
3.) 700 Tocatas para Cravo (!) Machado (a) indica este
mesmo numero.
4.) Mais 16 outras,
5.) Vários Motetes a 2, 3, e 4 vozes, com e sem instru-
mentos.
6.) 29 Tocaias de Órgão; Ms. de 198 pag.
Encontramos esta ultima obra na Bibliotheca da Universi-
dade, no deposito E, quando ahi procurávamos uns manuscri-
ptos. Pertenceu á livraria do Mosteiro de Santa Cruz de Coim-
bra e foi copiado (modernamente) pelo Padre Caetano da Sil-
va e Oliveira. O livro está encadernado e contém 29 tocaias, me-
nos o n.^ 27, que sSo solfejos arranjados para uso do Seminário
pelo Padre JoSo Jorge; estão errados na maior parte. A tocata
N.^ 26; tem a epigraphe Scarlatte, E possivei que seja o celebre
Alessandro Scarlatti (b) ; as datas nSo discordam, pois este ul-
timo nasceu em 1649 e falleceu em 1725.
Q«rber (c) cita dois retratos d'este nosso celebre compatrio-
ta; um, pintado por F. Vieira e gravado por J. DauUe, folio ^:
e outro gravado por Dancke in-4.®
A fama do nosso author devia pois ter ultrapassado as fron-
teiras de Portugal, para o escriptor allemSo ter conhecimento does-
tes retratos. E muito possivei que o author do primeiro seja o
celebre Francisco Vieira de Mattos denominado Vieira Lusitano,
que nasceu em Lisboa a 4 d'Outubro de 1699 e morreu ahi mes-
mo em 1783; temos pois ligados os nomes de dois grandes ar-
tistas, e com orgulho citamos aqui as palavras de Raczinski (d)
a respeito de Vieira Lusitano: cpeintre portugais, pouvait riva-
liser avec bon nombre des artistes étrangers les plus célebres.»
os MUSICfOS PORTUGUEZES 166
(tiS BibL LueiL yol. nr, pag. 198.
^ (b) Celebre compositor itanaiio e um dos chefes da eschola de Nápoles.
Deixou grande numero de Operas, de Oratórios e de Missas, ^ue o coiloca-
nun na primeira linha entre os grandes génios musicaes da Itália. Deixou em
Gaetano Greco, Logroscino, Darante etc., discípulos dignos do seu nome.
(c) Hist, Biogr. Lex, vol. i, pag. 49.
(d) IHet. hiêt. artiêt. pag. 296.
SENA (Fr. Bernardo de Jesus ou) — Bom cantor e sábio con-
trapontista; nasceu em Lisboa em 1599 e entrou no convento de
S. Francisco de Viauna^ a 5 léguas de Évora, onde professou a
10dejulhodel615.
Foi durante muito tempo Vigário do Coro no convento de
Nossa Senhora de Jesus em Lisboa, e Mestre de Capella no seu
convento; ultimamente fSra nomeado Definidor da sua ordem.
Morreu em Lisboa, no mosteiro de S. Francisco a 10 de Abril de
1669. D. JoBo IV estimava-o muito pela sua bella voz e pelos
seus conhecimentos na arte do contraponto. Deixou varíos ãervi-
Ç08 eomphtoB de musica sacra.
SERRANO (Manoel Martins) — Musico portuguez. Occupou
o logar de Mestre de Capella em Portalegre, no principio do sé-
culo xvni.
Desconhecemos as suas composiçSes, porém encontramos
umas Decimas doeste author em um dos livros theoricos deMo-
rato. (a) Transcrevemol-as por serem curiosas.
A Joam Vaz Barradas Muito Pam e Morato, natural da ci-
dade de Portalegre, Mestre da Capella de Musica do Côro da Pa-
rochial Igreja de S. Nicolau.
BECnUJS
Vejo que sSo vossas Flores
TSo fragrantes, t2o cbeyrosaa.
Que bem parecem ser rosas
Com matis de varias cores,
Mereceis doas mil louvores.
166 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Pois taes flores sabeis dar,
Flores para o Paladar,
Flores para o entendimento,
Flores do vosso talento,
Com que sabeis recrear.
Flores tais contais fragancias
NSo as vi, por mais que 11,
Porque de mi, para mi
Formais temas consonandas
Com t2o pequenas distancias
Faieis intervallos tais,
Que os íructos h2o de ser mais,
Do que as flores, que dizeis,
£ vos mais flores - sereis
Com mil applausos que ouçais.
TSo doutamente escreveis
Vossas flores, qne nSo ha.
Nem supponho que haverá
Quem se opponha ao que dizeis.
NSo duvido exprimenteis
De Zoylos, màos Coraçoens
Mordazes desatençoens.
Quem diz mal he o peyor,
DigSo mal, que do melhor
Sempre ouve Contradiçoens.
De vossas flores dissera
Sem nenhuma affectaçSo,
Que s6 sSo de Muito PSo
Colhidas na primavera.
Flores de tiU> alta esfera
Com taes cores matisadas.
Só as faz JoSo Vaz Barradas.
Nos Clarins da fama fiquem
Tais flores, e se publiquem
Com letras de Ouro Estampadas.
A. P. e V.
M. M. S«
(a) Floru muncae$, pag. iz e x.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 167
SILVA (. . .) — Primeiro clarinete do Theatro italiano (S. JoSo)
do Rio de Janeiro e da Capella real, no primeiro quartel doeste
Beculo. Era considerado como o primeiro artista do Brasil, no
seu instrumento.
SILVA (Alberto José Gomes da) — Compositor e organista do
século passado. Ignoram-se as circumstancias relativas á sua
vida. Viveu no meado do xvm século e deixou-nos uma obra in-
titulada:
Regras de acompanhar para Cravo, ou Órgão, E ainda
tombem para qualquer outro instrumento de vozes, reduzidas a
breve metJiodo, e fácil percepção, (a) Dedicado a S, M. F,
i>. Joseph I Q. jD. o. Lisboa, na officina Patriarchal de Francisco
Luiz Ameno, 1758 ín-4.^ de viu, 39 pag. e Index, 2 pag. A 1.*
parte tem 4 paginas de exemplos, a 2.% 8 paginas; estes exercí-
cios n2o dSo uma opinião favorável do gosto e do saber do seu
fl:uthor.
Esta opiniSo é de Fétis, (b) que examinou esta obra, como se
vê; lastimamos ter de lhe juntar a nossa, em virtude do exa-
me feito em um exemplar que possuímos. A obra mesmo, nSo é
mais do que um resumo de regras e de preceitos elementares,
sem pretençSes a compendio ou livro de doutrina.
(a) NSo é Arte de Musica como diz I. da Sflva, Dtee, Bibl, voL i,
pag. 24.
(b) Biogr. Univ. vol. iv, pag. 55.
SILVA (António da) — Organista e compositor da Capella
real da Ajuda, no fim do século passado ; compositor de talento e
discípulo predilecto de David Perez. Estreiou-se no género sacro
com o Oratório: Oioas, Se di Oiudà, que se cantou na camará
real em 1778, pelos artistas Reyna, Orti, Ripa, Torriani, Puzzi
e Ferracuti.
168 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
No anno seguinte ouviu-se em Queluz a suA^erenaia: La
Chdatea, cujo êxito foi tSo grande, que ainda pelos annos de
1792, Ferracuti cantava nas reuniSe» de Lisboa uma aríad'eUa:
=Ah, taci, Alcide amato.=
O Marquez de Rezende (a) que cita este caso, qualifica Silva:
ceximio contrapontista e predecessor de Marcos Portugal» •
£m 1782, cantou-se ainda em Queluz, a opera: Callirroé in
Sira, em 2 Actos.
Cultivou também o género sacro e deixou varias eomposi-
ç8es, das quaes conhecemos apenas uma Misêa «m ré, a 4 voze9.
Das circumstancias da sua .vida, pouco se sabe, todavia pa-
rece que vivia ainda em 1817. Recapitulando, temos:
1.) La Oalatea, serenata cantada em Queluz em 1779*
2.) Callirroé in Sira, opera, iUd em 1782.
3.) GHoas, Ré di Oiudà, oratório, cantado no palácio da
Ajuda em 1778.
4.) Missa a 4 vozes, em ré.
(a) Pintura de um Outeiro NoetumOj pag. 44.
SILVA (Ayres António da) — Cavalleiro pofesso da Ordem
de Christo; nasceu em Lisboa a 15 de Abril de 1700, sendo fi-
lho de D. Manoel Pereira Coutinho e de D. Maria Thereza da
Silva e Távora. Principiou a estudar a musica com sete annos,
dedicando-se á rabeca, rabecão de 4 e de 7 cordas, (!) (a) á flauta
e violeta. Cursou os estudos superiores na Congregação do Ora-
tório de S. Filippe Nerj, defendendo conclus3es publicas ; era
também Bacharel em Artes pela Universidade de Coimbra.
A sede de conhecimentos, levou-o em 1723 a Paris, Alcala
e Yalhadolid; compoz diversas Missas, Psalmos, Ladainhas e
um Te Deum laudamus, com diversos instrumentos; estas com-
posições foram bem recebidas; é o que nos diz Barbosa Machado,
(a) N2o sabemos que tivesse existido semelhante instramento ; talvez
hoavesse engano de Machado, na designação ; os rabecões (contre-basse)
aue conhecemos, sio de 3, 4 e 5 cordas, que ainda hoje se usam nas gran-
des orchestrãs da Allemanha e França.
os MDSIOOS PORTUGUEZES W9
SILVA (Fr. Brás Soares da)— Freire da Ordem miUtar de
Cfarísto e Reitor do coUegio real dos meninos orfSos de Lisboa;
«penas sabemos que foi mestre de JoSo da Silva Moraes ; todavia
basta este ultimo titulo para o qualificar honrosamente.
SILVA (Francisco da Costa e) — Mestre da Cathedral de Lis-
boa e Cónego da quarta prebenda. Aos conhecimentos theoricos e
practicos da Arte musical que tinha começado a cultivar desde a
infimcia^ deveu o logar citado, onde permaneceu até á sua morte,
occorrída a 11 de Maio de 1727. Era natural de Lisboa; igno-
rasse a data do seu nascimento.
Compôz as seguintes obras que ficaram todas em Ms.
1.) Miua a 4 vozes eam todo o género de inetivmentoê.
2.) Miêererea 11 vozee eom orehêêtra*
3.) Motetes para se cantarem á$ Missae dos Domingos da
Quaresma.
4.) Lamentação primeira da Quarta^Feira de l\'evas, a 8
vozes.
5.) Texto da Paixào de S. Marcos e S. Lacas, a 4 vozes.
6.) Vilhancicos de S. Vicente e Santa Cecilia, a vozes e or-
ciêstra.
7.) Besponsorios do Offieio de defunctos, a 8 vozes eorches-
tra; foram compostos para as exéquias de Luiz xiv, mandadas
celebrar pela colónia francesa na capella real de S. Luiz, em
Lisboa.
SILVA (Gomes da) — Compositor e pianista, do qual temos
apenas uma pequena noticia, eztrahida de Gerber. (a) Em um de-
posito musical (b) da Allemanha, encontrava-se no fim do sécu-
lo xvm, (1780) um manuscripto doeste author; compunha-se de
Seis Sonatas para Piano.
(a) Eiêt hiogr. Lex. voL n, pag. 519.
(b) WsêifbaUsche 2ÍMSikkandly9ig.
170 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
SILVA (João Cordeiro da) — Compositor dramático de talen-
to. Nasceu em Lisboa, mas ignora-se quando; em 1817 já tinha
fallecido e de bastante idade, pois tomando mesmo a data da sua
primeira opera, (1764) devia ter pelo menos 70 a 73, annos se
suppozermos que a escreveu com 20.
A corte julgou recompensar os seus talentos, nomeando-o
Organista e Compositor da Capella real da Ajuda.
Ha quem pretenda que este artista estudara na Itália, fím-
dando-se n'uma citaçSo que Balbi (a) faz de um Cordeiro, que es-
teve estudando em Nápoles; nada se pôde entretanto concluir de
uma citaçSo tão vaga.
Além das operas que adiante mencionamos e que foram em
tempos passados muito bem recebidas, deixou outras composi-
çSes áe menos valor. Modinhas, etc.
As suas operas sSo :
1.) Arcádia in Brenta, no theatro de Salvaterra em 1764,
por Maruzzi, Vasques, Orti^ Leonardi, Cavalli, Principi e Gior-
getti.
2.) n Natale di Oiove, em Queluz em 1778.
3.) Edalide e Cambise, cantada na Ajuda em 1780, por
Beyna, Orti, Torriani, Ripa e Toti.
4.) // Batto di Prosérpina, em Queluz em 1784, por Reyna,
Ripa, Torriani, Marini e Venturi.
5.) Archelao, em Queluz em 1785, por Reyna, Ripa, Tor-
jiani, Marini e Ferracuti.
6.) Telemacú nélV isola di Calypso, em Queluz em 1787 por
Reyna, Ripa, Ferracuti e Marini.
7.) Megara tebana, em 1788 na Ajuda, por Reyna, Gelati,
Policarpo, Marini e Ferracuti.
8.) Lindane e Dalmiro, na Ajuda em 1789, por Reyna, Ge-
lati, Marrochini, Sclettini, Manna, Capellani e Bartolini.
9.) Pkilemone e Battce^ em 1789.
A estas composições temos de ajuntar ainda no género sacro :
10.) Salomé, madre de' siette martiri Macabei, oratório can-
tado na Ajuda em 1783, por Reyna, Ripa, Torriani, Ferracuti, e
Venturi.
os MÚSICOS PORTUQUEZES 171
Na Nova Inatrueção musiccíl de Solano, encontra-se uma
carta d'este compositor em que elle o convida a publicar a sua
obra, elogiando-a; acarta traz a data de 12 de Agosto de 1763;
Bom Successo.
(a) Euai 9tatiêt,f rol. n, pag. ocxv.
SILVA (Joaquim Carneiro da) — Natural do PortO; onde nas-
ceu em 1727; tocador de flauta e artista gravador.
Dirigiu a aula de gravura, fundada em 1769, sendo remu-
nerado com 500|000 réis de ordenado. Visitou o Brazil no tem-
po da sua mocidade, e fez ahi parte de uma sociedade de amado-
res músicos a que pertencia JoSo Henriques de Sousa e outros, e
que organisava no Rio de Janeiro saraus musicaes. Depois de
17 annos de ausência, voltou a Lisboa em 1756 e partiu no anno
seguinte para Roma. A ordem de D. José, (a) enviada em 1760
a D. Francisco de Almeida, entSo Embaixador de Portugal em
Roma, obrigou Silva a deixar a cidade romana; dirigiu-se a Flo-
rença e ahi completou os seus estudos. Como gravador deixou
numerosos discipulos.
(a) Vide a biographia de António Fernandes Rodrigues.
SILVA (Fr. José Marques de Santa Rita e)— Foi Mestre da
Capella da Bemposta, no reinado de D. JoSo vi e discípulo de
JoSo José Baldy. Nasceu no Alemtejo e morreu em 1837. (a)
O Cardeal Saraiva diz doeste artista :
cFoi hum grande tocador de piano e o mais distincto acom-
panhador de OrgSo em todos os systemas de acompanhar. Foi
também insigne compositor tanto de capella, como de instrumen-
tal e deixou muitas peças de sua composiçSo que mostram o seu
grande merecimento.»
Estas asserçSes do Cardeal sSo um pouco patrióticas, todavia
ainda que tenhamos de restringir algum tanto esta apreciaçXo,
nlo negamos o fundo de verdade que ella contém. Examinamos
1
172 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
algumas compoBÍçSes que possoimos doeste author, e nem a todas
podemos com justiça, applicar as palavras do cardeal ; a desigual-
dade ás vezes é grande; em algumas das suas obras sacras, falta
ora a originalidade da concepção, ora a perfeição da forma, en-
trando o artista em moldes puramente convencionaes e já gastos;
as suas ideias nSo tem sempre a elevação do assumpto, nem a pu-
reza da forma, cedendo a inspiraçSes menos felizes ; também
ouvimos é verdade, outras composiçSes que revelam qualidades
superiores ; assim por exemplo notamos na Miim que foi executa-
da em Santa-Cruz em 1868, pelas festas da Bainha Santa, um
estylo severo, e ás vezes, até grandioso; uma expressão enérgi-
ca, unida a um instincto melódico que o guiou bem.
Parece-nos que esta desigualdade encontra a sua origem, na
necessidade em que o artista estava ás vezes, de tratar de en-
commendas officiaes quando a sua inspiração não o obrigava a
escrever.
As suas composiçSes para Piano: 8onata$, VaríaçJSes, etc.,
revelam uma certa elegância de factura, porém não mostram as
qualidades imminentes que o primeiro nome poderia fazer lem-
brar; as suas ideias não tem, nem o desenvolvimento necessário,
(qualidade indispensável n'este género de composição) nem a pro-
fundidade de concepção e de inspiração, que nas obras primas
dos grandes compositores vem filiar todas as ideias, por meio de
um tecido admirável, n'uma ideia primordial.
Se aquellas qualidades e estes defeitos não lhe concedem
um logar de primeira ordem, dão-lhe como justa compensação
ainda um logar honroso, e tanto mais apreciado, que poucos en-
contra a seu lado.
Depois de feita a devida justiça, não podemos deixar de
louvar o artista que soube, no meio do desmfreamento em que
andava a Arte, suster o bom gosto que parecia succumbir ; que
soube stigmatisar e desmascarar publicamente, um homem como
Joaquim Casimiro, qualificando-o de miígico de agua doce, acção
tanto mais corajosa e louvável, que o ia pôr em conflicto com a
maioria do publico, adorador estúpido das banalidades grotescas
do insigne compositor.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 173
Apesar dos esforços de Fr. José Marques e de mais alguns
poucoS; a corrente do mau gosto rompeu todos os diques, levan-
do a gloria de Casimiro ás mais remotas aldeias e avassallando
um mundo de philisteus t
Hoje, a Arte sacra morreu em Portugal, salvo alguns fracos
lampejos, e em logar das obras immortaes dos grandes artistas
da Itália e da Allemanha, em logar mesmo das b6as composições
artisticas que temos no paiz, ouvimos nos templos da capital e
do Porto uns pot-pourria nauseabundos de musica verdiana, gai-
tados com uma desfEiçatez indigna durante os actos mais sérios
do culto ! (b)
Fr. José Marques nSo chegou felizmente até nós, para poder
presencear este desoonchavo philarmonico.
Eis as compodiçSes que conhecemos do nosso artista :
MUSICA SACBA
1.) Nave Mísêos a 4 vozes com orchestra*
2.) Motetes a differentes vozes*
3.) Um Miserere.
4.) Dous Credos,
5.) Um Te-Deum laudamus.
Na Bibliotheca real da Ajuda ainda existem as seguintes
composições authographas :
6.) Te Deum a 4 vozes e órgão, para se cantar na Real Ca-
pella da Bemposta por occasiao da chegada d'El-Rei D. João vi.
7.) Psalmos com musica de Capella:
w
a
Dixit Dominua.
Confitebor,
Beatus vir,
Laudate pueri,
Laudatt Dominum,
IjOtida Hierusalem,
BecUi omn€9.
Magnificai.
174 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
8.) ReêponsorioB de Paschoa,
9.) Matinas da Exaltação da Santa Cruz, a grande inê-
trvmentaL
10.) Responsorios para a festividade dos Santos Reis, em
1818.
11.) Matinas de Sabbado Saneto, Lamentações, Miserere;
existem só as partes da orchestra, porque as partes das vozes e
do orgSo, já de lá sahiram para o archivo da Infanta D. Isabel
Maria
MUSICA PROFANA
6.) Hymno dedicado a D. Jodo VI, em que as palavras
rivalisam de ingenuidade com a musica.
7.) Varias Sonatas para piano.
8.) Variaç&es para piano sobre o thema: Cria la notte s*avi-
cina (Zauberâõte).
Entre os seus discípulos^ distinguiram-se Miro, Xavier Mi-
gone, Manoel Innocencio dos Santos (ainda vivo), João Fradesso
Bello, etc.
Joaquim Casimiro nSo pôde, com justiça, entrar na lista dos
discipulos de Fr. José Marques, porque este nunca o quiz reco-
nhecer como tal.
(a) A ÀfuncOf por F. da Fonseca Benevides, Archivo PiUoreaeo,
vol. IX, 1866, pag. 128. P. de Vaxcl indica erradamente : 1846.
(b) Na egreja dos Congregados no Porto, prescnccamos ainda não ha
muito, o e8pe<!taculo repugnante de ouvir durante o levantar da hóstia uma
cavatina do Trovador, . . .
SILVA (P.® Manoel Nunes da) — Jcsuita, natural de Lisboa,
onde nasceu em 1678. Exerceu os cargos de Mestre de Capella
na Egreja de Santa Catharina doesta cidade e da collegiada de
Nossa Senhora da Conceição, cargo que occupava em 1725. Foi
também Director do Coro da Egreja parochial de Santa Maria
Magdalena, é tinha sido discípulo de Frovo. Publicou o seguin-
te livro:
os MÚSICOS PORTUGUEZES 175
Arte Mínima que com Semihreve Prolaçam (a) tratta em
tempo breve, os modos da Máxima & Longa sciencia da Mu-
sica, offerecida á Sacratíssima Virgem Maria Senhora Nossa,
debaixo da Invocação da Quietaçam, cuja imagem está em a
Santa Sé doesta cidade. Lisboa, na Officina de Joam Galram,
1685, in-4.% de 44-52-136 pag. com 2 estampas, (frontispício
gravado, representando vários instrumentos e a mSo dos sig-
naes). Este titulo, é um jogo de palavras sobre os nomes dos sig-
naes da antiga notação, isto é : a Mínima, a Semibreve, a Lon-
ga, a Maocima, as prolaçJfes, os tempos e os modos. Tudo isto
quer dizer, que o livro ensinará em pouco tempo a arte da musi-
ca, que por si só é diíficultosa e exige longos estudos.
A obra está dividida em três partes que correspondem á
enumeração das paginas que acima referimos. Primeiro encon-
tramos uma Dedicatória & Virgem, que brilha pela ingenuidade
das ideias, chamando-lbe Universidade de todas as sciencias, o
dizendo outras amabilidades mais, e um Preambulo ao leitor
(i-xii). A ordem das matérias é : Resumo da Arte de Canto de
Orgam (1-16), depois Compendio da Arte de Contraponto e
Compostura (17-44) ; estas duas partes tratam da solmisação,
da notação proporcional e dos primeiros elementos do contra-
ponto. Um tratado de cantochão {Svmma da Arte de Cantocham,
1-^52) e uma analyse succinta de todas as partes da musica {Tra-
tado das Explaiuzçdes e Lidex do mesmo, 1-136) formam o resto
do volume.
Esta ultima parte contém também umas explicações muito
curiosas, relativas á Historia da Musica, que excedem, se é pos-
sivel, em ingenuidade e metaphysica musico-theologica, as ideias
singulares do Preambulo. A obra foi concebida no espirito cân-
dido e milagi'oso do tempo.
Forkel, (b) faltando da Arte Minima, diz: «X^csta obra não
só se ensinão os princípios fundamentaes da musica, mas tam-
bém n^ella demonstra o author minuciosamente, a ligação que
existe entre a sciencia musical c os outros conhecimentos secula-
res e religiosos.»
176 OS MÚSICOS PORTUGUEZBS
O sábio critico allemSo, talvez illudido por alguma ixifor-
maçSo parcialy foi benévolo em demasia, porque a maneira como
Nunes da Silva pretende mostrar a tal ligação, nSo pôde ser mais
extravagante. Qualquer individuo se poderá convencer da ver-
dade das nossas affirmaçSes, lendo só o 1.^ capitulo do IVatado
das Extplanaçõeê :^=àos louvores da Musica e do modo que d'ella
se deve usar =, e o seguinte : = Da invenção da Musica e pes*
soas insignes que a augmentário e n*ella âoresciSo == (foi. 13).
Esta obra teve mais duas ediçSes, cm tudo conformes á pri-
meira, menos no nome do impressor, que differe.
A 2.*: Na Officina de Miguel Manescal, impressor do Santo
Officio, á custa de António Pereyra & António Manescal. Anuo
de 1704.
A 3.* ediçSo: Na OíEcina de António Manescal, Impressor
do Santo Officio & Livreiro de Sua Magestade e i sua custa
impressa. Anno de 1725.
(a) Forkel, AlUg. LU. der Muêtkyp. 289, dix: reeopilaçãoí é eridea-
temente am erro, porque até agora nao encontramos esta alteraçio em
nenhum exemplar.
(b) Ibid., loc. cU»
SILVA (Policarpo José António da) — Excellente cantor por-
tuguez; era primeiro tenor da Capella e da camará real, no mea-
do e fim do século passado. William Beckford (a) deixou-nos
nas suas bellas cartas sobre Portugal, a memoria doeste artista de
talento, que diz ser f arnoso tenor , admirável pela bravura e ror
pidez da tua executo. Silva, cantava nas salas acompanhando-se
de um cravo (harpsicord). Em 1788, creou o papel de cLisan-
dro f na opera Gli Eroi Spartani de António Leal Moreira, re-
presentada em Queluz.
Policarpo era também compositor ; na Bibliotheca real da
Ajuda, conservasse uma obra d'e8te artista : A Primavera, em
nove nocturnos musicaes sobre versos de Metastasio; parece que
esta composiçSo foi impressa em 1787.
Nâo sabemos quando falleceu este excellente artista que
os MÚSICOS PORTUGUEZES 177
soube rivalisar em Lisboa^ com cantores como Bejua; Ferracuti^
e outros.
(a) Italy ; witb sketches of Spain and Portugal, vol. n^ pag. 38 e 210*
SILVA (Tristão da) — Mestre de D. Affonso v e um dos
primeiros músicos portugnezes de que ba noticia. A pedido
d'este príncipe escreveu :
Afwzbles de musica. O original existia na Bibliotbeca de
D. JoZo IV. Assim se perdeu uma das primeiras producçSes da
nossa litieratura musical !
Francisco Vellez de Guevara citava esta obra no seu livro :
De la realidad y experiência de la Musica,
SILfEIRA (Fr. Plácido da) — Filho de Bento da Silveira e
SimSa de Moraes; nasceu em Cacilhas (Extremadura) e entrou
na Ordem militar de Christo, no convento de Thomar, a 5 de
Abril de 1683. Foi hábil contrapontista e morreu a 8 de Março
de 1736.
Escreveu :
1 .) Proàesêianale & Miêsale ac Breviário Romano a S, Pio V
rmformatis decerptum, Conimhricm ex Jtetfáli Ârtivm Collegio,
1721, in^.*
2.) Psalmoé, Hymnos e Mbtetes a diversas vozes.
SILVESTRE (Gregório) — Nasceu em Lisboa a 31 de De-
zembro de 1520, e abandonou muito cedo a sua pátria, fixando
a sua residência em Hespanha, aonde morreu em 1570. Apesar
de ter nascido portuguez, Gregório Silvestre escreveu de tal fór-
ma em hespanhol, que as suas poesias occnpam um logar de
honra na Historia da litteratura visinha, pela grande influencia
que exerceram, (a) O motivo que Icvou Silvestre para Hespanha,
seria com certeza o mesmo que moveu Jorge de Monto-Mór
a abandonar a sua terra natal ; (b) Gregório Silvestre vivia
tranquillanicnte cm Granada, exercendo a pYofissão de orga-
178 OS MÚSICOS P0RTUGUEZE8
nisto^mór da CathednU ; tendo ido maíto cedo para Heapanha, i
nataral que fosse como cantor, o que pelos estados a qne se de-
dicou, fosse gradualmente subindo, até occnpar tSo importante
posíçSo na sua carreira artística.
No século XVI e xvii, era Portugal que enriquecia a Hespa-
nha dos mais distinctos músicos. Na educaçlo geral, a mnsica
occnpava uma parte muito interessante, e abundam os factos,
em que vemos a nossa primeira nobreza dedicar-se conjnncta-
mente á poesia e á musica, (c)
Gregório Silvestre, como a maior parte dos artistas do seu
tempo, também cultivou a poesia; teve relações intimas com
Jorge de Monte-M<5r, que nunca esfriaram, apesar das grandes
Inctas entre a esrhola italiana e a eichola hetpanhola, a qne
cada um pertencia. Gregório Silvestre, sob as bandeiras de Cas-
tillejo, foi um dos mais terríveis campeSes contra a primeira,
introduzida em Hespanba por BoscSo ; Joi^ de Monte-Mór, sen
amigo, seguia a ímitaçSo italiana, e respeitava intmensamente
Sá de Miranda por haver introduzido em Portugal a nova poé-
tica. Gregório Silvestre reconciliou-se a final com a escbola ita-
liana, escrevendo também no metro endecasyllabo. (d)
É natural que nZo só pelo sen gosto poético, como pela po-
BtçSo artística que occupava na Cathedral de Granada, deixasse
bastantes composiçSes musícaes ; d'eBtas conhecemos apenas vá-
rios Vilhancicoa e Entrtmezes, e nm manoscripto : Arte da e«-
crever por cifra.
(a) Ticknor, Hití. de la Litleratura tipaUola, traduzida por D. Pas-
cnal de fíayangos c D. Henrique de Vedi&, tom. ii, pag. 68 a Gl.
\h) Vid. a Biographía de Jorge de Monle-Már.
(c) Taea lílo : o Infunte D. Lnii, O Infante D. Duarte, D. JoZo do
Menezes, Si de Miranda, Jeronymo de 6i, Manoel Machado de Aievedo,
Garcia de Keaende, André de Resende, DaniíSo de Gocs, D. Francisco Ma-
noel de Mello, Gil Vicente, o outros litteratoa distinctoe.
(d) Ae obras de Grworio Silvestre foram reimpressas em Lisboa, em
tMo . g ejjtor Pedro de Cáceres, traz ama vida do poeta, a qual Barbo»
itOD na Bibl. Luêií., tom. ii, pag. 419.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 179
SOARES (António José) — Nasceu em Lisboa a 2 de No-
vembro de 1783 e falleceu a 9 de Março de 1865. Foram seus
pães Joaquim José Soares e D. Joanna Ncpomuceno. Recebeu a
sua educação nos Seminários de Villa-Viçosa e da Patriarchal, e
teve por mestres, em rudimentos : o P/ Joaquim Cordeiro Gal-
tXo; em harmonia: João José Baldy, e em contraponto: Antó-
nio Leal Moreira, que o chamava o seu disciprão amado.
Os seus estudos conscienciosos habilitaram-n'o para o logar
de Organista da Santa Egreja Patriarchal, e foi n'esta ultima
posição que requereu, depois de Moreira ter fallecido, o logar de
Mestre do Seminário Patriarchal. El-Rei mandou informar o re-
querimento ao Visconde de Santarém, que produziu os seguintes
honrosos attestados:
tO Visconde de Santarém, do Conselho de S. M. F., Ca-
valleiro professo da Ordem de Christo, otc. etc., Director dos
reaes theatros :
cAttesto que António José Soares, Organista da Santa
Egreja Patriarchal, tem sempre servido com muito préstimo e
exacçSo em todas as funcções que por ordem de S. M. se teem
feito na real Basilica de Mafra; que tem feito com toda a pon-
tualidade as differentes composições que lhe tem ordenado para
a dita Basílica, mostrando n'ellás sciencia e gosio : além d^isto
attesto também, que tem bons costumes e se tem portado com
muito boá conducta e por me ser pedida niandéi passar a pre-
sente que assigno
Visconde de Santarém.^
A este documento honroso, podemos ainda juntar um se-
gundo.
Carta do Visconde de Santarém dirigida ao Cónego Manoel
Vencesláo de Sousa:
c O pleno conhecimento que tenho da sciencia, conducta o
estudo de António José Soarei, que foi alumno do Seminário da
Santa Egreja patriarchal me obriga a dirigir a V. 111.™* o reque-
180 OS MÚSICOS PORTUaUEZES
rimento incluso para ser enviado por Y. QL™* á real presença de
El-Rei N. S. O apreço que V. 111."** faz dos alumnos d'aquelle
Seminário, o modo porque o supplicante se tem distinguido pela
séria applicaçiU) e gosto que faz da sua profissão, me tira todo o
receio de que V. 111."** deixe de advogar o favor do supplicante,
que tendo por aquelles titulos merecido a minha estimaçSo, £biz
honra ao Seminário por onde aprendeu.
Em quanto pessoalmente nSo tenho a honra de buscar a V.
111."»*, aproveito este motivo para certificar a V. IH."* que sou ctc.
Visconde de Santarém.
Um pedido tão bem informado não podia deixar de ser at-
tendido e assim ficou o artista encarregado do diversos ramos do
ensino musical no Seminário, até que este foi annexado á Casa-
Pia, no extincto Convento dos Jeronymos de Belém.
Pouco tempo depois d'esta mudança, foi chamado pelo Im-
perador D. Pedro iv para professor do mesmo Seminário, no-
meação que não acceitou, assim como outra feita posteriormente
para um logar do Conservatório real de Lisboa, fundado recente-
mente por D. Maria ii.
A recusa d'estes cargos públicos, cujas causas não conhece-
mos, dava-lhe mais ampla liberdade para se dedicar ao ensino
particular nas principaes casas da capital, onde as suas qualida-
des moraes não eram menos apreciadas do que as artisticas.
Foi também professor do musica no collegio do Calvário e
Mestre de Capella da Infanta D. Isabel Maria, no palácio de
Bemfica.
Os contemporâneos elogiam muito o seu talento no órgão e
no piano, e a sua grande habilidade como repentista.
Escreveu muito, graças á idade avançada a quo chegou.
(82 annos) Entre uma grande quantidade de Missas, Te-Deimis,
jogos completos de Vésperas, Matinas, Nocturnos, Responso-
rios, Ladainhas, Motetes, Stabats, ctc. distinguem-se 3 Missas
de Reyaiem, sendo uma de Capella e outra de instrumental, que
os MÚSICOS PORTUGUEZES 181
dedicou ao Conde do Farrobo para as exéquias que na Egreja
de Santo António da Castanheira (a ^/^ de légua do Farrobo)
se celebraram por occasiXo da transladação dos restos mortaes
do BarSo de Quintella.
Álém doestas composiçSes sacras, deixou outras profanas :
Modinhas em grande numero, trechos para Piano a 2 e 4 mãos,
uma Symphonia para piano e orehestra, Duettos para Piano e
harmonium, varias cantatas, entre as quaes se distinguem duas
principalmente; a primeira, dedicada a Anselmo Magno de Sousa
Pinto em honra de D. Úrsula Todi, que se cantou no Palácio do
Conde do Farrobo; a segunda: O Mérito exaltado, cantada em
1818 no Theatro de S. Carlos, com muitos applausos. A propó-
sito doesta ultima composiçSo, dirigiu-lhe a Sociedade italiana
do real theatro a seguinte carta:
cSnr. António José Soares.»
«A Sociedade italiana me encarregou de testemunhar a V.
a BUA gratidão pela maneira nobre e pnerosa com que V, se
prestou a compor e dirigir a bella musica do Elogio: iZ mérito
escUtato, a que o publico fez a devida justiça de reclamar os spar-
titos da mesma cantata.
cA Sociedade deseja conservar nos seus archivos esta peça
magistral, como um padrão da sua gloria e pede-lhe, queira accei-
tar benignamente o pequeno mimo que acompanha esta, como
um signal da sua lembrança. E eu da minha parte aproveito esta
occasi&o para exprimir-Ihe os sentimentos de estima e considera-
çSo com que sou
De V. etc.
Luigi Chiari.
«Real Theatro de S. Carlos, 12 de Dezembro de 1818.»
As musicas de Soares ainda hoje se ouvem em Lisboa e
principabnente na Ilha de S. Miguel, aonde, até em concertos
182 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
públicos, se executam alguns trechos do seu segundo Stahai*
Mater. N2o falíamos d'ellas, porque nada conhecemos.
PlatSo de Vaxel (a) diz a este respeito: a sua grande Missa
revela um conhecimento profundo do contraponto; mas também
um estylo pesado e pouca inspiração.
Deixou três filhos, dos quaes o primogénito, seguiu as pisa-
das de seu pae, dedicando-se sobretudo ao ensino particular; ho-
je yive em Lisboa, retirado da actividade artistica.
António José Soares foi sepultado no dia 10 de Março e pou*
CO depois publicava a Nação um necrológio, elogiando mais uma
vez as qualidades moraes e artísticas do fiiUecido mestre.
(a) Gazeta da Madeira de 14 de Junho de 1866 ; a data do falled-
mento é 1865 e nSo 1864.
SOARES (P.« Hanod)— (a) Presbytero do habito de S. Pedro ;
foi natural de Lisboa. Machado, (b) fallando doeste compositor, diz
que cultivara profundamente os preceitos da musica e que as suas
composições, executadas na Patriarchal de Lisboa, foram muito
estimadas, chegando alguns dos excellentes músicos italianos,
mandados chamar por D. JoSo v (c) para a dita egreja, a aflir-
mar, que mesmo na Itália n2o havia quem competisse com Manoel
Soares; (d) esta apreciaçSo certamente um pouco exagerada, faz-
nos crer todavia no grande talento de que Soares devia ser do-
tado.
Morreu em Lisboa a 4 de julho de 1756 e jazia no cemite*
rio dos padres da CongregaçSo da missilo. Compoz :
1.) Psalmoi das Vésperas do Domingo,
2.) Psalnws das Vésperas da Segunda, Terça, Quarta, Quin-
ta, Sexta e Sahbado de Feria,
3.) Psalmos das Vésperas dos Santos Apóstolos,
4.) Psalmos das Vésperas dos Santos Martyres,
ò,) Psalmos das Vésperas dos Santos Confessores.
6.) Psalmos das Vésperas das Santas Virgens,
Estes psalmos eram todos a 4 vozes para Estante ; a harmo-
V
os MÚSICOS PORTUGUEZES 183
nia baseavâ-se sobre o cantochSo de cada um, e altemava-se ca-
da verso com o coro.
Este padre nunca disse missa, por se julgar indigno de ce-
lebrar o santo sacrificio; porque se ordenou então?
(a) £ nSo Soaves como diz Fétis, (fiiogr, Univ. VoL vui, pag. 57), que
também se engana, quando diz qae fora monge.
fb) BibL Luiit. Tol. iT, pag. 250.
íc) Vide o Eêboço hiêtoneo da CaptUa real, na biomphia de D. Joio v.
(d) Havia n*aqaelle tempo os compositores Pergolese, Marcello, Leo-
nardo LeO| Durante e outros.
s
SOLAHO (Franciaco Ignacio) — Theorico, nascido em Lisboa
em 1727 ; ignoram-se quasi todas as circumstancias relativas á
sua vida.
Vivia ainda em 1793, (a) porque n^este anno publicou a sua
ultima obra intitulada: Vindicioê do Tbno. Foi professor do Se-
minário de Lisboa e mui diversamente considerado emquanto ao
seu mérito. Rodrigo Ferreira da Costa declara os seus livros tn-
eomprehensiveiê até aos professores, por indigestos, confusos e
enunciados na linguagem da rançosa solfa das mutanças, e como
incapazes de servirem de compêndios para dirigir os estudos da
mocidade e os amadores que queiram conhecer a harmonia e o
contraponto.
A primeira classificaçSo de c incomprehensivel > nSo é exa-
cta, pois se Costa nXo comprehendeu o nosso theorico, houve al-
guém mais feliz a quem aconteceu o contrario e que nos explica
com toda a clareza, as theorias de Solano.
Fétis (c) diz: cCet ouvrage est le seul traité qui existe de la
solmisation por les muances appliqueés à tous les tons et à tous les
signos accidentels de la modulation de la musique modeme. La
méthode de Fauteur consiste à trouver par des régies certaines,
quelles sont les notes mi et fa, c'est-à-dire les notes du demi-ton
ascendant; mais ces régies sont en si grand nombre qu'elles dé-
montrent invinciblement Fabsurdité de la solmisation par les mu-
ances dans la tonalité modeme.» O único defeito pois, do syste-
ma de Solano está na sua complexidade e nSo na sua ineompre-
184 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
hensibiUdcfde. Nós mesmo, examinando a obra, nSo eneontramos
até, em relaçSo á tonalidade moderna^ essa difficoldade de per*
cepçSo.
Se Costa peca por um juiso em demasia severo, Cravoé (d)
cáe no opposto, dizendo que as obras de Solano, mereceram, por
ezoellentes que eram, e mereciam ainda em 1817 a approvaçSo
unanime dos professores de musica.
Já dissemos, faltando de Morato, que houve uma polemica aç-
calorada entre estes dois theoricos, talvez fosse até sobre o syste-
ma apresentado por Solano.
Eis as suas obras theoricas:
1.) Nova Instrucção musical, ou tbeorica praciica da mim*
ca rhf/tmica, coni a qual %e forma, e ordena $cbí'e o$ mais êolidoê
fundamentos hum Novo Methodo e verdadeiro Sy$temapara cons-
tituir um inteUigenie Solfista e destríssimo Cantor, etc. Lisboa na
Officina de Miguel Manescal da Costa, 1764 in-4.® de LX — (nSo
numeradas) 340 pag.
A este volume anda unido um Additamento á Nova Instruc-
ção musical, em que Solano trata das antigas regras da musica,
e das doutrinas mais necessárias para a verdadeira intelligaacia
do canto de estante etc; consta de II-47 pag., e traz no fim um
mappa com os signaes e indicações relativas aos principies da
musica e que elle intitula: Epilogo enigmático e indicativo do
primeiro discurso do compendio summario, etc.
Publicou-se um resumo doesta obra com o titulo:
Nova Arte e breve compendio de Musica para lição das prin-
cipiantes, extrahida do livro que se intittda: Nova Instrucção
musical, ou Theorica practica da Musica rhytmiõa; dedicada
ao EL^ e Exc."^ Snr. Thtmé José de Sousa Coutinho CasteUo-
Branco e Menezes, etc, por seu amigo F. L S; Lisboa, 1768,
in-4.% na Officina de Miguel Manescal da Costa, Impressor do
Santo Officio.
Se é facto que esta obra foi prejudicada pelas que i^pareee-
ram depois, tanto nacionaes como estrangeiras; se hoje o livio
tem apenas um mérito histórico e archeologico para com a theo-
os MÚSICOS PORTUGXJEZES 185
ria da Arte, é hmegaTel qite prestou muitos serviços em seu t^n«
po e que foi muito applaudido por artistas de mérito^ portugueses
e estrangeiros. SSo testemunhas do que affirmamos, as numero-
sas cartas que precedem a N<>va InstrueçSo musical, entre as
quaes encontramos uma de D. Lucas G-iovine, Mestre da Rainha
etc», outra de D. António Tedeschi, doutíssimo professor musico
de S. M. F. na Capella real de Nossa Senhora da Ajuda ; outra
de D. José de Porcaris, Musico Contrapontista e Mestre da Ba-
sílica patriarchal ; outras de Passo-Vedro, de Henrique da Silva
NegriLO; de Mixilim, de JoSo Cordeiro da Silva, de Luciano Xa*
vier dos Santos, de José da Silva Reis, de um anonymo (a melhor,
e muito extensa) ; e emfim a mais importante, a de David Perez
que transcrevemos em seguida:
cSignore Francesco Ignasio Solano.»
<I1 giomo 11. dei passato mesi di Giugno, di questo corren-
te anno 1763. mi fá portata una di lei stimatissima carta, oon un
libro Bcritto a mano, intítolato {Nuova iHrugzionê Musicale, etc.)
e come daUa di lei carta osservo che penza questa sua virtuosa
Fatiga metterla alie stampe, percii ne abilita ancore il debbole
mio talento á damc (unito agFaltri degni Professori da lei scelti)
il sentimento ed approvaaione.
<E come lei mi scrive, e dimostra nella sua Opera, che il
Método commune alia (da mé respettabile) Nazione Portuguesa
sia il solfeggiare le chiave di transporto rigorosamente col Nome
dove le soggetta la forza degl^accidenti, i^provo, e maggiormente
lodo la di lei virtuosa Fatiga, che ritrovandosi; questo Método
nel dare gli primi principij di Musica alli scolari ; Tabbia facili-
tato, e sminuzzato, con tante ragione, e chiari Esempj, che con-
questa Nuava htruzzione, o Nuova Eêeuola spero ne ottará il
fine, per il quale lei á tanto virtuosamente travagliato per la sua
Nazione Portuguesa; col vedere magiormente stabbilito il detto
Método di solfeggiare e facilitate tutte le dijfficoltá, che ogni pria-
186 OS MÚSICOS PORTUG
cipiante di Musica potrebbe incontrare, per ampare ad esaere
(come lei Nota) un perfeito Solfista*
Pertanto io spero será gradita, e desiderata la di lei Opera
virtuosamente travagliata ad utite commune delle studiosi, e
Principianti di Musica, ed io tutto core lo desidero, e oon ogni
afietto di vera estima mi dico
Devotíssimo ed ubidientissimo servidore
David Perez.
Dair Agittta, a pié dei Real Pakzzo. Li 29. Agosto 1763.»
Todas estas cartas tecem os maiores elogios á obra de So-
lanO; recommendando-a como um livro vtil e necessário, des-
tinado a dar uma nova face ao methodo de ensino. Parece-nos
também impossível, que todos aquelles homens, alg^s dos
quaes, de reconhecido mérito e talento, e completamente in-
dependentes, fossem elogiar a una você uma obra que demais, ia
dar uma direcção nova ao ensino e por isso mesmo mais trabalho
aos professores sem que ella tivesse, para a época, um verdadei-
ro mérito.
Parece-nos esta concordância um indicio claro de que a
obra prestou em tempos, bons e valiosos serviços, e por isso era
julgada favoravelmente por professores e discípulos.
2.) Novo tratado de musica métrica, e rhytmica, o qual eti-
sina a acompanhar no Cravo, Órgão, ou outro yucUquer Instru-
mento, em que se possam regular todas as Espécies, de que se
compõe a Harmonia da mesma Musica. Lisboa, na Begía Officina
Typographica, 1779, in-4.* de xvi-801 pag.
3.) Exame instrtxtivo sobre a musica multiforme, métrica,
e rhytmica, no qual se pergunta e dá resposta de muitas couscu
interessantes para o Solfejo, Contraponto e Composição: seus
termos privatipos. Regras e Preceitos, segundo a melhor Prac-
tica e verdadeira Theorica, Oferecido a S. A. R. o Senhor
os MÚSICOS PORTUGUEZES 187
D. João VIj príncipe do Brazil. Lisboa, na Regia Officina Ty-
pographica, 1790, in-8.^, peq. de xx-289 pag. Erratas.
4.) I}is8ertação sobre o caracter , qualidades e antiguidade
da Musica, em obsequio do admirável Mistério da Immaetdada
Conceição de Maria Sanctissima, Nossa Senhora, recitado no
dia 24 de Dezembro de 1779 para effeito de abrir, e estabele-
cer n'esta Corte huma Aula de Musica Theorica, e Practica, Lis-
boa, na Regia Officina Typographica, 1780, in-4.® de 27 pag.
Este discurso está recheado dag fiiibulas mais absurdas so-
bre os effeitos da musica antiga e moderna, e envolvido n'um
veo obscuro de metaphysica intrincada, misturando-se n'elle o
mysticismo e a credulidade religiosa com as ideias materialistas
do paganismo. O author revela tanto aqui, como nos seus outros
livros, uma vasta erudiçSo, mostrando-se conhecedor das boas
obras que havia entZo sobre a Arte; todavia esta vantagem nXo
resgata a má impressSo de tanta cousa obscura e pueril.
5.) Vindicio do Tono. Exame das regrei do canto eccU"
sioêtico (cantochSo). Lisboa, ibid. 1793, in-4.'* de 50 pag. Este
opúsculo foi publicado com as iniciaes F. I. S. do Valle, e é uma
refutaçSo de outro de Fr. José do Espirito-Santo Monte, intitu-
lado: Vindictas do Tritono.
(a) Nio sabemos como Fétis pôde concluir do titulo da Nova Ins'
trueçâo musical, que o author tinha já falleddo em 1764 ?
[b^ Princípios de musica, prologo.
c) Bioffr, Univ, Vol Tiir, pag. 69.
d) Mntmosint lusUcma, Vol. ii, pag. 181.
SOUZA (José Joaquim de) — Compositor de musica sacra do
principio d'este século, mas já fallecido. Entre as suas composi-
çSes merece ser citado um Stabat Mater, talvez a sua melhor obra.
SOUZA (Fr. Plácido de) — Pertenceu á familia dos Marque-
ssea das Minas ; foi professor de musica em Lisboa, no meado do
século XVII e Mestre do nosso compositor V. José da Costa.
•os MÚSICOS PORTUGUEZES
T
THÂI1I8IO (Pedro) — Primeiro Mestre de Capella na Catlie-
dral de Graoada, depois Lente de Musica na Uniirersidade de
Coimbra por provisão de 19 de Janeiro de 1613 (a). Attribue-
se-lhe a fundaçS&o da Irmandade de Santa Cecilia e cabe-lhe tam-
bém o mérito de ter, quando nlo introduzido, ao m^tios melfao^
rado muitissimo a execução dos coros na musica sacra« Antes
da sua nomeaçSo para a cadeira da Universidade, tinha sido
Mestre de Capelia na Cathedral da Guarda, no tempo do Bispo
D. Affonso Furtado de Mendonça, que o tinha nomeado para
este logar e «remunerado com avantajados prémios e salários»,
como diz o author. (b) Foi este mesmo prelado que, protegendo-o
sempre, lhe alcançou a sua nomeaçSo para a cadeira da Univer-
sidade, quando foi transferido do Bispado da Guarda para a sede
episcopal de Coimbra.
Dissemos acima que se attribue a Pedro Thalesio a funda-
ção da Irmandade de Santa Cecília;. e a este respeito apresenta-
mos aqui alguns documentos, que não deixarão de ter algum in-
teresse; conjunctamente com os primeiros, mencionaremos outros
para provar que o nosso artista esteve durante bastante tempo na
capital, onde exerceu o logar de Mestre de Capella, no Hospital
real de todos os Santos.
A estes documentos pertencem os seguintes :
DOCUMENTO N.** 1
ÂMsento qive a mesa fez sobre o mestre da Capella
cAoB 30 de Junho na mesa do despacho da Misericórdia,
sendo presente o sr. provedor e irmãos da mesa, tratando como es-
os MÚSICOS PORTUGUEZES 189
tava vago mestre da capella do hospital, e considerando as par-
tes que se requerem para este cargo, o sr. provedor disse que
sua alteza lhe dissera que tinha muita satisfação de Pedro Tba-
lesio, e que n'elle concorriam as partes necessárias ao dito cargo,
assim por seu saber como sua virtude, assentou a mesa tomal-o
por Mestre da capella do dito hospital, com o ordenado que to-
dos 08 que tiveram este cargo até ao presente, como so verá nos
livros da fazenda, aonde mandam que se faça este assento no dito
dia de junho de 93 (1593) Manoel Pinto LeitSo etc.
Verba á margem
c 2 de Junho de 94 (1594) fez a mesa mercê ao mestre da
capella de 4$000 reis, em logar da cama que havia de haver; e
nSo haverá d'aqui em diante roupa nem cousa alguma por ella.»
DOCUMENTO N.® 2
Traslado de uma petição que o mestre da capella fezj com um
despacho da mesa,
cDiz o mestre da capella doeste hospital, que por mandado
de V. R.* e mais srs. despejou as casas em que viveu até agora,
e tem buscado outras, das quaes paga vinte mil reis, portanto
pede a v. s.* e mercês, visto ser elle desacommodado das em
que morava, lhe mandem pagar as que tem alugado no dito
preço. £. R. M.>
Despacho
«Offcreça o snpplicante o traslado do assento que se com
ellc tomou quando o tomaram por mestre de capella. Hoje 28 de
novembro de 96 annos (1596). O provedor Francisco de Al-
meida.»
190 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
DOCUMENTO N,« 3
Traslado do oêsento do Mestre da capeUa do livro
da deêpeza do anno de 93.
cPedro Thalesio tem de ordenado 60 alqueires de trigo e
vinte mil reis em dinheiro, sendo 16|000 reis de ordenado e
4$000 reis para um moço, e três quartos de carneiro pelas fes-
taS; e um alqueire de grilos, e a casa da escola que está na va-
randa dos padres (os capellSes do hospital) e cama.
Trará certidão dos mordomos da capella como cumpre in-
teiramente sua obrigação. Tem mais outra verba em outro livro
de Francisco de Almeida sendo escrivão, como receberá 4|000
reis pela cama que lhe haviam de dar. Hoje 28 de novembro de
96, Luiz de Figueiredo.
Despacho
cA mesa ha por bem que se dêem ao supplicante cada anno
10|000 reis para ajuda das casas em que ha de viver, havendo
respeito a que se lhe tomarem as em que vivia, por nSo serem
ordenadas ao mestre da capella, e as que lhe estavam ordenadas
estarem na varanda dos clérigos onde o supplicante n2o podia
pousar por ser casado. Hoje 29 de novembro de 96 (1596).
E este despacho se rejeitará etc.>
Pedro Thalesio devia ter abandonado o seii lugar de 1599
a 1600, porque então já não se encontra noticia d'elle no archivo
do Hospital de S. José d'onde estas foram tiradas; succedeu-lhe
o P.* Simão dos Anjos de quem já falíamos no 1.^ volume.
E natural que Thalesio se retirasse para a província, talvez
chamado pelo Bispo da Guarda com quem podia ter travado re-
laçSes em Lisboa. D'ali seguiu o prelado para Coimbra.
Estes documentos são interessantes no que dizem respeito á
situação material do Mestre da Capella, que não era nada mes-
quinha, se attendermos ás necessidades da época.
os MUSICX)S PORTUGUÈZES 191
A admissSo de Pedro Thalesio como Mestre da Capella do
Hospital^ prova que a promoçSo para este logar era feita sem
escolha de nacionalidade porqne parece que Thalesio era na rea-
lidade hespanhol, verificando-se assim a reciprocidade das rela-
çSes artísticas entre Portugal e Hespanha. No século xvi e xvii
foi este ultimo paiz inundado, na força da palavra, por uma le-
giXo de músicos portuguezes ; (c) a nossa visinha retribuía po*
rém de uma maneira muito limitada este movimento artístico,
e se algum artista hespanhol pizou no intervallo d'esses dois sé-
culos o solo portuguez, para occupár algum logar importante, foi
(como no caso de Thalesio) patrocinado por algum alto personagem
a quem acompanhava. Podia ainda ser que Thalesio fosse algum
d^esses portuguezes, que iam para Hespanha grangear fama e
fortuna com os seus talentos e que voltavam depois á pátria,
cheios de gloria e com um nome brilhante, para soUicitarem um
logar digno dos seus nomes.
Alem das noticias relativas á situação do artista, que se en-
contram nos documentos citados, ha as outras, nSo menos inte-
ressantes, que espelham os costumes da época; por exemplo a cir-
cumstancia do artista n&o poder pousar na varanda dos padres
por ser casado, indica quXo profundas estavam ainda arreiga-
das essas formalidades religiosas, filhas apenas de um fanatismo
estúpido; em quanto se fazia questlLo de cousas tSo insigni-
ficantes, emquanto se discutia a incompatibilidade de semelhan-
te posiçSo, perante escrúpulos santíssimos, perdia-se o clero n'uma
vida devassa dando os mais funestos exemplos !
Vejamos agora a segunda serie de documentos, relativa á
Historia da Irmandade de Santa Cecilia.
Os primeiros vestígios certos que apparecem, é em 1702, e
conhecem-se por uma collecçSo completa de vilhanicos, que se
cantaram nas Matinas festivas da padroeira da irmandade,
a 22 de Novembro; esta collecçSo que abrange um longo inter-
vallo de 1702 a 1722^ sem interrupção, está quasi toda escripta
em hespanhol, menos o Vilhancico 8." do 3.^ Nocturno do anno
192 03 MÚSICOS PORTUGUEZES
de 1704; todos oa outroa cantados n'e8te mesmo anno, alo ainda
escríptos em heapanhol.
TemoB &llado n'esta obra, já tantaa Tezes de Vilhancico»^
que D&o será desagradável ao leitor, ter pelo menoa conhecimento
da forma poética d'e8te gonero de compoaiçSo sacra, já que in-
felismente nSo podemos acompanhar o Terso com a musica cor-
respondente.
Vilkancieo (c)
l.'KOCTnllKO
1. — Qaeo aj do nnevo?
2. — Grandes comi,
que a um NiSo con nue^u leyes
M hnniillaii trea Raye»
1. — Qniei) pnede ser esse Infante
qnc flssi sus foerçaa oprime?
2. — £a LeoB, aanque agora giuw
y es grande U maravilla,
ai Ter qoe nn Leon se homilia
a ser Cordero llamado,
7 en nn superior bocado
niiÍT BU Dcidad ai hombre.
1 . — No es mnctio que tal ranombre
le den, puessabo icndir
2. — Venga pucs, vcnga cl Ãbrít
cl tlnyo vcng>,
j para sn corona flores prcTcnga.
Coplat
El qnc cn campniia de luses
Ia» liiicBtra vriiciò nlcvoena
oy HO lut vcdhÍo n \m niano
Ucoo de \ms, y do gloria.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 193
£1 quô a los paizcs bflxos
ae la tierra baxò agora,
a despertar ei amor,
que dormido hallò eutre sombras.
Eis um pequeno dialogo e duas coplas de uns Vilhancicos
que se cantaram na capella d'£l-Ilei D. João iv, nas Matinas da
Festa dos Reis em 1655. Por este pequeno trecho se pode fazer
já uma ideia da forma litteraria do YilhancicO; posto que essa
forma varie nos séculos seguintes e fosse diíferente nos séculos
anteriores.
NSo é aqui o logar do indicarmos essas differenças e a nos-
sa intenção era apenas, dar por meio d'cste extracto, uma ideia
da ingenuidade c do àentimcnto poético doestas producçSes po-
pulares.
Da collecçllo de 1702, apresentamos o seguinte verso:
A liçSo do amor divino
Bem pódc em solfa caber
Donde bãode vêr
Tudo em la para snbir
Nada em mi para descer.
N^este exemplo já se revela o pedantismo do poeta ou do
compositor, ou mesmo de ambos, que substituíram á ingenuidade
do povo, á expressão verdadeira e franca, ao perfume agreste
d'cssa poesia original, a vaidade do sabichão e o sou calculo,
frio de todo o sentimento e de toda a verdade ; o íavantisme
pretendeu avassalar tudo ao seu dominio, enfeitando-se com es-
sas flores mimosas do sentimento popular, como a ^elha mirrada
e seca, que pretende disfarçar as rugas já sensíveis e numerosas,
debaixo dos arrebiques de uma donzella.
O Vilhancico foi um producto espontâneo e característico do
sentimento popular, que era o único poeta capaz de fazer os ver-
sos e de crcar a musica para elles. Os compositores que quize-
ram aproveitar esta veia artística, foram inspirar-se directamen-
13
194 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
te dos sentimentos do povo e nSo procuraram a roalisaçSo das
suas ideiaS; nos estreitos moldes do calculo musical.
Depois de feita esta pequena excursão, voltemos ao nosso
propósito.
Por este Vilhancico, tirado da collecçSo de 1702, fica pois
determinada com segurança, a existência da Irmandade de Santa
Cecilia ; esta era a principio, composta unicamente de cantores, e
talvez compositores e um ou outro raro instrumentista; as orches-
tras não começaram a apparecer, senão com a introducção da
Opera, porque antes doeste género de composição, não havia ne-
nhum que as occupasse por pequenas que ellas fossem.
As composições eram escriptas só para as vozes, acompa-
nhadas geralmente pelo órgão, e esto auxiliado por um ou outro
instrumento a solo, tirado do quartetto ou por algum antigo ins-
trumento de metal (Trompas ou Trombetas).
Depois da introducção da Opera, devia a arte instrumental
ter-se desenvolvido singularmente e causado por isso graves pre-
juízos ás regalias da irmandade, pois em 1760 requereu ella: que
todos 08 músicos fossem obrigados a pertencer d irmandade, e
esta, no alvará de 15 de Novembro do mesmo anno que deferiu
a sua supplica, vem designada com o titulo : Irmandade de Santa
Cecilia dos cantores da corte.
O provedor e mais irmãos allegavam, que a irmandade es-
tava muito decadente, e que exercitavam a arte muitas pessoas,
que não só não eram professores, senão que nada sabiam de mu-
sica. El-Rei D. José satisfez a petição, c ordenou que ninguém
podesse exercer a arte ou por estipendio em dinheiro ou em gé-
neros, ou mesmo por presentes, sem ser professor e irmão de
Santa Cecilia, e quem desobedecesse a esta ordem seria multado
em 12|000 réis, pagos da cadeia, sendo metade para a irman-
dade e metade para o hospital.
Este favor real foi renovado por alvará de 27 de Janeiro de
1766 porque, segundo a allegação do requerimento, o primeiro
original tinha desapparecido com o terremoto ; houve porém uma
alteração que excluiu a clausula do provedor ser nobre e que
os MÚSICOS PORTUGUEZES 195
para admissão dos innSos se formassem artigos de pureza de
sangue. A ordem de D. José cumpríu-se e até se facilitou a en-
trada, dando-se licença e admittindo-se lettrados, médicos e ci-
rurgiões. Os irmSos pagavam 2|400 réis de jóia e 960 réis de
annual.
Logo depois do terremoto, estabeleceu-se a irmandade na
freguezia dos Martyres.
Bem desejávamos dar mais noticias e mais completas d'e8ta
curiosa insrtituiçSo musical que teve a felicidade de atravessar
tantos séculos até aos nossos dias, porém nem sempre os resul-
tados compensam o trabalho emprehendido, por isso contente-
mo-nos até melhor occasiSo.
Voltamos á biographia de Pedro Tbalesio. A sua nomeação
para a Cadeira de Musica em Coimbra, trazia comsigo a ne-
cessidade de um systema de ensiiio mais completo, e por isso tra-
tou Thalesio de dar ás suas theorias musicaes uma fói*ma mais
duradoura e assim publicou o seguinte livro:
Arte de Canto Chão com kuma breve instrucção para os Sa-
cerdotes, Diáconos, Subdiaconos & moços do Coro, conforme ao
uso Romano. Coimbra, 1617, in-4.** de?-136.
Obteve segunda ediçSo :
. . .Agora nesta segunda impressão novamente emendada &
aperfeiçoada peUo mesmo Autor. Dirigida ao Illustrissimo &
Eeveredissimo Senhor Dd Affonso Fartado de Mendonça, Arce-
bispo de Lisboa & Governador deste Rei/no de Portugal; sendo
Bispo de Coimbra, etc. Em Coimbra, Na Impressão de Diogo
Gomes de Loureiro. Anno 1628, in-4.^ de xii-136 pag.
Tludesio tinha outros trabalhos entre mãos que infelizmen-
te não appareceram ; a elles se refere a seguinte passagem da
sua Arte de Cantochão. (Dedicatória.) cE com o favor de V. S.
lUustrissima hirão saiodo a luz outras obras de mais considera-
ção, que trago entre mãos.» '
O author repete esta promessa na pagina < Ao benévolo e pio
Leitor:» E se entender, que doeste pequeno trabalho; lhes resulta
196 OS MÚSICOS PORTUOUEZES
utilidade à Republica; se me aocreacentarà o animo, de proseguir
cousas maiores, que determino, com o favor de Deus tirar a luz. »
Ainda no cap. i, pag. 1 da Arte, diz : c Assi seguirey aqui os
que me parecerem mais necessários pêra a intelligencia do Can-
to chão; deixando de tratar do Canto, & Musica universal; da sua
orígen & antiguidade ; da sua diffiniçSo & divisSo ; do seus effeitos,
& utilidades; da differeça de Cantor, & Musico porq de tudo faço
mençlto larga noutro CSpendio d'arte do Cato d'orgSo, cStraponto,
cSposiçlo, & outras curiosidades da Musica, que tenho entre
mSos.»
Ignoramos as razSes porque os outros livros de Thalesio não
sahiram á luz, mas parece que o obstáculo que impediu a publi-
cação da Arte de Canto de OrgSo, foi a fiilta de caracteres (pro-
vavelmente musicaes) para a impressão.
É para lastimar esta infelicidade, porque esses livros ha-
viam de revelar qualidades talvez ainda superiores á Arte de
CantochSo ; nSo podemos deixar de louvar esta ultima obra, que
revela um saber solido, diremos até muita erudição e que está
escripta com bastante clareza, cousa em que contrasta singular-
mente com muitas obras theoricas doesse tempo, tanto nacionaes,
como estrangeiras em que, ora uma erudiçSo mal digerida, ora
uma falta de critica e de methodo, enredava a sciencia n'um
labyrintho de theorias, sem principio nem fim.
Pedro Thalesio mostra estar ao facto de tudo o que se sa-
bia no seu tempo, citando e aproveitando o que se tinha escripto
até entSo, de melhor em Portugal e no estrangeiro. Entre os nos-
sos theoricos figuram: António Carreira, Domingos Marcos Du-
rSo, Jo3o Dias, João Martins, Fr. Estevão de Christo, Felippe
de Magalhães e Vicoito Lusitano; entre os estrangeiros, notam-se
os mais sábios e notáveis authores ; os espanhoes : Bermudo, Chris-
tobal de Morales, Francisco Tovar, Montanos, Salinas, Biscar-
gui, Tapia Numantino, Miguel de Torres, Monserrate, D. Luiz
Milan, além doestes encontramos: Stephano Vaneo, João de Mu-
ro, (Jean de Muris) Cerone, Pietro Aaron, Nicolau Vicentino,
Zarlino, Gaíbri (Margarita PhiloaopJum) Zacconi, ArtUsi, Guido
os MÚSICOS POBTUOUEZES 197
d'ArezzO| Qlaréan, Tinctor, Tigrini, Spataro^ Papias (De Paep)
etc. etc. Entre os antigos, notam-se citados : Aristóteles, Boecio,
Euclides, Arístoxeno, S. Agostinho, S. Isidoro e outros.
Como se vê, os seus conhecimentos firmavam-se em solidas
bases.
(a) O Cardeal Saraiva {LUta. pag. 49) traz a data : 12 de Novembro;
diz também que Thalesio fora medico (?) do Cardeal Alberto e Mestre de
Capdla do Hospital real de Todos os »aat0B em Lisboa, o qua é verdade,
eomo veremos.
(\3Í\ Arte de Canto Chão, Dedicatória, pag. iv.
Este facto notabilissimo encontra a sua prova nas biographiaa de
muitos artistas que figuram n^esta obra.
Vejam-se por exemplo as de Fr. Affonso de Palma, Gregório Silvestre,
Manoel Corrêa, JoSo Gonçalves, Manoel Leitão de Avilez, Fr. Francisco
Baptista, Manoel Tavares, Nicolau Tavares, Affonso Vaz da Costa,^ Fran-
cisco Corrêa de Araújo, Fr. Francisco de Santiago, EstevSo de Brito, Fr.
Manoel Cardoso, Fr. Felipe da Cruz, João Mendes Monteiro, Manoel Ma-
oedo, etc., etc.
Deixamos para mais tarde o desenvolvimento que este assumpto me-
rece pela sua grande importância. Que a nossa Arte teve uma Historia
brilhante, cigo ponto culminante se fixa nos séculos xvi e xvii, é o que nin-
guém, salvo duas ou três excepções, sabia em Portugal ; mas o que ninguém
sonhou sequer até hoje, é que a arte portuguesa tivesse tido uma tal exube-
rância de seiva e de vida artística, que apenas uma parte cTellaj fosse suf-
ficiente para alimentar vi^rosamente o sentimento esthetíco de uma nação
quatro ou cinco vezes maior, como era a espanhola !
(d) Vilhaneieoê oue êe earUarão na Capella do muyio Alto S mvyio
Poderoso Rey Dom Joào o IV. N, S. Nas Matinas da Festa dos Reys do
a$mo de Í66Õ. Lisboa, «om todas as licenças. Na Officina Craesbecuaaa.
Anno 1655.
TAVARES (Manoel) — Discipulo de António Ferro. Chantre
da Capella de D. Joio lu e mais tarde Mestre das Cathedraes de
Cuenca (Castella-a- Velha) e Murcia, (Valência) onde morreu. Ti-
nha nascido em Portalegre em 1625.
Deixou as seguintes composiçSes que se encontravam antes
do desastre de 1755 na Bibliotheca real de Lisboa.
1.) 4 Magnifie€U.
2.) Veni in hartum meum a 8 vozeê, Motete a Nona Se-
nhora.
3.) Tota piãehra est : MoUte a 7 wzes. Estante 35, N."" 794.
4.) Laudaie Dominwn in Sanctís ejus^ 8 voms.
198 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
5.) Pastores loquebantur ad invicem a 6 vozes.
6.) Dixit Dominus a 10 vozes, do primeiro tc/m.
7.) Idem a 14 vozes, do oitavo tom.
8.) Beatus Vir a 12 vozes, do segundo tom.
9.) Lauda Hierusalem a 8 e a 12 vozes, do sexto tom.
10.) Lcetatus sum a 12 vozes, do sexto tom.
11.) Laudate Dominum omnes gentes a 8 vozes, do oitavo tom.
12.) Tasdet animam meam a 8 vozes.
13.) Regina codi Icetare a 8 vozes.
14.) Salve Regina a 8 vozes.
As obras que mencionamos desde o numero 2 até 14, encon-
travam-se na Estante 33| N.^ 799.
TAVARES (Manoel dos Reis) — Compositor e medico, natural
de Santarém; foi filho de Gaspar dos Reis e Helena Jorge. Mor-
reu a 25 de Dezembro de 1696, com 96 annos de edade.
Compoz :
1.) Psalmos a variai vozes. Ms.
2.) Ladainha de Nossa Senhora a diversas vozes. Ms.
TAVARES (Nicolau) — Natural de Portalegre e discipulo de
Manoel Tavares. Foi Mestre de Capella em Cadix, e Cuenca,
morrendo n'esta ultima cidade apenas com 25 annos. As suas
composições existiam na Bibliotheca d'El-Rei antes de 1755.
TEIXEIRA (António) — Natural de Lisboa, e ahi nascido a
14 de maio de 1707, de Manoel Teixeira e Vicencia da Silva.
D. JoSo V mandou-o a Roma com 9 annos de idade, para apren-
der a theoria e a composição. Voltando a 11 de Junho de 1728 a
Lisboa, foi nomeado em premio da sua applicaçSo, 1.^ Cantor da
Patriarchal e Examinador Synodal de CantochSo em todo o pa-
triarchado. Machado (a) diz que as suas composições eram innu-
meraveis (!) cita porém só as mais distinctas; sSo :
1.) Te Deum laudamiu a 20 vozes, com instrumentos; can-
tou-se na casa professa de S. Roque, a 31 de Dezembro de 1734,
os MÚSICOS PORTUGUEZES 199
em acçSo de graças pelos beneficios recebidos n^aquelle anno ; a
esta solemnidade assistiu a £Eunilia real com toda a côrte.
2.) Te Deum landamus a 4 vozes.
3.) Psalmos, Offertorios, Lamentações e Motetes a4 e 8 vo-
zes, com e sem instrumentos.
4.) 7 Operas a 6 vozes com orchestra; Machado (b) diz qae
se representaram com muito êxito.
-5.) Miserere a 8 vozes com orchestra.
6.) Missa a 8 vozes.
7.) Missa a 4 vozes.
8.) Psalmos de Vésperas a 4 vozes, compostos para a Egre-
ja de Santo António dos Portuguezes, em Roma.
9.) Te Deum a 9 vozes.
ra^ Bihl, Luêit. Yol. IV, pag. 61.
(b) JRnd. loc. eit.
TELLES (P/) — Compositor distincto no género das modi-
nhãs. Residia no Rio de Janeiro no principio do século xix.
TELLES (Balthazar) — Lente de Musica na Universidade de
Coimbra, por provisSo de 2 de Novembro de 1549. E tudo o que
d'eUe sabemos.
THIMORES (D.^ Theresa Raimunda de) — Senhora de talen-
to que pertenceu ao principio do século xvm ; esteve recolhida no
convento das Dominicas da villa de Abrantes. Alem dos seus
vastos conhecimentos na Litteratura e na Poesia, cultivava as
Bellas- Artes com felicidade ; <na Musica, tocando e cantando com
suavidade, e destreza innimitaveh (a) Morreu em 1730.
(a) Eebello da Costa, Descripçâo tapograpli, e hUt. do PortOf pag. 359.
TODI (Luiza Rosa de Aguiar) — Saudemos respeitosamente
este nome celebre que vem com o seu brilho espalhar uma luz
explendida pelos annaes da nossa historia artística. Hoje que a
\
soo os MÚSICOS PORTUGUEZES
Arte vegeta tSo triatemento em Portugal, lignemoa as nossas aym-
pathias por eltii, a um nomo qnc a illuatrou e que é talvez a der-
radeira ancora da nossa tradição artística.
Luiza Rosa de Aguiar, eis o seu verdadeiro nome, que se
encontra no Tartufo do Moliòre, representado no Theatro do
Bairro-Alto, em 1768.
O appellido Todi, provém do marido, Francisco Xavier TodI,
italiano e violinista distincto. Começamos pois por desvanccef
Tima duvida que reina com relaçito aos seus nomes de baptismo e
uma vez fixada a authenticidodo do nome referido, temos de
apontw como errados os que lhe attribuem Fétis, (a) Cíer-
ber, (b) Ledebuhr, (c) Choron e Fayolle ; (d) o primeiro eacri-
ptor descobriu é verdade, em um librotto de uma opera cantada
em Berlim, o nome Luigia ou Luiza, todavia nem por isso dei-
xou de escrever por cima do artigo que lhe dedicou, o nome : Ma'
ria Francitca.
\ / A confiislo que principia com os nomes, continua sempre
nos seus dififerenteB biograplios ; trataremos entretanto de resta-
belecer a verdade, segundo as nossos forças, confrontando e criti-
cando as opiniSes desencontradas.
Os biographoB mencionados concordam todos em collocar o
seu nascimento, pelos annos de 1718, em Setúbal. A sus educa-
-lo artística foi dirigida por David Perez e nSo foi este certamen-
te um dos pequenos serviços que o celebre compositor nos pres-
tou, durante a larga carreira da sua actividade artística. As
soas, primeiros estreias parece que tiveram lognr nos Theatros da
Bua dos Condes e do Bairro Alto, onde desempenhava os papeis
de êoubrette, (e) n'es3as peças comico-dromaticas, imitações ijn-
perfeitas da Opéra-eomi^ue; Balbí menciona a propósito d'esta
círcumstancla uma irmã, chamada Cecília (f) que se distinguia
particularmente na tragedia; sabemos ainda que além d'esta figa-
foramali ainda mais duas: Isabel e Iphigenia Aguiar; foi prova-
Imente nas pequenas árias, dttattoa e reeitatívo», de que esses
'amas e essas forças estavam enfeitadas, que se ouviu primeiro
voz da jovon cantora. Ignoramos se o seu talento se raanifes-
os MÚSICOS PORTUGUEZES SOI
toa em outro local mais apropriado ; é verdade que FétSs (g) o af-
firma, dizendo: cLes suceès qu'elle avait eus dès son début au
Théfttre de Lisbonne la firent, etc.»
Esta noticia que é muito vaga^ porque nBo determina em
que theatro cantou^ confirma-se na Revista doê EêpeciacvloB, que
annunciaa sua estreia em Lisboa como um verdadeiro tríumpho,
valendo-lhe a sua escriptnraçSo para Londres; o jornal nSo re-
fere também o theatro em que appareceu pela primeira vez, É
comtudo provável que a Todi continuasse^ a par doestes pequenos
ensaios practicos, os estudos sérioS| começados com o seu mestre,
porque em 1777 encontramol-a na Operado Londres.
Segundo Gerber, Fétis e Ledebuhr que concordam todos
h'aquella data, parece que foi a primeira viagem que fez a In-
glaterra; todavia Choron e FajoUe (h) faliam de outra^ feita
em 1772 e em Bumey (i) vamos encontrar quasi a confirmação
d'esta noticia; diz o escriptor inglez:
.... t As for Signora Todi, ske must have improved veiy
much âincs she waê in England, or we troated her very unwor*
thily ; for though her voice was thought te be feeble and seldom
in tune while she was here, she has since been extremely admi-
red in France, Spain, Rússia, and Germany, as a most touching
and exquisite performer. »
Esta citaçZo altamaite preciosa, revela-nos duas circum-
stancias até hoje ignoradas; primeiro, conclue-se que a canto^
ra portugueza devia ter visitado a Inglaterra antes de 1777;
ora, como nSo é crivei que os authores do Dictiannaire hiê»
torique inventassem ad libitum, a data 1772, é provável que a
primeira viagem se realisasse n'este anno; o segundo facto que
se deduz da citação, é que a voz da cantora portugueza tinha me*
Ihorado sensivelmente desde a primeira visita a Londres, ou en-
tXo diz Bumey, cnSo a tratamos condignamente».
Emfim seja verídica ou fidsa, a viagem de 1772, o que nSo
merece duvida, é a sua pres^ça em Londres, em 1777*
Cantou n'esse anno na opera bu£Ea: Le due Comtessé de
Faésiello, mas parece que nSo foi muito applaudida na execuçSo,
202 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
Fétis pretende que a natureza da voz e o género do seu talento,
nSo condiziam com o estylo da opera buffa; Choron e FayoUe
silo da mesma opiniSo; a esta circumstancia aecrescenta Bumey
08 defeitos da sua voz, que o publico julgou fraca e pouco segura
nas intonaçSes; emfim fosse uma ou outra razSo, o que é certo, é
que a artista resolveu nSo se aventurar mais no género buffo, li-
mitando-se á Opera séria.
A sua voz era entSo segundo Gerber, Ledebuhr, Choron e
Fayolle e Scfaneider, contralto e segundo Fétis um mezzo-soprano
de timbre um pouco coberto, circumstancia esta, que talvez lhe
valesse a primeira classificaçSo. De Londres partiu ainda no verSo
de 1777 para Madrid onde se apresentou na Olimpicide de Paê-
siello, e depois em outras obras de compositores contemporâneos.
Como era de esperar, nSo foi pequena a admiração do publico
madrileno que applaudiu com enthusiasmo a intrepretaçSo da
\bella Opera de Paêsiello. (j)
Em seguida a estes triumphos, partiu para Paris onde che-
^ gou em Outubro de 1778; foi na celebre sala do Concert spiri-
tuel que se apresentou ao publico e causou a fnais viva sen-
sação^ (k) Estes triumphos e os outros não menos difficeis, con-
quistados nos concertos da Bainha em Versailles, augmentaram
muito a sua reputação e consagraram o s^ talento.
Assim recommendada, voltou a Lisboa no verSo de 1780 e
ahi ficou escripturada por um anno; em Outubro de 1781 volta-
va a Paris em virtude de um contracto, feito com os Directores
do Concert spirituel. As ovaçSes redobraram de enthusiasmo ;
eis o que nos diz o Dictionnaire historique a este respeito:
cVers 1780 elle parut au concert spirituel. Elle y fit une sensation
prodigieuse, et obtint un suecos qui, japrès différens voyages, n'a
fait que se confirmer. Uaurore de la musique commençait à luire
en France: nous avions entendu des virtuosos célebres, mais au-
cun n'avait encore reuni au même point les qualités analogues au
goât naissant de la nation. Cest par Fexpression surtout que ma-
dame Todi sait nous plaire; cette expression, qui animait sa
voix, san âme, sa figure, parut ne rien laisser en elle à desirer.i
y
os MÚSICOS PORTUGUEZES 203
Como se vê, o talento da artista tinha attingido o seu pleno
desenvolvimento.
Gerber confirma a apreciaçSo antecedente, dizendo : cPelos
annos de 1780 (deve ser 1781, durante a 2/ viagem) estava
a artista em Paris, cantando no Concert spirituel, e foi ahi
que fundou a sua gloria, rivalisando le$ beaux^espritê (schdnen
Geister) nos elogios que £ftziam aos seus talentos artísticos,
espalhando assim a sua reputaçKo por toda a Europa.» De-
pois d'estes concertos, parece que se dirigiu a Berlin, apesar de
Reichhardt (í) fixar esta primeira viagem um anno antes, em
1780; cantou diante do celebre Frederico n tem um concerto
dado em Potsdam ; (m) como se sabe, o rei, ora inimigo da mu-
sica italiana moderna; disse-lhe: que sentia ouvil-a cantar uma
tal Bierhausmusik (Musique de Cabaret) e mandou-lhe no dia
seguinte algumas árias de Graun (n) e de Hasse, (o) obser-
vando-lhe que lhe dava 14 dias para estudar essa musica mais
séria e depois a ouviria novamente. Na segunda audiçSo agra-
dou, e o rei offereceu-lhe 2:000 thalers (7:500 francos); a can-
tora julgou nSo dever aceitar menos de 3:000, que era a quan-
tia que a celebre Mara tinha recebido e exigiu a coUocaçSo de
seu marido, na orchestra. Frederico ii, provavelmente ainda de-
baixo da impressilo dos dissabores que a Mara e seu marido
lhe tinham causado, (p) recusou e a artista partiu. As opiniSes
divergem a respeito da cidade que visitou em seguida; é todavia
mui provável que se dirigisse para o sul da Allemanha, (q) porque
a 28 de Dezembro de 1781, encontramol-a em Vienna d' Áustria
dando um grande concerto poucos dias depois da sua chegada;
a festa foi no Theatro francez e sahiu explendida, assistindo
todos os Príncipes da casa imperial e um extraordinário concur-
so, attrahido pela fama do seu nome já então celebre em varíoê
paizeê, segundo diz a noticia, (r) O Imperador distinguiu-se entre
todos, applaudindo com enthusiasmo.
Deu ainda um segundo concerto, a 18 de Janeiro de 1782
em que foi geralmente applaudida; co seu merecimento, e ex-
cellente voz lhe tem grangeado n'esta Corte a benevolência, e
\
204 OS MÚSICOS POBTUGUEZES
agrado de todo o Pablico.» (s) Em 1782 voltoQ de novo a Berlim
e acceitoa a offerta de 2:000 ibalers, porém com a licença de re-
sidir em Potsdam, que foi concedida ; entre a sua estreia na capital
da Prússia, a 13 de Dezembro de 1783 e o anno em que assignou
o contracto, (1782) medeia um longo intervallo que a Todi apro-
Teitou proTarelmente para dar concertos nas differentes cidades
da Allemanba, pois no primeiro de Janeiro de 1783, (t) já estava
de novo em Vienna*
Esta nossa supposiçSo confirma-se com as seguintes pala*
vras de Gerber: cim Sommer des 1783 ^. Jahres kam sie nacb
Deutschland und ftmdtete in den Rhein und Mayngegenden, vo
sie nnr hin kam, reicUichen BeifiUl ein, insbesondere wurde sie
EU Carlsruhe, wo eben der Grossfttrst zugegen war, kõniglich be-
Bchenkt.»
No dia do anno novo, cantava a artista portuguesa du-
rante um explendido jantar dado em honra dos Gran-Duques
da Rússia (que se achavam em Vienna com o incógnito : de Con-
des do Norte) e do Buque Eugénio de WUrtemberg; a festa
nSo foi menos brilhante pela riqueza e sumptuosidade dos vestuá-
rios e das baixellas, do que pelo talento da artista, que foi muito
applaudido.
Segundo Fétis, estava na primavera de 1793 em Paris, can-
tando novamente no Concert spirituel; foi entSo que se encontrou
com a celebre Mara e que se estabeleceu entre as duas cantoras
uma grande rivalidade artistica. Gerber, Choron e Fayolle, Gross-
heim (u) e Scudo, (v) fixam esta lucta em 1782, todavia segui-
mos Fétis, porque parece ter tido indicações importantes de Far-
renc, a respeito das suas soirées no Concert spirituel. A lucta es-
tabeleceu-se entre as duas grandes artistas e entre o publico, di-
vidido em dois partidos: oê Todiatas e Maraii$tas, como em ou-
tros tempos, em (7íttcX:t«to«ePicctnt9to«; entretanto esta questSo
differiada primeira, em que os dois partidos inimigos se limitavam
apenas aos epigrammas e Jxm mots^ A victoria ficou indecisa;
é esta a verdade, confirmada por testemunhos importantes; cada
uma das grandes cantoras foi admirada no seu género, como me-
os MÚSICOS POBTUGUEZES 205
recia ; a palma do canto expressivo, ficou á portugueza; a do can*
to de bravura, á italiana.
Convém aqui rectificar um erro importante commettido por
Escudier (x) a respeito doeste duello; diz elle: cUn incident vint
encore augmenter le bruit que les suecos de madame Mara avaient
soulevé dans Ia capitale. Une cantatrice italienne (!) d'un grand
talent; nommée madame Todi, lui disputa le premier rang. Les
deux rivales itaient soutenues par deux puissantes coteries, et Ia
querelle des maratistes et des todUtes, n^est pas un des épisodes les
moins curieuK de la fin du dix-huitième siècle. Les chances fu-
rent longtemps égales; mais en definitivo la victoire resta à ma-
dame Mara, que sa méthode supérieure et son entente profonde
des effets dramatiques plaçaient bien au-dessus de sa rivale, dont
lavoix très-exercée, très-agile, manquait complctement d^expres-
sion.»
Grossheim (y) biographo da Mara, refere também a victoria
da artista allemS, dizendo : • '• . «reiste darauf (1782) nach Paris. — \^
Dort war die beruhmte Todi bis jezt ais uniibertreffbar geprie-
sen worden. Der bescheidenen Mara bangte vor dem Glantze, der
die Nebenbuhlerin umgab. Die Joumalisten hatten sich im Lobo
der wahrhaften grossen Todi erchopft. Nachdem aber die deut-
sebe Philomele am Ilofe zu Yersailles und in Paris selbst aufge-
treten war, stellte man si bald Jener an die Seite, já man gab
ihr in Kurzem den Rang úber ihr.»
N'um jornal de musica, inglez, (z) em que vem a biogi^aphia
da Mara, copiada do livro de Grossheim, encontra-se a reproduc-
çSo d'este erro: cOn her arrival in Paris, she found the celebra-
ted Todi in possession of the public ear,.and srunk firom the splcn-
dour which surrounded her illustrious rival. But no sooner had
she sung before the royal family at Versailles, and appeared in
public in Paris, that her reputation was established. She soon rose
to o levei with her rival and in a short time was ranked by the
cognoscenti a degree above her.»
A primeira d'cdtas noticias, contem inexactidões graves, das
quaes uma se refere á victoria da Mara e a outra ás qualidades
206 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
de cada uma das cantoras. A segunda citaçSo de GroBslieim, errou
também, por patriotismo, glorificando a artista allemS de umavi-
ctoria que como adiante veremos, ficou incerta. Exceptuando a
parte que diz respeito a estes erros, nSo podemos deixar de sen-
tir um justo orgulho pelas palavras de admiração e de elogio que
se encontram dirigidas á nossa Todi, n'estas duas citaçSes, prin-
cipalmente na deGrossheim. Dissemos que a lucta ficara indecisa e
assim o afiirmam Fétis, Gerber, Choron e Fajolle, Scudo (aa) e
Scbneider. (bb) Entre estes, Gerber, que era allemSo, nSo hesi-
tou em dizer: tEs gereichte ihr daselbest nochzum besondem
Ruhm, dass sie sich im Jahr 1782 an der Seite einer Mara in dem
Besitzejhres Beyfalls hielt.»
Emquanto ás qualidades de uma e outra artista, vem a se-
guinte apreciação, tirada do Dietionnaire hiêtorique, confirmar o
que atraz escrevemos; parece ter sido feita por testemunha ocu-
lar, o que lhe dá um grande valor.
fEn 1782, madame Todi, eut madame Mara pour rivale.
La voix de la première était large, noble, sonore, interessante;
elle était fort étendue au grave, et Tétait assez à Faigu pour les
airs qu'elle se permettait de chanter. La voix de madame Mara
était brillante, légère et d'une facilite étonnante; son étendue
dans le haut était fort extraordinaire, surtout par son extreme éga-
lité. Madame Todi avait sur la voix, lorsqu'elle chantait la gran-
de expression, un certain voile qui la rendait encore plus tou-
chante. Le timbre dela voix de madame Mara était très-éclatant,
très-pur, il ébraniait toutes les fibres de ceux qui Tentendaient.
La voix de madame Todi était flnsfavorahle à Veocpression, qu'à
la bravoure; mais son art savait tout vaincre et elle faisait des
passages très-difiiciles avec beaucoup d'habilité. Le genre le plus
familicr à madame Mara, était la bravoure; mais comme elle
avait beaucoup d ame et dlntelligence, elle chantait les rondeaux
et les airs d'expression avcc beaucoup de grâce et de sensibilité.
II est à remarquer que c'e8t par un air rempli de passages : A mo-
rir se mi condana de Paêsicllo, que madame Todi a d'abord éta-
bli sa réputation en France; et que madame Mara a oonstatée
os MÚSICOS PORTUGUEZES 207
Ia Bienne par le rondeau cfexpression de Naumaim (oc)^ Tu m^in"
tendi.
Esta ultima circtimstancia explica talvez, o erro de Escudier;
e note-Be bem, que se a noticia antecedente lhe concede a facul-
dade expressiva, é apenas no ròndeau; era uma expressão ligei-
ra que estava muito longe de exercer os effeitos profundos do can-
to pathetico da nossa Todi. Entre a sensibilidade, e a expressão
havia entSlo e hoje, certamente a mesma differença. Se não bas-
tasse a citaçSo antecedente, referiamos outra de Scudo, que repe-
te pouco mais ou menos, a ideia da primeira:
c Arrivée à Paris en 1782, madame Mara j rencontra la To-
di, cantatrice d'un mérite différent, qui possédait les faveurs du
public. La lutte qui s'engagea alors entre ces deux virtuosos cé-
lebres divisa les amateurs en deux camps ennemis qui se comba-
tirent par dos épigrammes et des bons mots. La Mara charmait
les uns par les prodiges de sa vocalisation, par Fétcndue et Féga-
lité de sa voix; la Todi par la vérité de ses aceents.i^
Mais abaixo lemos :
La Mara était une cantatrice de bravoure dans le genre de
la Gabrielli et de la Catalani.
<Son expression manqtiait de profondeur. Elle effleurait la
passion, et glissait sur les cordes pathétiques comme un oiseau
léger. »
Insistimos n'estas citaçSes, não só para desvanecer os erros
mencionados, mas também, para dar uma ideia do enthusiasmo
e da admiração sem limites, que cercava a nossa illustre cantora
de uma coroa gloriosa.
A maneira como o triumpho foi justamente dividido, não
devia lisongear muito a Mara. Preferíamos ouvir a ária de Hasse
JSe ttUti i mali miei, cantada pela Mingotti, e em que ella arran-
cou lagrimas á Europa inteira — á execução embora perfeita do
todas as arías de bravura da Cuzzoni e da Mara. Na nossa opi-
nião, consideramos o talento que por meio do sentimento profundo
se eleva ás alturas sublimes do pathetico, superior cm valia, á
habilidade natural ou adquirida que se manifesta nas vocalisaçoes
/
>
20a os MÚSICOS PORTUGDEZES
*
embora mais prodigioBas. Esta qualidade póde-nos deixar admi-
rados^ maravilhados mesmo; mas nSo nos commove^ nSo descei
nossa alma a vibrar sympathicamente as cordas mais sensiveis
do nosso coraçSo. O talento no primeiro caso, eleva-se is altmras
do Génio, a habilidade no segundo, nunca attinge mais longe do
que i altura do talento*
Depois d'e8te curioso duello artistico, dirigiu-se (^ Todi a Ber-
lim onde se estreiou, segundo Gerber, no outono, e segundo Le-
debuhr, em Dezembro de 1783, o que é mais certo. As primeiras
operas que cantou, foi Alessandra e Poro de Graun e Lúcio Pa-
pirio de Hassc (dd). A acreditarmos o que nos diz Ludwig Schnei-
der, nSo foi bem recebida em Berlim, nSo egualando sequer a
Eichner (ee). Gerber diz-nos a respeito d'esta estreia: que os ber-
linenses lhe prodigalisaram menos elogios do que os habitantes
das outras cidades da AUemanha, onde fôra ouvida. Parece que
lhe notaram desigualdades e um arrastar na voz; nSo gostaram
da maneira como cantava o recitativo áfranceza, nem da for-
ça excessiva do seu canto (Schreyen, berrar !) e da sua mimica
affectada.
Também infelizmente foi muito mal ajudada nas duas Ope-
ras; Conciliani, (ff) estava constipado, cantando apenas 5 vezes em
logar de 10, quasi imperceptivelmente emal. Os outros artistas (no
Alessandro e Poro; eram: Eichner, Grassi e Paolino; no Lúcio
Papirio, além doestes: Tosoni e Coli) parece que nio foram tam*
bem felizes.
A Musica das duas Operas não podia salvar a situaçSo, pois
segundo um crítico do tempo: <A primeira, era SLpeor entre as
operas de GraUn c a segunda estava longe de ser a melhor de
Hasse.!
As circumstancias fataes da mi musica, do auxilio ínsuífi-
ciente dos seus collegas eas qualidades peculiares da nossa artis-
ta, nSo permittiram que ella se mostrasse na luz mais vantajosa.
Gerber nSo se esqueceu de referir a impressão desagra-
dável que o seu methodo mixto, combinado pelo francez e italia-
no, produziu no auditório. Frederico u era, como dissemos um
os MÚSICOS PORTUGUEZES 209
melomano, (gg) que tinha o mau gosto de qualificar a bclla mu-
sica do Picciniy Sacchini, Paesiello, Cimarosa. • •!! áe Bierhaus-
musik, termo próprio de um militar; na sua corte que seguia
eacruptdosamente o gosto artistico do velho Fritz, reinava um
exclusivismo ridiculo, que admittia como o nee pltis ultra do
belloy as operas de Hasse e de Graun e os seus concertos de
flauta, feitos ad koc para o illustre guerreiro. Já se vê, que um
auditório doestes, não havia de sympathisar com o methodo de can-
to daTodi; e as suas qualidades tSo admiradas em Hespanha, na
França e no resto da AUemanha, haviam de encontrar um publi-
co tão mal educado, artisticamente fallando, — indifferente, quan-
do não hostil.
Demais, reinava então cm Berlim uma grande animosi-
dade contra a antiga Opera, animosidade que vinha de longe;
os críticos romperam por este tempo as hostilidades, e no Mu-
êikalischer Magazin de 1784, (pag. 75) publicado em Hambur-
go, appííreceu uma violenta diatribe, que pintava o triste estado
artistico da Opera italiana, nSo obstante a presença da Todi, t36
applaudida na França e na Inglaterra.
Todos estes successos desagradaram á artista portuguesa e
como a Todi pedisse então uma gratificação, pedido justificado
pela circumstancia de ter o rei exigido (n'esse tempo ainda man-
davam; 10 annos depois, eram mandados. . . .) que viesse para
Berlim antes do tempo marcado para os ensaios. Frederico ii não
acceitou a proposta, e a cantora despediu-se muito descontente de
Berlim, em principies de Fevereiro de 1784. Uma oiFerta vanta-
josa de Catharina il, chamou-a a S. Petersburgo, onde a esperava
melhor sorte e mais justiça do que na capital da Prússia. A sua
chegada á corte moscovita, deu logar à un euccis cfenthonsiasme
(hh) na Armida de Sarti. A imperatriz, protectora intelligente dos
artistas, fez-se o echo da opinião publica, presenteando a canto-
ra portugueza com um magnifico adereço de brilhantes. A Todi
ganhou tal preponderância sobre o animo da soberana, no de-
curso das outras representações, que era por assim dizer só por
sua mão que passavam todos os favores da czarína. A liistoria
u
<•
y
210 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
de Farinellí e de Felipe v, repetia-se quasi ao mesmo tempo no
norte da Europa, entre Catharína da Rússia eaTodi. Accusam a
cantora portugueza de ter abusado d'esta familiaridade, servin-
do-se do seu poder para prejudicar os artistas que entSo se acha-
vam em S. Petersburgo ; se é verdade, que ella promoveu a demis-
são de Sarti, também é certo que o compositor italiano foi o pri-
meiro que lançou a luva, chamando da Itália o celebre Marche-
si (ii) para destruir o prestigio 4a Todi, ou ao menos contrabalan-
çal-o. Esta, irritada com semelhante procedimento, vingou-se
fazendo assignar a ordem que o demittia do logar de Mestre
de Capella da Imperatriz ; Sartí ficou todavia com a protecçSo do
principe Potemkin, que o coUocou vantajosamente.
NSo accusemos só a Todi, culpa, houve-a de parte a parte.
Apesar das grandes vantagens que disfrutava em S. Petersburgo,
onde occupava entre outros cargos, o de Mestra das princezas impe-
riaes, nSo ficou ali por muito tempo,porque receiava a influencia do
clima da Rússia, sobre a sua voz, influencia perniciosa que fazia
fugir ao mesmo tempo, Marchesi e depois Sarti, que por se ter de-
morado mais, pagou este atrazo com a morte, que o surprehen-
deu pouco depois em Berlim, em 1802.
A Todi acceitou por consequência o convite que o novo rei
da Prússia lhe mandara fazer pelo celebre Tioloncellista Duport.
Frederico Guilherme ii, seriamente empenhado na restauração
da Opera italiana de Berlim, decahida no reinado do seu ante-
cessor, esperava muito do auxilio da artista portugueza. Diz Fé-
tis, que o contracto feito, era de 3:000 thalers, residência no pa-
lácio, uma carruagem da curte, a mesa servida á custa do rei e
4:000 thalers de gratificação que recebeu cm 3 annos. Não é ver-
dade isto, porque segundo Ledcbuhr, (jj) as propostas anteceden-
tes partiram da artista e não do rei, que pelo contrario, lhe con-
cedeu apenas o ordenado de 4:000 thalers, durante 3 annos.
Esta inexactidão de Fétis admira tanto mais, que o critico
belga, cita o livro de Ledcbuhr a propósito doeste contracto ! Tam-
bém não é verdade o que dizem Choron e Fayolle, de um orde-
nado de 6:000 thalers ; (24:000 francos) adiante veremos sobre
os MÚSICOS PORTUGUEZES 211
que se funda esta noticia. O ajuste celebrado entre a direcção
da Opera e a Todi, começava a vigorar a 13 de Dezembro do
1786; eomtudo ficou mais 6 mezes na Rússia e viajou depois tão
devagar, que sd chegou a Berlim em fins de Septembro de 1787; o
rei; apesar doesta demora voluntária, ou forçada, mandou-lhe en-
tregar 08 3:000 thalers correspondentes aos 9 mezes passados.
Fétis pretende que a necessidade de acabar o seu contracto
com o theatro de S. Petersburgo, foi a causa doeste atrazo. Segundo
o mesmo author, cantou ainda 6 mezes n^aquella capital, tendo fei-
to primeiramente a sua estreia cm Berlim, a 13 de Dezembro de
1786; a primeira supposição pode ser verdadeira; o que não é certo,
é ter a ai*tista debutado na data mencionada, pela simples razão de
que a Opera italiana (kk) estava desorganisada e dissolvida c a
reabertura teve logarsó dois annos depois, a 11 de janeiro de
1788, com hAndromeda de Reichbardt. (11) É verdade que Lede- ' . /
buhr (mm) affirma que o contracto entre a Todi e o rei, fora ajua- '
tado a 13 de Dezembro de 1786, (que é a data de Fétis) mas
diz bem claramente : que chegou a Berlim só no fim de Setembro
do anno seguinte. Houve pois engano.
Já dissemos que a primeira Opera em que appareceu, foi a
Andronieda de Reichhardt (nn), em que desempenhou o papel da
protagonista. A opera de Berlim, fechada havia dois annos,
abriu-se com grande explendor ; o theatro fora reformado, os coros
e a orchestra reforçados, e attendeu-se bem ao explendor da mise
en sclne e a um numeroso e bem organisado corpo de baile ; estas
circumstancias vantajosas, ainda mais favorecidas pela boa distri-
buição dos primeiros papeis e por uma boa musica, produziu geral
satisfaçilo, para que não pouco contribuiu, o talento da illustrc
artista que doesta vez apreciaram com mais justiça. Na represen-
tação da Andromeda foi auxiliada por M.^ Niclas, Grassi, Con-
ciliani, Tosoni, Lamperi e Franz; rei)etiu-se 6 vezes, até 28 de
Janeiro.
A reprcBcn tacão da segunda Opera, teve logar a 16 de
Outubro de 1788, com a Medea in Colchide de Naumann, para
212 08 MÚSICOS PORTUGUEZES
festejar o anniversario natalicio do rei. A Todi fazia o papel prin-
cipal auxiliada pela 2/ dama Kubinaoci, da Opera cómica.
O carnaval em 1789 abria ainda com a Afedea que se repe-
tiu 6 vezes; seguiu-se a 26 de Janeiro, Protuilao com um Acto
do Reichardt, e outro de Naumann, fazendo a Todi o papel de
Erfíle ; devia também ter figurado nas representaçSes das mes-
mas duas operas, dadas em honra da Erbstatthalterin de HoUan-
da, então de visita em Berlim; e nos muitos concertos que
também se organisaram n'essa occasiSo. Apesar do bom acolhi-
mento que doesta vez lhe tinham feito e até dos seus triumphos,
parece que a artista nSo estava contente; ainda appareceu no pa-
pel de Ostilia na Opera Brennus de Reichhardt, representada a
16 de Outubro de 1789 para festejar os annos da rainha; a exe-
cução foi explendida a todos os respeitos, figurando no papel prin-
cipal (Brennus) o cantor Ludwig Fischer, ajudado pela Todi (Os-
'/ tilia) e ambos acompanhados pela Rubinacci e pelos cantores:
Conciliani, Tombolini e Franz.
Como n'este anno acabava a sua escriptura, escreveu ao rei,
pedindo um augmento de ordenado até 6:000 thalers, ou então
a sua demissão. O monarcha prussiano que a tinha tratado
sempre com muita delicadeza e consideração, respondeu-lhe: que
comquanto não podesse acceitar a alteração do contracto primi-
tivo, desejava sinceramente que a idade (tinha ella então 40 an-
nos) e o talento, lhe permittissem ainda por longo tempo disfiru-
tar um ordenado tão avultado.
E a este pedido da artista que se refere o erro atraz men-
cionado do Dictionnaire historique.
Nos principies de Novembro de 1789, sahia a Todi de Ber-
lim; é o que devemos concluir do livro de Schneider (oo) que diz
expressamente cDie Todi blieb nun noch bis zum Herbste und
wurde dann durch Madame Lebrun ersetzt.» Vimos atraz, que
ainda cantara no Brennus de Reichhardt, a ] 6 de Outubro de
1789; a 20 de Dezembro do mesmo anno já não estava em Ber-
lim ; (pp) dcvia-sc pois ter verificado a partida entre fins de Outu-
bro e principio de Dezembro; parece-nos isto bem claro, todavia
os MÚSICOS PORTUQUEZES 218
Fétis rectificando o artigo dos authores do Dietiannaire hiêto*
rique, copiado pelo author da noticia sobre a Todi^ na Biogra-
phie portative des eontemporains, contradiz com as suas no-
ticiaSy as asserçScs, certamente bem fundadas, de Schneider. Se-
gundo a opiniSo do critico belga, n!U> é certo o que dizem os au-
thores mencionados; pretendem eUes que a Todi partira de Ber-
lim em Março do 1789 (1) de viagem para Paris, e que passando
por Mayença (Mainz) cantara diante do Eleitor e que nSo en-
trara em França por causa das desordens que alli tinham reben-
tado. Fétis classifica esta ultima asserção de inexacta, porque se-
gundo informcíçdes certas de Farrenc, Madame Todi cantou no
Concert espirituel, a 25 e 29 de Março, todo o mez de Abril e pela
ultima vez a 21 de Maio de 1789. Segundo o mesmo author, es-
tava contractada para os concertos da Loge Olympique e ahi
cantou varias árias de Paôsiello, de Cimarosa, de Sarti e uma
grande scena, (Sarete alfin contenti) composta para ella por Che-
rubini. (qq)
Como se vê, estas noticias estZo em plena contradicçSo com
as que demos anteriormente do livro de Schneider e por muito
positivas que estas ultimas sejam, também devemos attender á
respeitabilidade do contradictor que affirma, estarem as suas as-
serçSes provadas par des documents certains; além d'isso en-
contramos a confirmação de parte d'ellas, em uma noticia de
um jornal portugnez que adiante copiaremos. O dilemna em
que nos achamos é sério, e forçoso seria condemnar, ou as noti-
cias de Fétis, ou as de Schneider, ambas egualmente fundamen-
tadas, se nSo nos parecesse que a dificuldade se poderá resol-
ver do seguinte modo : £ certo que a Todi se achava em Berlim no
Carnaval de 1789, que se abriu a 5 de Janeiro com a Medea %n
Colehide de Naumann ; a 24 de Fevereiro ainda a íllustre ar-
tista estava na capital da Pnissia, todavia já pouco satisfeita e
disposta a sahir. (rr) Desde essa data até Julho, nSo falia Schnei-
der de representação alguma, o que pôde fazer erâr, e talvez se-
ja a chave do migma, que a Todi aproveitou este descanço e
obteve uma licença para viajar, afim de dar concertos; estes ti-
214 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
veram logar primeiro nas províncias do Meno e Rheno ; assim o
affirma Gerber, (ss) faltando do concerto dado em Mayença dian-
te do Eleitor que elle retribuiu com õO L&uis d'or; de uma soirée,
dada no Liebkaberconzert, onde foi gratificada com 2P Karclins,
Depois doestes triumphos partiu para Paris onde chegou ao cu-
mulo da gloria, despedindo-se a 21 de Maio de 1789. Â artista
tinha pois muito tempo para voltar a Berlim e figurar nas repre-
sentações dadas em honra da Erbstatthalterin de Hollanda.
Acreditamos na verdade d'esta hypothese, que fizemos pa-
ra desvanecer as contradicçSes em que pareciam estar Fétis e
Schneider; e que talvez achem assim a sua explicação.
O que nEo podemos admittir, é ter a Todi, depois de sabir
de Paris, ficado em Hannover, por um contracto, ate Outubro de
1790! Que a cantora ahi desse alguns concertos é provável, e
mesmo certo ; mas que tivesse uma demora tão longa, n2o é crivei,
pois vimos que Schneider affirma ter ficado até o outono de 1789
\ em Berlim, sendo substituída depois pela Lebrun.
Sobre os concertos de Paris, transcrevemos em seguida a
referencia do jornal portuguez de que acima falíamos. Diz
elle: (tt)
Paris, 7 de Abril (de 1789)
cN'esta capital se acha presentemente huma celebre Canto-
ra Portugueza, Casada com hum Musico italiano, por appellido
Todi, muito bom Rebeca, a - qual tem ganhado em differentes
Cortes da Europa, especialmente em S. Petersburgo, avultadas
sommas, e preciosas jóias: por toda a parte tem sido reconhecida
por grande Cantatriz, e o que mais admira he que, depois de ser
mSe de muitos filhos, e contar perto de 40 annos de edade, tem
a voz cada vez mais excellente. Esta Quaresma no Concerto es-
piritual de Paris, assombrou todas as Cantoras da primeira or-
dem nacionaes e estrangeiras, e mereceu o nome de primeira
Cantatriz da Europa, No Mercúrio de França de 4 doeste mez
se lê a seu respeito o seguinte:
os MÚSICOS PORTUGUEZES 215
€0 grande concurso que hontem houve no Concerto espiritual,
foi attrahido principalmente pela celebre Todi, a quem talvez de-
vemos o gosto, conhecimento e primeiro modelo de hum bom me-
thodo de cantar. NSo porque antes d'ella nSo tivéssemos ouvido
aqui Cantoras d'um grande merecimento; mas ou porque faltas-
sem ao que pode commover-nos, ou porque nossos ouvidos nSo
estivessem, ainda bem dispostos, ellas nSo causarão em nós mais
que huma impressão momentânea, ou preparár2lo para a revolu-
ção, que só se deve á insigne Portugueza: se hoje conhecemos
melhor o seu merecimento, se os seus musicaes talentos causão
em nós mais gosto, devemo-lo aos seus mesmos talentos. Na sua
chegada esperávamos tornar a vêr aquella brilhante execução
aquelle encanto da expressão, que tantos applausos lhe tinhão já
entre nós por alguns annos, grangeado: não exigiamos mais ; po-
rém ficamos attonitos, quando percebemos os seus grandes pro-
gressos na arte de execução, e em tudo o que o exercício ajuda-
do da reflexão e boa escola pôde ajuntar a hum talento já for-
mado.»
Honrosa referencia esta, feita por um jornal que gosava en-
tão em França de um grande credito.
Reatemos o fio interrompido:
A cantora portugueza sahiu de Berlim em Novembro de
1789 e dirigiu-se á Itália, brilhando ainda em Parma no carna-
val de 1791.
Não menor foi o enthuiiiasmo que excitou em Veneza, no
outono, apesar da sua edade avançada; cantou nas operas
Didone e Cleofide; na noite do seu beneficio que teve logar com
a primeira opera, distribuiu-se no theatro uma gravura em co-
bre, representando a illustre cantora no papel de Dido, honra,
ao que parece, muito rara n'aquelle tempo e que só era con-
cedida a artistas de primeira ordem. Pela mesma occasião se
distribuíram também algumas poesias, duas das quaes transcre-
vemos em^ seguida :
/
/
S16 OS MÚSICOS P0BTUGUEZE8
LUiaiA TODI
A lei mentre rappresenta Didone
Tu di Didone il core
Si bene a noi dipingi,
Che da stupir non é,
Sc queir ardente amore
Che per Enea tu fingi,
Noi lo sentiam per te.
A Febo giace ampialata
E comme inferma ancor langue costei,
Sc Dio dei canto e medico tu sei ?
A lei mentre rappresenta Cleojiie.
Quando Prometco colla man ardita
Plendere il fuoco 080 dei firmamento ;
£i non diedi ai mortali cke la viti^
Tu loro infundi, o Elisa, 11 sentimento.
^n primaveril de 1793 voltou a Portugal^ a fim de descan-
çw por iilgym tempo das iadigaa da sua carreira gloriosa, mas
agitadfi.
^a í^ttA passagem pela Hespanha, foi recebida em Madrid
conp^ grande ^pplauso, segmido nos diz Gerber, apesar de já ser
mAo de 8 filkos.
^0 mesmo amio da sua chegada a Lisboa, cantou na Casa
Pil^ Q Ilifajpiia lírico de Oiovanni Cavi: La PreghUra exaudita e
no palácio de Anselmo José da Cruz Sobral o Drama allegorico:
H Natale Auguêto, de António Leal Moreira; ambos executados
para festejar o nascimento da infanta D. Maria Thereza.
os MÚSICOS PORTUGUEZES Í17
A respeito da data da sua morte^ reina grande confusSo.
Gkrber diz que falleoêra em meado de 1793; Fétis, que acceita
esta opiniSO; refuta como fíilsas as datas de Cboron e FayoUe:
1810; e de Schneider: 1812; mas nem uns nem outros^ tem ra-
830; porque Pedro Alexandre Cravoé (uu) ainda a dá como viva
em 1817; e Baibi (vv) diz que existia ainda em 1822: cet vit à
Lisbonne oíi elle continue à jonir, par une conduite digne d'élo-
ges; de Festime que ses talents lui avaiont méritée ; depuis quel-
que temps elle a perdu la vue. »
A artista estava pois cega, noticia que nos dá também a Re^
vista dos EspectactUos: fUma violenta affecçZo de olhos que se
agravou com o decorrer dos tempos, privou a illustre cantora in-
teiramente do goso da vista.»
A ultima hora; depois de acabada esta biographia; soubemos
as verdadeiras datas do nascimento e morte da nossa grande ar-
tista; devemol*as á bondade do nosso amigO; o Dr. José Ribeiro
Guimarães que nos mostrou a sua oertidSo de baptismo e óbito,
devidamente authenticadas. Segundo estes documentos; vê-se que
nasceu a 9 de Janeiro de 1753 e morreu a 1 de Outubro de 1833,
com 80 annos e 9 mezes incompletos; nSo deve pois haver duvida
alguma em acceitar estas datas; esta rectificação veiu um pouco
tarde para podermos reformar a nossa biographia; entretanto o
que haverá a emendar, é apenas a data de 1748, que indicamoa
no principio, como sendo a do seu nascimento ; as outras estSo suf-
ficientemente firmadas por authoridades respeitáveis e nSo foram
calculadas pela primeira.
Se agora tivéssemos de passar em revista o talento artis*
tico da nossa Todi, n2o poderíamos mais do que repetir o que
já dissemos no decurso doestas linhas. Ainda Balbi dizia em
1822: cCette artiste, qui a fait admirer son talent dans toutes lea
grandes capitales de VEurope, ou elle a excite le plus grand en-
thousiasme par la beauté de son chant aidé de tous les seooura
quWe grande actrice aait tirer d'une action bien conduite, est déjà
parvenu à un âge trèa-avancé ete.»
218 OS MÚSICOS PORTUGDEZES
MaÍ8 adiante diz:
cLa célebre Todi^ dont tonte TEorope a admire la voix, Ia
méthode de chant et surtout la bdle déclamatian, a joué» ete.
 artista era a um tempo insigne cantora e grande actriz.
Com effeitOy como diz Balbi, os seus triumphos repetiram-se
por toda a Europa. Em Londres recebeu durante a sua pri-
meira visita poucos applausosy porém foram pagos generosa-
mente quando lá voltou; em Berlim succedeu o mesmo, figurando
sempre nos primeiros papeis e sendo tratada pelo rei e pela corte,
com toda a distincçSo ; em S. Petersburgo, o reinado do seu talen-
tO) foi despótico, avassalando todos os coraçSes, na Itália foi ap-
plaudida apaixonadamente com um enthusiasmo que encontrou o
seu echo, augmentado em M^id, duplicado em Lisboa ecentu-
plicado em Paris, já entSo a capital das Artes. Foi n-esta ultima
cidade que a critica esgotou os seus últimos elogios sobre o talen-
to da grande cantora; Gbrber escrevia cm 1792 :
cDifficilmente se poderá imaginar uma uniea peffeição que
nlo lhe fosse attribuida pelos seus adoradores de Paris. Em ou-
tras cidades descontaram-lhe algumas, reconhecendo-lhe todavia
uma delicadesa, um mimo extraordinário, na execuçSo do Ada-
gio, e o maior talento na applicaçSo de luz e sombra ; a esta
qualidade preciosa se attribuem os efieitos extraordinários que
produziu em França, onde era denominada simplesmente: la
CANTÂTBICE DE LA NATIOn! »
Mais abaixo lemos :
cE entretanto nSo foi no Adagio que se estreiou em Paris,
mas sim na ária de bravura, cheia de difficuldades : A morir s&
mi condanna de Paesiello.» O seu talento era pois completo.
Temos uma satisfação especial em coroar esta serie de elo-
gios com a valiosa apreciação de um grande crítico e sábio theo-
rico (xx) que provavelmente ainda teve a felicidade de a ouvir.
«U 7 a une évidence d^exécution qui, si elle pouvait être
connue de tous les chanteurs, excluerait tout autre exécution: la
celebre M.* ToDi serait la cantatrice de tou^les siecleb:
les autres manières d^exécuter qui ne s'en rapprochent pas, sont
os MÚSICOS PORTUGUEZES 219
de mode. II semit important de connâitre et de suivre générale-
ment révidence d'exécatioii; mais hélas! c^est aussi impoBsible
que de répandre sar la terre entière les rayons lumineux des gran-
des vérités qui n^éclairent que les huinbles demeures des vérita*
bles philosophes.»
depois doestas palavras nSo sabemos que mais se possa dizer!
Grandioso elogio que affasta para tão longe a possibilidade
deumacomparaçZo!...
A influencia do seu génio artistico exerceu-se nSo só sobre
o publicO; mas também sobre os grandes cantores que a ouviam,
A propósito de Garat (yy) diz Fétis : (zz) cUarrivée de MM.™^
Todi et Mara à Paris, leur rivalité, et Téclat de leur talent dans
des genres différents, occupèrent le public comme Favaient fait
précédemment Gluck et Piccini, et firent une profonde impres-
sion sur Garat. Pour la première fois il eut Fidée d'un chant pur^
élégant et correct, d'une vocalisation parfaite, et d'une expression
naturelle sans exagération et sans crís. Cest de ce moment que
date son talent.»
O talento da artista, nSo era menos respeitável do que o ca-
racter da mulher. «Viveu em Lisboa por espaço de muitos annos,
merecendo sempre a estima das principaes familias doesta capi-
tal que lhe consagravam em geral, uma particular e verdadeira
affeiçâo.» Estas palavras de Thomaz Oom (aaa) encontram-se an-
teriormente no livro de Balbi cet vit à Lisbonne oú elle continue
à jouir, par une conduite digne d'éloges, de Testime que ses talen-
ts lui avait meritúe.»
As suas discórdias com Sarti em S. Petersburgo, nSo podem
destruir a verdade d'estas apreciaçSes, porque já em 1792 escre-
via E. L. Gerber as seguintes palavras: Elogiase muito o seu
caracter, a sua bondade, a sua modéstia e a sua generosidade.
Como esposa e mãe de familia, foi exemplar; a sorte rou-
bou-Ihe porém seis filhos (segundo Fétis e Gerber : 8) quasi todos
em tenra idade ; parece todavia que ainda existem netos e bisnetos
em Lisboa. Casou duas vezes, a primeira com Francisco Xavier
tSO os MÚSICOS P0RTUGUEZE8
Todi ; nBo se conhece o nome do outro marido. O primeiro era
violinista distiucto ; n'um catalogo de Musica de Hamburgo (3.^
Fortsetftnng dea Bdhnuchen Musikverzêichnis; Hamburg, 1796)
encontra-se um trecho com o seu nome^ intitulado: 8eena, Poro,
ah/ 9on, etc., con 10 Strom.
Deixou uma fortuna avultada, producto honrado do seu
talento, que Fétia avalia em 400:000 francos (80:000|000 réis)
além de uma grande quantidade de pedras e jóias de grande va-
lor. Gerber diz que possuía em 1793; 100:000 thalers, (ou
875:000 fr.) e as jóias que trazia quando cantou na capital do
Haunover, foram avaliadas em 40:000 thalers 1 (ou 150:000 fr.)
Talvez fosse o adereço com que a Imperatriz Catharina n a ti-
nha presenteado.
Aguardamos com anciedade a biographia do nosso amigo
Dr« José Ribeiro Guimarães, porque esperamos que ella venha
completar as lacunas que deixamos abertas, sobretudo nas noti-
cias que se referem á sua educaçSo artistica, ao tempo em que aqui
residiu antes da viagem a Londres, e depois do seu regresso.
Confessamos que os nossos esforços nSo poderam produzir
todos os resultados que desejávamos, porque nSo nos foi possivel
obter todas as obras e jomaes estrangeiros necessários, únicas
fontes onde se encontram noticias sobre a iUustre cantora, visto
os authores portuguezes terem conservado ainda n'este caso, o
mais injusto silencio a respeito de uma das nossas glorias artís-
ticas. K3o foi sem custo e trabalho que alcançamos os livros es-
trangeiros (alguns d'elles raros) que aqui citamos, dificuldade que
se comprehenderá facilmente, lembrando-nos que estamos àhêo^
lutamtnU isolados do movimento da litteratura musical estran-
geira; a nossa ignorância artistica é completa; no elevado domí-
nio da Arte reina a maior barbárie e os instinctos mais baixos,
mais 9en9uae$ e mais grosseiros, revelam-se na predilecçXo por
certo tum-zum bem conhecido.
Lembre-se agora o trabalhador sincero, do auxilio que ha-
víamos de achar na nossa tarefa inglória; nXo nos abato porém a
descrença, nXo recuamos perante o trabalho, nSo nos falece o
os MÚSICOS PORTUGUEZES Í21
animo, quando a empreza é elevada, por isso esperamos voltar
mais tarde ao assumpto favorito d'esta biographia, retemperando
as nossas forças na contemplaçSo de uma das maiores glorias ar«
tisticas de Portugal. Porém, visto ninguém poder contar, com o
futuro, porque ás vezes a sorte corta tSo cruelmente as mais
bellas esperanças, deixamos no fim das Notas pertencentes a
esta biographia, uma relaçSo d{ts obras que nao podemos explorar
e onde se acharão ainda mais subsídios do que aquelles que apro-
veitamos; são na maior parte allemSs.
Emfim, para collocar os factos doesta biographia em melhor
luz e desenredal-.os das difierentes e contradictorias versSes em
que estSo envolvidos, reduzimol-os a uma Tabeliã histórica e
chronologica, como fizemos anteriormente com a biographia de
Marcos Portugal.
Acabamos, exprimindo um desejo:
Que sirvam estas linhas, escriptas com o sincero empenho
de levantar tuna figura gloriosa e esquecida, ao menos de singela
lembrança, até que a pátria se envergonhe da sua ingratidSo;
talvez que a aureola explendida, que em outros tempos mais feli-
zes dardejava os seus raios pela Europa inteira, desde o Neva até
ao Tejo, desde o Tamisa até ao Tibre — nos disperte do somno
em que vivemos e nos chame á triste realidade, e ao dever.
FaC'êimile da assignatura da celebre Todi, feita a 17 de
Maio de 1813, nos autos do inventario do seu marido:
UA/JJ^J>
222 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
FACTOS DA VIDA DE LUIZA BOSA DB AGUIAR TODI
1753 , 9 de Janeiro, Nasce em Setúbal.
1768 Apparece como Soubrette no Tartufo de Molière^ repre-
sentado no Theatro do Bairro Alto. Balbi.
até
1772 Completa a sua educaçSo artística; primeira viagem a
Londres. Choron e FayoUe.
1777 Segunda viagem a Londres. Canta Le Due Contease, de
Paesiello; decide-se a sua vocaçSo.
» Viagem a Madrid no verSo d'este mesmo anno. Olim-
piade de Paesiello; grande enthusiasmo.
1778 Outubro. Primeira viagem a Paris ; os seus triumphos no
Concert spirituel e no Concert de la Reine em VersaiUes.
1780 Volta a Lisboa no verão, ficando ahi escripturada por
um anno.
1781 Segunda viagem a Paris, em Outubro. Novos e maiores
triumphos no Concert spirituel. Parte para Berlim ; con-
certo em Potsdam. Frederico ii; sua tentativa baldada
para escripturar a artista portugueza. Ledebuhr.
» Concertos na Allemanha meridional.
» , 28 de Dezembro. Primeira viagem a Vienna. G-rande
concerto e magnifica recepção da corte e do publico.
Gazeta de Lisboa,
1782 , 18 de Janeiro. Segundo concerto em Vienna. Gazeta de
Lisboa. Volta para Berlim ; acceita o contracto anterior
de Frederico ii ; residência em Potsdam. Ledebuhr.
1783 , 1 de Janeiro. Segunda viagem a Vienna; Festa do anno
novo; canta n'um grande concerto dado em honra dos
Gran-Duqucs da Rússia. Gazeta de Lisboa,
D Primavera. Terceira visita a Paris ; encontro com a ce-
lebre Mara e lucta artistica; Todistas e Maratistas,
Fclis; segundo outros authores, em 1782.
» No verão ; novos concertos nas províncias do Rheno e do
Meno. Visita Carlsmhe; o Grossfurt. Oerber.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 223
1783 Dezembro. Estreia-se em Berlim, no AUssandro e Poro
de Graun e Lúcio Papirio de Hasse. Frieza relativa
do publico. Schneider.
1784 Principios de Fevereiro. Deixa Berlim e saho para S. Pe-
tersburgo a convite de Catharina ii. Recepção enthii-
siastica na Armida de Sarti. Magnifico presente da
czarina. A sua influencia na curte moscovita. Discór-
dias com Sarti ; a demissão doeste.
1786 Propostas de Frederico Guilherme ii, por intervenção do
violoncellista Duport. Condições importantes da Todi,
modificação.
> , 13 de Dezembro. Ajuste do contracto ; demora posterior
na Rússia. Ledebuhr. Concertos? Fétis.
1787 Fins de Septembro; chega a Berlim. Ledebuhr.
1788 , 11 de Janeiro. E bem recebida na Andromeda de Reich-
hardt; representações alternadas até 28 de Janeiro.
Schneider.
» , 16 de Outubro. Annos do Rei. Representação da Medea
in Colchide de Naumann.
1789 , 5 de Janeiro. Carnaval. Repetições da Medea. A 26 de
Janeiro: Protesilao com um Acto de Reichhardt e um
de Naumann. Todi, no papel de Erfile. Concertos?
> Em Março. Terceira excursão ás províncias do Rheno e
Meno. Concertos em Mayença; o Eleitor; os dilletanti^
Gerber.
Fins de Março, (25 e 29) todo o mez de Abril, até 21 do
Maio. Quarta visita a Paris; triumpho» explendidos no
Concert spirituel, e nos concertos da Loge Olympique;
cumulo da sua gloria. Cantatrice de la nationH Fétis.
Gerber.
> , 21 de Maio. Despedida de Paris. Concertos em Hanno-
ver; volta a Berlim.
» , 16 de Outubro. Annos da rainha; a opera Brennus de
Reichhardt; Todi no papel de Ostilia. Fim da sua es-
22á OS MÚSICOS PORTUGUEZES
criptora; pedido de augmento de ordenado; recusa do
rei. Ledebuhr.
1789 Novembro; despede-se de Berlim e parte para a Itália,
pela Allemanha,
1791 Carnaval. Brilha em Parma; outono, triumphos em Ve-
neza, ovaçScB enthusiasticas.
1793 Primavera; volta a Portugal pela Hespanha; representa-
ções em Madrid com grandes applausos. Chega a Lis-
boa. La Preghiera exaudita de Cavi. II Natale Augus-
to de António Leal Moreira. T. Oom.
até Representações? Concertos? Perde a vista. . •
1833 I A 1 de Outubro; sua morte.
BELAÇlO DAS OBRAS EU QUE SE PODEuXo EVGOKTRAR MAIS
NOTICIAS SOBRE A CANTORA PORTUGUEZA
L) Derlinische musikalische MoncUschrift, 2.* Parte p. 48.
2.) J. C. Spazier. Berlinische musikalische Zeitung. Ber-
lin, 1794, in-4.% N.^ 29.
8.) Mercure. Jornal francez; annosde 1778, Outubro ; 1781,
Outubro; 1783, 1789 ; mezes de Março, (fim) Abril e Maio.
4.) Reichhardt. StudienfUr Tonkilnstler und Musikfreunde.
Bcriin, 1793, in-4.% 2 Theile.
5.) Musikalischer Magazin. Hamburg, 1784, pag. 75.
Tivemos conhecimento dos seguintes retratos da illustre
cantora:
1.) Pietri Bini dei. de Pian se. Venoz (Veneza?) 1791, gr.
in-8.^
2.) Em Veneza, em casa de Theod. Viero. 1792, in-4.®, com
versos encomiásticos.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 225
3.) Este terceiro retrato, encontra-se no PamoBèo de Fedi.
Besta ainda, o que se distribuiu no Theatro de Veneza, na
noute do seu beneficio, e que parece ser o n.^ 2. Qerber (Hist.
Mofjr. Lex., vol. ii, pag. 73) menciona também um busto em ges-
so, feito em Paris, por Mr. Merchi ; encontrava-se também em
cada de Qirardin (editor de musica ?).
Ultimamente descobriu-se em Lisboa um retrato a óleo que
está sendo restaurado.
(a) Bto^. Univ., vol. yiii, pag. 233.
^b) Hiêt. bioa, Z>x., vol. xi, pag. 660.
fcj TankUnsUer-Ijexiccn Berlinde, paç. 599.
rd) Dictionnaire kistorique dcê Muríciâng, vol. n, pag. 380.
(e) Balbi, Essat stattstique, vol. ii, pag. ocxtiií «La célebre Todi, dont
toate l^urope a admire la voix, la tnéthode de chant et surtout la bcUe
déclamation, a joué pendant quclques annécs los roles de soubrettc sor le
théátre de Rua dos Condes» etc.
({) Ibid. ccxiz •Mademoisellc Cecília j soeur de madame Todi, a si bien
joué les deux premiers roles de lAlzire et de la Zaire de Voltaire, traduites
par le médecin Seixas, un des membres de V Arcádia, que ce savant, en tra-
duisant le poSme de la Dédamation de Bernard, lui appliqoa les lonangea
du poete français à la fameuse Clairon.»
(g) Biog. Univ., loc. cit.
(h) LHcL hiêt., loc. cit
(i) A General History of MuHc., vol. iv, pag, 609.
(j) As árias doesta opera e principalmente o celebre Duetto, sáo co-
nhecidos pelos verdadeiros artistas e amadores ; o abandono inexplicável
em que jazem as obras admiráveis doeste celebre compositor dramático, ó
mais nm attestado vergonhoso, passado á ingratidSo e ignorância doesta
época.
(k) Bioffr, Univ., loc. cit
(1) Studien fUr ToiikUnstler und Mtiêikfreunde, etc. Berlin, 1793.
(m) A Vcrsailles da Prússia, residência real no verSo ; celebre na His-
toria de Frederico xi -, ahi perto cncontra-se o afamado palácio Sans-Souci
e a magnifica villa da rainha Louisa, situada na ilha dos Pavões.
(n) Compositor do século xvi ti, 1701-1759. Mais celebre pelas suas re-
lações com Frederico xi, do que pelas Operas o outras composições numero-
sas que nos deixou.
Na Allemanha estima-se muito o seu Oratório : Der Tod Jetu, que ain-
da hoje é lá admirado.
(o) Já falíamos d*este compositor na biographia de Marcos Portugal.
(Vide : nota iii.)
(p) A grande artista conheceu na côrtc de Frederico xx o violoncellista
^fara com quem casou, apesar da vontade do rei, que queria impedir
esta união por cansa dos maus costumes do futuro marido; mas que a final
cedeu aos pedidos da cantora; esta, teve toda^Ha de soifrer do rei, graves
vexames por não querer tolerar o seu despotismo e a este respeito, conta-se
o s^ttinte : Estando o czarowitz, (depois Paulo i) em Berlim, e organisan-
15
226 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
do-se uma representação na Opera, foi annonciada & artista ; esta deu par-
te de doente, porém chegada a hora da representação foi arrancada da ca-
ma por 8 dragões, que a conduziram ao theatro, onde foi obrigada a cantar ;
estas e outras, fizeram com que a artista intentasse uma fuga com o ma-
rido, que foi infeliz e aggravou ainda mais a situação dos dois esposos ;
uma segunda tentativa livrou-os emfím de um despotismo brutal. São estes
08 dissabores do rei Fritz, a que se refere Ledebuhr ! (pag. 699).
(q) É mui provável que durante o caminho entre Berlim e Vienua,
desse alguns concertos nas cidades por onde teve de passar.
(t) Gazeta de Lisboa, Supplcmento ao N.» vi de 8 de Outubro de 1782 .
(s) Gazeta de Lisboa, N.<» ix, de 1 de Março de 1782, Supplemento.
(t) Gazeta de Lisboa N.** tii, de 15 de Dezembro de 1782, Supple-
mento. *
(u) G. C. Grosheim, Das Lehen der KUnstlerin Mara, Cassei, 1823,
in-8.^ pe<l>j P^« 32.
Foi uma das artistas mais celebres do século xviu.
Nasceu em Cassei em 1749 e morreu, cousa notável, no mesmo anno
em que falleceu a sua rival, a 20 de Janeiro de 1833 ! A sua carreira ar-
tística foi egualmente brilhante na Itália, na Allemanha, na França, na
Rússia e sobretudo na Inglaterra, onde ganhou sommas fortissimas, que
com o producto das suas viagens anteriores, subiam a uma fortuna enorme ;
mas depressa a perdeu pela sua prodigalidade e pelos vicios do marido, que
jogava muito.
Em Inglaterra ganhou em 15 dias, 70:000 francos; já se vô que os or-
denados de hoje não estão em disproporção.
Com o producto de outras viagens, arranjou porém uma segunda for-
tuna inferior á primeira, mas ainda rasoavel, e estabeleceu-se em Moscovia \
o incêndio doesta cidade deizou-a pobre, a ponto de ter de se dedicar ao en-
sino do canto, o que melhorou a sua existência.
Para darmos uma ideia do seu talento, basta o seguinte :
Esta artista, não encontrando mais nada para estudar nos methodos
d'aquelle tempo, que eram bem exigentes, (Caffarelli que o diga), lançou
mão dos Concertos de flauta e de rabeca, que havia, para lhe servirem de
exercicio diário I
A rival da nossa Todi era pois um adversário respeitável era todos os
sentidos.
(v) Z/a Mvsique ancienne et modeme, Paris, 1854, pag. 367 e 368.
(x) Vie et avenittres des CarUatrices célhbres. Paris, 1856, pag. 200.
(y) ^P' ^-y P^S' 32.
(z) The Harmonicon. London, 1828, pag. 27.
(a a) Op, cit.
(bb) Geschickte der Oper und des hôniglichen Opemhattses in Berlin,
Berlin, 1862, pag. 198.
(cc) Compositor muito estimado no século xviii (1741-1801) e Mestre
de Capella em Dresden. Deixou muitas Operas, Symphouias e muita mu-
sica religiosa, entre a qual é celebre o seu Pater Noster sobre os versos de
Klopstock.
(dd) Schneider, que menciona todas as operas em que cantou, nada
diz da Cleofide, que Fétis e Ledebubr referem ; em compensação falia do
Alessandro e Foro de Graun ; talvez que o primeiro papel pertença a
esta opera.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 227
(ee) Nasceu cm Mannbeim em 1762, e morreu a 5 de Ábríl de 1787.
Foi pianista notável e cantora no çcuero brilhante ; a sua habilidade rela-
tiva, torna esta comparação absurda.
(ff) Celebre castrato ; nasceu cm Sena e morreu perto de Charlotten-
burg; começou a sua carreira brilhantemente na Itália, e figurou princi-
palmente em Berlim, durante o reinado de Frederico ii,
^ (gfO Este monarcha, grande general, grande legislador, e grande ad-
ministrador, tinha um gosto muito singular para a Musica ; a sua inclina-
ção por esta Arte era fícticia e limitava- se á sua flauta e ao seu amigo
Quantz; e tanto é isto verdade, que tf^ndo ficado impossibilitado de a tocar
por ter perdido alguns dantes, começou a aborrecer a Musica ; o que lhe
valeu de um artista da sua Capella um boUo epigramma ; este fatiando com
terceira pessoa, respondeu: «Se acreditacs que o rei adora a musica, en-
ganae-vos; elle adora apenas a /au^a, digo a sua flauta.»
(hh) Biogr, Univ,, loc. cit.
(ii) Celebre sopranista e um dos grandes artistas do século xvm ; os
seus maiores tríumphos foram alcançados na Itália, AUcmanha, Rússia e
Inglaterra. Nasceu em Milão em 1755 e morreu ahi mesmo em 1829.
(x\) TonkUnêtl, Lex.^ pag. 599.
[kk) Schneíder. Gesch, d, Oper.j pag. 203.
11) iftírf., pag. 217.
fmm) TonkUnatl. Lex,, pag. GOO.
Ínn) Gescíi, d. Optr.^ pag. 218.
00) Ibid,, pag. 225.
pp^ Ihid., pag. 232.
(qq) Celebre compositor dramático d*este século ; (1760-1842) entre as
suas operas distinguem-se : Medi^ay LodoUka e sobretudo Lt8 deux Jour-
nétê. Todavia a sua reputação proveiu-lhe mais da sua musica sacra, das
suas magnificas Missas,
{tt) Gesch. der Oper,, pag. 225.
(ss) HisL biogr. Lex,, pag. 661.
(tt) Gazeta de Lisboa de 28 de Abril de 1789.
JuuJ Mnemosine lusitana, vol. i, pag. 179.
íw) Essai staL, vol. ir, pag. ccxv.
,xx) A. Keicha. Traité de Mélodiey ahstraction faite de ses rapporfs
avec Vlíarmonie, Paris, 1832, in-fol. l." Parto, pag. 57.
A pag. 59, tratando •De la manikre d^exécuter la MUodie et snr Vart
de la broder, ainda refere mais uma vez o nome da nossa illuBtre artista :
■ Pour l*histoire de la musique et Tintérct de Tcxécution, il scrait im-
portant de fizer par la notation les différcntcs époques dans le goàt du chant
et Tart des broderies, employés par los virtuosos cólèbres, afin de compa-
res leurs méthodes entr elles, et de choisir cellcs qui npparticnneiit aux
meiUeures écoles et au gout le plns parfait. Qucl intérct pour los artiátes
et les amateurs de coinparer la méthodc d'un Farinelli, d' une DurcistaiUi,
d'une Fausdna, d'uue Gabrielli\ d'une Todij d'uii CaffareUij otc. !»
(yy) Celebre cantor francez, (1764-1823) do qúcni Sacohini disse :
«Garat est Ia musique mcme», quando Logros exclamava : «Qucl donimage
aue Garat chante sans musique. » (o cantor ora pouco hábil na decifração
o canto). A sua gloria consistia na intreprctaçâo admirável das obras-pri-
mas de Gluck.
(zz) Bioffr, Univ.y vol. iii, pag. 399.
(aaa) Revista dos Espectáculos,
228 OS MÚSICOS POBTUGUEZES
TORRES (Antonelli ou António) — Artista citado por Gerber ;
parece ser portuguez; o nome: Antonelli nSo será mais do que
uma italianisaçSo do nome António. Este artista vem mencionado
successivamente desde 1783 até 1812 em imi catalogo italiano
(lombardo) que indica os compositores de operas d'aquelle tempo.
Parece porém que a ennumeraçSo das suas obras se encon*
tra em um catalogo mais antigo, de que nSo podemos haver no-
ticia.
TORRIAm (Joio Evangelista) — Bacharel formado em Ma-
thematica pela Universidade de Coimbra, Lente substituto da
Academia real de Marinha e Sócio da Academia real das Scien-
cias.
Foi um pianista-amador de talento distincto, especialmen-
te no estylo expressivo; suppSe-se que morrera em Julho de
1821, no vigor da edade. Balbi (a) diz: cll a composé de três
belles sonates pour le piano, sur lequel it était de première force;
il se faisait surtout remarquer par les sons délicieux qu'il savait
entirer.» Como se vê d'esta noticia, a classificaçSo que fazemos
de Torriani, é mais modesta ; assim temos feito sempre que trans-
crevemos uma apreciaçSo de Balbi; como o accusaram de ser
em demasia elogiador, procuramos assim guardar na transcrip-
çSo das suas opiniSes, um meio termo que nBo fique muito lon-
ge da verdade. O mesmo fizemos com relaçSo a Barbosa Ma-
chado, que revela também algumas vezes na sua Bibliotheca Lu-
sitana, uma critica um pouco patriótica.
Torriani occupava no exercito o posto de coronel de enge-
nheiros.
(a) Essai statisttque vol. ir, pag. ocxi.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 829
V
VALLE (F. I. S. do)-— Vide Francisco Ignacio Solano.
VALHADOUD (Francisco de) — Natural doFunchal, (Madei-
ra) onde nasceu em 1640. Foi mestre do Seminário archiepisco-
pai de Lisboa e ultimamente da parochia dos Santos MartyreS|
Veríssimo^ Máxima e Júlia. Jaz ahi sepultado^ tendo morrido a
16 de Julho de 1700. Na Madeira foi discípulo do Cónego Ma-
noel Fernandes na composiçSO; e em Lisboa de JoSo Alvares Fro-
YOy no contraponto. A morte surprehendeu-o no meio dos seus tra-
balhos e impediu-o de publicar um livro sobre os Mysterioê da
muticaf oêiim praetica como expeeulativa* Este artista tinha col-
leccionado uma preciosa bibliothecamusicál^ onde estavam guar*
dadas muitas composiçSes de celebres authores portúguezes.
Francisco de Yalhadolid escreveu:
1.) Miêêa a 6 vozes.
2.) Missa a 8 vozes.
3.) Missa a 14 vozes.
4.) Missa a 16 vozes.
5.) Missa de Defuncios a 4 vozes.
6.) Psalmos de Vésperas e Completas a 8 vozes.
7.) Psalmos de Nôa a 4 vozes.
8.) Lamentaçdes da Quarta-Feira de Trevcu, a 4 vozes.
9.) Lamenta^ks de Quinta-Feira maior, a 4 vozes.
10.) Besponsorios das Matinas da Semana Santa a 4 vozes.
11.) Miserere a diversas vozes.
12.) Ladainha de Nossa Senhora a8 e 12 vozes.
13.) Vários Motetes a 3, 4, 7 e 8 vozes.
VARELLA (P.* Domingos de S. José)— Natural de Guima-
rSes ; monge no Porto, segundo Fétis (a) e mais certo em Ti-
230 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
baens, segundo Balbí. (b) Se dermos credito ás asserçSes d'este ul-
timo escriptor e do Bispo-Conde, (c) devia ter sido um theorico
profundo, conhecendo todos os segredos da sua Arte ; e ao mesmo
tempo um dos melhores organistas portuguezes que tem havido.
O cardeal Saraiva chega mesmo a dizer que tocava orgSo com
admirável perfeição. Este julgava-o fallecido em 1839, porém
I. da Silva (d) dá-o já em 1825 como morto. Escreveu :
Compendio de Musica theorica e practica, que contém bre-
ve instrucção para tirar musica. Lições de acompanhamento em
Órgão, Cravo j Guitarra, ou qualquer instrumento, em que se pôde
ohter regular harmonia. Medidas para dividir os hraços das Vio-
las, Guitarras etc. e para a Canária do Órgão, Appendiz, em que
se declarão os melhores methodos d'affinar o Órgão, Cravo etc.
Modo de tirar os sons harmónicos oujlaviados; com varias, e no-
vas experiências interessantes ao Contraponto, Composição e á
Physica,
Porto, Typ. de António Alvarez Ribeiro, 1806 in-4.® de viil
— 104 pag. com 5 estampas.
O Cardeal acha que este livro contém observaçSes e expe-
riências mui curiosas sobre os phenomenos da harmonia, na
applicaçSo aos instrumentos etc.
Balbi qualifica o livro de classique, e diz que Varella tinha
uma outra obra prompta para a impressão e que era superior á
primeira, segundo a opinião dos individues que lhe tinham dado
as informações a respeito d'este musico.
{&) Biogr. Univ, Vol. iii, pag. 36.
Cb) Essai stalist., pag. ccvi & ccyii.
(c) Lista de alguns artistas portuguezes^ pag. 46.
(d) Dicc. BibL Vol. ii, pag. 190.
VARELLA (P.'' João d'Azevedo)— Sobrinho do precedente.
Foi durante muito annos, organista da Cathedral de Guimarães,
onde nasceu provavelmente. Deixou as seguintes composições
que não são correctas e que revelam pouca inspiração; estão no
Archivo da Cathedral.
1.
2.
3.
4.
5.
6-
7.
OS MÚSICOS PORTUOUEZES 231
3 Officioê com orehestra.
2 Officios com acompanhamento de Órgão,
16 Psalmos.
IS Miêêas.
4 Te-Deums para vozes e orcheatra.
7 Credos, Varias Ladainhas, TaniumergosQ Qraduaes.
6 Symphonias. (a)
(a) SSOj como já por vezes temos áita^FarUcuiasparaorchestrOj como
era então Moda entre os nossos compositores. liepetimos esta observação
para que alguém nSo julgue que essas pretendidas Symphonias, são na
verdade o que o titulo si^dfica.
VATA (Manoel Domingues) — Nasceu a 6 de Jonho de 1718
e morreu em Dezembro de 1780. Dedieou-se especialmente á
Mathematica e Astrologia ; cfoi insigne em compor, e affinar ins-
trumentoS; principalmente Cravos, Espinetas e Pianos Fortes.» (a)
(a) Bebello da Costa, Deseripçâo topogr. e hiêL do Porto, pag. 342.
VEDRO (Nicolau Ribeiro de Passo) — Beneficiado e Mestre de
musica no Seminário real da Egreja Patriarchal, cargo para que
f&ra nomeado por D. José. Na Nova Instrucção musical, vem dois
documentos assignados por este musico; o primeiro é uma carta^
elogiando Solano e convidando-o a publicar a sua obra, que elle
julga excellente e credora do maior elogio ; o segundo, um exa-
me mui favorável, do systema seguido na Nova Instrucção musi-
cal, exame que emprehendera a pedido do Arcebispo de Lacede-
monia para que este lhe concedesse a licença chamada do «Ordi-
nário».
PasBO-Vedro estudou com o celebre D. JoSo Jorge e foi con-
discípulo de Ignacio Solano.
A carta mencionada, é de 3 de Fevereiro de 1763, e a ana-
lyse de 28 de junho do mesmo anno.
VEIGA (António) — Cavalleiro da Ordem de Malta e ultima-
mente Secretario do GrSo-Mestre d'esta corporação militar. A na-
232 OS MÚSICOS PORTUGUEZES
tai'eza tinha-o dotado de maita intelligencia, que elle aproveitou
instruindo-se na Mathematica, Poesia e Musica; distinguiu-se
n'esta ultima Arte pela habilidade com que tocava vários instru-
mentos.
DebLOU algumas compotiçoesj que nos sSo desconhecidas e
que elle tocava, acompanhando-se.
VELA.SCO (Nicolau Dias) — Musico portuguez ao serviço de
Felippe IV de Hespanha, no meado de xvii século. Escreveu:
Nuevo modo de cifra para taííer la guitarra con variedad y
perfeccion y se muestra ser instrtmtento perfecto y abundantissi"
mo. Nápoles, por Egidio LongO; 1640, in-4.® (a)
(a) O título que o Cardeal Saraiva indica, {Lista, pag. 48), é falso:
Nuevo Modo para taher la guitarre.
VELLOSO (Fr. Agostinho) — Freire da Ordem de S. Agosti-
nho, natural de Lisboa e filho de António Rodrigues Freire e Isa-
bel de Barros.
Professou a 14 de Fevereiro de 1682 e foi um bom organista.
Morreu no convento de Torres Vedras em 1696. NSo conhecemos
as composições doeste author, mas sim um sermSo impresso em
Lisboa, de que aqui nSo podemos fallar.
VICENTE (Affonao) — Já na biographia de D. JoSo v, fSftlIar
^ mos d'este nosso compatriota do século xv, a propósito do £«&o-
iço hiographico da Capdla Real de Musica. Foi um dos seus Ca-
pellSes-MóreS; e nomeado por D. Duarte para levantar a parte mu-
sical da capella, do estado da decadência em que se achava; este
príncipe, desejoso de ouvir na sua capella uma boa execuçSo musi-
cal, que até alli faltava, julgou encontrar em Vicente, o homem ne-
cessário para esse fim, e nomeou-o para o logar mencionado, por
decreto de 18 de Março de 1437, determinando expressamente a
rigorosa observância do regulamento de D. Diniz de que pouco
os MUSICX)S PORTUGUEZES 283
ou nenhuin cago se &zia eiitBo. No decreto ia declarado o aug-
mento de 210:000 livraa, por anno, ao ordenado do Capellfio^Mór,
Esta nomeaçSo faz crer que ÂjOfonso Vicente devia po8si|ir
bastantes conhecimentos mnsicaes para poder ser encarregado da
reforma da parte artística de uma capella em a qual pouco depois
já se notavam os primeiros indícios das proporçSes verdadeira-
mente explendidas que depois assumin«
VIDIGAL (• . .) — Guitarrista e Violista português do fim do
século passado e principio d'eBte século. Ás opiniSes sobre os
seus talentos musicaes, variam muito, como vamos vêr. No poe-
ma heroi-comico: O Hy$$ope, de Francisco Diniz da Cruz e Sii-
va, encontra-se a seguinte citaçSo, pouco lisongeira:
Depois o Vidigal tomou ligeiro
Uma Bandurra
Em um H]fê9ope manuscripto da Bibliotbeca da Universi-
dade, N.® 402, vem por extenso o nome doeste musico : Francis-
co Vidal Negreiros, Quartanario da Sé d'£lvas. (a) Pelo Hysãopê
se vê o estado lastimoso em que se achava a musica da Capella
da Sé d^Elvas, nos fins do século xvm; ahi se cobre de ridiculo os
dois detestáveis músicos : Eugénio Furtado da Silva e Francisco
Xavier Félix, a quem allude o verso :
O grande Eugénio e o famose Félix, (b)
NSo sabemos que justiça haverá n'esta apreciaçSo e n'estes
ridiculos; o que é certo, é que a medalha também tem o seu re«
verso, que vamos encontrar em um jornal artístico, (c) publicado
em Inglaterra. Eis o que elle diz: cHouve tempo em que este
compositor (famous Vedegal) poderia ter feito uma fortuna con-
siderável, pois tSo grande foi o seu talento e tBo procurado era
nas melhores salas ; mas infelizmoite, apesar de dotado de um
grande génio natural, (a great natural, genius) limitavam-se os
234 OS MÚSICOS PORTUOUEZES
Beas talentos tSo exdasivamente á musica, que, como para equi-
librar a valia extraordinária cfeste dom natural, era completa-
mente destituido da mais necessária de todas as qualidades —
do senso commum. Se em qualquer reuniSo para que fosse chama-
do afim de mostrar o seu talento, nSo reinava o mais completo si-
lencio, se alguém se atrevia a respirar com mais alguma força, já
isso lhe causava grave desgosto, e levantando-se violentamente,
abandonava a reuniSo, qualificando-os a todos de brutos.
Uma occasiXo, tendo uma dama sido atacada por uma tosse
violenta, reprimiu-a em quanto pôde para ter o gosto de ouvir as
suas improvisaçSes, mas afinal nXo podendo conter-se, rompeu,
cedendo ao incommodo. Vidigal que se suppõe, devia estar orien-
tado da causa, levantou-se furioso e despedaçando a sua guitarra
contra as costas de uma cadeira, precipitou-se pela sala fora,
rompendo em maldições contra a pobre dama. Este comporta-
mento tSo singular, fechou-lhe a entrada na boa sociedade e obri-
gou-o a viver do parco producto de alguns concertos, feitos á sua
maneira e onde tinha a liberdade de quebrar quantas guitarras
lhe appetecessem.»
Esta anedocta, assim como outras noticias publicadas no jor-
nal inglez, sob o titulo : Some aeeount ofportugueêe mu$ic^ ibram
tiradas de uma obra intitulada: Sketcheê of Partuguese Life,
MasuMTs, Coutume. etc* by A. P. D. G. NSo conhecemos esta
fonte e por isso nSo avaliamos o credito que se deve dar aos Cac-
tos referidos ; todavia basta-nos a respeitabilidade do jornal in-
glez, que decerto nSo admittia nas suas columnas, noticias que
nSo viessem recommendadas por uma boa authoridade.
N^esta mesma obra se encontra uma Modinha de Vidigal,
interessante pela suavidade da musica e pela belleza dos versos.
(a) T. Braga, FoQuu Verdet, 1* ed., pag. 208, aonde péla primeira
ibra.
vei Be publicaram as notas do Mb. de Coim
(h) Hyêêope, Canto tu, pag. 103, ediçSo de 1806.
(c) ne Harm4mic<m, 1826, voL ly, pag. 214.
L
os MÚSICOS PORTUGUEZES 235
VililHA (António) — Natural de Villa- Viçosa onde viveu no
fim do século xvi ; estudou com Manoel Rebello e foi um dos seus
discipulos distínctos. A sua instrucçSo e habilidade na composi*
çfto e no contraponto^ valeram-lhe o logar de Mestre de Capella
na Egreja de Nossa Senhora do Loretto. Depois de exercer
este cargo com credito do seu nome^ passou para o mesmo lo-
gar na casa da Misericórdia de Lisboa^ e ultimamente tomou a
direcçSo da Capella da villa do Crato, onde morreu em 1650.
Parece-nos que podemos rectificar aqui um engano de Fé-
tis. (a) Esta palavra Loreto ou Loureto, nSo designa n'este caso a
cidade dos antigos estados romanos, situada no Adriático, mas sim
o nome da egreja de Lisboa, (b) fundada no principio do século xvi
para a colónia italiana. Dois incêndios, um a 29 de Março de
1651 e o segundo, causa do terramoto, a 3 de Novembro de 1755,
destruiram-na completamente. N'este mesmo anno se principiou
a reedificaçSo e inaugurou-se com a primeira missa, a 5 de Ju-
nho de 1756. Ainda hoje ha na capital um templo que se desi-
gna com o nome de Nossa Senhora do Loureto.
Fétis tomou este nome pelo da cidade italiana e fez fazer a
Vieira uma viagem que elle provavelmente nunca emprehendeu.
O escríptor belga diz que Vieira, depois de completar os seus es-
tudos debaixo da direcçSo de Manoel Rebello, partira para a Itá-
lia onde alcançara o logar de Mestre de Capella em Loretto ; vol-
tou alguns annos depois para Portugal, onde morreu na villa
de Erato (Crato) no logar de Mestre de Capella; esta mudança
de posiçSo devia fazer admirar o critico belga ; pois que motivo
teria Vieira para deixar a Itália e abandonar um logar impor-
tante como devia ser o da egreja de Loretto, e acceitar depois a
direc{^ de um cargo muito menos importante n'uma das viUas
secundarias de Portugal?
Entretanto Fétis tem a reputação de escriptor demasiada-
mente consciencioso para affirmar um facto baseado somente
n'uma mera hypothese.
O theorico belga tirou as suas noticias sobre Vieira, certa-
mente do mais alguma fonte, além da BiU. Lusit., porque traz
236 OS MÚSICOS PORTUGDEZES
na soa biographia^ apontamentos que nlo se encontram em Bar-
bosa Machado. Seria necessário saber qual foi essa fonte, para
apreciarmos a sua competência e podermos decidir está questSo.
Benevides commetteu este mesmo erro, fitzendo-o Mestre de
Gapelk em Roma e Nápoles, durante muitos aanos 1
As suaà composiçSes existiam ainda na malfitdada Biblio-
theca musical de D. JoSo iv!
Citamos as principaes, que eram :
1.) Missa do primeiro toma 12 vozes.
2.) Miserere a 8 vozes do oitavo tom*
8.) Beatus Vir a 12 vozes do primeiro tom.
4.) Motete: Pater peccavi.
5.) Laude Hierusalem Dominem, a 8 vozes do oitavo tom.
6.) Motête de Defunetos: Domii^ guando veneris.
7.) Dixit Dominus a 8 vozes, do primeiro tom com orches-
tra, e mais alguns Motetes.
fa^ Biogr, Univ., vol. vni, pag. 346.
rb) Bíblioth, Lueit., vol. i, oag. 416.
[c; Archivo POtoreseOf 1866, voL iz, pag. 103.
TIEIRA (Fr. António) — Entra no numero dos nossos mais
notáveis organistas. Foi natural de Lisboa e pertenceu á Ordem
trinitaria, cujo habito vestiu no convento da sua pátria, a 29 de
Outubro de 1644. Occupou o logar de Vigário do Cõro no con-
vento de Lisboa; ahi morreu octogenário, a 27 de Janeiro de
1707. Deixou em Ms. uma coliecçSo de peças para orgio com o
titulo:
1.) Diversas oòrcu dê Órgão para os tangedores doeste tnt-
trumento; e as seguintes composiçSes que existiam na capital,
no convento da sua ordem :
2.) Motetes a 4 vozes, que se cantavam nos
Ferias da Quaresma.
3.) Missas, PscUmos ék Hymnnos a 8 vozet.
os MÚSICOS PORTUGUEZES 237
TILHALVA (António Rodrigues) — Natural de Vilhalva
(Alemtejo), cujo nome adoptou. Foi discipulo de Manoel Rebello
em 1625, e era dotado na mocidade, de uma bella voz. Esteve
á testa da Cathedral de Évora, tendo primeiro dirigido as Ca-
pellas do Hospital real de Lisboa e a da Cathedral ; este ultimo
cargo, nSo vem mencionado por Barbosa Machado ; Fétis (a) é
o único que falia d'elle.
Deixou em manuscripto muitas Missas, Psalmos^ Hymnos
e Motetes; a sua obra-prima era uma Missa a 8 vozes, dividida
em 4 partes e muito desenvolvida. Estava na Bibliotheca de
Lisboa, na Estante 28, K.^" 703.
(a) Biogr. Uiwv., vol. tiu, pag. 348.
TILHEMA (Diogo Dias de) — Mestre da Cathedral de Évora,
e um dos mais hábeis contraponfistas que houve em Portugal.
Estudou com António Pinheiro, e nSo é para admirar que d'uma
eschola tão celebre sahisse um musico tão distincto. Tipha nas-
cido no meado do século xvi e falleceu em 1617. Além de mui-
tas cotnposiçSes sacras que se encontravam na Bibliotheca de
D. JoSo IV, deixou-nos um livro theorico, em Ms., com o titulo:
Arte de Cantochão para principiantes. Ms. in-4.®; existia
também na Bibliotheca acima mencionada.
TILLA-LOBOS ou Villas-Boas (a) (Hathias de Sousa) — Vi-
veu no fim do século xvii. Foi Bacharel em Direito pela Uni-
versidade de Coimbra e Mestre de Capella da Cathedral de El-
vas, sua pátria. Era mui afamado pelos seus conhecimentos
musicaes.
Escreveu uma :
Arte de Cantochão, offerecida ao Ulustrissimo e Beveren-
dissimo Senhor Dom loam de Mello, Bispo de Coimbra, Conde
de Arganil, etc. Em Coimbra, na Officina de Manoel Rodrigues
de Alraeyda. Anno de 1688, in-4.^ de xvi-214 pag. e 4 de
Index.
238 OS MÚSICOS PORTUQUEZES
Das suas composiçSes conhecemos ainda uma coIlecçSo de
Missas em CantochSoy com o titulo:
Inchiridion de Misêos solemneê e votivas e Vesporcu dcLs
SelebrtéUxdes, e Festcis de todo o Ânno, com os Hymnos Novos,
e Cantoeham novamente emendado^ & cu festas todas, ad exten-
' sum. Kyrios, Glorias, Credos, SanctuSy & Âgnus Dei, pêra to-
das as festas; Officio inteiro pêra toda a Semana Santa; Offi-
cio de Defunetos; & outras eommemoraçoens varias; & no fim
hum extracto de tudo o que se deve observar quando os Prelados
vam visitar as Igrejas de seus Bispados. Offerecido ao lUustris-
simo e Reverendíssimo Senhor D. Joam de Mello j Bispo de Coim-
bra, etc. Novamente sahido á luz. Em Coimbra^ na Officina de
Manoel Rodrigues de Almeyda. Anno de 1691, foi. gr. de
II-6-241 pag.; estas ultimas numeradas de um só lado (482).
Pelo titulo se vê {Novamente sahido á luz) que houve uma
ediçSo anterior; nSo a conhecemos.
(a) Barbosa Machado, trás estes dois nomes.
FIM.
BBUOGRAPHIA MUSICAL
ADVERTÊNCIA
Julj^amos dever preceder esta tdtima parte da nossa obra,
de uma ezplicaçSo relativa ao systema porque a redigimos^ ex-
plicação tanto mais necessária que versa sobre um assumpto com-
pletamente ignorado.
Destruidas as bases tão grandiosamente lançadas por
D. JoSo IV na sua preciosa Bibliotheca Musical, destruidos na
máxima parte, os productos essenciaes do nosso desenvolvimento
artistíco, lançados emfim com a secuIarisaçSo das ordens religio-
sas, para os quatro ventos, os últimos restos da nossa vida artís-
tica, restam-nos hoje apenas algumas fracas centelhas, umas pe-
quenas e escassas reliquias do passado, manifestações indirectas
de uma Arte outr'ora grande e explendida.
E pelas obras theoricas principalmente, e ajudados por al-
guns outros restos que um passado avaro nos deixou, que temos
de construir hoje a Historia da Musica em Portugal ; é por um
meio indirecto, que temos de apreciar a nossa vida artística des-
de a sua origem até hoje, procurando avaliar doesta sorte, a parte
que os differentes individues tomaram no seu desenvolvimento.
Este meio, isto é, estas obras, adquiriram pois, pela força
das circumstancias um valor extraordinário. Não é pois perdido,
o tempo que consagrarmos a um estudo sério sobre este assump-
to, estudo de resuscita^ a que nos obriga egualmente, o amor
16
242 ADVERTÊNCIA
da Arte, o amor da pátria e sobretudo a justiça^ em favor dos nos-
sos grandes artistas.
Dividimos a Bihliographia musical em três partes^ a saber :
I — Obras theobicás.
n — Obras'pbâcticas.
III — Obras de disciplina artistico-ecclesiastica.
Esta divisSo parece-nos a mais própria por em quanto; cor-
responde exactamente ás três grandes generalidades da Historia
da Arte: productos objectivos, subjectivos e condicionaes.
Uma divisSo mais especifica só um estudo posterior, mais
aturado e mais profundo, a poderá realisar.
Na primeira parte incluimos tudo o que tem relação pró-
xima ou remota com a Tkeoria, Historia, Critica, Philosophia
e Archeologia da Arte, ainda mesmo que essa relação exista em
obras que nSo sejam de Musica.
Na segunda, referimos as composiçSes raras, tacs como as
collecçSes de Missas, Passionarios, Magnijicats, Motetes, etc.,
impressas nos séculos xvi e xvii ; nSo repetimos a immensa
quantidade de composições manuscriptas que estavam guardadas
na Bibliotheca de D. João iv, para evitar pleonasmos ; o leitor cu-
rioso poderá vêr tudo minuciosamente no corpo da obra.
Emfim, na terceira parte: da disciplina artistico-ecclesiasti-
ca, vem os Processionarios, os Manuaes do Coro, de Defunctos,
Directórios ecclesiasticos e Cerimoniaes de diversas espécies.
Na primeira e ultima doestas secçSes, contaremos as obras
manuscriptas e impressas, porque as primeiras não eram ás ve-
zes menos importantes do que as segundas; não fazemos o mes-
mo na Parte u, pelo motivo já exposto. Cada uma terá nume-
ADVERTENCU 243
raçSo ifloUdai sendo as obras impressasi marcadas com algaris*
mos (sic. : 1; 2, 3, etc.) e as manoscríptas com lettras romanas ;
(ly n, m) as obras que nSo se sabe em qual d'estes doas casos fi-
caram, levam um ponto de interrogação (?) ; emfim, a priori-
dade da collocaçlk) das obras tbeoricas sobre as practicas e does-
tas sobre as de disciplina artistico-ecclesiastica, justifica-se pela
difierente importância das três partes.
Congratulamo-nos por poder rectificar n'estas ultimas pagi-
nas os erros tjpographicos ; os outros; resultado de algum descui-
do nosso e emfim, os que a inexactidSo e impureza das fontes
onde muita vez bebemos, nos obrigou mau grado nosso, a com-
metter; estes erros referem-se na máxima parte, aos titulos
das obras, ás datas de impressSo, á paginação, ás differentes edi-
ç8es, ao formato das obras, etc. etc. ; todos elles foram emenda-
dos por exemplares que possuimos.
A correcçSo fez-se em tudo com o maior escrúpulo e cuida-
do, todavia lembramos ao leitor que em alguns casos nZo pode-
mos reproduzir com a desejada exactidSo os titulos originaes, por
falta de caracteres próprios, (e, a, ti, til, etc.) assim nas obras de
Âranda, D. JoSo iv, e outros ; porém nos legares competentes re-
petimos esta advertência para cuidado dos bibliophilos.
Daremos também n'esta occasiSo noticia de obras que co-
nhecemos tarde de mais para podermos fallar d^ellas nas respec-
tivas biographias.
Comtudo apesar dos nossos esforços, ainda ficaram muitas
duvidas por resolver; esperamos com o tempo e um constante
trabalho, poder ainda elucidal-as c rcalisar ámanhS o que hoje se
nos afigura impossivel.
Se pouco ajudados fomos na nossa árdua tarefa, mostrou-
se-nos a fortuna por outro lado mais £»voravel, proporcionando-nos
tu ADVERTÊNCIA
a acquisiçlo de obras, algomas rarae, outras rarissimaa e qaem
sabe ifdrauvallea ou uniccu; mas também é forçoso dizer, que em-
pregamos amios de trabalho, e avultadas quantias para sidvar as
relíquias preciosas que possuímos e que guardamos religiosamen-
te ; seja esta, quando nSo haja outra, uma prova do nosso amor pela
Arte. Satisfazemos também o nosso orgulho de bibliophilo, na
convicção de possuirmos a primeira, quando nSo única collecçSo
de Livrae de Musica portuguezes, pois nSo sabemos que haja nem
nas bibliothecas publicas ou particulares do paiz, nem do estran-
geiro, uma outra egual á nossa.
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL
PARTE I
•IHMW Ui««HCMI
A
ALMEIDA (Joio Ribeiro de) —Vide Joio Ribeiro d*AlmeidA
e Campos.
ANHUNCIAÇiO (Fr. Gabriel da)—
1.) Arte de Cantocham resumida para mo da$ SeligioiOê
Franciscanos observantes da Santa Província de Portugal* Lis-
boa^ na Officina da Masica, 1785, in-4.^
Possuímos mn exemplar.
AMNUNCIAÇÃO (D. Philippe da)—
I.) Acompanhamentos para Orgão;de Hymnos, Missas, e tud^
o mais que se canta no coro dos Cónegos Regulares Lateranenses
da Congr. Reformada de 8. Cruz de Coimbra. Compostos pdo
P. D. Philippe da AmiimciaçBO; Cónego Regular da mesma Ooa-
246 BIBLIOGRAPHIA MUSICAL
gregaçSo. Ânnode 1754. Mb. de 115 pag. de exemplos, 13 em
branco e Index, 4 pag.
A unlca parte impressa d'esta obra, é o frontispicio ; o resto
julgamos ser autographo; a encad^naçSo está intacta e parece
ser do tempo, o que nos faz crer que apenas se imprimiu o fron-
tispicio. Está em nosso poder.
ANTÓNIO (Fr. José de Santo) —
2.) Elementos de Mutiea. Lisboa, por António Vicente da
Silva. 1761, in-4.<^ de 16 pag.
Este livro foi impresso com o nome de: Frazenio de Soyto
Jenaton, anagrampaa do verdadeiro. Na Bibliotheca do ex-
tincto Convento de Jesus, existia imi exemplar com a indicaçSo
463
33"
ARANDA (Katheo de)—
3.) Tratado de Musica &xJio por Mathso De Aranda, MaeS'
iro de la Capilla da Se de £.* Dirigido ai Hl.»» Sen'or D. Alon-
so cardenal Infante de Portugal Arcebispo de L.* oBispo de
Ebora comendatario de Alcobaça, com Priuilegio Real.
Foi impressa em L.* a 26 de Setembro, anno de mil e qui-
nhentos e trinta e três annos. Com todas as licenças necessárias,
in-4.^ de iv-71 pag. innumeradas.
Este titulo foi fielmente copiado de um frontispicio manus-
cripto em um exemplar que possuímos. Talvez seja aproximada-
mente o verdadeiro. A pag. 71, se encontra a seguinte nota final:
cFue impressa la presente obra en la muy noble cibdad de
Lixboa por (}erman Gallarde: a veynte y seys de Setiembre aSo
de mil y quinientos y treynta y três.» (1533)
Possuímos um exemplar.
BEBLIOGRAPHIA MUSICAL 247
4.) Tractaão de canto meíurable: y contrapucto: numa*
mete cSpuesto por Matheo de arada maestro e musica, (a) Dirigido
ai mui alto y illustrissimo sefior dS ÂlSso Cardenal Infante de
portugal. Arçobispo de LixbSa. obispo Deuora. Comodatário
d'AIcobaça. Con Preuilegio Real^ in 4.^ de iy-66 pag. em go-
thico. No frontispício as armas do cardeal, em vermelho e preto*
Não traz data nem logar deimpressão, todavia o Priuilegio
concedido ao author por D. João iii, reza: sete dias de Julho. De
mil e quinhentos e trinta e quatro annos (1534) ; além d'Í8S0 en-
contra-se na pagina do frontispicio um emblema com o nome
Germam Galharde^ emblema que vem reproduzido em um livro
de André de Besendo; (Oratio pro rostris) editado por este mes-
mo impressor em 1534.
A existência d'estes dous livros tem sido mui discutida por
authores nacionaes e estrangeiros; Fétis (Biogr, Univ., voL i,
pag. 125) entre outros, limita-se á referencia do Catalogo da Bi-
bliotheca de D. João iv, ficando na duvida, se foram impressos ou
se ficaram em manuscripto.
Possuímos de ambos um exemplar.
iras
Ta) Lembramos ao leitor, que nSo foi possiTel sobrepor a algumas let-
(f , II, a,) o tu necessário, pela falta de caracteres próprios.
ARAÚJO ou ARAUXO (Francisco Corrêa de) —
5.) Libro de Tientos y Discursos de Musica practica y theo-
rica de Organo, intitulado Facultad orgânica: con el qual, y con
moderado estúdio y perseverança qualquer mediano taiiedor pue-
de Salir aventajado en ella; sabiendo destramente cantar can-
to de Organo, y sobretodo teniendo buen natural. Composto por
Francisco Corrêa de Arauxo, Clérigo Presbitero, Organista de
\
248 BIBLIOGRAPHU MUSICAL
Ia Iglesia CoUegial de sam Salvador de la Cíudad de 6evilla,
Rector de la Hermandad de los Sacerdotes della^ 7 Maestro ea
la Facaltad^ &c. Con Licencia. Impresso en Alcala, por Ánto»
nio Ámao. Afio de 1626; in-folio de v-(Titalo i. Erratas i, Ta-
bla de los Tientos etc. n, Prologo en Alabança de la Cifra i)
204 pag.
PoBsuimos um exemplar que pertenceu á Bibliotlieca de San-
ta Cruz.
B
BARBOSA (Árias)—
6.) Epometria, ou Tratado da geração dos êon9. Sevilha (on
Salamanca?) 1520, in-4.^
BOTELHO (Fr, Estevão)—
II.) Dratado de Mueica. Ms.
BRITO (Estevão de) —
m.) Tratado de Munea. Ms.
Existia na Bibliotheca musical de D. JoSo iv. Estante 18|
N,*> 513.
BIBLIOaBÂPHIÂ MUSICAL S49
G
CAMPOS (João Ribeiro de Almeida e)—
7.) Elementos de Musica, offerecidos ao Excellentissimo e
Reverendíssimo Senhor D. Francisco de Lemos de Faria Perei-
ra Coutinho^ Bispo de Coimbra^ etc. Coimbra^ Na Real Impren-
sa da Universidade, An. de 1786, in-8.^ peq. de vin-92pag. e
uma estampa em cobre.
Possuimos um ezemplar.
8.) Elementos de Cantochão, offerecidos a Sua Alteza Real
o Sereníssimo Senhor Dom João Príncipe Regente. Lisboa, Anno
HDCCC. Na Officina Patriarchal de Joio Procopio Corrêa da Silva,
in-4.®, de 71 pag.
2.* edição. Porto: Typ. Commercial. 1859-
Possuimos um exemplar.
Não é certa a supposiçSo que fiaemos de mais ediçSes, por-
que o nosso exemplar diz expressamente: 2.* edição.
CARDOSO (José Marques) —
9.) Methodo de Musica. Macau, (?) 1853.
CASTRO (D. Fr. Agostinho de)—
IV.) Livro de Musica em Ms. ; preparava-o para a impressão.
CASTRO (Rodrigues de) —
Medicus politicus, sive de officiis medico-politicis Tracta-
tus. Rodericusa Castro, Lusitanus. Doct. Med. Hamburg, 1614,
in-4.®
Os Capítulos xrv, xv e xvi, do Líb. iv, tratam de Musica.
250 BIBLEOGBÂPHIA MUSICAL
COELHO (P.* Kanoel Rodrigues)—
10.) Flores de Musica para o instrumento de Tecla dk Har-
pa, Compostas por o Padre Manoel Rodrigues Coelho, CapellSo
do serviço de sua Magestade; & tangedor de Tecla de sua Real
Capella de Lisboa, natural da cidade de Elvas. Dedicado A. S.
C. R. Magestade dei Rej Phelippe terceiro das Espanhas. Com
licença do S. Officio da Inquisição, Ordinário & Paço. Em Lis-
boa: Na officina de Pedro Craesbeeck. Anno Dfii mdcxx, in-á.**
gr. de vi-233 pag. (numeradas de um só lado) índice e Erratas,
4 pag. No verso da pag. vi, encontra-se uma gravura em ma-
deira, representando S.^ Cecilia a tocar orgSo, acompanhada por
dois anjos.
Possuímos um exemplar que teve vários donos.
CONCEIÇÃO (Fr. Bernardo da)—
11.) O ecclesiastico instruído scientificamente na Arte do
Canto-Chào, in-4.^ de xn, (Erratas i)-1091 pag. com 5 Tahoas
(1.% 2.% 3.* e 5.% impressas; a 4.* gravada.)
NSo sabemos em que logar e anno foi impressa, porque ain-
da nSo vimos o frontispicio da obra; suspeitamos que foi em Lis-
boa, em 1789 ou 1790.
Possuímos um exemplar.
12.) Modo fácil e claro para aprender Cantochão. Publi-
cou-se em Fevereiro de 1789.
CORDEIRO (P.« António) — Vide JoSo Martins.
Reviu e emendou a 2.* e 8.* ediçSo da Arte de Cantochão
de JoZo Martins.
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL 251
COSTA (Rodrigo Ferreira da)—
IB.) Princípios de Musica <m Exposição meihodica das dovr
trinas da sua composição e easecução. Lisboa^ Na Typograpbia da
mesma Academia (das Sciencias). 1820-1824; 2 Volmnes ; o pri-
meiro de xvi-181 pag. e 5 estampas; o segando de yi-281 pag.
e 10 estampas em cobre.
O 3.® Volume, que havia de tratar da musica imitativa e ex-
pressiva, nSo appareceu.
Possuimos um exemplar.
COSTA (Victorino José da) —
14.) Arte de Cantochão para uso dos principiantes. Lisboa,
1737, in.8.*»
CROESSER (LuiB da Maia)—
15.) Resumo das Regras geraesmais importantes, e necessá-
rias para a boa intelligencia do Cantocham, com huma breve In-
strucçampara os Presbyteros, Diáconos e Subdiaconos, conforme
o uso Romano, pelo P. Luis da Maia CroesseW. Coimbra, 1726,
in-4.® de 47 pag.
Está emfim fixada a existência tZo discutida d'esta primeira
ediçSo; nSo podemos fiJlar d'ella, no corpo da obra, por a ter-
mos alcançado ha pouco tempo; ao nosso exemplar falta é verda-
de, o frontispicio, mas tem o titulo que precede o Capitulo i e
que acima copiamos. O tjpo que serviu para esta primeira edi-
çSo, é maior e mais mal fundido ; o papel é inferior e a obra con-
tém apenas 47 pag. em logar de 92, da 2.* ediçSo.
O exemplar que possuimos, pertenceu á livraria do Collegio
de Santa Rita dos Agostinhos Descalços de Coimbra, e traz no
principio o Breve do Papa Clemente xi, que excommungava todo
S58 BIBUOORÁPHIÂ MUSICAL
aquelle que subtrahisse alguma obra pertencente á dita livraria.
PretençSeB ephemeras ! . . •
2/ edição, com o mesono titulo. Dado novamente ao prelo
com vários accrescentamsntos que vam notados com este signal m
Coimbra: Na Officina de António SimSens Ferrejra; Impressor
da Universidade. Anno de hdccxlt, ia-4.^ de n-92 pag. e In-
dex; 2 pag*
Esta 2.* edição da obra de Croesser, é uma das impressSea
mais nitidas que conhecemos em livros da nossa litteratura musi-
cal e honra o estabelecimento d'onde sahiu. Temos visto dois ou
três exemplares em papel muito forte, (grand papier) porém são
raros; possuímos um. Esta 2.* ediçSo é em tudo preferível i 1.*;
ji pelo lado typographico, já pelo artístico, em virtude dos aug-
mentos importantes que recebeu.
CRUZ (D. Agostinho da) —
16.) Lyra de Arco, ou Arte de tanger Rabeca. Lisboa, 1639.
foL Foi. dedicada a D. JoSo de Mascarenhas, Conde de Santa-
Cruz.
V.) Prado musical para Órgão, Dedicado á Sereníssima
Magestade d^El-Rei D. João IV. Ms.
VI.) Arte de Cantochão, por estylo novo. Ms.
VII.) Arte de Órgão com figuras mui curiosas. Ms.
Estas duas ultimas obras foram compostas em 1632 e esta-
vam encadernadas em um só volume, com o titulo :
Duas Artes, vma de Cantochão por estylo novo, e outra de
Órgão com figuras mui curiosas, compostas no anno de 1632.
E muito provável e quasi certo, que os manuscriptos auto-
graphos dos N.^ 2, 3 e 4, existissmi na Bibliotheca de D. Jo2o IV
e assim também um exemplar do N.^ 1.
BIBLIOaRAPHIÂ MUSICAL 258
CRUZ (D. Gaspar da) —
ym.) Arte de Cantochão recopilada de vários authoresm Ms.
IX.) Arte de Canto de Órgão. Ms.
Os autographos doestas duas obras existiam na preciosa Bi-
bliotheca musical de Francisco de Yalhadolid; Forkel^ pretende
que estavam ambos encadernados n'um volume; Barbosa Macha-
do, diz que era só o segundo.
CRUZ (João CUrisostomo da) —
17.) Methodo breve e claro em gue sem prolixidade, nem con-
fusão se exprimem os necessários principios para a intelligencia
da Arte da Musica. Com um Appendix dialogico que servirá de
Index da obra e de lição dos Principiantes. Lisboa, por Ignacio
Rodrigues, 1743, in-4.^
D
DELGADO (Cosme) —
X.) Manual de Musica dividido em três Partes, dirigido ao
muito alto e esclarecido Principe Cardeal Alberto Archiduque
de Áustria Regente d' estes Reynos ds Portugal. Ms.
Parece que Barbosa Machado examinara o manuscrlpto, pois
diz que começava: «Os gregos nos deixaram a Musica» ; e acaba-
va: «Vive, o reyna para sempre. Amen.»
254 BIBUOGRÂPmA MUSICAL
D. DUARTE.—
Na celebre obra d'este grande príncipe : o Leal Conèdhei'
TO, encontram-se os seguintes capitulos relativos á Musica:
Do Regymento çue se deve ter na Capdla para ser bem re-
gida. (Cap. LBr, pag. 449.)
Do tempo que se detém nos offieios da CapeUa. (Id« ib, cap«
LBYiy pag. 455.)
E
ESCOBAR (André de)—
XI.) Arte de musica para tanger o instrumento da Chara-
mdinha. Ms.
ESCOBAR (Joio de)—
XII.) Arte de Musica theorica e pratica.
O Catalogo da Bibliotheca de D. JoSo iv^ que menciona esta
obra, nSo diz se fôra impressa, ou se ficara em manuscrípto.
BIBLIOGRÂPHIÂ MUSICAL 255
F
FAGOTE (António Marques) —
XIII.) Arte de tocar o initrumento chamado Fagote. Ficon
provavelmente em Ms.
FERNANDEZ (António)—
18.) Arte de Mvsica de Canto de Orgam e Canto Cham, &
Proporções de Mtmca diuididas harmonicamente. Composta por
António Femandez, natural da villa de Souzel^ mestre de Mu-
sica na Igreja de S. Catharina de monte Sinai. Dirigida ao
insigne Dvarte Lobo Quartanario^ & mestre de Musica na S. Sè
de Lisboa. Em Lisboa. Com licença da S. InquisiçSo Ordiná-
rio, & Paço. Ppr Pedro Craeesbeck Impressor dei Rey. Anno 1626,
in-4«^ de vi~125 pag. (numeradas de um só lado).
Possuímos um exemplar.
A gravura que representa a Arvore genealógica da Musica,
coroada com o retrato de Duarte Lobo, encontra-se apenas em
poucos exemplares.
xrv.) Arte de Musica de Canto de Orgam composta por um
modo muito differente do costumado, por um velho de 85 annos
desejoso de evitar o ócio, Ms. foi.
XV.) Explicação dos segredos da Musica em a qual brevemen'
te se expende as causas das principal cousas q%ie se contêm na
mesma Arte. Ms. foi. Existia na Bibliotheca musical de D. João iv.
XVI.) Theoria do Manicordio e sua explicação. Ms.
XVII.) Mappa universal de qualquer cousa assim naturalcomo
accidental que se contém Tia Arte da Musica com os seus géneros
e demonstraçdes mathematicas, Ms. foi.
256 BIBUOGRÂPHU MU8ICÂL
Os autographos dos N.<»* xiv, xvi e xvn, existiam na livra-
ria de Francisco de Yalhadolid.
FRANÇA (P.^ Luiz Gonzaga e) —
19.) Compendio ou explicciçao methodica das regms geraes
mais importantes e necessárias para a intelligeneia do Canto-chão
tanto theorico como pratico, e para saber escrever e compor. Se-
gundo o systema das sete vozes Do=:Re=Mi=Fa=Sol=La==Si.
Com as precisas Pautas de Exemplos tanto do Canto-chão Liso
ou Plano, como Figurado, Solfejos, Levantamentos Solemnes e
Feriaes dos Tons; e com hum pequeno Appendix dos Rudimentos
de Musica. Lisboa: na impressão regia. 1831, in-4.^ de yiii~-132
Fossuimos nm exemplar.
FRANCISCO (Fr. Luix de S.)—
Globus canonum et arcanorum, lingu^B Sanctee ac divince
scripturm. Rom», 1586.
O Gap. IX, Lib. X, trata da Musica dos Hebreus.
FROVO (Joio Alvares) —
20.) Discursos sobre a perfeição do Diathesaron e louvores
do numero quatemario em que elle se contem com um encómio so-
6re o papel que mandou imprimir o Sereníssimo Rei D. João IV
em defeza da moderna Musica, e resposta sobre os dois breves ne-
gros de Cristóbal de Mordes, Lisboa, por António Craesbeck,
1662, in-4.^
Fétis, possue uma tradução latina doesta obra, porém nlo
sabe quem é o seu author.
BIBLIOGRAPHU MUSICAL 257
XVIII.) Spectdvm universale in quo exponuntur omnium ibi
contentorum Auctorum loci, vbi de guolihet Musices genere disse-
runtj vel agunt. 2 vol. foi. Ms.
O 2.** volume, que foi o único que Barbosa Machado viu,
continha 589 pag., menos o Index; nada diz das dinieneSes do 1.^
Esta obra parecia ser uma espécie de Encyclopedia artís-
tica, biographica e bibliographica.
XIX.) 'Dieoria e Practica da Musica, foi. Ms.-
XX.) Breve explicação da Musica, in-4.^ Ms.
Barbosa Machado diz que viu esta obra primorosamente
trasladada em 1678, por António da Cunha de Abreu, discipu-
lo de Frovo. Tanto o N.^ 8| como o N.^ 4, estavam ambos na Bi-
bliotbeca real de Musica.
a
60ES (Damião de) —
XXI.) Tratado theorico da Musica, Ms.
aUEYARA (Francisco Vellez de)—
XXII.) De la realidad y experiência de la musica.
m
Barbosa Machado diz que esta obra fôra impressa, mas nSo
indica, nem a data nem o logar da impreeslk).
17
258 BIBLIOaRÂPHIÃ MUSICAL
H
HISPAHO (Pedro)— Vide JoSo xxi.
J
JENATON (Fraienio da Soyto)— Vide Fr. José de Santo-
Ântonio.
D. Joio IV.
21.) DefôTíM de la Mvêica moderna, contra la errada opi'
nion dei Obíspo Cyrilo Franco. Sem data, sem nome de aathor
nem logar de impresaSo; mas a pag. 44, lê-se : cLisboa a 2. de
Deziebre de 1649», in«4.® de iv-SS pag. A obra éofierecida : Âl
SeUor Ivan Lorenço Rabelo Português de nacion, Fidalgo de la
Casa dei Serenissimo Rej D. luan el Quarto de Portagal, Co-
mendador de la encomienda de S. Bartholome de Rabal, de la
Orde de N. S. lesu Christo, y assistente en el seruicio dei miamo
Sellor.
Possuimos um exemplar.
Ha uma tradução italiana com o seguinte titulo :
Difensa ddla musica moderna contra le false opinioni dd
veecovo CyriUo Franco, tradotta di spagnuolo in italiano. Sem
BIBUOGRAPHIA MUSICAL 259
data nem logar de impressão. SuppSe-se que foi publicada em
Veneza, porque a gravura do frontispicio tem a indicação. C DoU
eettafece in Venetia.
22.) Respvestas à las Dvdas Que 96 pusieron a la Mxisa >=
Panis quem ego dabo = í26 Palestina; Impressa en el quinto li-
bro de sus Missas. Sem logar de impressão, a 25 de Setiembre de
1654, (vide pag. 29) ín-4.^ de u-29 pag., com um frontispicio
gravado que representa vários instrumentos antigos e no alto da
pagina, as armas da casa de Bragança.
Esta ediçSo traz um frontispicio simples.
NSo repetimos aqui, como fizemos no corpo da obra, Lisboa,
como logar da impressão, porque não encoijtramos no livro, signal
algum que indique aquelle nome; é verdade que Fétis (Biogra-
phie DhiverseUe, vol. iv, pag. 437) refere: Lisboa; todavia não
explica^ como é que se encontra no frontispicio gravado, a mes-
ma indicação' da Defensa de la Musica: C, Dolcettafece in Ve-
netia...t
Possuímos um precioso e magnifico exemplar, que devemos
ao nosso amigo Joaquim José Marques.
Esta obra também foi traduzida em italiano :
Riposte alli dvbbii proposti sopra la messa: Panis quem
ego dabo dei Palestrina, stampata nelle sue messe, tradotte de
spagnuolo in italiano. Boma, Maurício Belmonte, 1655, in-4.^
Baini (Memorie de Palestrina, vol. n, pag. 360) indica um
titulo um pouco differente, sic:
Dubbi, il quali furono proposti sopra la messa: Panis
quem ego dabo, dd Palestrina, che va stampata nel quinto libro
delle sue messe a' quali si risponde informa di dialogo. D.-B.
a dl 25. Settembre dei 1654.
260 BIBLIOGRAPHIA MUSICLA
Esta indica^^ de Baini^ nSo só discorda no titnlo, attríbtudo
por Fétis {Biogr. Univ., Vol. iv., pag. 437) mas aténadata, que
o critico belga fixa um amio depois.
zxin.) Concordância da Musica e passos da Collegiadados
maiores professores d'esta Arte. Ms.
XXIV.) Princípios da Musica, quem foram seus primeiros
authores e os progressos que teve, foi. Ms.
E provável que estes dois manuscriptos preciosos existissem
ná Bibliotheca Real de D. JoSo IV e com ella desapparecessem.
JOÃO xn.
XXV.) Parece que, escreveu uma extensa Dissertação musi-
eal, dirigida a um Bispo inglez^ chamado Fulgentius, W. E.
Teutzel {Monaúiche Oesprãche, pag. 719^ dá o manuscripto origi-
nal, como existente na Bibliotheca de S. PaulO| em Leipzig.
L
LACE (?.'' António Rodrigues) —
23.) Alti-sonancia sacra restaurada e relação harmónica do
methodo e regulação com que as vozes dos sinos das duas famosas
torres, do relógio e ordinária, regiam o governo efunc^ks consti-
tuídas em a Sancta Igreja Patriarchal Lifòonense. Obra eu*
riosa, e não menos necessária para com a permissão do tempo se
restituir o primitivo e mais acertado regulamento, etc» Do mesmo
BIBUOGRAPHIA MUSICAL 261
modo êe ieêcret>e toda a inatmcção theorica e necessária para a
modulação dos mesmos Sinos, ordinária e praticamente insi^
nuada em dous diários annuaes, um d o anno 1750, outro de 1761,
etc. Composta no anno de 1769. Um grosso volume in«4.^ de
LZ-vui, 407 pag., adornado com dous deseiilios feitos a aguarella
que representam a fachada da torre do relógio, em Mafra.
O autographo está em poder de Innocencio Francisco da
SOva.
LEITE (António da Sihra) —
24.) Rezumo de todas as regras, e preceitos da Cantoria,
assim da Musica métrica, como do Canto-Chão. Dividido em duas
partes» Porto : Na Officina de António Alvarez Ribeiro, Anno de
1787, in-4.^ de vni--43 pag., com 2 estampas gravadas em cobre.
Possuímos um exemplar.
25.) Estudo de Guitarra em que se expõem o meio maisfacU
para aprender a tocar este instrumento : Dividido em duas par'-
tes. A primeira contem, as principaes regras da Musica, e do
Accompanhamento. A segunda as da Guitarra; A que se ajunta
huma Collecção de Minuetes, Marchas, AUegros, Contradanças,
e outras Peças mais usuaespara desembaraço dos Principiantes :
tudo com accompanhamento de segunda Guitarra. Ofiferecido Á
niustrissima, e Excellentissima Senhora D. Antónia Magdalena
de Quadros e Sousa, Senhora de Tavarede. Porto, na officina
typographica de António Alvarez Ribeiro, Anno de MDCCXCy,
in-fol. de 38 pag. de texto, 2 de Index e xxiii pag. de exem-
plos, etc.
Possuímos um exemplar.
2.* edição. MDCCXCVi, com o mesmo titulo, sem alteraçSo no«
tavel na obra ; todavia ha algumas pequenas diiflferenças pelas
262 BIBLIOQRAPHIA MUSICAL
quaes só conhece que na verdade bZo ediçSes differentes, por
exemplo: Na 1/ ediçSo de 1795, lê-se depois da data: Cem li-
cença da Real Meza da Commissão Oeral sobre o Exame e Cen-
mtra dos Livros; na 2.% encontra-se simplesmente: Com licença
da Mesa do Desembargo do Paço; na ediçSo de 1795, a penúltima
linha do frontispício, acaba em: cnalojai etc., e na de 1796 em :
<na», voltando para a ultima linha cloja de Livros etc; o verso
do frontispicio na 1.* edição, traz apenas a citação de Flato: In-
teriori anima penetrai, animumque vehementissime ptãsat; em-
quanto que na 2/ se lê por debaixo d^ella: cFoi taxado este li-
vro em papel a 1200 réis. Lisboa 15 de Março de 1796.
Com seis rvbricas.
A gravura que representa a guitarra entra na numeraçSO|
(pag. 31) mas com os algarismos em branco; além d^isso foi im-
pressa em papel mais fino e fica do lado esquerdo ; na 2.* edição,
encontra-se no lado opposto e entra na numeração 31, com os al-
garismos em preto, repetindo-se na pagina seguinte o mesmo nu-
mero; a gravura está cm papel egual ao da obra.
Parecem-nos estas differenças, sufficientes para estabelecer a
diversidade das duas ediçSes.
Possuimos um exemplar de ambas.
LEONI (José Maria Kartins)—
26.) Methodo de Musica, 1833
USBOA (B. da Silva)—
Publicou uma traduzo portugueza da seguinte obra:
27.) Notice historique sur la vie et les ouvrages de Joseph
Haydn, membre associe de rinstittU de France, et d'un grand nom-
bre d'académies,lue dans la séance publique de la classe des Beaux-
BIBLIOGRÂPHIÂ MUSICAL 868
Arte, U 6 oetobre 1810, par Joachim le Breton, secrétaire peipe-
tael de cette Académie. Paris, Baudouin, 1810 in-4.^
A traducçSo portugueza é iii-8.^, de 84 pag., e foi accrescen*
tada com anedoctas sobre Haydiii fornecidas a Silva Lisboa, por
Neukomm, discipulo do illustre alleznSo.
LOBO (Duarte)—
28.) Oputcula musica nuneprímtm editai Antuerpi», 1602,
in.4.*
Ka Bibl. Real de Musicai existia um exemplar doesta obra.
LUSITAHO (Vicente)—
29.) Introdvtti<me,facilÍ88{ma, et navissima, di canto fer^
mo, Jigvrato, contraponto êemplice, et inconeerto, con regale ge-
neraliper farfvghe differenti sopra il canto fermo a II* IIL et
mi. voct, e compositioni,proportion{, generi s. diatónico, cromá-
tico, enarmonico. composta per Vincentio Lvsitano. Boma, An-
tónio Blado, 1553, in-4.^ de 86 (a) pag. com o retrato do author.
Este titulo é copiado da 2.* ediçSo.
2.* ediçSo: In Venetia, per Francesco Maroolini. MDLvnii
in-4.^ de 26 folhas duplas.
Possuímos um exemplar*
3.^ edição: In Venetia, appresso Fr. Bampazetto. 1561,
in.4.'
Publicou-se também uma traducção portugueza : por Ber-
nardo da Fonseca. Lisboa, 1603.
(a) Fétís (Biogr. Univ., toL y, paff. 379) indica este numero; creio to-
davia qae houve engano, porque faílando da 1.* ediç2o, nSo menciona esta,
como sendo mais completa do que a 2.* ; o que devia faier, se a 1.* tivesse
mais 40 pag. do que a immediata ; pelo que dis, parece que nSo viu senSo
esta ultima ; ainda assim o nosso exemplar tem apenas 26 folhas duplas e
864 BIBLIOOBÁFHIÂ MUSICAL
68t4 eorapleio ; Fétíe indica todavia para esta mesma ediçio (2.*), também
tun namero differente : 23 folhas duplas ; supponhamos que seja este o nu-
mero de folhas da 1.* ediçSo; dobrando-o, dá 46; deverá entender-sa 46
por 86?
Cremos que sim*
M
MACHADO (Raphael Coelho)—
30.) Methodo de Mu$ica ou Principiou de Mueiea practica^
para uêo dos principiantes. 1842.
310 Breve tratado de Harmonia. 1851.
82.) Diccionario musical, contendo : 1/^ Todos os vocábulos e
phrases da esfirípturação musical. 2.^ Todos os termos teehnicos da
musica, desde a sua maior antiguidade. 3.^ Huma tahoa com todas
as abreviaturas usadas na escripturação mueical e suas palavras
correspondentes. 4.^ A etymologia dos termos menos vulgares e os
synonimos em geral. Rio de Janeiro, Typographia franeeza* 1842^
in-4.** de iv-4-275 pag.
HARIA (D. Carlos de Jesus) — ^Vid. V.^ Luis da Maia Croesier.
HAIOA (D. Joio de Santa)—
xxvi.) Escreveu 3 Livros sobre a Arte do Contraponto, que
dedicou a D. JoSo iv.
Estavam na Bibliotheca musical doeste prinoipe.
BIBUOaRAPHIÂ MU8I0AL S65
MARTINS (Joio)—
38.) ArU de canto llanopueita y reduzida en 9u enteraper-
feecion, 9egun la praotica. Sevilha, 1560, iii-8.^
Foi traduisida em portuguez.
Arte de Canto Chão, poeta e redvzida em sua enteira per-
feição, eegudo a pratica delle, muito neceeearia para todo o Sa-»
cêrdote, pe$eoa$ q, hão de eaòer cantar^ (a) Ordenada por loSo
Martinz Sacerdote & a que maia se vsa em toda a Cbrístandade.
Vay em cada hua das regras seu exemplo apontado com as en*
toaçSes. Coimbra, por Manoel de Araújo. 1603, in-8.^
' Este titulo é copiado de um exemplar da segunda ediçSo*
2.* edição»
Agora de nouo reuieta, & emmendada de coiteae muyto ne-
cesearicu. Por o Padre António Cordeiro, Sochãtre na JSee de
Coimbra, Com licença da Santa InquisiçSo. Por Nicolao Car-
ualho, Impressor da Yniuersidade de Coimbra, 1612, in-8.^ de
11-76 pag.
Possuimos um exemplar,
3.* edição. Revista e augmentada por António Cordeiro.
1625, in-8.^, pelo mesmo impressor*
(a) Sobre as lettras «, g, eto., devem-se coUoèar os tU neoessarlos.
KAURICIO (José)—
84.) Mkthodo de Musica, escrípto e offerecido a Sua Altesa
Real o Príncipe Regente Nosso Senbor. Destinado para as lí-
{Ses da aula da dita cadeira (da Universidade.) Coimbra, Na
Real Imprensa da Universidade. 1806, in-4.^ de xxxv-65 pag.
e 5 estampas gravadas em cobre.
Possuimos um exemplar.
266 BIBLTOGRAPfflA MUSICAL
MEDEIRA (Eduardo) —
NowB philosophicB et medicinas, Lisboa, 1650, in-8.'
Encontram-se n^esta obra doas artigos que tratam de Mu*
sica: Inaudita philosophia de Viribus musicce, e : De Ihrenttãa.
MENDES (Hanoel) —
zxYii.) Arte de Cantochão, em Ms, Parece que estava na
Bibliotheca Real de Musica.
MENDOKÇA (Luiz de Pina e)—
?) VarioB opúsculos pertencentes á theoria da musica.
Parece que foram publicados em 1650 (?)
HENEZES (Fr. Luís Casar de)—
?) Escreveu uma obra sobre Cantochão, em 8 vol. (?) Ms. (?)
MILHEIRO (António)—
xxvm.) Tratado theorico da Musica. Ms.
Devia existir, ou na Bibliotheca Real de Musica^ ou na Li-
vraria de Francisco de Valfaadolid.
MONTE (Fr. José do Espirito Santo)—
35«) Vindicias do Tritonocom um breve exame theorico-cri-
tico das legitimas, solidas, e verdadeiras regras do Canto EccU-
siastico segundo os usos presente, e antigo da Santa Madre Igrya
de Boma, Dirigido á maior gloria do Deos Altíssimo^ utilidade
e perfeiçSo dos Ministros de toda a Igreja Lusitana. Lisboa: Na
0£Scina de SimSo Thaddeo Ferreira. Ánno M. DCC. xci; in-4.^ de
viii-92 pag.
Possuimos um exemplar.
BBBUOGRAPHIA MUSICAL 267
MORAES (D. João da Soledade)—
86.) Methado de Musica. 1833.
HORATO (Jo&o Yaa Barradas Muito Pio e)—
37.) Flores Musicaes colhidas no Jardim da melhor Lição de
vários Auihores. Arte pratica de Canto de Órgão. índice de Can-
toria para principiantes, com um breve resummo das regras mais
principaes de aCompanhar com Instrumentos de vozes, e o conhe"
cimento dos Tons assim naturaes como accidentaes. Offerecida ao
Senhor D. Gabriel António GomeS; &c. por João Vaz Barradas
Muito Pam e Morato. Lisboa Occidental^ Na Officina da Musi-
ca. Anno de 1735; in-4.'' de xvi-120 pag.
PosBoimos um exemplar.
Esta indicaçSo das paginas, é de L da Silva (Dtcc* BibL,
vol. iv, pag. 47) ; a paginaçSo do nosso exemplar, nSo concorda
com a antecedente, sendo de xn-113 pag.
2.* edição, com o titulo um pouco alterado, sic:
Mores musicaes colhidas no jardim da melhor lição de vá-
rios authores. Arte practica de Canto de Órgão. índice de Ce-
remonia para principiantes com hum breve resumo das regras
mais principaes de acompanhar com instrumentos cu vozes, e o
conhecimento dos tons assim naturaes como accidentaes. Lisboa,
na Officina da Musica, 1738, in-4.^
A esta 2.* ediçSo fSsdta a parte relativa ao Cantochão, que
foi publicada em separado. (Vide N.'' 40.)
Como se vê, a variante dos dous titules é insignificante e
cifra-se apenas nas palavras índice de Cantoria e índice de Ce-
remonia; talvez que esta differença não seja real e que Forkel, o
author d'ella, se enganasse; é verdade, que o N.^ 39 indica uma
obra com um titulo que corresponde á differença entre os das
368 BIBLIOaRAPHIA MUSICAL
duas ediçSeS; mas talvez que este ultimo livro (N,^ 89) seja ape-
nas um fragmento da 2.* ediçSo da obra primitiva, porque a data
e a typographia coincidem; nSo obstante, Barbosa Machado
{Bíbl. Lusit., voL u, pag. 784 e 785) diz que foi impresso em
separado.
88.) Preceitos EcclesieiHicos de Canto^Jírmê para beneficio
$ uzo eommum de todos» Lisboa, na Officina Joaquiniana da Mu-
sica, 1733, in-4.^
89.) índice de Ceremonias para principiantes com um bre-
w resumo das regras mais principaes do acompanhamento com
instrumentos, as vozes e o conhecimento dos tons assim naturaes
como accideniaes. Lisboa, na Officina da Musica, 1738, in-4.®
Parece ser uma ediçSo em separado, da parte corresponden-
te nas Flores musicaes.
40.) Breve resumo de Cantochão com as regrai mais prin-
cipaes e a forma que deve guardar o Director do Coro para o
sustentar firme na corda chamada: Coral e o Organista quando
o acompanha. Lisboa, na Officina da Musica, 1738, in-4.^
xxix.) Breve resumo de Cantochão, dedicado a El-Bei
D. João IV. Ms.
Existia na Bibliotbeca real de Lisboa; talvez fosse o auto-
grapho do N."* 40.
MOURA (P.* José Luii Gomes de)—
41.) Methodo para aprender o Cantochão. 1825, in-4.*,
3/ ediçlo.
Ignoram-se as datas das duas ediçSes antecedentes.
BIBLIOGRÂPHIA MUSICAL 269
O
OSÓRIO (Jeronymo)—
Dt Begis imtitvtíonej et disciplina, libr. oeto. Coloniai
1588, in-8.«
No livro IV; pag. 122-125, encontra-se um capitulo que
trata: De Musica liheralis disciplina; Musica regibus maximi
necessária j cantu ad Jlectendum aninum nihil ^cacius.
P
PEDRO (João) —
42.) Arte de Muzica para mola franceza com regras do
acompanhamento. Para uso de todas as Pessoas, que queirSo ap-
plicar-se a toca-la por Muzica, c mesmo para as, que nSo quize-
rem fazer a dita applicaçSo. Braga, 1839, in-4.^ de iy-18 pag.,
com uma estampa; publicou-se com as iniciaes I. P. S. S.
Possuimos um exemplar.
PEDROSO (Manoel de Moraes)—
48.) Compendio musico ou Arte ahbreviada Em gue se con-
thn as regras mais necessárias da Cantoria^ Acompanhamento e
Contraponto. Offerecido á mais armoniosa cantora do Ceo Ma-
ria Santissima com o soberano titulo da AssumpçSo. Porto, na
\
270 BIBLIOGRAPHIA MUSICAL
Officina do capitão Manoel Pedroso Coimbra^ 1751} iii-4.^ de
?-47 pag.
Esta edição é em caracteres vermelhos e pretos^ e em bom
papel.
2.* edição.
Com o mesmo titulo. Ibid.^ na OíBcina de António Alvares
Ribeiro Guimaraens^ e & sua custa impressa. Anno de 1769|
m-4.** de iv-47 pag.
Esta edição é inferior á primeira, pelo lado typographico.
Possuimos um exemplar.
PEREIRA (Thomax)—
44.) Methodo de Musica practtca e especulativa, em 4 Par-
tes (?)
Foi publicado na lingua Sinica, segundo Barbosa Machado
{Bihl. Lunt., vol. iii, pag. 746) e segundo o Bispo-Conde {Lis-
ta, 49) em Chinez. O Imperador da China mandou-o traduzir em
Tártaro.
y
\
PDTEDO (Thomas de) Lusitanus —
Commentario Auctorum, Amstel. Edit. 1678, foi.
N^esta obra encontram-se duas excellentes dissertações, so-
bre a Musica Mathematica e a Arithmetica Analógica.
PINHEIRO (Luiz) —Vide Fr. Luiz de S. Francisco.
BIBLIOQRAPHIA MUSICAL 271
R
REGO (Pedro Vas)—
XXX.) Tratculo de Musica. Ms. ; ficou incompleto.
XXXI.) Defensa sobre a entrada da novena da missa sobre la
seala Aretina composta pelo Mestre Francisco Valls, Mestre da
Cathedral de Barcelona. Ms.
Parece que ambas estas obras estavam no tempo de Barbosa
Machado^ no cartório da Cathedral de Évora.
RIBEIRO (Hanoel da Paixão)—
45.) Nova Arte de Viola; Que ensina a tocalla com funda-
mento se^ni mestre, dividida em duas partes, hvma especulativa, e
outra practica; Com Estampas das posturas, ou pontos nahiraes,
e accidentaes; e com alguns Minuettes e Modinhas, por musica e
por Cifra, etc. Coimbra^ na Beal Officina da Universidade,
MPCOLXXXiXy in-4.^ de ii-(nSo numeradas) v-51 pag. e 8 es-
tampas.
Possuimos um exemplar.
Ha uma outra obra idêntica, publicada em 1803, oujo au-
thor desconhecemos: Arte de tocar Viola e outros instrumentos.
RODRIGUES (Fr. João)—
xxxii.) JVatado de Cantochão, foi. Ms.
Obra importantíssima, em que o autfaor affirmava ter traba-
lhado durante 40 annos (!) e que mereceu a approvaçSo de Antó-
nio Boccapadula e de Palestrina!
27S BIBLIOGRÂFHIA MUSICAL
RODRIGUES (P.* Manoel) — Vide Manoel Rodrigues Coelho.
ROSÁRIO (Fr. Vicente Maior do)—
46.) Arte de Canto chão ordenada e dada alua pelo P.; etc.
Para instrucçilo de seus discipulos. Tomo 1.^^ in-8.® de II-34 p.
Possuimos uma copia em maxrascripto.
s
8... (J. P. S.)— Vide JoSo Pedro.
8AHGH0 (Ignado)—
xxxm.) Tratado theorico da Mumca. Ib.
SARMENTO (António Florencio) —
47.) Princípios elementares de Musica^ destinados para as
liçSes da aula da cadeira de Musica da Universidade de Coim-
bra. Coimbra, Na Imprensa da Universidade^ 1849; in-8.^ de
vi-44 pag-j com 13 estampas lithographadas.
Possuimos um exemplar.
SILVA (Alberto Joseph Gomes da)—
48.) Regras de acompanhar para Cravo, ou Orgia, E aòi^
da tanibem para qualquer outro instrumento de vozes, rtduzidas
a um breve methodo, e fácil percepção. Dedicado a Sua Mages-
BIBLIOaRAPHIA MUSICAL 27$
tado Fidelissima D. José i. Que Deos Guarde, por ete. Lisboa,
Na Officina Patriarcal de Francisco Luiz Ameno m.dcc.lviii,
in-4.® de vui-39 pag., Index 2, e 8 pag. de exemplos intercala-
das no texto.
Possuimos um exemplar.
SILVA (P.^ Manoel Nunes da) —
49.) Arte Mininia^ que com Semibreve Prologam tratta em
tempo breve, os modos da Máxima, & Longa sciencia da Musica,
oflferecida a' Sacratissima Virgem Maria Senhora Nossa, debaixo
da Invocaçilo da Quietaçam, cuja imagem esta' em a Santa Sé
desta Cidade, por etc. Lisboa. Na Officina de Joam Galram
M.DC.LXXXV, in-á."* de xiv-44-52-136 pag., e 2 estampas em
cobre; frontispicio gravado e mSlo dos signaes; a primeira, raras
vezes se encontra.
Possuimos um exemplar.
2.^ edição: com o mesmo titulo. Lisboa. Na Officina de
Miguel Manescal, Impressor do Santo Officio, à custa de Antó-
nio Pereyra, & António Manescal, Anno de 1704, in-4.** de xii-
44-52-136 pag. e uma gravura (a mão dos signaes). Parece que o
frontispicio gravado não aahiu, senão na primeira ediçSo.
Possuimos um exemplar.
3.* edição: idem. Lisboa Occidental. Na Officina de Antó-
nio Manescal, Impressor do Santo Officio, & Livreiro de Sua
Magestade, & à sua custa impresso. Anno de 1725, in-4." com a
mesma paginação.
Possuimos um exemplar.
As três edições são perfeitamente eguaes, sem augmento,
nem diminuição de texto.
18
274 BIBLIOGRAPHIA MUSICAL
SILVA (Tristão da) —
xxxni.) Âmablea de Mmica, Ms. Existia na Bibliotheca
de D. João iv.
SILVEIRA (João Gonçalves da) — Vide JoSo V. B. Muito
Pão e Morato.
SILVESTRE (Gregório) —
XXXIV.) Arte de escrever por cifra» Ms.
SOLANO (Francisco Ignacio) —
50.) Nova Instrucção musical, ou theorica pratica da mu-
sica rythmica, com a qual se forma, e ordena sobre os mais sóli-
dos fundamentos hum Novo Methodo, e verdadeiro Sysíema para
constituir hum intelligente Solfista, e destrissimo Cantor, no^
meando as Notas, ou Figuras da Solfa pelos seus mais próprios,
e impróprios nomes, a que cjiamamos ordinários, e extraordiná-
rios no Canto Natural, e Accidental, de que procede toda a dif-
jieuldade da Musica, Offerecida ao muito Poderoso, e Fidelíssi-
mo Bei Nosso Senhor D. José i. por, ete, Lisboa, Na Officina
de Miguel Manescal da Costa, Impressor do Santo Officio.
Anno cio.iocc.LXiv, in-4.^ de Lx-(innumeradas)-340 pag.
Possuimos um exemplar.
Esta obra tem ainda o seguinte: Additamento á Nova In-
strucção musical, em que se trata dos antigos preceitos da Musica,
para que o estudioso solfista possa achar somente n'este livro to-
das as Doutrinas mais necessárias, afim de se instruir, e fazer
perfeitamente Prático naquelles precisos Documentos, de que fi-
cava carecendo para a verdadeira, e certa intelligencia do Canto
de Estante, E de todo o mais género de Musica, Aonde com pro-
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL 275
príedade ainda hoje se encontrão as fundamentaes Regras da
Musica antiga^ de II-47 pag. Erratas^ 1 pag. e um Mappa.
Fablicou-se um resumo d'esta obra :
51.) Nova Arte e breve compendio de Musica para lição
dos principiantes, extrahida do livro que se intitula : Nova
Instrucção musical, ou Theorica practica da Musica rythmica;
dedicada ao lU."^ e Ex.°»^ Snr. Thomé José de Sousa Coutinho
Castello-Branco e Menezes^ etc., por seu amigo F. I. S. Lisboa,
cio.iocc.LXViii; in-4.® Na Officina de Miguel Manescal da Costa,
Impressor do Santo Officio.
52.) Novo tratado de Musica métrica, e rythmica, o qual
ensina a acompanhar no Cravo, Órgão, ou outro qualquer In-
strumento, em que se possão regular todas as Espécies, de que se
compõe a Harmonia da mesma Musica. Demonstra-se este as-
sumpto pratica, e theoricamente, e traião-se também algumas
cousas parciaes do Contraponto, e da Composição, offerecido ao
Serenissimo Senhor D. José Principe do Brazil, etc. Lisboa, Na
Regia Officina Typographica. Anno cio.iocg.lxxix, in-4.^ de
xvi-301 pag. e Erratas, 1 pag.
Possuimos um exemplar.
53.) Dissertação sobre o caracter, qualidades, e antiguida-
des da Musica, em obsequio do admirável mysterio da Immacu»
Ioda Conceição de Maria Santissima Nossa Senhora, feita por,
etc. e por elle recitada no dia 24 de Novembro de 1779. Para
effeito de abrir, e estabelecer nesta Corte huma Aula de Musica
Theorica, e Prática, Offerecida ao Snr. Capitão JoSo António de
Azevedo, etc. Lisboa, ibid. Anno m.dcc.lxxx, in-4.** de 27 pag.
Possuimos um exemplar.
54.) Exame instructivo sobre a Musica multiforme, métri-
ca, e rythmica. No qual se pergunta, e dá resposta de muitas
I
276 BIBLIOGRAPHIA MUSICAL
comas interessantes para o Solfejo^ Contraponto, e Composição:
Seus termos privativos, RegroÃ, e Preceitos, segundo a melhor
Pratica, e verdadeira Theorica, oflfcrecido a Sua Alteza Real
o Senhor D. João Príncipe do Brazil, etc. Lisboa^ Na Regia
officina typograpliica, Anno M.DCC.xc, in-8.® peq. de xx-289
pag. e EiTatas, 2 pag.
Possuímos um exemplar.
55.) Vindicias do Tono, Exame das regras do canto eccle-
siastico. Lisboa, ibid. 1793, ín-4.® de 50 pag.
Este opúsculo foi publicado com as iníciaes F. I. S. do
Valle.
T
THALESIO (Pedro) —
56.) Arte de Canto Chão, com kvma breve Instrvcção pêra
os Sacerdotes, Diáconos, Suhdiaconos, & moqos do Coro, confor-
me ao vso Romano, Composta & ordenada por o Mestre Pedro
Thalesío, Cathedratico de Musica na insigne Vníuersídade de
Coimbra. Coimbra, 1617, in-á.** de ?-136 pag. Impresso era
preto e vermelho. Este titulo foi copiado da 2.* edição, porque
o nosso exemplar da primeira, nao tem frontispício.
Possuímos um exemplar.
2.* edição, com o mesmo título. Agora n*csta segunda im-
pressão nouamente emendada, & aperfeiçoada pello mesmo Autor.
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL 277
Dirigida ao lUustrissimo & Reueredissimo Senhor D3 AffonBO
Furtado de Mendonça, Arcebispo de Lisboa & Gouernador doeste
Eeyno de Portugal; sendo Bispo de Coimbra, &e. Em Coimbra,
Na Impressão de Diogo Gomez de Loureiro. Anno 1628, in-4.°
de xii-136 pag., impresso em preto e vermellio; no frontispicio
em cores, as aimas do Bispo debaixo do barrete cardinalicio.
Possuimos um exemplar.
XXXV.) Compendio d'arte do Cato d'orgao, cotraponto, co-
posição & outras curiosidades da Mtisica. Ms.
V
VALHADOUD (Francisco de) —
XXXYI.) Mysterios da Musica assim practica como especu-
lativa. Ms.
VALLE (F. I. S. do) — Vide Francisco Ignacio Solano.
VARELLA (P."^ Domingos de S. José) —
57.) Compendio de Musica, íheorica, e pratica, que contém
breve instrucção para tirar musica. Liçoens de acompanhamento
em Órgão, Cravo, Cfuitarra, ou qualquer outro instrumento, em
que se pôde obter regular harmonia. Medidas para dividir os
braços das Violas, Guitarras, &c. e para a canária do Órgão.
Appendiz, em que se declarão os melhores methodos d'affinar o
278 BIBUOGRAPHIA MUSICAL
Órgão, Cravo, dkc. Modo de tirar os Bons harmónicos, ou flau-
tados; com varias e novas experiências interessantes ao Contra-
ponto, Composição, 6 á Physica. Porto: Na Typ. de António
Alvarez Ribeiro, Anno x.dcco.yi, in-4.^ de vin-104 pag. e 5
estampas gravadas em cobre.
Possuimos mn exemplar.
Ouvimos dizer a artistas, que este author publicara uma boa
Arte de Contraponto; esta noticia parece encontrar a sua con-
firmação nas palavras de Balbi. {Essai stat., Vol. ii, pag. ccvi.)
TELASCO (Nicoku Dias) —
58.) Nuevo modo de cifra para tailer la guitarra con va-
riedad y perfeccion y se muestra ser instrumento perfecto y
aiundantissimo. Nápoles, por Egidio Longo, 1640, in-4.®
VILHENA (Diogo Dias de) —
XXXVII.) Arte de Cantochão para principiantes. Li-4.®Ms.
Existia na Bibliotheca de D. Jo3o iv.
VnJiA-LOBOS (Hathias de Souza) —
59.) Arte de CantocMo offerecida ao Illustrissimo e Reve-
rendíssimo senhor Dom loam de Mello Bispo de Coimbra, Conde
de Arganil, etc. Em Coimbra, Na Officina de Manoel Rodri-
gves de Almeyda. Anno de 1688, in-4.^ de xvi-214 pag., e 4 de
Lidex ; em caracteres vermelhos e pretos, mas só o titulo.
Possuimos um exemplar que pertenceu á Livraria de Santa-
Cruz.
PARTE II
Ohwmm praticas
A
ÁLVARO (...) —
I.) VespertB Mahdinam et Laudes cum Anttphanis et figuris
musicis de inclyta ac miraculosa victoria in África parte ad Ar*
zillam. 1472. Me.
Mencionamos este livro excepcionalmente, por ser um dos
nossos mais antigos monumentos artísticos.
O mantiscrípto de 9 folhas de pergaminho, encadernado em
bezerro sobre taboas com brochas, estava na Bibliotheca do In-
fante D. Pedro.
Este príncipe é provavelmente o filho do tSo celebre, como
infeliz Duque de Coimbra. Foi Condestavel do Reino e GrSo-
Mestre da Ordem de Aviz e teve relaçSes intimas com o Marquez
de Santilhana.
280 BIBLIOGRAPHIA MUSICAL
B
BOMTEHPO (João Domingos)—
Hymno Lusitano consagrado á Gloria De Sua Alteza Real
O Princijye Regente de Porttigal e Da Nação Portugv£iíM. Mu-
sica de João Domingos Bomtcmpo. NB. A Poesia He de V. P.
N. da Cunha^ foi. de II-83 pag. em grande partitura^ e 1 pag.
com a versão ingleza da lettra do HymnO; por G. Manners, Esq.
Fazemos para esta obra, uma excepção do systema seguido
até aqui; pelas circumstancias particulares do nosso exemplar;
foi este o proprio; offerecido pelo author ao Principe Regente,
mais tarde D. João vi ; a encadernação magnifica de marroquin
vermelho, dourada na frente e no verso, por dentro e por fora
das capas, assim como nas costas, tem a bem significativa in-
scripçSo, em lettras douradas :
A. S. A. R.
O Pbincipe Regente N. S.
offerecido
pelo seu mais humilde e fiel vassallo
JoXo Domingos Bomtempo.
A gravura da obra é muito esmerada, e conheee-se pelo
typo, que foi feita em Inglaterra, assim como a magnifica enca-
dernação; em estylo empire.
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL 281
Este exemplar dourado por folhas, foi tirado em papel supe-
rior, porque vimos um outro em papel mais^ ordinário, e pertenceu
decerto a algum dos ai-chivos reaes ; compramol-o o inverno pas-
sado, em casa do livreiro António Rodrigues.
G
CARDOSO (Manoel) —
1). Pasgionarium juxta CapdlcR RegicB Luntanca eonsuetu-
dinem Accentíi» rationum integre óbservans. Leiriíe, per Anto-
niimi Mariz, 1575, foi.
CARDOSO (Fr. Hanoel) —
2.) Livro de Magnificas a 4 e 5 vozes, Lisboa, por Pedro
Craesbeck, 1613, foi. gr.
3.) Livro de Missas, quatemis, quinque et sex vocilms. Olys-
sipone, apud Fetnim Craesbeck, 1625, foL gr. Dedicado ao Du-
que de Barcellos, depois D. JoSo iv«
4.) Misses quatemis et sex vocihus, líber secundus* Ibi, apud.
Laurentium Craesbeck, 1636, foi. OíFerecido ao mesmo principe,
sendo Duque de Bragança.
5.) Misses B. Virginis quatemis et sex vocihus, líber tertius
aã S. C. i?. Majestatem Philippi IV, Hispaniarum Regis ac novi
Orbis Imperatorem, Ibi, apud eumdem Typograph. 1646, foi. gr.
282 BIBLIOGRAPmA MUSICAL
* 6.) Livro que compréhenie tudo quanto se canta na Semana
JSanta. Lisboa^ por Lourenço Craesbeck, 1648} foi. Ofiferecido a
D* JoSo IV.
CHRISTO (Estevão de)—
7.) Liber pasríonvm 1593, per Ântoníum de Maríz.
2.* edição :
Liber Passionvm et eorvm qvce a dominica in palmis,
vaque ad Vésperas Saòbathi sancti inclusiué, cantari solent: dir
ligentissimí correctas, dk locupletissimê actus: inprimis singulo-
mm verhorum Accentti studiosissimê spectaio. Avctore Fratre
Stephano ex sacra lesv Cíhristi seraatoris nostri Militia. Ad
D. Alfonsum de Castelbranco Epíscopum Conimbrie» &c. Olis-
sipone. Excudebat Simon Lopezius cum &cultate Liqnisitorum.
Anno 1595; foi. de iv-lxxxvi numeradas de um só lado*
O author aproveitou muito para esta obra, o Passionarium
mais antigo de Manoel Cardoso.
O livro está bem impresso, em caracteres vermelhos e pre-
tos; no meio da pagina do írontispicio, vè-se a Cruz de Christo,
em vermelho.
Possuimos um exemplar.
COSTA (Félix José da)
II.) Musica revelada de Contraponto e composição que com-
prehende varias Sonatas de Cravo, Rebeca e vários Minuetes
e Cantatas. Ms.
BIBLIOGRAPHIÂ MUSICAL 283
E
ESCOBAR (Joio de)—
8.) CoUeeção de Motetes. Lisboa, 1620, in-4/
F
FERMOSO (João Fernandes) —
9.) Passionario da Semana Santa. Lisboa, por Luiz Alva-
res, 1543, foi.
FONSECA (D. Fr: Joio Seixas da) —
10.) Sonatas de Cravo, compostas por Ludovico Justino da
Pistoya. Florença, 1732.
a
GARCIA (Francisco) —
11.) Missas de vários Tonos. Lisboa, por Pedro Craesbeck,
1609, foi.
284 BIBUOQRAPHIA MUSICAL
60ES (Damião de)—
Cauciones septem, sex et guinqtie vocum. Longe gravissínKB
justa ac amemssinKB, in Germânia maxime hactenus typis non
excuscs, AugustSB Yindelicorum, Melchior Kriesstein excudebat;
anuo 1545, peq. iii-4.® obl.
Nesta raríssima coUecçao, cncontra-sc um Motete de Damião
de Góes, e um outro, no Doãecachorãon de Glaréan, Basilse per
Henrichum Petri. mdxlvii, foi.
J
D. JOÃO IV—
Psalmi tum Vesperarum, tum Completorii. Item Magnificai,
Lameniaiianes dk Miserere. Rom», Typis Mauritii et Amad»i Bel-
montiarum, 1657, in-4.,® gr.
N'esta coUecçSk) de obras de Jo3o Lourenço Rebello, encon-
tram-se dous Motetes de D. João iv; mn outro, na seguinte obra :
Anthologie universelle de Musique sacrée, repeHoire de»
Maitres des xv.™, xvi."*, xvii."**, xviii.*"« et xix."* siècles par
Qeorges Schmitt. Paris, 1869, 1.* Serie, vol. vii.
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL 285
L
LOBO ou LÚPUS (Duarte ou Eduardus) —
12.) Officium DefunctorvM, em Cantochão. Lisboa^ por
Pedro Craesbeck, 1603, in-4.^
13.) Canticwn magnificai quatuor vocibus. AntuerpiíB, ex
Officina Plantiniana Moreti, 1605, foi. gr.
14.) 5. Marias Canticum: Magnificai quatuor vocibus.
Antuerpise, apud Joanes Moretum, 1611, foi. gr.
15.) MisscB quatuor^ quinque, sex ei octo vocibus, Ibi, apud
Balthazarem Moretum, 1621, foi. gr.
16.) MÍ88€R quatuor^ quinqxie ei sex vocum. Ibi, per eum-
dem Typ. 1639, foi. gr.
M
MAGALHÃES (Felippe de) —
17.) Missa qttatuor, qtiinque^ et sex vocibus constantibus.
Ibi, per eumdem Typogr., 1635, foi. max.
18.) Cantica beatissimoi Virginis, Ulyssiponc, apud Lau-
rentium Craesbeck, 1636, foi. max.
19.) Litania cxim quatuor vocibus. Vera no fim da 3.* edi-
ção do Cantum ecclesiasticum, Antuerpise, 1691.
286 BIBLIOGRÂPHIA MUSICAL
MORATO (João Vai Barradas Muito Pio e) —
20.) Domingas da Madre de Deuê e exercidos quotidianos
revelados pela mesma Senhora» Lisboa, ITSS, na Officina da
Musica.
Esta obra foi publicada com o pseudonymo de Joio Gonçal-
ves da Silveira.
MOURA (Pedro Alvares de) —
21.) Um livro de Motetes a 4, 5,6 e 7 vozes. Rom», 1594|
apud Nicolau Mutinum. Foi dedicado a Paulo Sforza.
P
PIMENTEL (Pedro) —
í Livro de Cifra de varias obras para se tangerem no Ór-
gão, f
Machado julga que fôra impresso.
POUSÃO (Fr. Manoel) —
22.) Liber passionum et eorum, quce a Dominica Palmarum
usque ad Sabbatum Sanctum cantari solent. Lugduni, apud Pe-
trum Guilliminis^ 1576; in-fol.
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL 287
R
REBELLO (João Lourenço ou João Soares) —
23.) Psalmi tum Vesperarum, tum Completorií. Item Ma-
gnificat, Lamentationes, et Miserere* Rom», Typis Mauritii et
Amadflsi Belmontiarum; 1657, in-4.^ gr»
RESENDE (André de) —
24.) Officium et Missa Sanctce Elisabeth(B, Regina Portu-
galice. Ulyssipone, 1551, in-8.**
25.) Officium et Missa Sancti Gundissalvi a Amarantho.
Não sabemos nem o logar, nem a data da impressão, mas
pela carta do próprio André de Resende, sabemos que ambos os
Officios foram impressos.
V
VULA-LOBOS (Hathias de Sousa)
26.) Inchiridion de Missas solemnes, e votivas, e vesporas
das selébridaães, e festas de todo o anno, com os Hymnos novos,
e cantocham novamente emendado, <è as festas todas, ad exten-
sum. Kyrios, Gloriai, Credos, Sanctus, & Agnus Dei, pêra to-
das as festas; Officio inteiro pêra toda a Semana Santa; Officio
288 BIBLIOGRAPHIA MUSICAL
de Defuntos; & outras commemoraçdens varias; & no fim hum
extracto de tudo o que se deve observar quando os Prelados vam
visitar as Igrejas de seus Bispados, Offerecido ao Illustríssimo
e Reverendíssimo senhor D. Joam de Mello, Bispo de Coimbra,
Conde de Arganil, etc. Em Coimbra: Na Officina de Manoel
Rodrigues de Almeida, Anno de 1691, in-folio gr., de II-6-241
pag. duplas (482) em caracteres vermelhos e pretos.
Possuímos um exemplar.
PARTE III
0bras de disciplina arilsIIeo^ecelealasUca
A
AmnmCIAÇÃO (Fr. Cabnel da)—
I.) Manucd e Ceremonial do Canto. Ms. que preparava par
ra a impressão.
G
CHAGAS (Fr. Felipe das)—
1.) Manual para todo lo qtie se canta fuera dei Coro con-
forme el uso de los Frailes y Monjas dei Sagrado Orden de Pe-
nitencia de N. P, 8, Francisco dei lieyno de Portugal y Castil-
la. ?. in-8.^
19
290 BIBLIOORÂPHIÀ MUSICAL
CHRISTO (Fr. Estevfo de)—
2.) Manvale par eommvnicandtê, vngendiij. • • Vljssipone.
1621.
NSo vimos esta ediçSo, mas devia ter existido em vista do :
Nunc vero datum typiè, da segunda ; além d'is80; nSo é crível que
tendo a licença sido dada a cl2 de Nouembrode 621» (1621), o
livro apparecesse só dois annos depois.
2.* edição.
Manvale pro cammvnicandtê, vngendis^ et sepeliendiê fror
tribvê, ordinis mUitíce leêv Christu Compoeitvm jvondam a P.
Fr., Stephano eiutdem Ordinis Sacerdote Theologo. Nuno verd
datum Typis, de mandato Reuerendissími P. Fr. Andrece Pa-
checo totitu MiliticB Generaliê, Sf Conuentus de Thomar Domini
Prioris. Vlyssipone. Apud Petrvm Craesbeeck Regimn Typo-
graphmn, Anno M.D.c.xxin.; in-4.^ dein-51 pag., numeradas de
um só lado.
O Livro é impresso em caracteres vermelhos e pretos ; no
meio da pagina do frontispicio, assim como no verso da ultima,
a cruz de ChristO; em vermelho.
Possuimos um exemplar.
CONCEIÇÃO (Fr. Hanoel da)^
3.) ManuaU eeraphicum. • . 17* •?
Baseamos a existência doesta ediçSo que nSo conhecemos,
nas palavras ãenuo auctum cum variis, etc. da ediçSo de 1732,
1.* Parte; esta, nSo traz indicaçSo de ser segunda, emquanto que
a de 1746, diz claramente: Editio secunda; nSo sabemos' o que
se ha-de concluir d'ÍBto, a nSo ser que o impressor da ediçXo de
1746, ignorasse a existência da anterior á de 1732, e julgasse ser
esta ultima, a 1/
BIBLIOaRAPHIA MUSICAL 291
2/ edição.
Manuais teraphicum et ramantmj juxta usum fratrtmini-
noTum, denuo auctum Cum variis ProcessianibuSjBenedictiohi''
luB, ék OrationiJms, aliisgue multis; nec non RittlnM ad Sacra-
mentum Baptismi parmdorum, ac adtãtorum ministrandum. Pri-
ma et secunda Fars. 0£Fertum Matri Divini Yerbi Mari» Sine
labe peccati conceptae, etc. Ulyssipone occidentali, Ex Typogra-
phia Musie». 1732. Pars prima, in-4.^ de xiv-317 pag.
A segunda parte tem um titulo um pouco differente, sic:
Manuale romanum serajicum, et romanwn, ad usum prosei"
pue Fratrum Minorum, ac Monialium ejusdem Ordinis, in alma
Provinda Algarbiorum 8. P, N. Francisci. Includens omnia
pertinentia ad receptionem habitue Noviciorum, tam Fratru,
guam Monialium, nec non Ritue ad Exéquias Defunctorum, &c^
Pars secunda, ibid. 1732, in-4.'' de u-332 pag.
Possuímos um exemplar.
3.* edição. Editio secunda (?) correctior, & aucta.
Manuale romanum-seraphicum Ad tuum Fratrum Minorum
Almae Provindes Algarbiorum Ordinis Saneti Francisd. Peru-
tile etiam Parochis, et aliis SacerdotiJms sceeularibus, Ubi plu"
rima inveniuntur ad Divinum cultum spectantia; proscipue Pro^
eessiones. Preces rogativce, Commemoràtiones, Orationes, Lita-
nias, Offidum defunctorum; Bitus administrandi Sacramenta
Baptismi parvtdis Sf adultis, Eucharietice, Extrenueque Unctio"
nis; Ordo sepeliendi Religiosos, 8ç sasculares, modus conferendi
habitum Fratrihus, Monialibus, ^ T^ertiariis, Exordsmi varii,
nec non selectissimce Benedictiones juxta RitumS. R. Eccledce,
Pars I et ii, etc. Olyssipone, Ex Prselo Bemardi Femandis Gayo,
Husicad Typ. Anno 1746, in-4.** de xiv-338 pag.
293 BIBLIOaRÂPHIÂ MUSICAL
A 2.* Parte, com o mesmo titulo, até: De Ahaoltitíantbuê, For-
ma eanferendi Hábiiu» A Benedictionibiu» Pars Beconda. Ulys-
sipone. £x Fr»lo Michaelis Manescal da Costa, Sanctí Officii
Typographi. Aimo 1746, in-4.^ de 284 pag.
PossoimoB um exemplar.
CONVERSÃO (Fr. Raymimdo da)—
4.) Manvcd de tvdo o que se canta fora do choro, conforme ao
uzo doa BdigioBOB <è BeligioMs da sagrada ordem de Penitencia
de nosso Seraphico Padre São Francisco do Eeyno de Portugal.
FeUo P. Fr. Raymviido da Converçam. Em Coimbra, Na Offici*
na de Rodrigo de Carvalho Coutinho, Impressor da Vniversida-
de, Anno de 1675, in-4.^ de vui-485 pag. e 5 de Index.
Possuimos um exemplar.
COSTA (Ayres da) —
5«) Cerimonial da missa, cânones penitenciaes, da huUa in
cena âSíi, modo como se ham de ministrar hos sonetos sacramentos
da eucJuiristia e matrimonio. Lisboa, 1548, por GermSo Galhar-
de, in-4.* de 8-XLvn pag., foi. goth.
D
fiimz (Joio)—
6.) Manvalemts9alÍ8 romani... Conimbrica), 1575, (a) in-4.'
BIBLIOaRÂPHIÂ MUSICAL 298
2/ edição.
Manvcde mtssalis romani, ex decreto saeroeancti eoneilii
tridentini restitvtvm, nunc ad Literam excerptum ^ Impressum.
Cum Kalendario Oregoriano: ^ itísau 3. D. JV. Sixti PP. F.
áliquot Sanctorum festis aueto* Huic de nono adiungitur Ordo
celebraadi septem Ecclesi» Sacramenta^ ex nona Romana con-
Buetadine depromptus, & nostra materna lingua cSscriptos. Co-
nimbricse Typis Ántonius à Mariz, ÂrchitypographiiB Regns. (b)
Anno. M.D.L.XXXXI; in-4.^ de x-170 pag. em caracteres verme-
lhos e pretos; no firontispicio entre a cruz de Christo e a esphera,
uma coroa ducal atravessada por 3 settas.
Possuímos um exemplar.
(a) Por ÂlTará de 20 de Outubro de 1574 concedeu el-rei D. Sebas-
tiSo licença a Luiz Martel seu livreiro e a António de Maríz, para imprimir
o Manuale,
(b) Erro do original*
L
LOBO ou IiDFUS (Duarte ou Eduardus) —
7.) Liher Processionum et Stationum ecclería Oltf$»{ponen$i$
tn mãiorem formam redactus. inyssipone, apud Petrum Craes-
beck^ 1607, foi.
294 BIBLIOGRAPmA MUSICAL
M
Hl&ALHÃES (FeUppe de)—
8.) Cantum ecclencuticum cammendandi animas eorporaque
êepeltendi defunctorum; Missa et stationes juxia ritum sacro-
sanctce RomatuB EcclesuE breviarii missalisque Romani Clemeniiê
VIII et Urhani VIU, recognitionem ordinata. Lisboa, 1641; (a)
in-4.^
2.* edição.
Com um fi'ontispicio differente. Ibi. 1642; in-4.® por António
Alvares.
3. edição.
Cantum ecclesiasticum prcBcibtis apud Devm Animas ju-
vandij corporaque humandi Defunctorum Officium, Missam et,
Stationes, juxta ritum sacrosancta^ romance ecclesics omnium ec-
desiarum Matris et Magistral: Juxta Breviarij Missalisgue Ro-
mani novissimam recognitionem. Conficiebat Philippus Magala-
nicus; in régio sacello capellanus meritissimus; Mesochorus Eni-
ditissimuS; ad instantiam Sacerdotum pauperum Ulissipponen-
sium Confratemitatis SanctissimxB (Trinitatis Et ipse Sodalis.
Nane denao In hac postrema editione à mendis luculenter casti-
gatum; affluenterque illustratom samptibus ejusdem confrater-
nitatis ín lacem prodiit. Antverpi»; Apud Henrieum a Ertssens
Typographum MusiceS; sub signo Montis Pamassi; 1691; in-4.®
de iy*213 pag. Bella ediçãO; em caracteres yermelhoB e pretos.
Possuímos um exemplar.
Ha uma outra ediçSo muito posterior :
BIBLIOGRÂPHIÂ MUSICAL 2»5
Cantícum^eUiuutieum ^ AEssam celebranii,
Juxta Ritum Sacrosanctce EomatUB Eccleríce, amnium Ecclesia-
rutn Matriê, Sf Magistrm. Conficere satagunt Moderationes con-
fratemitatís B. V. Marí» sub titulo AssumptioiíiSy Beatoramque
Petri ad vincula, & Philippi Nerii Civitatis Portucalensu. Ad
usam, & instantiam Clerícorum, Fratromque m Sacro eorundem
Sacelloy & Confratemitate Sodalinm. Olissipone Typis Patriarch.
Francisci Aloysii Ameno. ICDCC J^zxxy, in-4.^ de 208 pag.
PosBoimos un exemplar.
Ía) NSo podemos dôxar de notar a partienlaridade de estarem, na edl-
e 1691, as licenças passadas a 13 e a 16 de Dezembro de 613 (1613) !
verá talves algmna ediçSo anterior á de 1641?...
MARTTRES (Fr. Veriisimo dos) —
9.) Director ecclesicutico doê ceremonioB de cinza, ramos,
e de toda a Semana Santa, conforme as rubricas do Missal Ro-
mano, e Decretos da S. Congregação de Ritos, com todo o Can-
tO'chão, que nos sobreditos dias se deve cantar. Dedicado á Se-
nhora D. Maria Brígida de Sande e Vas-concellos. etc. Lisboa:
M.DCCLV. Na Offic. de Joseph da Costa Coimbra, in-4.^ de Tm-
407 pag. Protesto no fim.
Possuimos um exemplar.
NSo sabemos se houve mais ediçdes.
10.) Director fúnebre de Ceremonias na administra^ do
sagrado maiico, Extrema-Uncção €u>s enfermos. Enterro, Offieio
dos defuntos. Procissão das Almas, e outras funestes pertenceU'
tes aos mortos, com o Canto, que em todas se deve observar, eítc.
Lisboa: m.dccxijx. Na Offic. de Joseph da Costa Coimbra,
in-4.^ de vi-294 pag.
Possuimos um exemplar.
296 BIBLIOaRAPHIA MUSICAL
2/ edição; uSo conhecemos.
3.* edição:
Esta^ já é correcta, e augmeniada por Fr. Francisco de Je-
sus Maria Sarmento. Vide este nome.
Director fúnebre reformado para se officiar, e administrar
com perfeição o Sacrosanto Viatico, Extrema^Vhção aos enfer-
mos. Enterro, Officio de Defuntos, Procissão das Almas, e outras
funções pertencentes aos mortos com o próprio Canto, que nel-
las se deve observar, segundo o Ritual Romano de Paulo V, De-
cretos Apostólicos, 8fc. Lisboa Na Regia Officina Typographica.
Anno M.DCCLXXV, in-4.*» de iv-311 pag.
Seguem-se ediçSes successivas; até a 6^ impressão correcta
e accrescentada. Ibid. Na Officina Patriarcal de João Procopio
Corrêa da Silva. Anno h.dcc.xcix, in-4.^ de iv-337 pag.
Possuimos um exemplar.
MILHEIRO (António) —
11.) Rituale Romanum Pauli Vjussueditumsuhjunctacan-
iuque ad generalem regni consuetudinem redacto. Conimbric»,
apud Nicolaum Carvalho^ 1618; in-4.®
Este livro teve numerosas ediçSes, conhecemos além d^esta^
as seguintes:
Processtonale juxta ritualis Rcmani Pauli Vpontificis ma-
ximijussu edituM. Conimbricse, Ex Typ. Antonii SimSes Fer-
reira, Universitatis Typogr. Anno Domini, 1740, in-4.^ gr. de
m-164 pag.
Possuimos um exemplar que tem um accrescentamento de 8
pag., com Antiphonas e Hymnos em CantochSo, á Virgem, a
S.*^ Agostinho, a S. Theotonio, etc. Lisboa, 1832, na Typogra-
phia regia.
BIBLIOaRAPHIA MUSICAL 297
Proeemonc^e juxta formam ritualis romani, PavUi Vpofi'
tificiê maximijussu editu Lisbonse^ 1749; in-4.^ de 151 pag. e
IndeX; apud Josephuin da Costa Coimbra.
PossuimoB um exemplar onde vem conjunctamente o Pro'
ceasionale colimbricensis ecclesiiB in quo eontinentur diversa Res^
ponsoria et AntiphoncB, qvm pro Stationihus ejusdem Ecch"
sice Cathedralis eantari solent in Dominicis de Feetivitatilms:
Excellentissimi Domini D. Michielis ab Amiuntiatione ipsíus-
met Ecclesia) zeloBissimi Episcopi jussu ex antiqnis Processio-
narÍB ad hoc in meliorem eantmn translata. Lisbon», 1750|
in-4.^ de 75 pag. e Index^ apnd Josephum da Costa Coimbra.
MOURA (P.« José Lais Gomes de)—
? Ritual das exéquias j extrahido do Ritual romano ao qual
se ajunta a missa de Requiem, com os ritos e cerenumias parti-
culares.
NSo sabemos se foi impresso, ou se ficon manascripto.
P
PÁDUA (Fr. João de)—
12.) Manuale Chori secundum uswm Fratrum Minoram et
monialium S» Claras, ntmc denuo correctum et in multis au-
ctium, juxta Missale et Breviarium Romanum Pij V. Pont.
Max. et Ciem. VIII autoritate recognitum. Lisboa, 1626, in-4«®
de xii-506 pag.
298 BmUOGRÁFHIÂ MUSICAL
R
RESEHDE (André de) —
Bretnarium eboreMe. Lisboa, 1548, por LuizBodrigaeB.
ROSÁRIO (Fr. Domingos do)~
13.) Theatro ecclesioitteo. em qus êe acham muitos documen-
to$ de Canio chão para qual juer pessoa dedicada ao CvUo Divi-
no nos Officios do Coro, e Altar. Offerecido á Virgem Santíssi-
ma Senhora Nossa Com o Soberano Titulo da Immaculada Con-
ceyçam, venerada em huma das capellas collateraes do Begio
Templo de Nossa Senhora, e Santo António, junto á Villa de Ma-
fra. Exposto por seu author. . • Dado ao Frélo por José Qomes
de Oliveira. Lisboa: Na Officina Joaquinianna da Musicado
D. Bernardo Femandez Qayo, morador na Rua das Mudas.
M.DCC.XLin, in-4.^ de xxxii-(innumerada8) 383 pag.
A ordem assaz complicada das zxxii pag., nSo numeradaS|
é a seguinte:
Titulo, II — Dedicatória á Virgem, iv — Argumento ao lei-
tor, VI — Licenças, xi — Versos encomiásticos, vn — Index^ il.
Possuímos um exemplar.
2.* edição, com o mesmo titulo. Dada ao Prelo pelo Bene-
ficiado António Ferreira de Abreu Amigo do Author. Segunda
impressam, e mais augmentada. Lisboa: Na Officina de Fran-
cisco da Silva. Anno mdccli, in-4.^ de v-(innumeradas) v-(na-
meradas) 442 pag.
Possuimos um exemplar ; n^esta ediçSo, faltam as Licenças,
os Versos encomiásticos ao author, a ExplanaçSo sobre a origem
BIBLIOGRAPHIA MUSICAL 299
do CantochSo, e a IntrodacçSo ao Theatro Ecciesiastico ; o pro-
logo foi abbrevlado; mas em compensação enoontra-se n^esta edi-
ç5o, uma Arte de Canto de Órgão para PrineipianUê, que oceu-
pa as y pag. numeradas.
d.* edição; nSo a conhecemos.
4/ edição. Dado ao prélo^ e por conta do Doutor o Padre
José Corrêa Froys. Lisboa: na Officina de António Vicente da
Silva. UDCCLXV, in-4.^ de xn-(innumeradas) 499 pag. NSo trás
a Arte de Canto de OrgSo ; no resto^ conforme á antecedente,
apenas com umas Licenças para a reimpressSo e um Privilegio
de D. José.
Possuímos um exemplar.
õ.*" edição; nSo a conhecemos.
ô.*' edição. Novamente correcto, e accrescentado com o Of-
ficio do Natal, Missa do SS. CoraçZo de Jesus, Missa pro Pace,
Missa votiva do SS. Sacramento, dous Officios de Sepultura,
EstaçSes pro Defimctis, Preces para qualquer necessidade, e
Antiphona Alma Redemptoris Mater, pelos Religiosos da mes-
ma Provincia. Dado ao prelo pelo Illustrissimo, e Excellentissi-
mo Senhor Duque de Cadaval, Syndico Geral da' sobredita Pro-
víncia. Lisboa. Na Officina Luisiana. Anno m.dcc.lzxix, in-4.^
de xii-677 pag., e 2 pag. com o privilegio.
Possuímos um exemplar.
7.* edi^. Novamente correcto, e accrescentado com a Mis-
sa para a Festa das Chagas de N. S. P. S. Francisco ; para a
Festa do mesmo Santo Patriaroha; para a Festa da Immaculada
Conceição; e para a Festa de Santo António, segundo o Missal
Seráfico: Kyrios, &c. para as Festas solemnes; Antifonas Ave
Regina Ccelorum, &c. Salve Regina ; e a do SS. CoraçSo de
Jesus, pelos Religiosos da mesma provincia. Dado ao prelo,
300 BIBLIOaRAPHIA MUSICAL
etc. Lisboa Na Officina de SimSo Thaddeo Ferreira. Anno
H.DCC.LXXXII9 in-4.^ de xn-708 pag.; e 2 de Privilegio.
Possuímos um exemplar.
8.* edição: Novamente dividido (a) em 2 partes. Parte pri-
meira, em que se trata dos officios do Natal, Semana Santa, Offi-
cio de Defuntos com Missa, EstaçSes, Officios de Sepultura,
ProcissSes, PaixSes, Preces, Antifonas, &c. tudo correcto, e ac-
crescentado com as Matinas da Páscoa da ResurreiçSo, e Nona da
Ascenç2Lo de Christo. Dado ao. . . etc. Lisboa: Na mesma Offi-
cina. Anno M.DCC.LXXXYi, in-4.^ de yin-552 pag.
Parte segunda, Novamente dividida, em que se trata de to-
das as Missas Dominicaes desde a primeira Dominga do Adven-
to até á ultima depois de Pentecostes, Festas de Christo, de
Nossa Senhora, Missas próprias de Santos, e dos Communs, Kj-
rie. Gloria, &c. para todas as Solemnidades. Tudo correcto, e
accrescentado com as quatro Missas das Domingas Infra octavas
do Natal, Epifismia, AscençSo, e Corpus Christi, Vigilia de Pen-
tecostes, vinte e três Domingas depois de Pentecostes, sinco de-
pois da Páscoa, três depois da Epifania, Transfigura^ de Chris-
to, ExaltaçSo da Cruz, Anniversario de DedicaçSo da Igreja, e
do Patrocínio de S. José para os Regulares. Lisboa: Na mesma
Officina. Anno x.dcc.lxxxvi, in-4.^ de T-573 pag. e 2 de privi-
legio.
Possuímos um exemplar.
(a) Note-se que este novamerUt dividido^ nada significa, pois que esta
ediçAo, é a 1.* que appareceu em dous volames.
BmUOaRAPHIÃ MUSICAL 301
SARMENTO (Fr. Francisco de Jesns Maria) ~
14.) Directório sacro deu ecclesiasticas ceremonicLS da ften-
ção 6 procissão das candêcUj dasolemne imposição das cinzas; da
lenção e procissão dos ramos; e de todos os Offictos da Semana
Santa até Terça-Feira de Pcuchoa inclusive. Lisboa^ na Regia
Officina Typ. 1772, in-4.^ de vi-350 pag,
2.* edição. Ibid. 1794, in-4.*
Âlém doesta obra, reformou e augmentou o Director fune^
hre de IV. Veríssimo dos Martyres successivamente, desde a 3.^
até á 6.^ edição, a ultima que conhecemos.
SILTEIRA (Fr. Plácido da)—
15.) Processionale ex Misscdi, ac Breviário Romanis, ab
Pio F. reformatisj decerptum; in quo, quanta máxima fieri po-
tui diligentia, characterum, Sf accentum (id guod in musicisplu-
rimum habet momenti) ratio observata est. Per P. Fr. Placidum
da Sylveira, etc. Conimbric»: Ex Typog. in Begali Artium
Gollegio Societatis Jesu, Anno Domini, 1721, in-4.** de viii-100
pag-
Possuimos um exemplar que pertenceu á Bibliotheca de
S.*» Cruz.
RECAPmiLACAO
Designação
PAETE I
0BBÁ8
2
•-=3 O
EDIÇÕES
P3 O
PABTE n
OBBÁS
EDIÇÕES
PAETE m
OBBAS
S
•3
3
s
3
EDIÇÕES
;^ CS
p5 o
Obras impressas . . . .
• maouscriptas.
> duvidosas. . . .
58
38
2
36
1
74
44
Soinma . . .
98
37
74
44
26
2
1
27
15
1
1
10
38
20
29
27
17
10
38
20
TOTAL DAS TRÊS PABTES
Designação
OBBAS
EDIÇÕES 1
È
•
is
B
Ha Biblioth.
do aathor
Pabte I — Obras theoricas
58
26
15
36
2
10
74
27
38
44
2
20
» n — » Dracticas
> in — > de discipl. artíst-eccl.
Total.....
99
48
139
66
Obras mannscríptas em Lisboa, nos secnlos XVn e xvui
PARTE I
Bibliotheca de D. JoSo lY
Bibliotheca de Francisco de Yalhadolid
H.«
▲UTHOBBS
H.«
▲ITTH0BE8
T
VI
vn
XXIII
XXIV
XXXIII
XXXVII
Estevão de Brito.
D. Agostinho da Cruz.
D. JoSo iT.
Tristão da Silva.
Diogo Dias de Vilhena.
VIII
IX
XIV
XVI
XIII
Gaspar da Cruz.
António Fernandes.
PARTE n— Bibliotheca do Infante D. Pedro
K.«
AUTH0RE8
Álvaro.
EPILOGO
Eis-nos chegados ao fim do longo caminho ; devemos porém
antes de conduir, dar algumas explicações ao pequeno, mas elo*
quente quadro que acima construimos.
Como se vê, a nossa Bibliographia mu$iaã, nSo é nem tão
pobre, nem tSo mesquinha, como se devia julgar pelas poucas
migalhas que d'ella appareciam á luz. A Parte i apresenta 58
obras impressas, algumas secundarias, outras mais valiosas, e
emfim para gloria da nossa Arte, bastantes de grande merecimen-
to, mesmo iluz d'este século; 38 obras destruídas ou perdi-
das I . • • eis o triste balanço que se nos depara pelo outro lado ;
debalde consultamos os in-folios de quatro séculos para desço*
brir os seus restos, se elles por ventura escaparam á voragem do
tempo.
Em vida de Barbosa Machado, pouco mais ou menos, ainda
existiam na Bibliotheca de D. JoSo iv, 8 d'esses preciosos tra-
tados, e anteriormente, no meado e fim do século xvii, 5 Manu-
scriptos autographos, na escolhida Livraria do nosso Francisco de
Valhadolid.
Este artista era natural da ilha da Madeira, e p6de ser que
se tivesse tido ahi a sua Bibliotheca musical, os preciosos auto*
to
306 EFUiOOO
I
graphoB escapasBem i mina; esta liypot&ese| por muito esperan-
çosa que ella seja, parece-nos pouco provável, porque Francisco
de Valhadolid, passou a nuâor parte da vida em Lisboa, e exer-
citando ahi a sua Arte, é natural que estivesse rodeado dos seus
livros de estudo.
Pôde ser todavia que esta nossa supposiçlo estimule o brio
de algum bibliophilo insulano, e o anime a louváveis investi-
gaçSes.
Bestam na Parte n mais 2 obras, de que nlo ha informa-
çSes exactas. Um »ó manuscrípto escapou ; só um de entre 37, e
felizmente está em nosso poder como reliquia d'essa esplendida
Bibliotheca de S.^ Crus que encerrava tantas preciosidades mu-
sicaes ! (a)
A Parte n da BMtographia, apresenta-se com um aspecto
mais modesto ; 26 obras impressas, 2 manuscriptas e 1 duvidosa;
a nossa collecçSo n'esta parte, está ainda muito incompleta, já
pela maior raridade d'essas obras, que em geral tinham uma pe-
quena tiragem, já porque muitas d'eUas foram impressas no es-»
trangeiro, Itália, Paizes Baixes e França. Essas 26 obras po-
rém, representam outras tantas collecçBes de Mismu^ MotetêSj
Magnifieati, Pêolmoê, etc., que sommados, dSo ainda um bom
numero de composiçSes. Entre os 2 manuscriptos encontranse um
dos nossos primeiros monumentos artísticos, o importante auto-
grapho do musico Álvaro, (1472) que existia na Bibliotheca do
Infiante D. Pedro e que devemos considerar como perdido. • .
Na ultima Parte, contam-se 15 obras mais ou menos inte-
ressantes e que poderSo servir vants^osamente para uma Hiêto^
ria da Musica sacra; a grande extracção que se fazia dos livros
eoUocados aqui debaixo do titulo: Obra$ de discijplina ar-
tiêtico-ecclesiastica, que por tratarem da disciplina monachal,
EPILOGO «07
iwnumef^ oompradoies -«-* permittiu-noa adquirir tuna
ooUec^ quaai completa com relaçBo ao numero de obras publi-
cadas, e ainda mais rica, se contarmos o namoro de edíçSes.
A ReeapUwlação indica-nos para as 3 Partes, 99 obras im-
pressas com 139 ediçSeSy e parece que ao presenciar o silencio
d'aqueUes que deviam fallar, nos vemos reduzidos a mendigar de
porta em porta, a esmola alheia* Se o que ahi fica escripto, iJo i
riqueza* . • ji é muito, para o pouco de que nos julgaram capa-
zes; é o fiiicto de um nobre trabalho, e a prova eloquente de
uma civilisaçSo artística que aqui floresceu. • • civilisaçSo hoje
morta, é verdade ; se até aqui, e sempre, e sempre, nos havemos
de lembrar só do passado!
Mais duas palavras e serSo as ultimas»
Consideramos esta obra ainda muito imperfeita debaixo de
certos pontos de vista; nSo temos o poder do i¥ae//... eisarasSo
das três palavras do principio LicJUl Lichtl Lichil Desejamos a
luz, e trabalhamos para que ella se £Biça ; os nossos estudos con-
stantes estSo-nos revelando diariamente cousas esquecidas e des-
conhecidas, o que determina uma riqueza relativa em progressi-
vo augmento ; o tempo trará á luz do dia a semente fecunda, que
esses campos incultos e até hoje ignorados, ainda encerram.
Alguma cousa fica feita n'este trabalho ; as centenas de> pa-
ginas d'e8tes volumes, nSo foram escríptas por meras fabulas ; nSo
foram inventadas, nSo enfeitamos os fiictos com Salsos adornos ;
estSo a nú, como a verdade nol-os apresentou.
Estamos hoje já quasi ligados á tradiçSo da Historia geral
da Arte; é de razSo que nos fiiçam agora justiça; em nome d'd-
la pedimos o logar modesto é verdade, mas honroso, que deve-
mos ter ao lado da Hespanha, nossa irmS.
308 EPILOOO
Adyertimos por ultimo o publico de uma ciíeumstancia ; ha
mezesy talvez em Abril ou Maio d'este anno, attribuia-nos o Dto-
rio Popular umas outras obras^ que dava em elaboração ; vamos
rectificar a descoberta do noticiarista indiscreto ; trabalhamos é
verdade, hoje, com mais amor e enthusiasmo do que nunca, porém
nada promettemos, por nSo sabermos até aonde nos será dado cum-
prir a promessa.
Devemos esta declaraçSo á sinceridade das nossas inten-
ç8es e & boa fé do leitor.
(a) N^esta magnifica Bibliotheca, riquissima em todos os ramos da bi-
bliof^phia, e roubada por quanto ladrão lnbliama$M houve em Coimbra,
estavam na parte musical, 00 tratados mais preciosos e mais raros ; voltare-
mos ainda sobre este assumpto.
FIM.
VOLUME I
XVII
9
12
27
35
45
9
46
54
:^
56
70
93
120
163
177
217
224
243
244
9
248
250
9
267
275
284
9
285
286
29
14
1
32
16
22
27
28
29
24
11
13
17
19
28
1
25
13
31
8
9
22
36
5
10
24
21
15
28
30
18
31
7
11
passado
nota (b)
oontrapuento
plangentes e os
raro
politicoê
demonstrertor
prcemittontor
regicientur
Ordem
CONCEICiO(Fr. Rayniiui-
do da)
1765
Ragina
Momigny
£xplicoa-me
Vicente Panla
444
Paço da Ribeira
d'antre8
XDGCXYI
Pcukorama
Panorama. Vol. li, 1869, N.«»
203...
Panorama
Panorama
rhytono
1678
MIRANDA (Dr. Francis-
co Sá de)
Vindicias
Arte poética
principaeêje
Arte poética
xpag.
1734
oeddentaeê
papado
nota (d)
contrapnncto
plangentes, os
rara
póliticue
demonstretur
pr»mittuntur
rejiciuntor
Orden
CONVERSÃO (Rr. Raymiin-
do da)
1675
Regina
Momigny
Ezplicou-nos
Panla Vicente
460
Paço da Ajuda
d'autres
MDCCXLI
Arehivo PiUortêoç
Archivo PiUortêdOj VoL II,
1859, pag. 203
Archivo Pittortêco
Archivo PUtortMOO
rhytmo
1638
Deve coUocar-se este nome
depois de António Mi-
Iheyroy pag. 273.
Vindicias
Arte practica
principaeê e do Canioehão^
Arte practica
xii pag.
1733
accidentaeê
VOLUMK n
hg.
Liih.
20
lrro8
Imadas
47
(f)
(f)i
»
21
(g)
(g)*
48
27
(f)
(f)«
»
30
(g)
(g)*
62
18
(ff)
(ff)*
69
12
(ff)
(ff)»
133
14
cortm
eorum
135
5
m-4.', 17 vol. foi. gr.
in-4.** gr.
137
5
1797
1697
143
16
PortagalícB
Portugalioi
192
10
Qaea
Que
200
22
1748
1753
233
11
FrancÍBoo Dinis
António Diniz
248
6
pag-
N." 2, 3, e 4
nag. numeradas de um só lado
N.~ V, VI, vu
252
28
255
6
Orgame
Orgam, é
265
17
76 pag.
78 pag. innumeradas
58.) Enganamo-nos, contando
278
18
59.)
N.® 23 como impresoo, quan-
-
do ficou manuscripto
2.<* Docnmeoto histórico
1
atô 1826 1 até 1826
596-1279
5694279
!.• DOCUMENTO HISTOBICO
m leira do« aeiis Bmimtuimh
«adio* per Fillppe II* a li de ^aaelre
de 16911
1
1
1
4
1
1
1
30
3
4
47
1
24
2
18
45
47
92
. I
Parte ecclesiastica
AoCapellIoMór
Ao Deão
e00600Q
4006000
2006000
2006000
206000
106000
1006000
1:2006000
366000
1606000
2:9266000'
1:7406000
Ao Bispo dofl Pontíficaes ....
A cadft um dos Prégadoí^ . 50$000
Ao Auditor da Capãla
Ao Promotor da Justiça
Ao Thesoureiro da Capella ....
A cada CapellSo (a) . . . 406000
A cada Mestre de Ceremonias 126000
A cada Porteiro .... 406000
Somma . .
n
Parte artística
Ao Mestre da Capella
A cada Cantor .... 506000
A cada Organista .... 506000
A cada Moço da Capella (b) 206000
Somma total
2:9266000
806000
1:2006000
1006000
3606000
1:7406000
....
4:6666000
(a) Nao sabemos se eram CapcllScs-Cantores, ou simples Capollaes.
(b) ProyaYclmcntc, Moço do coro.
Porto : IimiEimA poetuoueiá
/
2.^ D
Unadro de todo o Bena
Rendft, chamada « Dote antigo » ,
Kendimento das Terças dos Bispadod
Rendimento das Igrejas, casas e pro4
Rendimento dos juros distratados, coi
53
o
24
5
1
180
17
47
54
Parte ecciesiasti
As côngruas dos 24 Príncipaes a 4
Recebia mais cada um dos 5 Prii
annualmente 100$000 reis .
O Principal Decano, mais por anu
Côngruas e ordenados de 72 PrcU
76 Beneficiados, 5 Mestres dei
Acolytos
Vencimento de 17 CapellSes que!
das Capellas antigas . . . .'
Ordenados de 47 Officiaes secularei
Despezas varias
lÍAtinaclor de Urgãos ....
Escriptor, Miniator e Estampador
132
328
460
(a) N*esta verba nSo se conta o ord
diflsimo.
^ 1
\
J